Serigrafia em tecido: emulsão, gravação da tela e definição de matriz para camisetas

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Visão geral do processo: do arquivo à tela pronta

Neste capítulo, o objetivo é transformar uma arte (arquivo) em uma matriz de serigrafia pronta para estampar camisetas. A matriz é a combinação de: tela + emulsão + gravação (exposição) + revelação + bloqueios. O resultado final deve ter áreas abertas (por onde a tinta passa) e áreas fechadas (onde a tinta não passa), com bordas nítidas e sem vazamentos.

  • Entrada: arquivo/arte final (vetor ou bitmap de alta qualidade).
  • Saída: tela emulsionada, gravada, revelada, seca, inspecionada e bloqueada.

Emulsão: tipos, sensibilidade e compatibilidade com tintas

O que é emulsão e por que ela importa

Emulsão é o revestimento fotossensível aplicado na tela. Após a exposição à luz, ela endurece nas áreas iluminadas e permanece solúvel nas áreas protegidas pelo preto do fotolito. Assim, a emulsão define exatamente o desenho que será “vazado” na malha.

Tipos comuns de emulsão (na prática)

  • Emulsão diazo (bicromatada/diazo): costuma ter boa tolerância e é popular para uso geral. Normalmente exige mistura com sensibilizador (diazo). Em geral, é menos “rápida” na exposição, o que pode ajudar iniciantes a acertarem o tempo.
  • Fotopolímero (pronta para uso): geralmente mais sensível (exposição mais rápida) e pode entregar alta definição, mas exige mais controle de luz ambiente e consistência no processo.
  • Dual cure (diazo + fotopolímero): combina características (boa resistência e boa definição), muito usada quando se busca durabilidade e detalhes.

Sensibilidade à luz e controle de ambiente

Quanto mais sensível a emulsão, mais ela reage a luz ambiente. Isso afeta desde a aplicação até a secagem. Trabalhe com iluminação fraca/indireta (preferencialmente amarela) e evite luz solar direta no local de emulsão e secagem.

Compatibilidade com tintas (o que observar)

A emulsão precisa resistir ao tipo de tinta e ao processo de limpeza durante a tiragem. Como regra prática:

  • Tintas à base de água: exigem emulsão com boa resistência à água e ao atrito, pois a tela fica mais tempo “molhada” durante a impressão. Emulsões com resistência a água/umidade são preferíveis.
  • Tintas plastisol: geralmente são menos agressivas à emulsão durante a impressão, mas a limpeza pode envolver produtos específicos. Emulsões com boa resistência química ajudam.
  • Descarga/alto teor de aditivos: podem ser mais exigentes. Verifique no rótulo/ficha técnica se a emulsão é indicada para esse uso.

Dica prática: se você pretende trabalhar principalmente com tinta à base de água em camisetas, priorize emulsões com indicação clara de resistência à água e boa durabilidade de stencil.

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Aplicação uniforme da emulsão com calha (coater)

Preparação antes de emulsionar

  • Garanta que a tela esteja limpa e seca. Qualquer resíduo pode causar falhas (pinholes) e bordas ruins.
  • Separe um local escuro/controle de luz para aplicação e secagem.
  • Tenha a calha limpa e sem rebarbas; rebarbas criam riscos e linhas na emulsão.

Como segurar e posicionar a tela

Trabalhe com a tela na vertical (apoiada) ou em um suporte estável. Identifique os lados:

  • Lado do rodo (print side): lado que ficará em contato com o tecido na hora de imprimir.
  • Lado do raclo/calha (squeegee side): lado por onde você puxa o rodo na impressão.

Na gravação, é comum buscar um stencil com boa definição no lado de impressão. A forma de emulsionar (quantidade e distribuição) influencia isso.

Passo a passo: emulsionar com calha

  1. Carregue a calha: despeje emulsão suficiente para formar uma “linha” contínua dentro da calha, sem bolhas.
  2. Encoste a calha na base da tela: com ângulo constante (aprox. 10–20°), encoste a borda da calha na tela.
  3. Suba com pressão uniforme: puxe a calha para cima em movimento contínuo, mantendo pressão e ângulo constantes. Evite parar no meio.
  4. Faça a demão do outro lado: repita no lado oposto, buscando simetria.
  5. Finalize com “passada de acabamento” (opcional): uma passada mais leve pode ajudar a nivelar, mas excesso pode afinar demais o stencil.

