Solda TIG do Zero: Gás de proteção e regulagem de vazão para cordões limpos

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Para que serve o gás de proteção no TIG

No TIG, o gás de proteção cria uma “cobertura” ao redor do arco, do eletrodo de tungstênio e da poça de fusão. Essa cobertura empurra o ar para longe (principalmente oxigênio, nitrogênio e umidade), evitando reações que geram defeitos e pioram o acabamento.

  • Porosidade: quando ar/umidade entram na poça, gases ficam presos ao solidificar, formando poros.
  • Oxidação: oxigênio reage com o metal quente, escurece o cordão e pode formar óxidos que atrapalham a fusão e a aparência.
  • Aparência e limpeza: com cobertura correta, o cordão fica mais brilhante e uniforme, com menos coloração “queimada” ao redor.

Em chapas finas, a poça é pequena e solidifica rápido, então a proteção precisa ser estável e bem direcionada: qualquer turbulência ou falta de gás aparece imediatamente como mancha, aspereza ou poros.

Escolha do gás para iniciantes (foco em chapas finas)

Argônio puro (recomendação padrão)

Para começar no TIG em chapas finas, argônio 100% é a escolha mais comum porque:

  • Facilita a abertura e estabilidade do arco.
  • Gera poça mais “controlável” e previsível.
  • É versátil para aço carbono, inox e alumínio (com ajustes de máquina e técnica).

Quando misturas podem aparecer (sem perder o foco do básico)

Em alguns cenários, você pode encontrar misturas (ex.: argônio com hélio, ou argônio com pequenas adições específicas). Em chapas finas, isso costuma ser menos necessário, porque o objetivo é controle térmico e cordão limpo, e o argônio puro já entrega isso com boa repetibilidade. Se você estiver aprendendo, mantenha argônio puro até dominar: distância de arco, alimentação de vareta e controle de poça.

O que define a vazão ideal (e por que não existe um número único)

A vazão (L/min) precisa ser suficiente para formar uma “bolha” de proteção estável, sem criar turbulência. Ela depende de fatores físicos do conjunto e do ambiente:

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  • Diâmetro do bocal (cup): bocais maiores geralmente pedem mais vazão para preencher o volume de proteção.
  • Extensão do tungstênio (stick-out): quanto mais o tungstênio fica para fora do bocal, mais difícil manter a proteção; tende a exigir mais vazão e/ou gas lens.
  • Uso de gas lens: melhora a laminaridade do fluxo (menos turbulência), permitindo boa proteção com stick-out maior e, muitas vezes, com vazões moderadas.
  • Condições do ambiente: correntes de ar, ventilação e posição da peça “varrem” o gás e exigem ajuste.

Valores iniciais práticos (ponto de partida)

Use estes valores como ponto de partida para chapas finas com argônio puro, ajustando depois pelos sinais do cordão:

Configuração típicaCondiçãoVazão inicial sugerida
Bocal pequeno/médio (ex.: #6 a #7), stick-out curtoAmbiente sem vento6–8 L/min
Bocal médio (ex.: #7 a #8), stick-out moderadoAmbiente sem vento8–10 L/min
Com gas lens, stick-out maior (para enxergar melhor a junta)Ambiente sem vento7–10 L/min
Ambiente com corrente de ar leve (porta/ventilador distante)Qualquer uma das acima+2–4 L/min e/ou bloquear vento

Regra prática: comece no meio da faixa e ajuste em passos pequenos (1–2 L/min), observando o cordão e o comportamento do arco.

Passo a passo: como ajustar a vazão de forma prática

1) Defina a configuração física antes de mexer na vazão

  • Escolha o bocal adequado para a junta e acesso.
  • Defina o stick-out: para chapas finas, mantenha curto a moderado (ex.: 3–6 mm) até ganhar controle. Se precisar enxergar melhor, prefira gas lens em vez de exagerar no stick-out.
  • Posicione a tocha com ângulo moderado (evite “deitar” demais), porque ângulos extremos expõem a poça ao ar.

2) Ajuste a vazão no regulador/fluxômetro

Com o gás aberto e a tocha acionada (para haver fluxo real), ajuste para o valor inicial da tabela. Se sua máquina permite teste de gás, use essa função para ajustar sem abrir arco.

3) Faça um cordão curto de teste

Em uma chapa de sucata do mesmo material/espessura, faça um cordão de 3–5 cm, com velocidade constante. O objetivo aqui não é “cordão bonito”, e sim avaliar proteção.

4) Ajuste fino por sinais visuais e comportamento do arco

Altere a vazão em passos de 1–2 L/min e repita o cordão curto até encontrar o ponto em que o arco fica estável e o cordão fica limpo.

