O que é o SCFV e por que ele é uma estratégia de prevenção
O Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) é um serviço da proteção social básica que organiza atividades coletivas regulares para apoiar o desenvolvimento de capacidades, a convivência comunitária e a construção/fortalecimento de vínculos familiares e sociais. Ele atua de forma preventiva, reduzindo a probabilidade de agravamento de vulnerabilidades (como isolamento social, evasão escolar, trabalho infantil, violência, negligência, discriminação, uso problemático de substâncias, conflitos familiares e comunitários), ao criar rotinas protetivas, redes de apoio e oportunidades de participação.
O SCFV não é recreação nem “ocupação do tempo”. As atividades lúdicas podem existir, mas sempre com intencionalidade socioeducativa: cada encontro deve ter objetivos claros (ex.: ampliar repertório cultural, fortalecer habilidades socioemocionais, estimular participação cidadã, promover respeito à diversidade, apoiar autonomia).
Público e faixas etárias: como organizar grupos com sentido
O SCFV é organizado por ciclos de vida, com grupos planejados para necessidades e linguagens específicas. A divisão por faixa etária ajuda a adequar metodologias, temas e formas de participação.
- Crianças (por exemplo, 6 a 15 anos): foco em convivência, regras de grupo, expressão de sentimentos, prevenção de violências, fortalecimento de vínculos familiares e comunitários, apoio à permanência na escola (sem substituir reforço escolar).
- Adolescentes e jovens (por exemplo, 15 a 17 anos e/ou juventudes): foco em projeto de vida, participação social, prevenção de violências, direitos, sexualidade responsável, enfrentamento de discriminações, habilidades para o mundo do trabalho (sem caracterizar curso profissionalizante).
- Adultos (quando ofertado no território): foco em redes de apoio, parentalidade/cuidado, convivência comunitária, prevenção de isolamento, fortalecimento de vínculos e participação em iniciativas coletivas.
- Idosos (60+): foco em autonomia, prevenção de isolamento, fortalecimento de vínculos, acesso a direitos, mobilidade e participação comunitária, enfrentamento de violências contra a pessoa idosa.
Observação prática: evite grupos com grande mistura etária, pois isso tende a reduzir a qualidade pedagógica e a segurança. Quando houver necessidade de integração intergeracional, planeje encontros específicos (ex.: uma vez por mês) com objetivos próprios.
Critérios de acesso e priorização: quem deve ser incluído primeiro
O acesso ao SCFV pode ocorrer por busca ativa, demanda espontânea e encaminhamentos da rede. Como a capacidade é limitada, é essencial definir critérios de priorização transparentes e alinhados ao diagnóstico do território.
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Critérios de priorização (exemplos usuais)
- Situações de isolamento social (pouca convivência comunitária, vínculos fragilizados).
- Famílias com baixa rede de apoio e sobrecarga de cuidado.
- Crianças/adolescentes com sinais de evasão/infreqüência escolar (o SCFV não substitui a escola, mas pode apoiar a permanência).
- Exposição a violências (doméstica, comunitária, bullying, discriminação) ou conflitos recorrentes.
- Trabalho infantil, negligência, uso de álcool e outras drogas no contexto familiar, ou outras vulnerabilidades identificadas no território.
- Idosos com restrição de participação por mobilidade, luto recente, solidão, depressão, ou risco de violência patrimonial.
Boa prática: registre o motivo de inclusão e o objetivo socioeducativo principal para cada participante (em linguagem simples e observável). Isso orienta o planejamento e a avaliação.
Objetivos do SCFV: do geral ao mensurável
Para não reduzir o serviço a recreação, transforme objetivos amplos em resultados observáveis. Exemplos de objetivos e indicadores:
- Fortalecer vínculos: aumento de interações respeitosas no grupo; participação em atividades cooperativas; redução de conflitos sem mediação.
- Ampliar repertório e pertencimento: participação em ações comunitárias; reconhecimento de espaços do território; valorização de identidades culturais locais.
- Desenvolver habilidades socioemocionais: capacidade de nomear emoções; uso de estratégias de autocontrole; comunicação não violenta em situações simuladas.
