CREAS no SUAS: PAEFI, violações de direitos e atendimento especializado

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 14 minutos

+ Exercício

CREAS como unidade de referência da Proteção Social Especial de Média Complexidade

O CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) é a unidade pública responsável por ofertar atendimento especializado a indivíduos e famílias que vivenciam violação de direitos e precisam de acompanhamento técnico continuado, sem que, necessariamente, haja afastamento do convívio familiar. Na prática, o CREAS organiza a resposta do SUAS para situações que exigem: escuta qualificada, avaliação de risco, proteção, articulação com a rede e registro técnico cuidadoso.

O CREAS atua como referência para a Proteção Social Especial de Média Complexidade, atendendo casos em que há:

  • Violência física, psicológica, sexual e institucional;
  • Negligência e abandono;
  • Trabalho infantil e exploração;
  • Violação de direitos de crianças e adolescentes (inclusive situações envolvendo medidas protetivas articuladas com o Sistema de Garantia de Direitos);
  • Violência contra a mulher e outras violências de gênero (articulando com serviços especializados da rede);
  • Violência contra pessoas idosas e pessoas com deficiência;
  • Situações de rua e outras vulnerabilidades que demandem acompanhamento especializado, conforme a organização local dos serviços.

O que diferencia o atendimento do CREAS

  • Foco na violação de direitos: o objetivo é interromper/reduzir a violência, proteger a pessoa e fortalecer capacidades de proteção familiar e comunitária.
  • Plano de acompanhamento: metas, responsabilidades e prazos, com monitoramento.
  • Articulação intersetorial: saúde, educação, segurança pública, justiça, conselhos e serviços especializados.
  • Registros técnicos e proteção de dados: documentação organizada, sigilosa e útil para continuidade do cuidado e para encaminhamentos.

PAEFI no CREAS: finalidade e componentes do atendimento

O PAEFI (Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos) é o principal serviço ofertado no CREAS. Ele organiza o acompanhamento especializado de famílias e indivíduos em situação de ameaça ou violação de direitos, buscando: cessar a violência, reduzir danos, fortalecer vínculos protetivos e articular acesso a direitos.

1) Acolhida (primeiro atendimento)

A acolhida é o momento de receber a demanda com escuta qualificada e postura protetiva. Pode ocorrer por procura espontânea, encaminhamento da rede (escola, UBS, Conselho Tutelar, Judiciário, etc.) ou por identificação ativa do território (quando houver).

  • Objetivos práticos: compreender o motivo da procura, identificar urgências, explicar o que o CREAS pode ofertar, pactuar próximos passos.
  • Cuidados: evitar revitimização (não pedir repetição detalhada do fato sem necessidade), garantir privacidade, avaliar se há risco imediato.
  • Produto esperado: registro inicial com informações essenciais e definição de prioridade/urgência.

2) Avaliação de risco e necessidades (triagem qualificada)

Após a acolhida, realiza-se uma avaliação técnica para entender gravidade, frequência, ameaças, rede de apoio e condições de proteção. Essa avaliação orienta o nível de prioridade e a estratégia de acompanhamento.

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Exemplos de perguntas orientadoras (adaptar ao caso e ao público):

  • risco atual de nova agressão? O autor tem acesso à vítima?
  • ameaças explícitas? Uso de armas? Controle coercitivo?
  • A pessoa tem onde ficar com segurança hoje?
  • crianças/adolescentes expostos? Há sinais de abuso/violência?
  • dependência econômica do agressor? Há isolamento social?
  • Há necessidade de atendimento de saúde imediato (lesões, saúde mental, profilaxias, etc.)?

Resultado: classificação de prioridade (ex.: risco alto/médio/baixo, conforme protocolo local) e definição de medidas imediatas (encaminhamentos urgentes, proteção, acionamentos).

3) Plano de acompanhamento (PAEFI)

O plano de acompanhamento é um instrumento de trabalho que organiza o que será feito, por quem e em qual prazo. Deve ser construído com participação do usuário/família, respeitando autonomia e segurança.

Elementos mínimos recomendáveis:

  • Objetivos (ex.: aumentar segurança; interromper violência; garantir frequência escolar; acessar tratamento de saúde; regularizar documentação; fortalecer rede de apoio).
  • Ações do CREAS (atendimentos individuais/familiares, visitas, articulação com rede, grupos quando houver).
  • Ações da rede (UBS, CAPS, escola, Conselho Tutelar, Defensoria, serviços para mulheres, etc.).
  • Responsáveis (técnico de referência, serviços parceiros, família/usuário).
  • Prazos e indicadores (ex.: comparecimento a atendimentos; cessação de contato com agressor; matrícula/retorno escolar; medidas protetivas solicitadas).
  • Plano de segurança (quando aplicável): contatos de emergência, rotas seguras, pessoas de confiança, sinais de alerta.

