Para que servem bocal, pinça e gas lens (e como eles afetam o arco e a proteção)
Na tocha TIG, os consumíveis não são “apenas peças de reposição”: eles determinam como o gás sai, como o tungstênio fica preso e quão estável fica o arco. Três itens mandam diretamente na qualidade do cordão, principalmente em trabalhos finos: bocal cerâmico, pinça (collet) e gas lens (difusor com tela).
Bocal cerâmico: direciona e “modela” a nuvem de gás
O bocal é a peça que define o diâmetro e o formato da saída do gás. Ele influencia:
- Cobertura gasosa: bocais maiores tendem a cobrir melhor a poça e a região quente ao redor.
- Resistência a correntes de ar: bocais maiores e/ou com gas lens sofrem menos com turbulência.
- Acesso: bocais menores entram em cantos e juntas com interferência, mas protegem uma área menor.
Na prática, o bocal é uma troca entre acesso e cobertura.
Pinça (collet): contato elétrico e fixação do tungstênio
A pinça é quem faz o tungstênio ficar centrado e, principalmente, garante bom contato elétrico. Se a pinça estiver errada, suja, deformada ou mal montada, aparecem sintomas clássicos:
- Arco instável (falha, “pulsando” sem ajuste, dificuldade de manter comprimento de arco).
- Aquecimento anormal do tungstênio e do corpo frontal da tocha.
- Marcas de arco interno (micro-arcos) e desgaste acelerado do consumível.
Gas lens: melhora o fluxo e permite maior extensão do tungstênio
O gas lens é um difusor com telas (malhas) que retifica o fluxo do gás, reduzindo turbulência. Isso melhora:
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- Proteção em trabalhos delicados (inox fino, raiz, cantos, peças pequenas).
- Estabilidade do arco ao reduzir variações de atmosfera na região do arco.
- Uso de maior “stick-out” (tungstênio mais para fora do bocal) sem perder tanta cobertura.
Quando você precisa enxergar melhor a junta, alcançar um canto ou soldar com tungstênio mais estendido, o gas lens costuma ser o caminho mais confiável.
Como escolher o diâmetro do bocal (e quando trocar para gas lens)
Escolha do bocal: regra prática por corrente e acesso
Sem entrar em tabelas específicas de fabricante, uma regra prática para iniciantes é:
- Baixa corrente e juntas pequenas: bocal menor facilita acesso e visibilidade.
- Corrente média/alta ou poça maior: bocal maior ajuda a cobrir a poça e a zona aquecida.
- Ambiente com corrente de ar ou geometria que “quebra” o fluxo: bocal maior e/ou gas lens.
Se você está tendo oxidação/escurecimento ao redor do cordão mesmo com vazão correta e técnica consistente, muitas vezes o problema é cobertura insuficiente por bocal pequeno demais para a situação (ou fluxo turbulento).
Quando usar gas lens
Use gas lens quando pelo menos uma destas condições aparece:
- Trabalho delicado (chapas finas, inox, cordões aparentes, peças pequenas).
- Precisa de maior extensão do tungstênio para alcançar a junta (cantos, tubos, interferências).
- Busca mais tolerância a pequenas variações de distância e ângulo da tocha.
- Proteção irregular com bocal comum (manchas, coloração inconsistente, “açúcar” em inox).
Observação prática: gas lens melhora o fluxo, mas não “compensa” montagem errada, bocal trincado ou pinça com mau contato.
Montagem correta dos consumíveis (passo a passo) e cuidados
Passo a passo: montagem do conjunto frontal
- Escolha a pinça do diâmetro exato do tungstênio. Pinça “quase do tamanho” é receita para mau contato e aquecimento.
- Insira a pinça no corpo (ou no gas lens) até assentar corretamente. Ela deve entrar alinhada, sem forçar torto.
- Rosqueie o corpo frontal (collet body) ou o gas lens na tocha com firmeza moderada. Evite apertar “no braço” para não danificar roscas e isoladores.
- Coloque o bocal cerâmico e rosqueie até encostar. Faça o aperto final com a mão, sem ferramentas.
- Insira o tungstênio pela frente e ajuste a extensão desejada.
