Solda TIG do Zero: Componentes do equipamento e funções (fonte, tocha, gás e comando)

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Visão geral do conjunto TIG

Um conjunto TIG funciona como um sistema: a fonte cria e controla o arco, a tocha conduz corrente e gás até a poça, os consumíveis moldam o arco e a proteção, os cabos fecham o circuito elétrico, o comando (pedal ou controle na tocha) ajusta a corrente durante a soldagem, e o cilindro/regulagem entrega o gás na vazão correta. Entender o papel de cada peça ajuda a diagnosticar defeitos no cordão e a escolher componentes compatíveis.

Fonte de energia (máquina TIG): o que observar e o que cada recurso faz

CC (DC) e CA (AC)

  • CC (corrente contínua): usada na maioria dos aços e inox. Arco mais concentrado e estável, favorece penetração e controle.
  • CA (corrente alternada): usada principalmente em alumínio e magnésio. Permite ação de limpeza na superfície e ajuda a manter o arco em materiais com óxido resistente.

Partida do arco: HF e Lift

  • HF (alta frequência): inicia o arco sem encostar o tungstênio na peça. Reduz contaminação do eletrodo e melhora repetibilidade, especialmente em AC.
  • Lift (arranque por toque): inicia encostando e levantando o tungstênio. É simples e comum em máquinas menores, mas exige mais cuidado para não contaminar o tungstênio.

Controles típicos da fonte (o que eles mudam na prática)

  • Corrente (A): define energia no arco. Corrente alta aumenta penetração e largura do cordão, mas eleva risco de queima e superaquecimento da tocha/consumíveis.
  • Pré-gás (pre-flow): tempo de gás antes do arco. Ajuda a iniciar com proteção já formada, reduzindo oxidação no início.
  • Pós-gás (post-flow): tempo de gás após apagar o arco. Protege a poça final e resfria o tungstênio; pós-gás curto costuma causar ponta oxidada e final poroso.
  • Rampa de subida (upslope): sobe a corrente gradualmente. Útil para evitar “cratera” e excesso de calor no início em chapas finas.
  • Rampa de descida (downslope): desce a corrente gradualmente. Ajuda a preencher o final do cordão e reduzir trincas de cratera.
  • Modo 2T/4T: 2T (pressiona para soldar, solta para parar) é simples; 4T permite travar o arco sem manter o botão pressionado, útil em cordões longos com comando na tocha.
  • Pulso (se disponível): alterna entre corrente alta/baixa. Pode ajudar a controlar aporte térmico e ritmo do cordão, especialmente em chapas finas.
  • AC balance e AC frequency (se disponível): em alumínio, balance ajusta proporção “limpeza vs penetração”; frequência altera foco do arco e estabilidade.

Tocha TIG: corpo, refrigeração e punho

Corpo da tocha e série (compatibilidade)

As tochas são organizadas por séries (ex.: WP-9, WP-17, WP-18, WP-26). A série define o formato do corpo e, principalmente, quais consumíveis encaixam (pinça, porta-pinça, bocal, difusor/gas lens). Regra prática: consumíveis precisam ser da mesma série da tocha (ou de uma família compatível indicada pelo fabricante). Misturar séries costuma gerar vazamento de gás, mau contato elétrico ou montagem instável.

Refrigeração a ar vs. água

  • Tocha refrigerada a ar: mais simples e comum. Aguenta menos corrente contínua por longos períodos; esquenta mais rápido e exige pausas.
  • Tocha refrigerada a água: permite correntes mais altas e ciclos longos com conforto. Exige unidade de refrigeração (chiller), mangueiras e conexões adequadas.

Sinal de dimensionamento inadequado: se a tocha fica desconfortável de segurar rapidamente, o cabo fica muito quente ou o bocal escurece/deforma com frequência, a tocha pode estar subdimensionada para a corrente/ciclo de trabalho.

Punho e comando na tocha

Algumas tochas têm botão (2T/4T) ou potenciômetro/roldana para ajustar corrente durante o cordão. Isso é útil quando não se usa pedal, mas exige coordenação para não alterar a corrente sem querer ao reposicionar a mão.

Consumíveis: o “miolo” que define arco, proteção e visibilidade

Tungstênio (eletrodo)

O tungstênio conduz corrente e sustenta o arco. O que mais importa aqui é diâmetro e preparo da ponta (geometria). Diâmetro pequeno facilita arco mais fino em baixa corrente; diâmetro grande aguenta mais corrente sem deformar a ponta. Se o tungstênio “abre” a ponta, forma bola indesejada (em CC) ou contamina com facilidade, geralmente está fino demais para a corrente ou com pós-gás insuficiente.