4) Acompanhamento: atendimentos, visitas e monitoramento

O acompanhamento no PAEFI combina atendimentos no CREAS e ações no território, conforme necessidade e segurança.

  • Atendimentos individuais: foco na proteção, fortalecimento de autonomia, orientação sobre direitos, redução de danos e construção de estratégias seguras.
  • Atendimentos familiares: quando apropriado e seguro, para reorganizar funções protetivas, pactuar rotinas e reduzir fatores de risco.
  • Visitas domiciliares: usadas para compreender contexto, verificar condições de proteção e articular rede. Devem ser planejadas com análise de risco (evitar expor a vítima ao agressor ou aumentar perigo).
  • Monitoramento: revisão periódica do plano, reavaliação de risco e atualização de encaminhamentos.

5) Articulação com o Sistema de Garantia de Direitos (SGD) e rede local

O CREAS não atua sozinho. Em violações de direitos, é comum a necessidade de acionar e articular com:

  • Conselho Tutelar (quando envolve criança/adolescente e medidas de proteção);
  • Saúde (UBS, CAPS, hospitais, serviços de atenção a violências);
  • Educação (escola, EJA, busca ativa e proteção escolar);
  • Segurança pública (quando há risco iminente, boletim de ocorrência, medidas protetivas, patrulhas especializadas onde existirem);
  • Justiça e defesa de direitos (Defensoria, Ministério Público, Judiciário, serviços de orientação jurídica);
  • Rede especializada (centros de referência para mulheres, serviços para população em situação de rua, organizações conveniadas, etc.).

A articulação deve ser pactuada, com definição de responsabilidades, evitando encaminhamentos “soltos” e repetição de relatos pela vítima.

6) Registros necessários e organização do prontuário

Os registros no CREAS são parte do cuidado e da proteção. Devem ser objetivos, fidedignos, datados e úteis para continuidade do acompanhamento e para comunicação com a rede, sempre respeitando sigilo e proteção de dados.

Boas práticas de registro:

  • Registrar fatos observáveis e falas relevantes com indicação de fonte (ex.: “relato da usuária”, “informação da escola”).
  • Evitar julgamentos morais e rótulos (substituir “mãe negligente” por descrição objetiva do que ocorreu).
  • Separar hipóteses técnicas de fatos confirmados.
  • Controlar acesso ao prontuário e compartilhar informações apenas com finalidade de proteção e mínimo necessário.

Itens que costumam compor o prontuário (ajustar ao padrão municipal):

  • Ficha de acolhida/atendimento inicial;
  • Avaliação de risco e necessidades;
  • Plano de acompanhamento e revisões;
  • Registros de atendimentos e visitas;
  • Encaminhamentos realizados e devolutivas recebidas;
  • Termos/autorizações quando aplicáveis;
  • Relatórios técnicos (quando solicitados e pertinentes).

Manejo de situações de violência e violações de direitos: orientações práticas

Princípios de atuação no CREAS (na prática)

  • Não revitimizar: reduzir repetição de relatos, evitar perguntas invasivas sem necessidade e respeitar o tempo da pessoa.
  • Centralidade na segurança: antes de qualquer plano, garantir que a pessoa não esteja em risco imediato.
  • Autonomia com proteção: informar opções e consequências, apoiar decisões seguras, respeitando limites legais (especialmente em casos com crianças/adolescentes).
  • Sigilo e proteção de dados: compartilhar apenas o necessário, com cuidado redobrado em casos com agressor na família ou na comunidade.
  • Atuação em rede: encaminhar com responsabilidade (contato prévio, confirmação de acesso, retorno/contrarreferência).

Violência física e psicológica (inclui violência doméstica)

Passo a passo de manejo:

  1. Acolher e validar o relato sem culpabilizar a vítima.
  2. Avaliar risco imediato: agressor presente? ameaça atual? possibilidade de retorno seguro para casa?
  3. Plano de segurança: contatos, local seguro, documentos essenciais, sinais de alerta, estratégias de saída.
  4. Encaminhar para saúde se houver lesões ou sofrimento intenso (e registrar).
  5. Articular com rede para proteção e responsabilização quando necessário (segurança pública, justiça, serviços especializados).
  6. Iniciar/atualizar plano PAEFI com metas objetivas e monitoramento.