- Rosqueie a tampa traseira (back cap) até travar o tungstênio. Aperte o suficiente para não escorregar ao encostar levemente na bancada, mas sem exagero.
- Cheque alinhamento: olhando de frente, o tungstênio deve estar centrado no bocal, sem encostar na cerâmica.
Cuidados para evitar trincas no bocal cerâmico
- Não aperte com ferramenta: o bocal é cerâmico e trinca com torque excessivo.
- Evite choque térmico: não encoste o bocal quente em superfícies frias/úmidas e não resfrie com ar comprimido direto.
- Evite batidas: uma microtrinca pode virar falha total durante a solda.
- Inspecione a borda: lascas e trincas alteram o fluxo e podem gerar proteção irregular.
Cuidados para evitar mau contato na pinça
- Pinça correta para o diâmetro: se o tungstênio entra “folgado” ou prende só no final, está errado.
- Limpeza: oxidação, pó metálico e respingos dentro da pinça aumentam resistência elétrica e aquecem o conjunto.
- Não aperte com tungstênio torto: isso deforma a pinça e piora o contato nas próximas montagens.
- Verifique desgaste: pinça “aberta” (perdeu elasticidade) segura mal e dá arco instável.
Sintomas comuns, causas prováveis e diagnóstico rápido
| Sintoma | Causa provável | Como confirmar | Correção |
|---|---|---|---|
| Arco instável, falhando ou variando sem ajuste | Mau contato na pinça; pinça errada; pinça suja/deformada | Tungstênio escorrega ao apertar; aquecimento rápido do conjunto; marcas internas | Trocar pinça pelo diâmetro correto; limpar; remontar e apertar corretamente |
| Tungstênio aquecendo demais ou ficando vermelho muito rápido | Pinça com contato ruim; tungstênio mal fixado; montagem desalinhada | Back cap precisa de aperto excessivo para segurar; tungstênio não fica centrado | Revisar pinça e assento; conferir alinhamento; substituir consumíveis gastos |
| Proteção irregular (manchas, coloração inconsistente, oxidação ao redor) | Bocal pequeno para a situação; bocal trincado/lascado; fluxo turbulento sem gas lens | Melhora ao aproximar mais a tocha; piora com pequeno vento; bocal com trinca visível | Usar bocal maior; trocar bocal danificado; considerar gas lens e ajustar extensão do tungstênio |
| Dificuldade em alcançar a junta sem “tampar” a visão | Bocal grande demais para o acesso; necessidade de maior stick-out | Você inclina demais a tocha e perde cobertura | Trocar para bocal menor + gas lens; aumentar stick-out com gas lens mantendo cobertura |
| Arco “puxa” para um lado ou tungstênio encosta no bocal | Tungstênio desalinhado; pinça mal assentada; bocal mal rosqueado | Vista frontal mostra tungstênio fora do centro | Desmontar e montar novamente; garantir assento e centragem; substituir peças empenadas |
Checklist de seleção rápida (iniciante): corrente, acesso e extensão do tungstênio
1) Pela corrente (tamanho da poça)
- Corrente baixa: bocal menor costuma ser suficiente e dá mais acesso.
- Corrente média: prefira bocal intermediário; se houver oxidação ao redor, aumente o bocal ou use gas lens.
- Corrente alta: bocal maior para cobrir melhor a poça e a zona quente; gas lens ajuda a manter fluxo mais estável.
2) Pelo acesso à junta
- Junta aberta e fácil: bocal maior é bem-vindo para aumentar a proteção.
- Cantos, tubos, interferências: bocal menor para entrar, e considere gas lens para manter cobertura.
3) Pela necessidade de extensão (stick-out) do tungstênio
- Stick-out curto (tungstênio pouco para fora): bocal comum pode atender bem.
- Stick-out médio/alto (precisa enxergar/alcance): priorize gas lens para manter a cobertura e reduzir turbulência.
4) Verificação final antes de soldar
- Pinça é do mesmo diâmetro do tungstênio.
- Tungstênio centrado no bocal e bem travado.
- Bocal sem trincas/lascas e rosqueado sem excesso de torque.
- Se o trabalho é delicado ou exige tungstênio mais estendido: gas lens montado e bem assentado.