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Médico-Legista da Polícia Civil: Medicina Legal Aplicada aos Concursos

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16 páginas

Identificação humana e genética forense aplicadas ao Médico-Legista da Polícia Civil

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Conceito e objetivos da identificação humana no contexto pericial

Identificação humana é o conjunto de procedimentos técnicos destinados a estabelecer a identidade de uma pessoa (viva ou morta) com grau de certeza compatível com o caso, a partir de características individuais comparáveis com registros anteriores ou com referências familiares. Em Medicina Legal aplicada ao concurso, é essencial distinguir: métodos primários (maior robustez e aceitação internacional, especialmente em desastres) e métodos secundários (auxiliam, orientam e corroboram, mas raramente fecham identificação isoladamente).

Critérios práticos de escolha do método

  • Condição do corpo: íntegro, putrefeito, carbonizado, esqueletizado, fragmentado.
  • Disponibilidade de padrões de comparação: prontuário odontológico, impressões digitais em bancos, amostras de referência de familiares, objetos pessoais com DNA.
  • Tempo e logística: número de vítimas, ambiente (incêndio, água, soterramento), risco biológico e necessidade de triagem.
  • Qualidade do vestígio: integridade de polpas digitais, dentes, ossos, tecidos moles, fluidos.

Métodos primários de identificação

Papiloscopia (interface com identificação civil/criminal)

A papiloscopia utiliza padrões de cristas papilares (impressões digitais e palmares) que são individualizantes e estáveis. Para o Médico-Legista, o foco é viabilizar a coleta em cadáveres e orientar a equipe quanto às limitações em putrefação, maceração e carbonização.

Passo a passo prático: obtenção de impressões em cadáver

  • 1) Avaliar viabilidade: integridade de polpas digitais, presença de descolamento epidérmico, carbonização, maceração.
  • 2) Higienizar e preparar: limpeza suave para remover sujidades; secagem cuidadosa; em pele muito úmida, reduzir excesso de umidade para melhorar contraste.
  • 3) Registrar e fotografar: fotos macro das polpas e das mãos antes de manipulações (útil para documentação e para justificar limitações).
  • 4) Coleta: conforme protocolo local (tinta/rolagem, pó e fita, ou captura digital). Em casos de descolamento epidérmico (“luva epidérmica”), a epiderme pode ser reposicionada para coleta por equipe especializada.
  • 5) Encaminhar: acondicionar adequadamente registros e informar condições do material (putrefação, carbonização parcial etc.).

Limitações frequentes: carbonização profunda destrói cristas; putrefação avançada pode causar perda de epiderme; maceração prolongada em água altera a qualidade; fragmentação impede rolagem adequada.

Odontologia legal (interface)

A identificação odontológica compara achados post-mortem (dentes, restaurações, próteses, tratamentos endodônticos, padrões de erupção) com registros ante-mortem (prontuários, radiografias, modelos). É altamente útil em carbonizados e em decomposição avançada, pois dentes e materiais restauradores resistem relativamente bem.

Passo a passo prático: fluxo de identificação odontológica

  • 1) Exame oral post-mortem: inventário dentário, restaurações, ausências, próteses, particularidades.
  • 2) Documentação: fotografias intraorais e radiografias post-mortem quando disponíveis.
  • 3) Coleta de dados ante-mortem: solicitar prontuários odontológicos, radiografias, informações de clínicas e familiares.
  • 4) Comparação: confrontar ponto a ponto (dente a dente), valorizando achados individualizantes (tratamentos, morfologia radicular, padrões radiográficos).
  • 5) Conclusão técnica: compatível/incompatível/inconclusivo, com justificativa baseada na qualidade e quantidade de pontos de concordância.

Limitações: ausência de prontuário; tratamentos recentes sem registro; destruição do arco dentário por trauma/incêndio; edentulismo com poucas particularidades (ainda pode haver próteses identificáveis).

