Por que posição, ângulos e distância mandam na poça
No TIG, a poça é pequena e “responde” imediatamente a qualquer variação de mão. Três variáveis dominam o controle: estabilidade da tocha (postura/apoio), ângulos (trabalho e avanço) e distância do arco (comprimento do arco). Pequenos desvios mudam concentração de calor, proteção do gás e a forma como a poça “molha” as bordas.
Postura, pegada e apoio: como estabilizar a tocha
Postura do corpo e posicionamento
- Tronco alinhado com a direção do cordão. Evite torcer o corpo; mova-se para ficar “de frente” para o percurso.
- Antebraço apoiado sempre que possível (bancada, peça, suporte). Menos tensão = menos tremor.
- Altura de trabalho: ajuste a peça para que o punho fique neutro (sem dobrar demais para cima/baixo). Punho neutro dá repetibilidade de distância.
Pegada da tocha (controle fino)
Use uma pegada que permita microajustes sem apertar. Duas opções comuns:
- Pegada “caneta”: polegar e indicador controlam a rotação e a inclinação; médio apoia. Boa para chapas finas e cordões curtos.
- Pegada “martelo leve”: mão mais fechada, tocha apoiada no indicador. Boa para posições menos confortáveis, mas tende a reduzir a sensibilidade se você apertar demais.
Regra prática: se a mão está cansando rápido, você está segurando forte demais ou sem apoio.
Apoio de mão: o “tripé” do TIG
Para manter distância constante, crie um tripé: mão + punho + ponto de apoio.
- Apoio do lado da mão (borda do dedo mínimo/hipotenar) deslizando na mesa/peça.
- Apoio com dedo guia: dedo mínimo ou anelar encostado na peça como “patim”.
- Apoio com calço: use um bloco metálico/apoio ao lado da junta para deslizar a mão sem encostar na área quente.
Em cordões curtos, prefira movimentos pequenos e controlados: avance com o antebraço e “acompanhe” com os dedos, em vez de fazer tudo só com o punho.
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Ângulos fundamentais: trabalho e avanço
Ângulo de trabalho (inclinação lateral)
É o ângulo visto de frente para a junta (esquerda/direita). Ele define para onde o calor está sendo direcionado.
- Em junta de topo: busque a tocha “centrada” para aquecer igualmente os dois lados.
- Em junta em T/canto: direcione levemente mais para a peça mais espessa ou que está “puxando” calor, mantendo a poça simétrica.
O que acontece se errar: se você inclina demais para um lado, a poça “escapa” para esse lado, a borda oposta fica sem molhamento e o cordão fica assimétrico.
Ângulo de avanço (push/forehand)
É o ângulo na direção do movimento. No TIG manual, é comum trabalhar com leve inclinação para frente (empurrando), para manter boa visibilidade da poça e cobertura de gás.
- Faixa prática: cerca de 10° a 20° de inclinação no sentido do avanço.
- Muito “deitado” (ângulo grande): alonga a poça, pode alargar o cordão e piorar a proteção na região traseira do arco.
- Muito “em pé” (quase 0°): arco mais concentrado, pode estreitar demais e aumentar risco de tocar o tungstênio se a mão tremer.
Dica: ajuste o ângulo de avanço para enxergar a borda da poça e as linhas de fusão, sem “esconder” a poça atrás do bocal.
Distância do arco: o ajuste mais sensível
Distância do arco é, na prática, a distância entre a ponta do tungstênio e a peça/poça. Ela controla a concentração de calor e a estabilidade do arco.
- Arco curto: mais concentrado, melhor controle da poça e penetração mais focada; exige mão estável.
- Arco longo: espalha calor, tende a alargar o cordão, aumenta risco de oxidação (proteção menos eficiente) e deixa o arco mais “nervoso”.
Regra prática: mantenha a distância o mais constante possível ao longo do cordão. Se você “sobe e desce” a tocha, o cordão alterna largura e aparência, mesmo com a mesma corrente.
Como pequenos desvios mudam o resultado
| Desvio | O que você vê | O que está acontecendo | Correção |
|---|---|---|---|
| Arco ficou mais longo | Cordão mais largo, bordas menos definidas, cor mais “quente” no inox | Menor densidade de energia + proteção menos eficiente | Aproxime a tocha, reforce apoio e reduza tremor |
| Arco ficou curto demais / encostou | Risco de tocar, tungstênio contamina, poça “sujando” | Distância insuficiente e/ou avanço instável | Reestabeleça distância, avance mais suave, reposicione apoio |
| Ângulo de trabalho puxou para um lado | Cordão “puxado”, um lado com boa fusão e outro com borda fria | Calor concentrado em um lado | Centralize a tocha e observe molhamento nas duas bordas |
| Ângulo de avanço excessivo | Poça alongada, cordão muito plano e largo | Calor distribuído e poça “correndo” | Levante um pouco a tocha (reduza o ângulo) e estabilize a distância |
Leitura da poça: “molhamento” nas bordas é o seu velocímetro
O indicador mais confiável de velocidade e calor adequados é o molhamento: a forma como a poça “encosta” e se funde nas bordas da junta, formando linhas de fusão contínuas.
