CREAS como unidade de referência da Proteção Social Especial de Média Complexidade
O CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) é a unidade pública responsável por ofertar atendimento especializado a indivíduos e famílias que vivenciam violação de direitos e precisam de acompanhamento técnico continuado, sem que, necessariamente, haja afastamento do convívio familiar. Na prática, o CREAS organiza a resposta do SUAS para situações que exigem: escuta qualificada, avaliação de risco, proteção, articulação com a rede e registro técnico cuidadoso.
O CREAS atua como referência para a Proteção Social Especial de Média Complexidade, atendendo casos em que há:
- Violência física, psicológica, sexual e institucional;
- Negligência e abandono;
- Trabalho infantil e exploração;
- Violação de direitos de crianças e adolescentes (inclusive situações envolvendo medidas protetivas articuladas com o Sistema de Garantia de Direitos);
- Violência contra a mulher e outras violências de gênero (articulando com serviços especializados da rede);
- Violência contra pessoas idosas e pessoas com deficiência;
- Situações de rua e outras vulnerabilidades que demandem acompanhamento especializado, conforme a organização local dos serviços.
O que diferencia o atendimento do CREAS
- Foco na violação de direitos: o objetivo é interromper/reduzir a violência, proteger a pessoa e fortalecer capacidades de proteção familiar e comunitária.
- Plano de acompanhamento: metas, responsabilidades e prazos, com monitoramento.
- Articulação intersetorial: saúde, educação, segurança pública, justiça, conselhos e serviços especializados.
- Registros técnicos e proteção de dados: documentação organizada, sigilosa e útil para continuidade do cuidado e para encaminhamentos.
PAEFI no CREAS: finalidade e componentes do atendimento
O PAEFI (Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos) é o principal serviço ofertado no CREAS. Ele organiza o acompanhamento especializado de famílias e indivíduos em situação de ameaça ou violação de direitos, buscando: cessar a violência, reduzir danos, fortalecer vínculos protetivos e articular acesso a direitos.
1) Acolhida (primeiro atendimento)
A acolhida é o momento de receber a demanda com escuta qualificada e postura protetiva. Pode ocorrer por procura espontânea, encaminhamento da rede (escola, UBS, Conselho Tutelar, Judiciário, etc.) ou por identificação ativa do território (quando houver).
- Objetivos práticos: compreender o motivo da procura, identificar urgências, explicar o que o CREAS pode ofertar, pactuar próximos passos.
- Cuidados: evitar revitimização (não pedir repetição detalhada do fato sem necessidade), garantir privacidade, avaliar se há risco imediato.
- Produto esperado: registro inicial com informações essenciais e definição de prioridade/urgência.
2) Avaliação de risco e necessidades (triagem qualificada)
Após a acolhida, realiza-se uma avaliação técnica para entender gravidade, frequência, ameaças, rede de apoio e condições de proteção. Essa avaliação orienta o nível de prioridade e a estratégia de acompanhamento.
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Exemplos de perguntas orientadoras (adaptar ao caso e ao público):
- Há risco atual de nova agressão? O autor tem acesso à vítima?
- Há ameaças explícitas? Uso de armas? Controle coercitivo?
- A pessoa tem onde ficar com segurança hoje?
- Há crianças/adolescentes expostos? Há sinais de abuso/violência?
- Há dependência econômica do agressor? Há isolamento social?
- Há necessidade de atendimento de saúde imediato (lesões, saúde mental, profilaxias, etc.)?
Resultado: classificação de prioridade (ex.: risco alto/médio/baixo, conforme protocolo local) e definição de medidas imediatas (encaminhamentos urgentes, proteção, acionamentos).
3) Plano de acompanhamento (PAEFI)
O plano de acompanhamento é um instrumento de trabalho que organiza o que será feito, por quem e em qual prazo. Deve ser construído com participação do usuário/família, respeitando autonomia e segurança.
Elementos mínimos recomendáveis:
- Objetivos (ex.: aumentar segurança; interromper violência; garantir frequência escolar; acessar tratamento de saúde; regularizar documentação; fortalecer rede de apoio).
- Ações do CREAS (atendimentos individuais/familiares, visitas, articulação com rede, grupos quando houver).
- Ações da rede (UBS, CAPS, escola, Conselho Tutelar, Defensoria, serviços para mulheres, etc.).