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DNA forense

O DNA forense permite identificação por comparação com amostras de referência (familiares ou do próprio indivíduo) e é crucial em corpos fragmentados, degradados e em eventos com múltiplas vítimas. Em concursos, costuma-se exigir: noções de tipos de amostras, prevenção de contaminação, interpretação básica de laudos e probabilidade em nível conceitual.

Métodos secundários de identificação

Antropologia forense (estimativas biológicas e triagem)

A antropologia forense aplica métodos osteológicos para estimar perfil biológico e auxiliar na identificação, especialmente em esqueletizados e em restos fragmentados. Em geral, fornece estimativas (não “certezas”) de sexo, idade, estatura e ancestralidade/afinidade biológica, além de avaliar características individualizantes (anomalias, cirurgias, fraturas antigas).

Estimativa de sexo (conceito e limitações)

  • Melhor elemento: pelve (maior dimorfismo sexual).
  • Crânio: útil, porém mais variável e dependente de população.
  • Limitações: subadultos (dimorfismo incompleto), ossos fragmentados, variação populacional, condições patológicas.

Estimativa de idade (conceito e limitações)

  • Subadultos: baseada em erupção dentária e fusões epifisárias (maior precisão relativa).
  • Adultos: mudanças degenerativas (sínfise púbica, superfície auricular, suturas cranianas) com maior variabilidade.
  • Limitações: ampla faixa etária em adultos; influência de atividade física, doenças e variação individual.

Estimativa de estatura (conceito e limitações)

  • Base: medidas de ossos longos e fórmulas de regressão.
  • Limitações: necessidade de fórmulas adequadas à população; ossos incompletos; encurtamentos por fraturas consolidadas ou deformidades.

Sinais particulares e documentação

Sinais particulares incluem cicatrizes, tatuagens, malformações, amputações, próteses, implantes, marcas de procedimentos médicos e características raras. A documentação (RG, CNH, passaporte, crachás, prontuários, cartões, registros hospitalares) é auxiliar: pode direcionar a investigação, mas exige cautela por possibilidade de troca, fraude ou empréstimo de documentos.

  • Exemplos úteis: número de série de próteses/implantes, placas ortopédicas, marca-passo, prótese dentária com identificação, cicatriz cirúrgica típica.
  • Limitações: alterações pós-morte (putrefação, carbonização) podem apagar tatuagens e cicatrizes; documentos podem estar com terceiros.

Noções aplicadas a corpos carbonizados, esqueletizados e em decomposição avançada

Corpos carbonizados

Em carbonização, a prioridade é reconhecer que a destruição térmica pode inviabilizar métodos e criar artefatos. Em termos de identificação, frequentemente há melhor desempenho de odontologia legal e DNA (dependendo do grau de queima e do tecido disponível). Papiloscopia pode ser possível em carbonização parcial, mas tende a falhar em queima profunda.

Passo a passo prático: abordagem orientada à identificação em carbonizados

  • 1) Classificar o grau de carbonização: parcial vs. extensa; presença de segmentos preservados.
  • 2) Priorizar estruturas resistentes: arcadas dentárias, ossos compactos, segmentos protegidos por roupas/calçados.
  • 3) Planejar coleta de DNA: selecionar amostras com maior chance de preservação (ex.: dentes, porção cortical de ossos longos, tecidos profundos protegidos).
  • 4) Registrar sinais particulares remanescentes: próteses, implantes com numeração, joias aderidas, dispositivos médicos.
  • 5) Integrar com dados ante-mortem: prontuários odontológicos e médicos, listas de desaparecidos, informações familiares.

Limitações típicas: DNA pode estar degradado; dentes podem fraturar com calor; fragmentação dificulta associação de partes.

Corpos em decomposição avançada

Na decomposição avançada, tecidos moles podem estar friáveis, com descolamento epidérmico e perda de feições. Papiloscopia pode ser dificultada; odontologia e DNA frequentemente ganham relevância. Sinais particulares podem estar obscurecidos, mas dispositivos internos (implantes) e achados ósseos podem persistir.