Número de demãos (orientação prática)

O número de demãos depende do detalhe da arte e da tinta, mas um ponto de partida comum:

  • Detalhe fino (traços, tipografia pequena): 1 demão de cada lado (1x1) tende a dar stencil mais fino e definição melhor.
  • Áreas chapadas grandes (preto sólido, massas): 2 demãos no lado do rodo + 1 no lado de impressão (2x1) pode aumentar a resistência do stencil e reduzir risco de “quebrar” durante tiragem.

Importante: mais emulsão não significa sempre melhor. Excesso pode reduzir definição e dificultar revelação.

Secagem em ambiente controlado

A secagem correta evita stencil frágil e falhas. O ideal é secar em local:

  • Escuro (sem luz UV/sol).
  • Com ventilação (circulação de ar constante).
  • Com baixa umidade (umidade alta pode deixar a emulsão pegajosa e subexposta).

Posição recomendada: secar com o lado de impressão para baixo (print side para baixo). Isso ajuda a emulsão “assentar” e formar uma superfície mais lisa do lado que encosta no tecido, favorecendo bordas mais nítidas.

Critério de pronto: toque leve na borda interna do quadro (não no centro do stencil) e verifique se não há sensação pegajosa. A tela deve estar completamente seca antes de expor.

Criação do fotolito/arte: preto sólido, densidade e espelhamento

Requisitos da arte para gravar bem

Para a emulsão “entender” o desenho, o fotolito precisa bloquear luz nas áreas que serão vazadas. Isso exige preto sólido e alta densidade.

  • Preto sólido: áreas pretas devem ser 100% opacas (sem cinza, sem transparência).
  • Densidade: quanto mais luz o preto bloquear, mais fácil obter bordas nítidas e evitar “fechamento” de detalhes na revelação.
  • Resolução (se for bitmap): use alta resolução para evitar serrilhado. Para artes com linhas finas, prefira vetor.

Espelhamento: quando é necessário

O espelhamento depende de como o fotolito encosta na tela durante a exposição:

  • Se o fotolito ficar em contato com o lado de impressão e você quer que a arte saia correta no tecido, geralmente não é necessário espelhar (depende do seu fluxo).
  • Se o fotolito for aplicado do lado oposto ao de impressão, ou se você estiver gravando pensando no contato e na leitura final, pode ser necessário espelhar.

Teste rápido: pegue uma palavra da arte e simule como ela ficará quando a tela encostar no tecido. Se a leitura final no tecido ficar invertida, você precisa espelhar o fotolito.

Montagem do fotolito para exposição

  • Contato perfeito: o fotolito deve encostar bem na tela para evitar “halo” (bordas borradas). Qualquer espaço cria sombra e perde definição.
  • Fixação: use fita transparente apenas nas bordas do fotolito, sem invadir a área de imagem.
  • Orientação: posicione a arte considerando o sentido de impressão e a área útil do quadro.

Exposição: fonte de luz, teste de tempo e gravação

Fonte de luz adequada

Você precisa de uma fonte com emissão UV/forte o suficiente para endurecer a emulsão de forma consistente. O mais importante é ter repetibilidade: mesma distância, mesmo tempo, mesma montagem.

  • Distância: mantenha uma distância fixa entre a luz e a tela. Distâncias diferentes mudam o tempo necessário.
  • Uniformidade: a luz deve cobrir toda a área da arte sem “pontos quentes” extremos.

Teste de tempo (tira de teste)

Como cada combinação (emulsão + espessura + luz + distância) muda o tempo ideal, faça uma tira de teste sempre que trocar algo importante.

Como fazer:

  1. Prepare uma tela emulsionada e seca (pode ser uma tela de teste).
  2. Coloque um pequeno fotolito com linhas e textos finos + áreas chapadas.
  3. Cubra parte do fotolito com uma cartolina opaca.
  4. Exponha por um tempo base (ex.: 30s, 60s, 90s… dependendo do seu equipamento).
  5. A cada intervalo, deslize a cartolina para revelar uma nova faixa e continue expondo. Assim, uma única tela terá várias “janelas” com tempos diferentes.
  6. Revele e observe qual faixa entrega: detalhe aberto sem perder borda e chapados sem “comer” o desenho.

Leitura do resultado:

  • Subexposição: a emulsão sai fácil demais, bordas derretem, detalhes finos “somem” ou abrem demais, e o stencil fica frágil.
  • Superexposição: dificuldade para abrir áreas, detalhes finos não revelam, partes pretas ficam parcialmente fechadas.

