Solda TIG do Zero: Posição da tocha, ângulos e distância — fundamentos para controlar a poça

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que posição, ângulos e distância mandam na poça

No TIG, a poça é pequena e “responde” imediatamente a qualquer variação de mão. Três variáveis dominam o controle: estabilidade da tocha (postura/apoio), ângulos (trabalho e avanço) e distância do arco (comprimento do arco). Pequenos desvios mudam concentração de calor, proteção do gás e a forma como a poça “molha” as bordas.

Postura, pegada e apoio: como estabilizar a tocha

Postura do corpo e posicionamento

  • Tronco alinhado com a direção do cordão. Evite torcer o corpo; mova-se para ficar “de frente” para o percurso.
  • Antebraço apoiado sempre que possível (bancada, peça, suporte). Menos tensão = menos tremor.
  • Altura de trabalho: ajuste a peça para que o punho fique neutro (sem dobrar demais para cima/baixo). Punho neutro dá repetibilidade de distância.

Pegada da tocha (controle fino)

Use uma pegada que permita microajustes sem apertar. Duas opções comuns:

  • Pegada “caneta”: polegar e indicador controlam a rotação e a inclinação; médio apoia. Boa para chapas finas e cordões curtos.
  • Pegada “martelo leve”: mão mais fechada, tocha apoiada no indicador. Boa para posições menos confortáveis, mas tende a reduzir a sensibilidade se você apertar demais.

Regra prática: se a mão está cansando rápido, você está segurando forte demais ou sem apoio.

Apoio de mão: o “tripé” do TIG

Para manter distância constante, crie um tripé: mão + punho + ponto de apoio.

  • Apoio do lado da mão (borda do dedo mínimo/hipotenar) deslizando na mesa/peça.
  • Apoio com dedo guia: dedo mínimo ou anelar encostado na peça como “patim”.
  • Apoio com calço: use um bloco metálico/apoio ao lado da junta para deslizar a mão sem encostar na área quente.

Em cordões curtos, prefira movimentos pequenos e controlados: avance com o antebraço e “acompanhe” com os dedos, em vez de fazer tudo só com o punho.

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Ângulos fundamentais: trabalho e avanço

Ângulo de trabalho (inclinação lateral)

É o ângulo visto de frente para a junta (esquerda/direita). Ele define para onde o calor está sendo direcionado.

  • Em junta de topo: busque a tocha “centrada” para aquecer igualmente os dois lados.
  • Em junta em T/canto: direcione levemente mais para a peça mais espessa ou que está “puxando” calor, mantendo a poça simétrica.

O que acontece se errar: se você inclina demais para um lado, a poça “escapa” para esse lado, a borda oposta fica sem molhamento e o cordão fica assimétrico.

Ângulo de avanço (push/forehand)

É o ângulo na direção do movimento. No TIG manual, é comum trabalhar com leve inclinação para frente (empurrando), para manter boa visibilidade da poça e cobertura de gás.

  • Faixa prática: cerca de 10° a 20° de inclinação no sentido do avanço.
  • Muito “deitado” (ângulo grande): alonga a poça, pode alargar o cordão e piorar a proteção na região traseira do arco.
  • Muito “em pé” (quase 0°): arco mais concentrado, pode estreitar demais e aumentar risco de tocar o tungstênio se a mão tremer.

Dica: ajuste o ângulo de avanço para enxergar a borda da poça e as linhas de fusão, sem “esconder” a poça atrás do bocal.

Distância do arco: o ajuste mais sensível

Distância do arco é, na prática, a distância entre a ponta do tungstênio e a peça/poça. Ela controla a concentração de calor e a estabilidade do arco.

  • Arco curto: mais concentrado, melhor controle da poça e penetração mais focada; exige mão estável.
  • Arco longo: espalha calor, tende a alargar o cordão, aumenta risco de oxidação (proteção menos eficiente) e deixa o arco mais “nervoso”.

Regra prática: mantenha a distância o mais constante possível ao longo do cordão. Se você “sobe e desce” a tocha, o cordão alterna largura e aparência, mesmo com a mesma corrente.

Como pequenos desvios mudam o resultado

DesvioO que você vêO que está acontecendoCorreção
Arco ficou mais longoCordão mais largo, bordas menos definidas, cor mais “quente” no inoxMenor densidade de energia + proteção menos eficienteAproxime a tocha, reforce apoio e reduza tremor
Arco ficou curto demais / encostouRisco de tocar, tungstênio contamina, poça “sujando”Distância insuficiente e/ou avanço instávelReestabeleça distância, avance mais suave, reposicione apoio
Ângulo de trabalho puxou para um ladoCordão “puxado”, um lado com boa fusão e outro com borda friaCalor concentrado em um ladoCentralize a tocha e observe molhamento nas duas bordas
Ângulo de avanço excessivoPoça alongada, cordão muito plano e largoCalor distribuído e poça “correndo”Levante um pouco a tocha (reduza o ângulo) e estabilize a distância

Leitura da poça: “molhamento” nas bordas é o seu velocímetro

O indicador mais confiável de velocidade e calor adequados é o molhamento: a forma como a poça “encosta” e se funde nas bordas da junta, formando linhas de fusão contínuas.

O que procurar na poça

  • Bordas brilhantes e contínuas: sinal de fusão estável.
  • Molhamento simétrico (em topo): as duas bordas “abrem” igual.
  • Poça com tamanho constante: indica distância e velocidade consistentes.