- Promover participação e cidadania: envolvimento em decisões do grupo; compreensão de direitos e deveres; protagonismo em projetos coletivos.
Tipos de atividades: como garantir intencionalidade socioeducativa
As atividades devem combinar convivência (estar junto com sentido) e processos socioeducativos (aprender e praticar habilidades para a vida). Abaixo, tipos de atividades e o que elas desenvolvem.
1) Rodas de conversa com metodologia
- Objetivo: escuta, expressão, respeito à diversidade, construção de regras de convivência.
- Como fazer: tema do dia + pergunta disparadora + combinados de fala + síntese final do grupo.
- Exemplo: “O que é respeito no nosso grupo?” com construção de um pacto de convivência.
2) Oficinas expressivas (arte, música, teatro, audiovisual)
- Objetivo: identidade, autoestima, comunicação, pertencimento.
- Exemplo: teatro-fórum sobre situações de bullying e alternativas de enfrentamento.
3) Jogos cooperativos e práticas corporais
- Objetivo: cooperação, regras, autocontrole, resolução de conflitos.
- Critério: priorizar jogos em que o grupo “ganha junto”, evitando foco exclusivo em competição.
4) Projetos no território (saídas planejadas e ações comunitárias)
- Objetivo: pertencimento, participação social, leitura do território, redes de apoio.
- Exemplo: mapeamento afetivo do bairro (lugares seguros, de convivência, de risco) e devolutiva em mural interno (sem expor endereços sensíveis).
5) Oficinas de habilidades para a vida
- Objetivo: planejamento, tomada de decisão, autocuidado, comunicação, projeto de vida.
- Exemplo: “Meu plano de semana” (rotina, estudo, descanso, convivência) com reflexão sobre equilíbrio e prioridades.
6) Encontros intergeracionais (pontuais e planejados)
- Objetivo: troca de experiências, respeito, redução de preconceitos etários.
- Exemplo: oficina de histórias do território (idosos narram memórias; jovens produzem registro em áudio para uso interno do serviço).
Integração do SCFV com o acompanhamento do PAIF: como articular sem confundir funções
O SCFV e o acompanhamento familiar do PAIF se fortalecem quando há articulação planejada. O SCFV oferece um espaço coletivo que pode: (1) apoiar objetivos do acompanhamento familiar, (2) identificar precocemente sinais de risco, e (3) ampliar redes de apoio. Ao mesmo tempo, o SCFV não substitui atendimentos individualizados quando necessários.
Fluxo prático de integração (passo a passo)
- Definir objetivos compartilhados: para participantes acompanhados, alinhar 1 a 3 objetivos do SCFV que conversem com o plano familiar (ex.: ampliar rede de apoio; melhorar convivência; fortalecer participação escolar).
- Planejar comunicação entre equipes: estabelecer rotina de troca de informações mínimas e necessárias (respeitando sigilo), por exemplo, reunião quinzenal SCFV–referência do acompanhamento.
- Registrar observações relevantes: frequência, participação, mudanças de comportamento, conflitos recorrentes, sinais de sofrimento. Evitar registros moralizantes; usar linguagem descritiva (o que foi observado).
- Acionar a família quando fizer sentido: convidar para encontros temáticos (parentalidade, convivência, direitos) e para devolutivas gerais do serviço, sem expor situações individuais em grupo.
- Encaminhar para atendimento individual quando necessário: quando surgirem sinais de risco que extrapolem o manejo do grupo (ver seção de risco).
Exemplo de articulação: uma adolescente em acompanhamento familiar apresenta faltas frequentes no SCFV. O orientador social registra padrão (faltas em dias específicos), conversa de forma acolhedora, e aciona a referência do acompanhamento para avaliar barreiras (transporte, cuidado de irmãos, conflito doméstico, violência no trajeto) e ajustar o plano.
Planejamento de turmas: tamanho, frequência, calendário e rotina
Um SCFV bem organizado depende de decisões operacionais consistentes. Abaixo, parâmetros práticos para planejar turmas e garantir continuidade.