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Pinça (collet) e porta-pinça (collet body)

  • Pinça: aperta o tungstênio. Deve ser do mesmo diâmetro do tungstênio (ex.: 1,6 mm com pinça 1,6 mm). Pinça errada prende mal e gera mau contato elétrico.
  • Porta-pinça: peça onde a pinça encaixa e por onde o gás passa. Define o tipo de difusão de gás (padrão ou com gas lens).

Difusor / Gas lens

O difusor padrão distribui o gás de forma mais simples. O gas lens (lente de gás) usa telas para laminar o fluxo, aumentando a estabilidade da proteção e permitindo maior stick-out (tungstênio mais para fora) com menos turbulência. É muito útil quando você precisa de visibilidade e acesso, ou quando está tendo oxidação nas bordas do cordão mesmo com vazão aparentemente correta.

Bocal (cerâmica)

O bocal direciona o gás. Bocais são dimensionados por “número” (varia por padrão), mas o conceito prático é: bocal maior = cobertura maior (melhor proteção em juntas abertas, inox sensível e alumínio), porém pode atrapalhar acesso em cantos. Sinal de bocal pequeno para a corrente/junta: bordas do cordão oxidando, coloração excessiva no inox, porosidade no final, necessidade de encostar demais a tocha para “segurar” a proteção.

Cabos, mangueiras e garra de trabalho (terra)

Cabos da tocha e conexões

A tocha precisa de conexão elétrica (corrente) e de gás (e, se for refrigerada a água, linhas de ida/volta). Conexões frouxas aumentam aquecimento e instabilidade do arco. Cabos muito longos ou enrolados podem aquecer e aumentar queda de tensão, piorando a resposta do arco em correntes mais altas.

Garra de trabalho: fechando o circuito

A garra de trabalho (muitas vezes chamada “terra”) deve ter contato metálico limpo com a peça ou com a mesa conectada à peça. Mau contato causa arco instável, dificuldade de abertura e aquecimento localizado na garra/cabo.

Checklist rápido de mau contato:

  • Arco “falhando” ou oscilando sem motivo aparente
  • Marcas de aquecimento na garra, cabo ou ponto de fixação
  • Necessidade de aumentar corrente para obter o mesmo efeito

Comando de corrente: pedal vs. controle na tocha

Pedal

O pedal permite variar a corrente continuamente durante o cordão. Na prática, você usa mais corrente para iniciar e formar poça, reduz para manter controle, e pode aliviar no final para evitar cratera. É especialmente útil em chapas finas e em juntas com variação de massa (por exemplo, ao aproximar de uma quina ou de um ponto já aquecido).

Controle na tocha

Quando não há pedal, o controle na tocha (botão 2T/4T ou potenciômetro) é a alternativa. Em 4T, você pode iniciar, soltar e manter o arco, e depois encerrar com rampa (se configurada). Isso reduz fadiga, mas a variação de corrente é menos “instintiva” do que no pedal.

Cilindro, regulador e fluxômetro: entrega de gás com vazão correta

Componentes e função

  • Cilindro: armazena o gás.
  • Regulador: reduz a alta pressão do cilindro para uma pressão de trabalho segura.
  • Fluxômetro: ajusta e indica a vazão (quanto gás por minuto chega à tocha).
  • Mangueira de gás: leva o gás até a máquina/tocha (dependendo do conjunto).

Sinais de vazão inadequada

  • Vazão baixa: porosidade, oxidação/coloração forte, tungstênio escurecendo rapidamente, “areia” no cordão.
  • Vazão alta demais: turbulência sugando ar para dentro do jato de gás, causando porosidade e oxidação mesmo “gastando muito gás”.

Além do ajuste no fluxômetro, vazão real depende do bocal, do gas lens, de correntes de ar no ambiente e do stick-out do tungstênio.

Compatibilidades básicas: como reconhecer o que encaixa com o quê

Regra 1: série da tocha manda nos consumíveis

Ao comprar consumíveis, confirme a série da tocha (ex.: 17/18/26 compartilham muitos consumíveis; 9/20 é outra família comum). Se você não souber a série, procure no corpo da tocha ou no manual do conjunto. Consumível “quase encaixando” é um alerta: pode até montar, mas tende a vazar gás e aquecer.

Regra 2: diâmetro do tungstênio = diâmetro da pinça

Se o tungstênio entra frouxo ou não entra, a pinça está errada. Isso afeta contato elétrico e estabilidade do arco.

Regra 3: refrigeração e conexões compatíveis

Tocha a água exige conexões e linhas corretas (e retorno de água). Adaptar “no improviso” costuma gerar vazamento e superaquecimento. Se a sua fonte não tem saída apropriada, use tocha a ar compatível com a corrente que você pretende.

Passo a passo prático: conferência e montagem do conjunto na tocha

1) Identifique a série da tocha e se é a ar ou água

  • Leia a marcação no corpo (quando houver) ou compare com o modelo informado pelo vendedor/manual.
  • Verifique se há mangueiras de água (ida/volta). Se houver, é tocha refrigerada a água.