Violência sexual (criança/adolescente ou adulto)

Casos de violência sexual exigem cuidado reforçado para evitar revitimização e preservar evidências quando aplicável. O CREAS deve organizar a proteção socioassistencial e articular com saúde, proteção e justiça conforme o caso.

  • Cuidados imediatos: privacidade, escuta sem detalhes desnecessários, avaliação de risco e necessidade de atendimento de saúde urgente.
  • Articulação: saúde (atendimento especializado), Conselho Tutelar (quando criança/adolescente), rede de proteção e órgãos competentes conforme protocolo local.
  • Registro: descrever com cautela, indicando fonte, evitando interpretações.

Negligência e abandono

Negligência deve ser analisada com critério: pode envolver ausência de cuidados por incapacidade, adoecimento, uso problemático de substâncias, sobrecarga, pobreza e falta de rede. O CREAS avalia risco, proteção e necessidade de medidas protetivas, articulando com a rede.

Passo a passo:

  1. Identificar quais cuidados estão faltando (alimentação, higiene, saúde, supervisão, escola).
  2. Avaliar capacidade protetiva e rede de apoio.
  3. Definir ações imediatas (saúde, escola, benefícios/serviços, proteção).
  4. Pactuar plano de acompanhamento com metas observáveis (ex.: consultas, rotina escolar, organização de cuidados).
  5. Se houver risco grave e persistente para criança/adolescente, articular medidas protetivas via Conselho Tutelar e rede.

Trabalho infantil e exploração

O CREAS atua para interromper a violação, proteger a criança/adolescente e apoiar a família na reorganização de renda, cuidados e acesso a direitos. A abordagem deve evitar culpabilização e considerar fatores econômicos e culturais, sem relativizar a violação.

Passo a passo:

  1. Identificar tipo de atividade, jornada, riscos e quem se beneficia.
  2. Avaliar impacto em escola, saúde e segurança.
  3. Articular com educação (frequência escolar), saúde e rede de proteção.
  4. Construir plano PAEFI com metas: retirada da situação, alternativas de proteção, fortalecimento familiar.
  5. Quando houver exploração por terceiros, articular com órgãos competentes conforme protocolo local.

Outras violações frequentes (exemplos)

  • Violência contra pessoa idosa: avaliar dependência do cuidador, risco financeiro/patrimonial, isolamento; articular saúde, rede de proteção e serviços jurídicos quando necessário.
  • Violência contra pessoa com deficiência: garantir acessibilidade na comunicação, avaliar barreiras e dependências; articular reabilitação, saúde mental e proteção.
  • Violência institucional: registrar com precisão, acionar instâncias de controle e proteção conforme o caso, preservando a segurança do usuário.

Cuidados éticos, sigilo, proteção de dados e segurança

Sigilo profissional e compartilhamento responsável

No CREAS, o sigilo é regra e o compartilhamento de informações deve seguir o princípio do mínimo necessário para proteção e continuidade do atendimento. Antes de repassar informações:

  • Defina a finalidade (proteção? acesso a serviço? medida protetiva?).
  • Compartilhe apenas o essencial e preferencialmente por canais institucionais.
  • Evite expor endereço, rotina e contatos quando isso puder aumentar risco.
  • Quando possível e seguro, informe o usuário sobre encaminhamentos e comunicações.

Proteção de dados no cotidiano

  • Guardar prontuários em local seguro (físico ou digital) com controle de acesso.
  • Evitar envio de dados sensíveis por meios pessoais; priorizar e-mails institucionais e sistemas oficiais.
  • Em reuniões de rede, discutir o caso com dados minimizados (sem detalhes íntimos desnecessários).
  • Em documentos, usar linguagem técnica, objetiva e sem exposição indevida.

Segurança da equipe e do usuário

  • Planejar visitas com avaliação de risco (horário, dupla, comunicação com a unidade, rota).
  • Evitar confrontar agressor; o foco do CREAS é proteção e acompanhamento, articulando com órgãos competentes quando há ameaça.
  • Garantir ambiente reservado para atendimento e cuidado com presença de acompanhantes (especialmente quando podem ser autores da violência).

Roteiro prático de atendimento no CREAS (PAEFI)

Use o roteiro abaixo como guia operacional, adaptando ao protocolo municipal e à complexidade do caso.