O que procurar na poça
- Bordas brilhantes e contínuas: sinal de fusão estável.
- Molhamento simétrico (em topo): as duas bordas “abrem” igual.
- Poça com tamanho constante: indica distância e velocidade consistentes.
O que a poça está dizendo sobre sua velocidade
- Velocidade alta demais: poça pequena, bordas não “pegam”, cordão estreito e com aparência “esticada”.
- Velocidade baixa demais: poça cresce, fica muito fluida, cordão alarga e pode “afundar” em chapa fina.
Treine o olho para alternar foco: 70% na poça e bordas e 30% na ponta do tungstênio (para garantir distância e evitar toque).
Passo a passo prático: cordões curtos com movimento estável
1) Preparar o corpo e o apoio
- Posicione a peça para que você avance em linha reta sem torcer o tronco.
- Escolha um ponto de apoio (borda da mão, dedo guia ou calço).
- Faça 2 a 3 “passadas a seco” (sem arco) para confirmar que o apoio não trava.
2) Ajustar ângulos antes de abrir arco
- Defina o ângulo de trabalho para manter a poça centrada na junta.
- Defina o ângulo de avanço leve (empurrando) para enxergar a poça.
- Confirme que o bocal não vai encostar ao longo do percurso.
3) Executar cordão curto (treino de consistência)
- Faça cordões de 20 a 40 mm e pare.
- Durante o avanço, mantenha: distância constante + ângulo constante + olho no molhamento.
- Se a poça crescer, aumente levemente a velocidade; se perder molhamento, reduza um pouco a velocidade ou re-centralize o ângulo de trabalho.
4) Reinício controlado (sem “degrau”)
- Ao recomeçar, posicione a tocha para “pegar” a poça anterior e retomar com o mesmo tamanho de poça.
- Evite começar com arco longo: é onde mais se perde proteção e se alarga o cordão.
Exercícios sem arco: simulação de percurso para treinar distância e trajetória
Esses exercícios treinam o que mais causa defeito em iniciante: variação de distância e ângulo. Faça com a tocha desligada, usando uma peça fria e uma linha marcada.
Exercício A: “patim” de dedo mínimo
- Marque uma linha reta de 100 mm na peça (caneta ou riscador).
- Encoste o dedo mínimo como apoio e deslize a mão mantendo a ponta do tungstênio a uma distância constante da superfície.
- Faça 10 passadas lentas, sem levantar o apoio.
Exercício B: controle de ângulo de avanço
- Escolha um ângulo (ex.: leve inclinação para frente) e mantenha-o do início ao fim.
- Observe se o bocal “sobe” no meio do percurso (sinal de punho dobrando).
- Repita 10 vezes, buscando repetibilidade.
Exercício C: cordões curtos simulados com “paradas”
- Simule um cordão de 30 mm, pare, reposicione e simule mais 30 mm.
- Objetivo: voltar sempre com a mesma distância e ângulo, sem “pular” a mão.
- Faça 6 reinícios no total.
Exercício D: trajetória em curva suave
- Desenhe uma curva leve (tipo “S” aberto).
- Simule o percurso mantendo a ponta do tungstênio na mesma altura, sem inclinar lateralmente.
- Isso treina controle fino para contornar pontos e manter proteção.
Referências visuais: o que procurar no cordão e o que cada defeito sugere
Checklist do cordão “alvo”
- Largura uniforme do início ao fim.
- Escamas regulares (ritmo visual constante), sem trechos “apertados” e “abertos”.
- Linhas de fusão contínuas nas bordas (molhamento consistente).
- No inox: coloração discreta e controlada, sem excesso de tons escuros indicando aquecimento/proteção inadequados.
Defeitos comuns e o que eles indicam
| O que você vê no cordão | O que isso sugere | Ajuste de técnica |
|---|---|---|
| Largura variando (trechos largos e estreitos) | Distância do arco oscilando e/ou velocidade irregular | Reforce apoio, reduza movimento de punho, avance com antebraço |
| Escamas “amontoadas” (muito próximas) | Velocidade baixa demais ou paradas involuntárias | Aumente levemente a velocidade e mantenha poça menor |
| Escamas “esticadas” (muito longas) | Velocidade alta demais ou poça pequena sem tempo de molhar | Reduza a velocidade até ver molhamento contínuo nas bordas |
| Uma borda funde e a outra fica “fria” | Ângulo de trabalho puxado para um lado | Centralize a tocha e observe as duas linhas de fusão |
| Cordão muito largo e muito plano | Arco longo e/ou ângulo de avanço excessivo | Encurte o arco e reduza a inclinação para frente |
| Inox com coloração excessiva (escurecido/“queimado”) | Proteção insuficiente na poça (arco longo, tocha muito inclinada, afastamento no final) | Mantenha arco curto, ângulo moderado e trajetória estável sob o gás |
| Marcas de toque/contaminação (ponto áspero, falha local) | Tungstênio encostou por falta de distância/estabilidade | Refaça apoio, diminua tremor, evite aproximar no reinício |