O que a poça está dizendo sobre sua velocidade

  • Velocidade alta demais: poça pequena, bordas não “pegam”, cordão estreito e com aparência “esticada”.
  • Velocidade baixa demais: poça cresce, fica muito fluida, cordão alarga e pode “afundar” em chapa fina.

Treine o olho para alternar foco: 70% na poça e bordas e 30% na ponta do tungstênio (para garantir distância e evitar toque).

Passo a passo prático: cordões curtos com movimento estável

1) Preparar o corpo e o apoio

  • Posicione a peça para que você avance em linha reta sem torcer o tronco.
  • Escolha um ponto de apoio (borda da mão, dedo guia ou calço).
  • Faça 2 a 3 “passadas a seco” (sem arco) para confirmar que o apoio não trava.

2) Ajustar ângulos antes de abrir arco

  • Defina o ângulo de trabalho para manter a poça centrada na junta.
  • Defina o ângulo de avanço leve (empurrando) para enxergar a poça.
  • Confirme que o bocal não vai encostar ao longo do percurso.

3) Executar cordão curto (treino de consistência)

  • Faça cordões de 20 a 40 mm e pare.
  • Durante o avanço, mantenha: distância constante + ângulo constante + olho no molhamento.
  • Se a poça crescer, aumente levemente a velocidade; se perder molhamento, reduza um pouco a velocidade ou re-centralize o ângulo de trabalho.

4) Reinício controlado (sem “degrau”)

  • Ao recomeçar, posicione a tocha para “pegar” a poça anterior e retomar com o mesmo tamanho de poça.
  • Evite começar com arco longo: é onde mais se perde proteção e se alarga o cordão.

Exercícios sem arco: simulação de percurso para treinar distância e trajetória

Esses exercícios treinam o que mais causa defeito em iniciante: variação de distância e ângulo. Faça com a tocha desligada, usando uma peça fria e uma linha marcada.

Exercício A: “patim” de dedo mínimo

  • Marque uma linha reta de 100 mm na peça (caneta ou riscador).
  • Encoste o dedo mínimo como apoio e deslize a mão mantendo a ponta do tungstênio a uma distância constante da superfície.
  • Faça 10 passadas lentas, sem levantar o apoio.

Exercício B: controle de ângulo de avanço

  • Escolha um ângulo (ex.: leve inclinação para frente) e mantenha-o do início ao fim.
  • Observe se o bocal “sobe” no meio do percurso (sinal de punho dobrando).
  • Repita 10 vezes, buscando repetibilidade.

Exercício C: cordões curtos simulados com “paradas”

  • Simule um cordão de 30 mm, pare, reposicione e simule mais 30 mm.
  • Objetivo: voltar sempre com a mesma distância e ângulo, sem “pular” a mão.
  • Faça 6 reinícios no total.

Exercício D: trajetória em curva suave

  • Desenhe uma curva leve (tipo “S” aberto).
  • Simule o percurso mantendo a ponta do tungstênio na mesma altura, sem inclinar lateralmente.
  • Isso treina controle fino para contornar pontos e manter proteção.

Referências visuais: o que procurar no cordão e o que cada defeito sugere

Checklist do cordão “alvo”

  • Largura uniforme do início ao fim.
  • Escamas regulares (ritmo visual constante), sem trechos “apertados” e “abertos”.
  • Linhas de fusão contínuas nas bordas (molhamento consistente).
  • No inox: coloração discreta e controlada, sem excesso de tons escuros indicando aquecimento/proteção inadequados.

Defeitos comuns e o que eles indicam

O que você vê no cordãoO que isso sugereAjuste de técnica
Largura variando (trechos largos e estreitos)Distância do arco oscilando e/ou velocidade irregularReforce apoio, reduza movimento de punho, avance com antebraço
Escamas “amontoadas” (muito próximas)Velocidade baixa demais ou paradas involuntáriasAumente levemente a velocidade e mantenha poça menor
Escamas “esticadas” (muito longas)Velocidade alta demais ou poça pequena sem tempo de molharReduza a velocidade até ver molhamento contínuo nas bordas
Uma borda funde e a outra fica “fria”Ângulo de trabalho puxado para um ladoCentralize a tocha e observe as duas linhas de fusão
Cordão muito largo e muito planoArco longo e/ou ângulo de avanço excessivoEncurte o arco e reduza a inclinação para frente
Inox com coloração excessiva (escurecido/“queimado”)Proteção insuficiente na poça (arco longo, tocha muito inclinada, afastamento no final)Mantenha arco curto, ângulo moderado e trajetória estável sob o gás
Marcas de toque/contaminação (ponto áspero, falha local)Tungstênio encostou por falta de distância/estabilidadeRefaça apoio, diminua tremor, evite aproximar no reinício

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao notar que o cordão está ficando mais largo, com bordas menos definidas e sinais de proteção piorando, qual ajuste de técnica tende a corrigir a causa mais provável desse problema?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Esses sinais indicam arco mais longo, que espalha calor, alarga o cordão e reduz a eficiência da proteção. Encurtar o arco e estabilizar a mão/apoio ajuda a manter distância constante e recuperar definição e proteção.

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Solda TIG do Zero: Abertura do arco e primeiros cordões em chapa fina (sem e com vareta)

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