Passo a passo prático: abordagem em decomposição avançada

  • 1) Avaliar integridade de mãos e face: decidir viabilidade de papiloscopia e fotografia de face.
  • 2) Buscar elementos de identificação resistentes: dentes, implantes, próteses, fraturas antigas.
  • 3) Selecionar amostras de DNA: preferir tecidos menos contaminados e mais preservados (ex.: dentes, osso cortical; em alguns casos, músculo profundo).
  • 4) Documentar vestes e objetos: podem direcionar, mas não substituem método primário.
  • 5) Encaminhar para antropologia: quando houver perda de tecidos e necessidade de perfil biológico.

Restos esqueletizados

Em esqueletização, a identificação depende fortemente de antropologia forense (perfil biológico e particularidades), odontologia (se arcada presente) e DNA (especialmente a partir de dentes e osso). A estimativa antropológica orienta a triagem de desaparecidos compatíveis, reduzindo o universo de comparação.

Passo a passo prático: abordagem em esqueletizados

  • 1) Confirmar natureza humana: triagem inicial (quando aplicável) e separação de elementos não humanos.
  • 2) Inventariar e reconstituir: listar ossos presentes, lateralidade, fragmentos; verificar duplicidade (mais de um indivíduo).
  • 3) Estimar perfil biológico: sexo (pelve/crânio), idade (subadulto vs adulto), estatura (ossos longos), particularidades.
  • 4) Avaliar odontologia: presença de dentes, restaurações, perdas ante-mortem.
  • 5) Coletar DNA: preferir dentes íntegros e osso cortical denso; evitar superfícies contaminadas.

Limitações: ossos expostos ao ambiente podem sofrer degradação e contaminação; estimativas variam por população; fragmentação pode impedir medidas.

DNA forense: princípios essenciais para concursos

Tipos de amostras e adequação por cenário

  • Referência direta: amostra do próprio indivíduo (quando existe material armazenado, ex.: escova de dentes, lâmina de barbear) — exige cautela quanto à atribuição.
  • Referência familiar: amostras de parentes biológicos para comparação (útil em desaparecidos e desastres).
  • Post-mortem: sangue, músculo, órgãos, dentes, osso; em degradados, dentes e osso cortical tendem a ser mais úteis.
  • Vestígios de cena: sangue, sêmen, saliva, epitélio, cabelos com raiz, fragmentos de tecido — podem servir para vinculação de suspeito/vítima e, em alguns casos, identificação.

Prevenção de contaminação (conceito e checklist)

Contaminação é a introdução de DNA estranho na amostra, gerando perfis mistos ou resultados enganosos. Em nível prático, a prevenção depende de barreiras físicas, técnica limpa e separação de fluxos.

  • EPIs e higiene: luvas (troca frequente), máscara, touca; evitar falar sobre amostras abertas.
  • Instrumentais: preferir descartáveis; quando reutilizáveis, descontaminação adequada entre coletas.
  • Embalagem: material seco em embalagem apropriada; evitar umidade que favoreça degradação e fungos.
  • Separação: amostras de indivíduos diferentes em recipientes separados; evitar contato entre fragmentos.
  • Controle de manuseio: minimizar número de pessoas tocando; registrar quem manipulou.
  • Ambiente: superfície limpa; evitar correntes de ar e poeira sobre amostras abertas.

Interpretação básica de laudos de DNA (o que o concurso costuma cobrar)

  • Perfil genético: conjunto de marcadores analisados (comumente STRs) que permite comparação.
  • Compatibilidade: perfis coincidem nos marcadores analisados; não significa “100%”, mas alta força de evidência.
  • Incompatibilidade: diferenças excluem a hipótese (salvo explicações técnicas como mistura complexa ou baixa qualidade, que devem ser discutidas no laudo).
  • Inconclusivo: quantidade/qualidade insuficiente, degradação, inibição, mistura não resolvida.
  • Misturas: presença de DNA de mais de um indivíduo; interpretação depende de proporções, número de contribuintes e qualidade do sinal.