- Responsáveis (técnico de referência, serviços parceiros, família/usuário).
- Prazos e indicadores (ex.: comparecimento a atendimentos; cessação de contato com agressor; matrícula/retorno escolar; medidas protetivas solicitadas).
- Plano de segurança (quando aplicável): contatos de emergência, rotas seguras, pessoas de confiança, sinais de alerta.
4) Acompanhamento: atendimentos, visitas e monitoramento
O acompanhamento no PAEFI combina atendimentos no CREAS e ações no território, conforme necessidade e segurança.
- Atendimentos individuais: foco na proteção, fortalecimento de autonomia, orientação sobre direitos, redução de danos e construção de estratégias seguras.
- Atendimentos familiares: quando apropriado e seguro, para reorganizar funções protetivas, pactuar rotinas e reduzir fatores de risco.
- Visitas domiciliares: usadas para compreender contexto, verificar condições de proteção e articular rede. Devem ser planejadas com análise de risco (evitar expor a vítima ao agressor ou aumentar perigo).
- Monitoramento: revisão periódica do plano, reavaliação de risco e atualização de encaminhamentos.
5) Articulação com o Sistema de Garantia de Direitos (SGD) e rede local
O CREAS não atua sozinho. Em violações de direitos, é comum a necessidade de acionar e articular com:
- Conselho Tutelar (quando envolve criança/adolescente e medidas de proteção);
- Saúde (UBS, CAPS, hospitais, serviços de atenção a violências);
- Educação (escola, EJA, busca ativa e proteção escolar);
- Segurança pública (quando há risco iminente, boletim de ocorrência, medidas protetivas, patrulhas especializadas onde existirem);
- Justiça e defesa de direitos (Defensoria, Ministério Público, Judiciário, serviços de orientação jurídica);
- Rede especializada (centros de referência para mulheres, serviços para população em situação de rua, organizações conveniadas, etc.).
A articulação deve ser pactuada, com definição de responsabilidades, evitando encaminhamentos “soltos” e repetição de relatos pela vítima.
6) Registros necessários e organização do prontuário
Os registros no CREAS são parte do cuidado e da proteção. Devem ser objetivos, fidedignos, datados e úteis para continuidade do acompanhamento e para comunicação com a rede, sempre respeitando sigilo e proteção de dados.
Boas práticas de registro:
- Registrar fatos observáveis e falas relevantes com indicação de fonte (ex.: “relato da usuária”, “informação da escola”).
- Evitar julgamentos morais e rótulos (substituir “mãe negligente” por descrição objetiva do que ocorreu).
- Separar hipóteses técnicas de fatos confirmados.
- Controlar acesso ao prontuário e compartilhar informações apenas com finalidade de proteção e mínimo necessário.
Itens que costumam compor o prontuário (ajustar ao padrão municipal):
- Ficha de acolhida/atendimento inicial;
- Avaliação de risco e necessidades;
- Plano de acompanhamento e revisões;
- Registros de atendimentos e visitas;
- Encaminhamentos realizados e devolutivas recebidas;
- Termos/autorizações quando aplicáveis;
- Relatórios técnicos (quando solicitados e pertinentes).
Manejo de situações de violência e violações de direitos: orientações práticas
Princípios de atuação no CREAS (na prática)
- Não revitimizar: reduzir repetição de relatos, evitar perguntas invasivas sem necessidade e respeitar o tempo da pessoa.
- Centralidade na segurança: antes de qualquer plano, garantir que a pessoa não esteja em risco imediato.
- Autonomia com proteção: informar opções e consequências, apoiar decisões seguras, respeitando limites legais (especialmente em casos com crianças/adolescentes).
- Sigilo e proteção de dados: compartilhar apenas o necessário, com cuidado redobrado em casos com agressor na família ou na comunidade.
- Atuação em rede: encaminhar com responsabilidade (contato prévio, confirmação de acesso, retorno/contrarreferência).
Violência física e psicológica (inclui violência doméstica)
Passo a passo de manejo:
- Acolher e validar o relato sem culpabilizar a vítima.
- Avaliar risco imediato: agressor presente? ameaça atual? possibilidade de retorno seguro para casa?
- Plano de segurança: contatos, local seguro, documentos essenciais, sinais de alerta, estratégias de saída.
- Encaminhar para saúde se houver lesões ou sofrimento intenso (e registrar).
