Polaridade e o que muda na prática
CCEN (DCEN) — eletrodo negativo: padrão para aços e inox
Em TIG com corrente contínua, a configuração mais comum para aços carbono e inox é CCEN (Corrente Contínua Eletrodo Negativo), também chamada de DCEN. Na prática, isso significa: o tungstênio fica no polo negativo e a peça no positivo.
- O que o operador percebe: arco mais estável e concentrado, poça mais “direta” e boa penetração com menor aquecimento do tungstênio.
- Por que importa: a maior parte do calor se concentra na peça, ajudando a fundir com eficiência sem “cozinhar” a ponta do eletrodo.
- Uso típico: aços carbono, inox e a maioria das ligas ferrosas em TIG.
Noções de CA (AC) — quando entra o alumínio
Para alumínio, é comum usar corrente alternada (CA/AC). O ponto principal não é decorar teoria, e sim entender o que muda para você durante o cordão:
- Arco e poça ficam mais “largos” do que em CCEN, exigindo mais atenção para não espalhar demais a poça em chapas finas.
- O tungstênio tende a aquecer mais, então a ponta pode arredondar com mais facilidade; isso altera o foco do arco e a sensação de controle.
- O alumínio “pede” limpeza de óxido durante a soldagem; na prática, você observa uma zona mais “brilhante” ao redor da poça quando o ajuste está adequado.
Se sua fonte permite ajustes de AC (como balanço e frequência), trate isso como um refinamento: primeiro garanta abertura de arco estável, poça controlável e corrente adequada. Depois, ajuste para melhorar limpeza e controle do arco.
Como escolher a corrente inicial (ponto de partida)
A corrente em TIG é o “acelerador” do tamanho da poça e da penetração. Um bom ponto de partida evita dois problemas comuns: poça que não abre (corrente baixa) e perfuração/afundamento (corrente alta), especialmente em chapas finas.
Regras práticas rápidas
- Espessura manda: quanto mais espessa a chapa, maior a corrente para abrir e sustentar a poça.
- Posição muda a necessidade: fora da posição plana (vertical, sobrecabeça), geralmente você trabalha com menos corrente e mais controle (poça menor) para não escorrer.
- Junta e folga influenciam: folga maior ou borda muito fina pede menos corrente e mais cuidado para não “sumir” a borda.
Tabela prática — ponto de partida para chapas finas (CCEN em aço/inox)
Use como referência inicial e ajuste na prática (material, dissipação e técnica variam). Para chapas finas, é comum configurar um máximo de corrente e controlar o calor com pedal/controle na tocha.
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| Espessura | Posição plana (A) | Vertical / sobrecabeça (A) | Observação prática |
|---|---|---|---|
| 0,6 mm | 20–35 A | 15–25 A | Poça abre rápido; priorize pulsos curtos no pedal e avanço constante. |
| 0,8 mm | 25–45 A | 20–35 A | Se a borda “derrete”, reduza 5–10 A e encurte o tempo na poça. |
| 1,0 mm | 35–60 A | 25–45 A | Bom para treinar cordão sem adição; controle para não afundar no centro. |
| 1,2 mm | 45–75 A | 35–60 A | Se a poça demora a formar, aumente 5–10 A ou reduza velocidade de avanço. |
| 1,5 mm | 60–95 A | 45–75 A | Mais tolerante; dá para estabilizar poça antes de iniciar o avanço. |
Dica de ajuste inicial: se você usa pedal, configure o máximo dentro da faixa e trabalhe normalmente usando 60–80% desse máximo durante o cordão. Isso dá “reserva” para abrir a poça no início e compensar dissipação em trechos mais frios.
Passo a passo: definindo a corrente inicial em 3 minutos
- Escolha a faixa pela espessura na tabela e selecione um valor no meio.
- Se for fora de posição, reduza para a faixa indicada (poça menor = mais controle).
- Faça um teste de 2–3 cm em retalho do mesmo material: observe tempo para abrir poça e tendência a perfurar.
- Ajuste em passos pequenos (5 A por vez em chapas finas) até a poça abrir com facilidade sem “afundar”.
Modos de abertura do arco e impacto na contaminação
A forma de iniciar o arco influencia diretamente: contaminação do tungstênio, marcas na peça e consistência do início do cordão. Abaixo, o que você precisa saber para operar com segurança e repetibilidade.
1) HF (Alta Frequência) — abertura sem tocar
No modo HF, o arco inicia sem encostar o tungstênio na peça. Para o operador, é o método mais “limpo” de início.
