Visão geral do processo: do arquivo à tela pronta
Neste capítulo, o objetivo é transformar uma arte (arquivo) em uma matriz de serigrafia pronta para estampar camisetas. A matriz é a combinação de: tela + emulsão + gravação (exposição) + revelação + bloqueios. O resultado final deve ter áreas abertas (por onde a tinta passa) e áreas fechadas (onde a tinta não passa), com bordas nítidas e sem vazamentos.
- Entrada: arquivo/arte final (vetor ou bitmap de alta qualidade).
- Saída: tela emulsionada, gravada, revelada, seca, inspecionada e bloqueada.
Emulsão: tipos, sensibilidade e compatibilidade com tintas
O que é emulsão e por que ela importa
Emulsão é o revestimento fotossensível aplicado na tela. Após a exposição à luz, ela endurece nas áreas iluminadas e permanece solúvel nas áreas protegidas pelo preto do fotolito. Assim, a emulsão define exatamente o desenho que será “vazado” na malha.
Tipos comuns de emulsão (na prática)
- Emulsão diazo (bicromatada/diazo): costuma ter boa tolerância e é popular para uso geral. Normalmente exige mistura com sensibilizador (diazo). Em geral, é menos “rápida” na exposição, o que pode ajudar iniciantes a acertarem o tempo.
- Fotopolímero (pronta para uso): geralmente mais sensível (exposição mais rápida) e pode entregar alta definição, mas exige mais controle de luz ambiente e consistência no processo.
- Dual cure (diazo + fotopolímero): combina características (boa resistência e boa definição), muito usada quando se busca durabilidade e detalhes.
Sensibilidade à luz e controle de ambiente
Quanto mais sensível a emulsão, mais ela reage a luz ambiente. Isso afeta desde a aplicação até a secagem. Trabalhe com iluminação fraca/indireta (preferencialmente amarela) e evite luz solar direta no local de emulsão e secagem.
Compatibilidade com tintas (o que observar)
A emulsão precisa resistir ao tipo de tinta e ao processo de limpeza durante a tiragem. Como regra prática:
- Tintas à base de água: exigem emulsão com boa resistência à água e ao atrito, pois a tela fica mais tempo “molhada” durante a impressão. Emulsões com resistência a água/umidade são preferíveis.
- Tintas plastisol: geralmente são menos agressivas à emulsão durante a impressão, mas a limpeza pode envolver produtos específicos. Emulsões com boa resistência química ajudam.
- Descarga/alto teor de aditivos: podem ser mais exigentes. Verifique no rótulo/ficha técnica se a emulsão é indicada para esse uso.
Dica prática: se você pretende trabalhar principalmente com tinta à base de água em camisetas, priorize emulsões com indicação clara de resistência à água e boa durabilidade de stencil.
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Aplicação uniforme da emulsão com calha (coater)
Preparação antes de emulsionar
- Garanta que a tela esteja limpa e seca. Qualquer resíduo pode causar falhas (pinholes) e bordas ruins.
- Separe um local escuro/controle de luz para aplicação e secagem.
- Tenha a calha limpa e sem rebarbas; rebarbas criam riscos e linhas na emulsão.
Como segurar e posicionar a tela
Trabalhe com a tela na vertical (apoiada) ou em um suporte estável. Identifique os lados:
- Lado do rodo (print side): lado que ficará em contato com o tecido na hora de imprimir.
- Lado do raclo/calha (squeegee side): lado por onde você puxa o rodo na impressão.
Na gravação, é comum buscar um stencil com boa definição no lado de impressão. A forma de emulsionar (quantidade e distribuição) influencia isso.
Passo a passo: emulsionar com calha
- Carregue a calha: despeje emulsão suficiente para formar uma “linha” contínua dentro da calha, sem bolhas.
- Encoste a calha na base da tela: com ângulo constante (aprox. 10–20°), encoste a borda da calha na tela.
- Suba com pressão uniforme: puxe a calha para cima em movimento contínuo, mantendo pressão e ângulo constantes. Evite parar no meio.
- Faça a demão do outro lado: repita no lado oposto, buscando simetria.
- Finalize com “passada de acabamento” (opcional): uma passada mais leve pode ajudar a nivelar, mas excesso pode afinar demais o stencil.
Número de demãos (orientação prática)
O número de demãos depende do detalhe da arte e da tinta, mas um ponto de partida comum:
- Detalhe fino (traços, tipografia pequena): 1 demão de cada lado (1x1) tende a dar stencil mais fino e definição melhor.
- Áreas chapadas grandes (preto sólido, massas): 2 demãos no lado do rodo + 1 no lado de impressão (2x1) pode aumentar a resistência do stencil e reduzir risco de “quebrar” durante tiragem.
Importante: mais emulsão não significa sempre melhor. Excesso pode reduzir definição e dificultar revelação.
Secagem em ambiente controlado
A secagem correta evita stencil frágil e falhas. O ideal é secar em local:
- Escuro (sem luz UV/sol).
- Com ventilação (circulação de ar constante).
- Com baixa umidade (umidade alta pode deixar a emulsão pegajosa e subexposta).
Posição recomendada: secar com o lado de impressão para baixo (print side para baixo). Isso ajuda a emulsão “assentar” e formar uma superfície mais lisa do lado que encosta no tecido, favorecendo bordas mais nítidas.