Probabilística em nível conceitual: LR e RMP

  • RMP (Random Match Probability): probabilidade de um indivíduo aleatório da população ter o mesmo perfil observado (quanto menor, mais raro).
  • LR (Likelihood Ratio): razão de verossimilhanças entre duas hipóteses (ex.: “o vestígio veio do suspeito” vs “veio de um desconhecido”). LR alto favorece a primeira hipótese; LR baixo favorece a alternativa.
  • Ponto-chave: o laudo expressa força da evidência genética, não “culpa” nem reconstrução completa do fato.

Integração de métodos: estratégia de identificação em casos complexos

Em prática pericial, a identificação robusta frequentemente resulta da convergência entre métodos: triagem antropológica reduz o universo; odontologia e papiloscopia podem fechar rapidamente quando há registros; DNA resolve casos degradados e fragmentados, e também confirma hipóteses levantadas por sinais particulares e documentação.

Roteiro de decisão (modelo mental para prova e prática)

  • 1) Há possibilidade de papiloscopia? Se sim, priorizar pela rapidez e custo.
  • 2) Arcada dentária preservada e há chance de prontuário? Acionar odontologia legal.
  • 3) Corpo degradado/fragmentado ou sem registros ante-mortem? Planejar DNA com referência familiar/direta.
  • 4) Esqueletizado ou restos parciais? Antropologia para perfil biológico + DNA/odontologia conforme disponibilidade.
  • 5) Sempre: registrar sinais particulares e objetos, com cautela interpretativa.

Exercícios (estilo concurso) com cenários aplicados

Exercício 1 — Desastre com incêndio em ônibus (múltiplas vítimas)

Cenário: 18 vítimas, várias carbonizadas; algumas com segmentos corporais preservados. Há lista de passageiros e familiares disponíveis.

Tarefa: proponha uma estratégia de identificação com ordem de prioridade e justifique.

  • Pontos esperados: priorizar papiloscopia nos parcialmente preservados; odontologia como método central em carbonizados; DNA para fragmentos e casos sem prontuário; triagem e numeração rigorosa de restos; uso de referências familiares quando necessário.

Exercício 2 — Corpo em decomposição avançada em área rural

Cenário: cadáver com putrefação avançada, mãos com descolamento epidérmico, face irreconhecível; há relato de desaparecido na região.

Tarefa: indique quais métodos são mais promissores e quais amostras de DNA você priorizaria.

  • Pontos esperados: papiloscopia pode ser limitada; odontologia se arcada preservada; DNA com preferência por dentes/ossos (ou tecido profundo se viável); sinais particulares e implantes; necessidade de referência familiar.

Exercício 3 — Restos esqueletizados com suspeita de mais de um indivíduo

Cenário: ossos misturados em vala; há duplicidade de fêmures e mandíbulas.

Tarefa: descreva o passo a passo para separar indivíduos e produzir perfil biológico mínimo para triagem.

  • Pontos esperados: inventário, lateralidade, pareamento por tamanho/morfologia, estimativas por indivíduo (sexo/idade/estatura), odontologia se houver dentes, coleta de DNA por conjunto atribuído a cada indivíduo, registrar incertezas.

Exercício 4 — Crime com múltiplos vestígios biológicos e possível mistura

Cenário: local com manchas de sangue de mais de uma pessoa e um objeto com possível saliva; há vítima e dois suspeitos.

Tarefa: explique como evitar contaminação na coleta e como interpretar, em nível conceitual, um laudo que indique “mistura de dois contribuintes” com LR moderado.

  • Pontos esperados: troca de luvas, instrumentos separados, embalagens individuais, secagem/armazenamento adequado; mistura não é automaticamente atribuível a um indivíduo; LR moderado indica evidência limitada/moderada e deve ser integrada ao conjunto probatório; possibilidade de inconclusão parcial.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um desastre com múltiplas vítimas e corpos carbonizados, qual estratégia de identificação é mais adequada como prioridade pericial?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em carbonizados, odontologia e DNA tendem a ter melhor desempenho, dependendo da preservação. A conduta adequada inclui classificar a carbonização, priorizar estruturas resistentes e integrar referências ante-mortem/familiares. Papiloscopia pode funcionar apenas em carbonização parcial; documentos e sinais particulares são auxiliares.

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