1) Definir capacidade e composição do grupo
- Tamanho do grupo: prefira grupos que permitam participação ativa e manejo de conflitos. Se o grupo ficar grande demais, a tendência é virar “atividade de massa” com baixa intencionalidade.
- Critérios de composição: faixa etária, proximidade territorial, necessidades comuns (ex.: adolescentes com foco em protagonismo), e atenção a situações que podem gerar risco (ex.: rivalidades locais) — nesses casos, planejar mediação e regras.
2) Estabelecer frequência e duração
- Frequência: encontros regulares (ex.: semanal ou mais de uma vez por semana, conforme capacidade e demanda). Regularidade é parte da proteção: cria rotina e pertencimento.
- Duração: tempo suficiente para acolhida, atividade principal e fechamento (ex.: 60–120 minutos, conforme faixa etária).
3) Criar uma rotina pedagógica do encontro
- Acolhida (5–15 min): chegada, combinados, “termômetro do dia”.
- Atividade principal (40–80 min): oficina, roda, projeto.
- Fechamento (10–20 min): síntese do que foi vivido, combinados para o próximo encontro, avaliação rápida.
4) Planejar por ciclos (mensal/bimestral)
Planeje temas por ciclo para evitar atividades soltas. Exemplo de ciclo bimestral para adolescentes:
| Semana | Tema | Objetivo socioeducativo | Atividade |
|---|---|---|---|
| 1 | Regras e pertencimento | Construir pacto de convivência | Roda + cartaz de combinados |
| 2 | Comunicação e conflito | Praticar comunicação não violenta | Teatro de situações + mediação |
| 3 | Direitos e proteção | Reconhecer situações de risco e pedir ajuda | Mapa de rede de apoio |
| 4 | Projeto coletivo | Protagonismo e cooperação | Planejar ação comunitária |
| 5 | Ação no território | Participação social | Mutirão/atividade comunitária |
| 6 | Avaliação e devolutiva | Refletir sobre aprendizados | Roda de avaliação + portfólio |
Acompanhamento de frequência e participação: como monitorar sem burocratizar
Monitorar frequência não é apenas “contar presença”; é identificar barreiras e riscos. Use instrumentos simples e consistentes.
Parâmetros práticos de acompanhamento
- Frequência: registrar presença em cada encontro e observar padrões (faltas seguidas, faltas em dias específicos, atrasos recorrentes).
- Participação qualificada: observar envolvimento, interação com pares, respeito a combinados, iniciativa, capacidade de pedir ajuda.
- Registro breve pós-encontro: 5 linhas sobre o que funcionou, quem precisou de atenção, conflitos e encaminhamentos.
Exemplo de ficha simples (modelo)
Participante: __________________ Grupo: ______ Mês: ________ Referência: ________ Frequência: __/__/__/__/__ Observações: - Interação com o grupo: ( ) boa ( ) oscilante ( ) difícil - Participação nas atividades: ( ) ativa ( ) parcial ( ) baixa - Sinais de alerta (se houver): __________________________ - Ação realizada: ( ) conversa individual ( ) contato com família ( ) articulação com PAIF ( ) encaminhamento rede - Próximo passo: __________________________Importante: “baixa participação” não deve ser interpretada automaticamente como desinteresse. Pode indicar timidez, sofrimento, conflito com pares, barreiras familiares, ou necessidade de adaptação metodológica.
Quando surgirem situações de risco: identificação, manejo e encaminhamentos
O SCFV é um espaço privilegiado para perceber sinais precoces. A equipe deve ter um roteiro de ação para não improvisar em situações sensíveis.
Sinais de alerta comuns no cotidiano do grupo
- Mudança brusca de comportamento (agressividade, retraimento intenso, choro frequente).
- Relatos de violência, medo de voltar para casa, controle excessivo por adulto, abandono.
- Marcas físicas suspeitas, sinais de negligência persistente.
- Uso problemático de álcool e outras drogas (ou exposição intensa no contexto familiar).
- Exploração do trabalho infantil, situações de rua, evasão escolar persistente.
- Ideação suicida ou autoagressão (qualquer menção deve ser tratada com prioridade).