2) Escolha o tungstênio e a pinça do mesmo diâmetro

  • Separe o tungstênio do diâmetro adequado ao seu trabalho.
  • Selecione a pinça exatamente do mesmo diâmetro.

3) Defina difusor padrão ou gas lens

  • Use gas lens quando precisar de proteção mais estável, melhor visibilidade e maior stick-out.
  • Use difusor padrão quando o acesso for apertado ou para configuração simples inicial.

4) Escolha o bocal pensando em cobertura e acesso

  • Se a junta é aberta, o material é sensível à oxidação ou você está vendo coloração/porosidade, teste bocal maior e/ou gas lens.
  • Se não cabe no canto, reduza o bocal, mas compense com melhor posicionamento e controle de stick-out.

5) Monte na ordem correta

Uma sequência típica (pode variar por modelo):

porta-pinça (ou gas lens) → pinça → tungstênio → bocal → tampa traseira
  • Insira o tungstênio, ajuste o stick-out e aperte a tampa traseira até prender firme (sem “esmagar”).
  • Confirme que o bocal está bem rosqueado/assentado e sem trincas.

6) Verifique cabos e garra de trabalho

  • Conexões firmes na fonte e na tocha.
  • Garra de trabalho em metal limpo, com pressão suficiente.

7) Ajuste gás e tempos de pré/pós-gás na fonte

  • Abra o cilindro lentamente.
  • Ajuste a vazão no fluxômetro conforme bocal e condição (correntes de ar, gas lens, stick-out).
  • Configure pré/pós-gás para proteger início e final do cordão e a ponta do tungstênio.

Sinais de dimensionamento inadequado (diagnóstico rápido)

SintomaCausa provávelAção prática
Tocha esquenta rápido e fica desconfortávelTocha subdimensionada, ciclo alto, conexões aquecendoReduzir corrente/ciclo, checar aperto e cabos, considerar tocha maior ou refrigerada a água
Bocal escurece, trinca ou deforma com frequênciaCalor excessivo, bocal pequeno para a aplicação, stick-out inadequadoUsar bocal maior, ajustar stick-out, considerar gas lens
Porosidade mesmo com gás “alto”Turbulência por vazão excessiva, vazamento, bocal inadequadoReduzir vazão, checar O-rings/roscas, testar gas lens e bocal adequado
Arco instável e difícil de abrirMau contato na garra, pinça frouxa, tungstênio contaminadoLimpar ponto da garra, conferir pinça/porta-pinça, revisar montagem e condição do tungstênio
Tungstênio escurece/oxida logo após pararPós-gás curto ou vazão baixaAumentar pós-gás e confirmar vazão/vedações

Quadro: o que cada peça afeta no cordão

Peça/ajusteAfeta principalmenteComo aparece no cordão
Fonte (corrente)Penetração e larguraMais A = cordão mais largo/penetrante; excesso = queima e distorção
Fonte (HF/Lift)Estabilidade de início e contaminaçãoHF tende a iniciar limpo; Lift pode marcar/contaminar se mal executado
Pré/pós-gásProteção e acabamentoPré curto = início oxidado; pós curto = final poroso e tungstênio escuro
Tocha (tamanho/refrigeração)Conforto e capacidade de correnteTocha pequena em alta corrente = superaquecimento e instabilidade por conexões quentes
Tungstênio (diâmetro e ponta)Estabilidade do arco e focoPonta correta = arco firme; diâmetro inadequado = ponta deformando e arco “espalhado”
Pinça/porta-pinçaContato elétrico e fluxo de gásMau contato = arco falhando; vazamento = oxidação/porosidade
Gas lens vs difusorProteção e visibilidadeGas lens melhora cobertura e reduz turbulência; facilita stick-out maior
Bocal (tamanho)Proteção e acessoBocal pequeno = cobertura insuficiente; bocal grande = melhor proteção, mas pode limitar acesso
Garra de trabalho e cabosEstabilidade do arcoMau contato = arco instável, aquecimento e necessidade de mais corrente
Pedal/controle na tochaControle térmico em tempo realPermite reduzir calor ao longo do cordão e suavizar final, evitando cratera
Regulador/fluxômetro (vazão)Proteção contra contaminaçãoBaixa vazão = porosidade/oxidação; alta vazão = turbulência e porosidade

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a soldagem TIG, o tungstênio escurece/oxida logo após apagar o arco e o final do cordão tende a ficar poroso. Qual ajuste na fonte é o mais indicado para corrigir esse problema?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Pós-gás curto deixa a poça final sem proteção e não resfria adequadamente o tungstênio, favorecendo oxidação e porosidade no término. Aumentar o post-flow mantém a proteção após apagar o arco.

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Solda TIG do Zero: Montagem do conjunto TIG com segurança e teste de estanqueidade

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