Sinais de vazão baixa vs. vazão alta

Quando a vazão está baixa (falta de cobertura)

  • Oxidação/escurecimento ao redor do cordão (especialmente perceptível em inox).
  • Poros aparecendo no cordão ou “furinhos” após escovar/limpar.
  • Arco menos estável, com sensação de “falha” ou variação.
  • Tungstênio contaminando com mais facilidade (ponta perde definição, fica suja/irregular).

Correções típicas: aumentar 1–3 L/min, reduzir stick-out, melhorar ângulo da tocha, usar gas lens, bloquear correntes de ar.

Quando a vazão está alta (turbulência e aspiração de ar)

  • Turbulência na saída do bocal: o fluxo “bagunça” a proteção em vez de melhorar.
  • Aspiração de ar (efeito Venturi): paradoxalmente, pode aumentar oxidação/poros mesmo com muito gás.
  • Arco com comportamento estranho e poça “nervosa” em chapas finas.
  • Som/fluxo muito forte na tocha, como um “sopro” evidente.

Correções típicas: reduzir 1–3 L/min, aproximar a tocha, usar gas lens para fluxo mais laminar, evitar bocal pequeno com vazão exagerada.

Procedimento de validação: como confirmar que a proteção está correta

Checklist rápido (durante e após o cordão)

  • Coloração do cordão e zona ao redor: deve ficar uniforme e “limpa”. Em inox, colorações muito escuras indicam proteção insuficiente (ou calor excessivo/velocidade inadequada); em aço carbono, excesso de oxidação e aspereza também sugerem falha de proteção.
  • Estabilidade do arco: arco firme, sem “pipocar” ou variar sem motivo.
  • Som e sensação do fluxo: o gás deve ser perceptível, mas não parecer um jato forte. Fluxo muito agressivo costuma indicar vazão alta demais para aquele bocal.
  • Ponta do tungstênio: tende a se manter mais limpa e consistente quando a proteção está correta (contaminação frequente pode ser técnica, mas vazão inadequada piora).

Teste prático de repetição

Quando você achar um ajuste bom, repita três cordões curtos em sequência, mudando levemente a posição da tocha (um pouco mais perto/longe e com pequeno ajuste de ângulo). Se o resultado se mantiver consistente, a vazão está com margem suficiente para seu jeito de soldar.

Pré-fluxo e pós-fluxo: protegendo tungstênio e poça

Pré-fluxo (se disponível)

O pré-fluxo libera gás antes do arco abrir. Ele ajuda a expulsar o ar da região do bocal e reduz a chance de iniciar o arco “no ar contaminado”.

  • Valor inicial sugerido: 0,2–0,5 s para chapas finas.
  • Quando aumentar: se você percebe início de cordão oxidado ou tungstênio sujando logo na abertura, especialmente com stick-out maior.

Pós-fluxo

O pós-fluxo mantém o gás após apagar o arco, protegendo a poça enquanto solidifica e resfriando/protegendo a ponta do tungstênio. Em chapas finas, isso é crucial para evitar que a ponta oxide/contamine e para manter o final do cordão limpo.

  • Valor inicial sugerido: 5–8 s como base segura para a maioria dos trabalhos leves.
  • Regra prática: quanto maior a corrente e quanto mais quente ficou o tungstênio/poça, maior deve ser o pós-fluxo.
  • Sinal de pós-fluxo curto: ponta do tungstênio escurece/oxida logo após parar, e o final do cordão fica mais opaco/oxidado.
  • Sinal de pós-fluxo longo demais: não prejudica a solda, mas desperdiça gás; reduza aos poucos até manter ponta e final do cordão limpos.

Ajuste rápido para problemas comuns em chapas finas

SintomaCausa provável ligada ao gásAção imediata
Cordão opaco/escuro e “sujo”Vazão baixa, vento, stick-out altoAumente 2 L/min, aproxime a tocha, reduza stick-out, bloqueie corrente de ar
Poros esporádicosProteção instável (turbulência) ou aspiração de arReduza 2 L/min, verifique ângulo, considere gas lens
Final do cordão mais oxidadoPós-fluxo curtoAumente pós-fluxo em 2–3 s
Tungstênio escurece após pararPós-fluxo curto ou tocha afastada cedo demaisAumente pós-fluxo; mantenha a tocha sobre o ponto por 1–2 s após apagar
Arco “nervoso” e poça instável com muito gásVazão alta causando turbulênciaReduza 2–4 L/min; use gas lens se precisar de stick-out maior

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao soldar TIG em chapas finas com argônio puro, qual ajuste é mais adequado ao notar poros esporádicos e suspeitar de turbulência por vazão alta?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Vazão alta pode gerar turbulência e até aspiração de ar, causando poros. A correção típica é reduzir 1–3 L/min, ajustar o ângulo e usar gas lens para um fluxo mais laminar.

Próximo capitúlo

Solda TIG do Zero: Polaridade, corrente e modos de abertura do arco

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