- Articular com rede para proteção e responsabilização quando necessário (segurança pública, justiça, serviços especializados).
- Iniciar/atualizar plano PAEFI com metas objetivas e monitoramento.
Violência sexual (criança/adolescente ou adulto)
Casos de violência sexual exigem cuidado reforçado para evitar revitimização e preservar evidências quando aplicável. O CREAS deve organizar a proteção socioassistencial e articular com saúde, proteção e justiça conforme o caso.
- Cuidados imediatos: privacidade, escuta sem detalhes desnecessários, avaliação de risco e necessidade de atendimento de saúde urgente.
- Articulação: saúde (atendimento especializado), Conselho Tutelar (quando criança/adolescente), rede de proteção e órgãos competentes conforme protocolo local.
- Registro: descrever com cautela, indicando fonte, evitando interpretações.
Negligência e abandono
Negligência deve ser analisada com critério: pode envolver ausência de cuidados por incapacidade, adoecimento, uso problemático de substâncias, sobrecarga, pobreza e falta de rede. O CREAS avalia risco, proteção e necessidade de medidas protetivas, articulando com a rede.
Passo a passo:
- Identificar quais cuidados estão faltando (alimentação, higiene, saúde, supervisão, escola).
- Avaliar capacidade protetiva e rede de apoio.
- Definir ações imediatas (saúde, escola, benefícios/serviços, proteção).
- Pactuar plano de acompanhamento com metas observáveis (ex.: consultas, rotina escolar, organização de cuidados).
- Se houver risco grave e persistente para criança/adolescente, articular medidas protetivas via Conselho Tutelar e rede.
Trabalho infantil e exploração
O CREAS atua para interromper a violação, proteger a criança/adolescente e apoiar a família na reorganização de renda, cuidados e acesso a direitos. A abordagem deve evitar culpabilização e considerar fatores econômicos e culturais, sem relativizar a violação.
Passo a passo:
- Identificar tipo de atividade, jornada, riscos e quem se beneficia.
- Avaliar impacto em escola, saúde e segurança.
- Articular com educação (frequência escolar), saúde e rede de proteção.
- Construir plano PAEFI com metas: retirada da situação, alternativas de proteção, fortalecimento familiar.
- Quando houver exploração por terceiros, articular com órgãos competentes conforme protocolo local.
Outras violações frequentes (exemplos)
- Violência contra pessoa idosa: avaliar dependência do cuidador, risco financeiro/patrimonial, isolamento; articular saúde, rede de proteção e serviços jurídicos quando necessário.
- Violência contra pessoa com deficiência: garantir acessibilidade na comunicação, avaliar barreiras e dependências; articular reabilitação, saúde mental e proteção.
- Violência institucional: registrar com precisão, acionar instâncias de controle e proteção conforme o caso, preservando a segurança do usuário.
Cuidados éticos, sigilo, proteção de dados e segurança
Sigilo profissional e compartilhamento responsável
No CREAS, o sigilo é regra e o compartilhamento de informações deve seguir o princípio do mínimo necessário para proteção e continuidade do atendimento. Antes de repassar informações:
- Defina a finalidade (proteção? acesso a serviço? medida protetiva?).
- Compartilhe apenas o essencial e preferencialmente por canais institucionais.
- Evite expor endereço, rotina e contatos quando isso puder aumentar risco.
- Quando possível e seguro, informe o usuário sobre encaminhamentos e comunicações.
Proteção de dados no cotidiano
- Guardar prontuários em local seguro (físico ou digital) com controle de acesso.
- Evitar envio de dados sensíveis por meios pessoais; priorizar e-mails institucionais e sistemas oficiais.
- Em reuniões de rede, discutir o caso com dados minimizados (sem detalhes íntimos desnecessários).
- Em documentos, usar linguagem técnica, objetiva e sem exposição indevida.
Segurança da equipe e do usuário
- Planejar visitas com avaliação de risco (horário, dupla, comunicação com a unidade, rota).
- Evitar confrontar agressor; o foco do CREAS é proteção e acompanhamento, articulando com órgãos competentes quando há ameaça.
- Garantir ambiente reservado para atendimento e cuidado com presença de acompanhantes (especialmente quando podem ser autores da violência).