Exposição da tela final

  1. Posicione o fotolito no lado escolhido (priorize contato firme).
  2. Garanta pressão/contato constante (vidro limpo ajuda muito a manter contato).
  3. Exponha pelo tempo definido no teste.
  4. Após expor, mantenha a tela longe de luz forte até iniciar a revelação.

Lavagem/revelação: abrindo o desenho com controle

Passo a passo para revelar sem estragar bordas

  1. Molho inicial: umedeça os dois lados da tela com água (sem jato agressivo) para “acordar” a emulsão não exposta.
  2. Tempo curto de amolecimento: aguarde alguns segundos para a água penetrar (evite deixar encharcado por muito tempo).
  3. Revelação: use um jato moderado, começando pelo lado oposto ao fotolito e depois pelo lado do fotolito, até abrir completamente as áreas do desenho.
  4. Controle de pressão: aumente a pressão apenas se necessário e com cuidado em detalhes finos.
  5. Checagem contra luz: levante a tela contra uma luz ambiente (não sol direto) para ver se todas as áreas do desenho estão abertas.

Erro comum: usar jato forte cedo demais. Isso pode “lavar” bordas e criar falhas em linhas finas.

Secagem após revelação

Seque completamente antes de retocar e bloquear. Tela úmida dificulta identificar pinholes e pode comprometer adesão de bloqueadores.

  • Remova excesso de água com cuidado.
  • Deixe secar em local ventilado e controlado (sem luz direta).

Inspeção de bordas e qualidade do stencil

Checklist de inspeção (antes de imprimir)

  • Bordas nítidas: contorno do desenho sem serrilhado excessivo ou “halo”.
  • Detalhes abertos: linhas finas e miolos (ex.: letras) totalmente vazados.
  • Sem pinholes: microfuros fora da área do desenho (pontos de passagem de tinta indesejados).
  • Stencil resistente: emulsão bem aderida, sem áreas descascando.

Retocar pinholes (tapa-furos) e corrigir falhas

O que são pinholes e por que aparecem

Pinholes são microaberturas indesejadas na emulsão, geralmente causadas por poeira, bolhas na emulsão, tela mal limpa, secagem inadequada ou aplicação irregular.

Como retocar com tapa-furos (passo a passo)

  1. Garanta a tela seca: retocar com umidade reduz a aderência.
  2. Identifique os pinholes: use uma luz por trás da tela para enxergar pontos de passagem.
  3. Aplique tapa-furos: com pincel fino ou aplicador, cubra apenas o ponto. Evite invadir o desenho.
  4. Seque o retoque: aguarde secar totalmente antes de imprimir.

Alternativa prática: em alguns casos, um pequeno toque de emulsão pode funcionar como tapa-furos, desde que seque bem e não reaja com a tinta do seu processo.

Bloqueio de áreas para evitar vazamentos de tinta (fita e bloqueador)

Por que bloquear

Mesmo com a gravação correta, áreas fora do desenho podem permitir passagem de tinta: bordas internas do quadro, emendas, pequenas falhas e regiões onde a emulsão ficou fina. O bloqueio cria uma “barreira” para evitar vazamentos e sujeira na camiseta.

Bloqueio com fita (procedimento)

  1. Com a tela seca, aplique fita resistente nas bordas internas do quadro, cobrindo a transição entre malha e madeira/alumínio.
  2. Vede também áreas de malha que não serão usadas (ex.: laterais), deixando apenas a janela de impressão necessária.
  3. Pressione bem para evitar que tinta infiltre por baixo.

Bloqueio líquido (bloqueador) para vedação fina

  1. Use bloqueador próprio para serigrafia nas áreas onde a fita não resolve bem (cantos, microfalhas, regiões irregulares).
  2. Aplique em camada fina e uniforme, evitando escorrer para dentro do desenho.
  3. Seque completamente antes de imprimir.

Teste rápido de vedação antes da primeira camiseta

Antes de imprimir a peça final, faça um teste simples:

  • Coloque a tela em posição e passe uma pequena quantidade de tinta apenas para verificar se há vazamentos nas bordas e pontos fora do desenho.
  • Se aparecerem pontos indesejados, pare e corrija com fita/bloqueador/tapa-furos, espere secar e teste novamente.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao preparar uma tela para estampar camisetas com tinta à base de água, qual escolha tende a reduzir problemas de desgaste do stencil durante a impressão?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Tintas à base de água mantêm a tela mais tempo “molhada” e exigem maior resistência à água e ao atrito. Por isso, a escolha de uma emulsão indicada para esse uso ajuda a evitar desgaste e falhas durante a tiragem.

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