Passo a passo de manejo no SCFV
- Acolher e proteger: escuta sem julgamento, garantir segurança imediata, evitar exposição diante do grupo.
- Registrar de forma descritiva: o que foi dito/observado, data, contexto, sem interpretações.
- Comunicar à referência técnica: acionar a coordenação e a referência do acompanhamento familiar quando houver.
- Avaliar urgência: risco imediato exige ação imediata (rede de saúde/urgência e proteção, conforme o caso).
- Definir encaminhamento: articular com serviços da rede conforme necessidade (saúde, educação, conselho tutelar, proteção especial, entre outros), seguindo fluxos locais.
- Planejar acompanhamento: combinar retorno, monitorar presença e bem-estar, e ajustar participação no grupo (ex.: estratégias de acolhida, mediação de conflitos, atividades de fortalecimento).
Cuidados essenciais: não prometer sigilo absoluto (explique que algumas situações exigem proteção e acionamento da rede), não investigar como “interrogatório”, e não expor o participante ao grupo.
Exemplos de atividades alinhadas a objetivos socioeducativos (por faixa etária)
Crianças: “Mapa de amizades e redes de ajuda”
- Objetivo: reconhecer pessoas de confiança e pedir ajuda.
- Como fazer: cada criança desenha um mapa simples com “eu no centro” e círculos (família, escola, vizinhança, serviço). Depois, roda sobre como pedir ajuda e quando.
- Indicadores: consegue nomear ao menos 2 adultos de confiança; participa respeitando a fala do outro.
Adolescentes: “Laboratório de conflitos” (mediação e escolhas)
- Objetivo: desenvolver comunicação, autocontrole e resolução de conflitos.
- Como fazer: encenações curtas de conflitos comuns (grupo de mensagens, ciúmes, discriminação, briga em jogo). O grupo propõe alternativas e avalia consequências.
- Indicadores: apresenta alternativas não violentas; reconhece consequências; pratica escuta.
Idosos: “Roda de direitos e proteção contra violências”
- Objetivo: ampliar informação protetiva e fortalecer rede.
- Como fazer: estudo de casos fictícios (violência patrimonial, negligência, isolamento). Identificar sinais, formas de pedir ajuda e rede local.
- Indicadores: identifica sinais de abuso; sabe a quem recorrer; participa apoiando pares.
Como avaliar participação e resultados sem transformar em “nota”
A avaliação no SCFV deve ser formativa: ajuda a ajustar o trabalho e a reconhecer avanços. Combine indicadores quantitativos (frequência) e qualitativos (participação, vínculos, habilidades).
Parâmetros de avaliação (exemplos)
- Assiduidade: presença regular e redução de faltas injustificadas após ações de busca ativa/acolhida.
- Vínculo com o serviço: procura espontânea, permanência no grupo, sensação de pertencimento verbalizada.
- Convivência: respeito aos combinados, cooperação, redução de episódios de agressão verbal/física.
- Habilidades socioemocionais: nomear emoções, pedir ajuda, negociar, tolerar frustrações.
- Participação social: envolvimento em projetos coletivos, iniciativas no território, protagonismo em decisões do grupo.
Instrumentos simples
- Semáforo de participação (mensal): verde (participa bem), amarelo (oscila), vermelho (precisa de atenção). Sempre com justificativa descritiva e plano de ação.
- Portfólio do grupo: registros de projetos, fotos internas (com autorização), produções, relatos de aprendizados.
- Avaliação rápida ao final do encontro: “o que aprendi?”, “o que foi difícil?”, “o que quero para o próximo encontro?”.
Checklist prático para manter o SCFV com intencionalidade
- O grupo tem objetivo socioeducativo definido para o ciclo?
- Cada encontro tem começo-meio-fim (acolhida, atividade, fechamento)?
- Há registro breve e plano de ação para faltas e sinais de alerta?
- Existe articulação com o acompanhamento familiar quando necessário (sem exposição indevida)?
- As atividades promovem participação ativa e não apenas consumo passivo?
- Há espaço para protagonismo (decisões do grupo, projetos coletivos)?