Roteiro prático de atendimento no CREAS (PAEFI)
Use o roteiro abaixo como guia operacional, adaptando ao protocolo municipal e à complexidade do caso.
| Etapa | O que fazer | Produto/registro |
|---|---|---|
| 1. Recepção e acolhida | Garantir privacidade, escuta qualificada, identificar urgências, explicar o serviço | Registro do atendimento inicial + identificação de urgência |
| 2. Avaliação de risco | Mapear risco imediato, ameaças, acesso do agressor, rede de apoio, necessidades de saúde e proteção | Ficha/nota técnica de avaliação de risco |
| 3. Medidas imediatas | Encaminhar para saúde/segurança/abrigo quando necessário; acionar rede conforme protocolo | Encaminhamentos formalizados + contatos realizados |
| 4. Definição do acompanhamento | Designar técnico de referência, pactuar frequência de atendimentos, combinar formas seguras de contato | Plano inicial de acompanhamento |
| 5. Construção do plano PAEFI | Definir objetivos, ações, responsáveis, prazos, indicadores e plano de segurança | Plano PAEFI assinado/pactuado (conforme rotina local) |
| 6. Execução e monitoramento | Atendimentos, visitas planejadas, articulação com rede, reavaliação periódica do risco | Registros de evolução + revisões do plano |
| 7. Reuniões de rede | Alinhar responsabilidades, evitar duplicidade, pactuar contrarreferência | Ata/registro de reunião + fluxos acordados |
Exemplo de fluxo de notificação/encaminhamento articulado com a rede local
A seguir, um exemplo de fluxo para um caso típico: suspeita de violência contra criança/adolescente identificada pela escola e encaminhada ao CREAS. Ajuste conforme a rede e protocolos do município.
Cenário
A escola observa mudanças comportamentais e sinais físicos em uma adolescente. A equipe escolar comunica a família, mas percebe inconsistências e mantém preocupação. A escola aciona a rede e encaminha ao CREAS para acompanhamento especializado.
Fluxo sugerido (passo a passo)
- Entrada da demanda: CREAS recebe encaminhamento formal da escola (com informações mínimas necessárias: identificação, sinais observados, contatos, urgência).
- Acolhida no CREAS: atendimento reservado com a adolescente e responsável (se isso não aumentar risco). Se houver suspeita de que o responsável é autor ou conivente, organizar atendimento de forma protetiva e avaliar estratégia segura.
- Avaliação de risco: verificar risco imediato, necessidade de atendimento de saúde, possibilidade de retorno seguro ao domicílio, presença do suposto autor.
- Acionamento do Conselho Tutelar: quando envolver criança/adolescente e necessidade de medidas protetivas, o CREAS articula com o Conselho Tutelar, compartilhando apenas o essencial e registrando o acionamento.
- Encaminhamento para saúde: se houver indícios de violência sexual ou necessidade clínica, articular atendimento na rede de saúde (com prioridade e orientação sobre preservação de segurança).
- Plano PAEFI: definir objetivos (proteção imediata, acompanhamento psicossocial, fortalecimento de rede, garantia de frequência escolar) e ações (atendimentos, visitas planejadas, reuniões de rede).
- Reunião de rede (quando pertinente): CREAS + escola + saúde + Conselho Tutelar para pactuar responsabilidades, comunicação e monitoramento (com dados minimizados).
- Contrarreferência: solicitar devolutivas formais (ex.: confirmação de atendimento na saúde, medidas aplicadas pelo Conselho Tutelar, estratégias da escola para proteção).
- Monitoramento contínuo: reavaliar risco a cada atendimento; ajustar plano; registrar evolução e novos encaminhamentos.
Modelo simples de comunicação/encaminhamento (texto-base)
Encaminhamento ao CREAS/PAEFI (síntese técnica) Data: __/__/____ Unidade/Serviço: ______ Profissional: ______ Contato institucional: ______ Identificação do usuário: ______ Motivo do encaminhamento (objetivo e breve): ______ Sinais/indícios observados (sem detalhes desnecessários): ______ Risco imediato percebido? ( ) Sim ( ) Não Qual: ______ Ações já realizadas pela unidade: ______ Necessidades urgentes: ______ Solicitação ao CREAS: acompanhamento especializado / avaliação de risco / articulação de rede Observações de segurança (ex.: melhor horário/forma de contato): ______Esse modelo ajuda a padronizar a informação, reduzir retrabalho e proteger dados sensíveis, mantendo o foco naquilo que é necessário para a proteção e o acompanhamento.