EtapaO que fazerProduto/registro
1. Recepção e acolhidaGarantir privacidade, escuta qualificada, identificar urgências, explicar o serviçoRegistro do atendimento inicial + identificação de urgência
2. Avaliação de riscoMapear risco imediato, ameaças, acesso do agressor, rede de apoio, necessidades de saúde e proteçãoFicha/nota técnica de avaliação de risco
3. Medidas imediatasEncaminhar para saúde/segurança/abrigo quando necessário; acionar rede conforme protocoloEncaminhamentos formalizados + contatos realizados
4. Definição do acompanhamentoDesignar técnico de referência, pactuar frequência de atendimentos, combinar formas seguras de contatoPlano inicial de acompanhamento
5. Construção do plano PAEFIDefinir objetivos, ações, responsáveis, prazos, indicadores e plano de segurançaPlano PAEFI assinado/pactuado (conforme rotina local)
6. Execução e monitoramentoAtendimentos, visitas planejadas, articulação com rede, reavaliação periódica do riscoRegistros de evolução + revisões do plano
7. Reuniões de redeAlinhar responsabilidades, evitar duplicidade, pactuar contrarreferênciaAta/registro de reunião + fluxos acordados

Exemplo de fluxo de notificação/encaminhamento articulado com a rede local

A seguir, um exemplo de fluxo para um caso típico: suspeita de violência contra criança/adolescente identificada pela escola e encaminhada ao CREAS. Ajuste conforme a rede e protocolos do município.

Cenário

A escola observa mudanças comportamentais e sinais físicos em uma adolescente. A equipe escolar comunica a família, mas percebe inconsistências e mantém preocupação. A escola aciona a rede e encaminha ao CREAS para acompanhamento especializado.

Fluxo sugerido (passo a passo)

  1. Entrada da demanda: CREAS recebe encaminhamento formal da escola (com informações mínimas necessárias: identificação, sinais observados, contatos, urgência).
  2. Acolhida no CREAS: atendimento reservado com a adolescente e responsável (se isso não aumentar risco). Se houver suspeita de que o responsável é autor ou conivente, organizar atendimento de forma protetiva e avaliar estratégia segura.
  3. Avaliação de risco: verificar risco imediato, necessidade de atendimento de saúde, possibilidade de retorno seguro ao domicílio, presença do suposto autor.
  4. Acionamento do Conselho Tutelar: quando envolver criança/adolescente e necessidade de medidas protetivas, o CREAS articula com o Conselho Tutelar, compartilhando apenas o essencial e registrando o acionamento.
  5. Encaminhamento para saúde: se houver indícios de violência sexual ou necessidade clínica, articular atendimento na rede de saúde (com prioridade e orientação sobre preservação de segurança).
  6. Plano PAEFI: definir objetivos (proteção imediata, acompanhamento psicossocial, fortalecimento de rede, garantia de frequência escolar) e ações (atendimentos, visitas planejadas, reuniões de rede).
  7. Reunião de rede (quando pertinente): CREAS + escola + saúde + Conselho Tutelar para pactuar responsabilidades, comunicação e monitoramento (com dados minimizados).
  8. Contrarreferência: solicitar devolutivas formais (ex.: confirmação de atendimento na saúde, medidas aplicadas pelo Conselho Tutelar, estratégias da escola para proteção).
  9. Monitoramento contínuo: reavaliar risco a cada atendimento; ajustar plano; registrar evolução e novos encaminhamentos.

Modelo simples de comunicação/encaminhamento (texto-base)

Encaminhamento ao CREAS/PAEFI (síntese técnica) Data: __/__/____  Unidade/Serviço: ______  Profissional: ______  Contato institucional: ______  Identificação do usuário: ______  Motivo do encaminhamento (objetivo e breve): ______  Sinais/indícios observados (sem detalhes desnecessários): ______  Risco imediato percebido? ( ) Sim ( ) Não  Qual: ______  Ações já realizadas pela unidade: ______  Necessidades urgentes: ______  Solicitação ao CREAS: acompanhamento especializado / avaliação de risco / articulação de rede  Observações de segurança (ex.: melhor horário/forma de contato): ______

Esse modelo ajuda a padronizar a informação, reduzir retrabalho e proteger dados sensíveis, mantendo o foco naquilo que é necessário para a proteção e o acompanhamento.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao receber uma demanda de violência doméstica no CREAS, qual conduta está mais alinhada ao PAEFI para organizar o atendimento e reduzir riscos?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No PAEFI, o CREAS deve acolher sem revitimizar, avaliar risco e necessidades, adotar medidas imediatas quando necessário e organizar um plano de acompanhamento com metas, responsáveis, prazos, registros técnicos e articulação com a rede e o SGD.

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Alta Complexidade no SUAS: acolhimento, medidas protetivas e desinstitucionalização

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