- Vantagens: reduz muito a chance de contaminar a ponta do tungstênio; evita risco de riscar/marcar a peça no início.
- O que observar: mantenha a distância de abertura consistente (curta) para o arco “pegar” de forma previsível.
- Quando é especialmente útil: chapas finas e acabamento aparente, onde qualquer marca inicial aparece.
2) Lift-arc — encosta e levanta (com controle eletrônico)
No Lift-arc, você encosta levemente o tungstênio e levanta para iniciar o arco. A fonte controla a corrente nesse momento para reduzir o “grude” e a contaminação.
- Vantagens: boa alternativa quando HF não está disponível; menor risco de contaminar do que “raspar” manualmente.
- Riscos: ainda pode deixar uma micro marca na peça se você pressionar demais; pode contaminar se o tungstênio “arrastar” ou se houver sujeira na superfície.
- Boa prática: toque leve, levante reto e inicie com a tocha já na posição correta do cordão.
3) Toque controlado / “scratch start” (raspagem) — último recurso
Alguns setups mais simples usam abertura por toque/raspagem. Funciona, mas é o método com maior chance de problemas no início.
- Vantagens: simplicidade.
- Desvantagens: maior chance de contaminar o tungstênio (encostar e “puxar” material), e maior chance de marcar a peça com risco/arranhão.
- Quando usar: apenas quando não houver HF ou Lift-arc, e preferencialmente em peças onde marca inicial não é crítica.
Passo a passo: abertura do arco com mínimo de contaminação
- Posicione a tocha no ponto de início com ângulo e distância consistentes.
- Escolha o modo (HF > Lift-arc > toque/raspagem, em termos de limpeza).
- Inicie o arco e espere 1–2 segundos para formar uma poça pequena e controlada (em chapa fina, menos tempo).
- Se encostou sem querer e suspeita de contaminação: pare, reprepare a ponta do tungstênio e reinicie. Insistir costuma piorar o cordão.
Ajuste fino de corrente: controlando poça, penetração e perfuração
Depois do ponto de partida, o ajuste fino é o que transforma “derreter metal” em cordão controlado. Pense em três sinais: tamanho da poça, profundidade (penetração) e estabilidade do arco.
Se a poça não abre ou fica “dura”
- Sintoma: você fica parado e a superfície só “brilha”, mas não forma poça definida.
- Ação: aumente a corrente em 5–10 A (chapas finas) ou reduza um pouco a velocidade de avanço.
- Checagem: a poça deve aparecer com bordas claras e controláveis, sem precisar “cozinhar” o ponto.
Se a poça cresce demais e ameaça perfurar
- Sintoma: a poça fica grande, a borda afina e o metal parece “ceder” de repente.
- Ação imediata: reduza a corrente (ou alivie o pedal) e avance um pouco para tirar calor do ponto.
- Ajuste de setup: diminua o máximo em 5–10 A e repita o teste. Em chapas muito finas, pequenos ajustes fazem grande diferença.
Se há pouca penetração (cordão “alto” e sem fusão)
- Sintoma: cordão parece depositado por cima, com pouca ligação nas bordas.
- Ação: aumente levemente a corrente e/ou reduza a velocidade para dar tempo de fusão nas laterais.
- Meta: poça que “molha” as bordas da junta antes de você seguir adiante.
Usando pedal ou controle na tocha para modular calor
O controle de corrente durante o cordão é uma das maiores vantagens do TIG. Em vez de escolher uma corrente fixa “perfeita”, você define um máximo seguro e modula conforme a peça aquece.
Estratégia prática com pedal (ou controle na tocha)
- Configure um máximo dentro da faixa recomendada para a espessura.
- Para iniciar: use um pouco mais de corrente por um instante para abrir a poça rapidamente (sem exagerar).
- Durante o cordão: alivie levemente conforme a peça acumula calor. Em chapas finas, isso evita perfuração no meio do percurso.
- Ao aproximar de bordas/cantos: reduza antes de chegar, porque a borda aquece e perde sustentação mais rápido.
- Se a poça “foge”: diminua corrente primeiro; se ainda assim estiver grande, aumente a velocidade de avanço.
Exemplo de ajuste fino em chapa fina (1,0 mm, posição plana)
Setup inicial: máximo 55 A no pedal (CCEN) Início: abre poça com ~45–50 A por 0,5–1 s Meio do cordão: mantém ~35–45 A conforme a peça aquece Aproximando do fim/borda: cai para ~30–35 A para evitar afundarUse esse raciocínio como “mapa”: mais corrente para abrir poça, menos corrente para manter controle quando o calor acumulado começa a dominar.