Critério de pronto: toque leve na borda interna do quadro (não no centro do stencil) e verifique se não há sensação pegajosa. A tela deve estar completamente seca antes de expor.
Criação do fotolito/arte: preto sólido, densidade e espelhamento
Requisitos da arte para gravar bem
Para a emulsão “entender” o desenho, o fotolito precisa bloquear luz nas áreas que serão vazadas. Isso exige preto sólido e alta densidade.
- Preto sólido: áreas pretas devem ser 100% opacas (sem cinza, sem transparência).
- Densidade: quanto mais luz o preto bloquear, mais fácil obter bordas nítidas e evitar “fechamento” de detalhes na revelação.
- Resolução (se for bitmap): use alta resolução para evitar serrilhado. Para artes com linhas finas, prefira vetor.
Espelhamento: quando é necessário
O espelhamento depende de como o fotolito encosta na tela durante a exposição:
- Se o fotolito ficar em contato com o lado de impressão e você quer que a arte saia correta no tecido, geralmente não é necessário espelhar (depende do seu fluxo).
- Se o fotolito for aplicado do lado oposto ao de impressão, ou se você estiver gravando pensando no contato e na leitura final, pode ser necessário espelhar.
Teste rápido: pegue uma palavra da arte e simule como ela ficará quando a tela encostar no tecido. Se a leitura final no tecido ficar invertida, você precisa espelhar o fotolito.
Montagem do fotolito para exposição
- Contato perfeito: o fotolito deve encostar bem na tela para evitar “halo” (bordas borradas). Qualquer espaço cria sombra e perde definição.
- Fixação: use fita transparente apenas nas bordas do fotolito, sem invadir a área de imagem.
- Orientação: posicione a arte considerando o sentido de impressão e a área útil do quadro.
Exposição: fonte de luz, teste de tempo e gravação
Fonte de luz adequada
Você precisa de uma fonte com emissão UV/forte o suficiente para endurecer a emulsão de forma consistente. O mais importante é ter repetibilidade: mesma distância, mesmo tempo, mesma montagem.
- Distância: mantenha uma distância fixa entre a luz e a tela. Distâncias diferentes mudam o tempo necessário.
- Uniformidade: a luz deve cobrir toda a área da arte sem “pontos quentes” extremos.
Teste de tempo (tira de teste)
Como cada combinação (emulsão + espessura + luz + distância) muda o tempo ideal, faça uma tira de teste sempre que trocar algo importante.
Como fazer:
- Prepare uma tela emulsionada e seca (pode ser uma tela de teste).
- Coloque um pequeno fotolito com linhas e textos finos + áreas chapadas.
- Cubra parte do fotolito com uma cartolina opaca.
- Exponha por um tempo base (ex.: 30s, 60s, 90s… dependendo do seu equipamento).
- A cada intervalo, deslize a cartolina para revelar uma nova faixa e continue expondo. Assim, uma única tela terá várias “janelas” com tempos diferentes.
- Revele e observe qual faixa entrega: detalhe aberto sem perder borda e chapados sem “comer” o desenho.
Leitura do resultado:
- Subexposição: a emulsão sai fácil demais, bordas derretem, detalhes finos “somem” ou abrem demais, e o stencil fica frágil.
- Superexposição: dificuldade para abrir áreas, detalhes finos não revelam, partes pretas ficam parcialmente fechadas.
Exposição da tela final
- Posicione o fotolito no lado escolhido (priorize contato firme).
- Garanta pressão/contato constante (vidro limpo ajuda muito a manter contato).
- Exponha pelo tempo definido no teste.
- Após expor, mantenha a tela longe de luz forte até iniciar a revelação.
Lavagem/revelação: abrindo o desenho com controle
Passo a passo para revelar sem estragar bordas
- Molho inicial: umedeça os dois lados da tela com água (sem jato agressivo) para “acordar” a emulsão não exposta.
- Tempo curto de amolecimento: aguarde alguns segundos para a água penetrar (evite deixar encharcado por muito tempo).
- Revelação: use um jato moderado, começando pelo lado oposto ao fotolito e depois pelo lado do fotolito, até abrir completamente as áreas do desenho.
- Controle de pressão: aumente a pressão apenas se necessário e com cuidado em detalhes finos.
- Checagem contra luz: levante a tela contra uma luz ambiente (não sol direto) para ver se todas as áreas do desenho estão abertas.
Erro comum: usar jato forte cedo demais. Isso pode “lavar” bordas e criar falhas em linhas finas.
Secagem após revelação
Seque completamente antes de retocar e bloquear. Tela úmida dificulta identificar pinholes e pode comprometer adesão de bloqueadores.
- Remova excesso de água com cuidado.
- Deixe secar em local ventilado e controlado (sem luz direta).
Inspeção de bordas e qualidade do stencil
Checklist de inspeção (antes de imprimir)
- Bordas nítidas: contorno do desenho sem serrilhado excessivo ou “halo”.
- Detalhes abertos: linhas finas e miolos (ex.: letras) totalmente vazados.
- Sem pinholes: microfuros fora da área do desenho (pontos de passagem de tinta indesejados).
- Stencil resistente: emulsão bem aderida, sem áreas descascando.
Retocar pinholes (tapa-furos) e corrigir falhas
O que são pinholes e por que aparecem
Pinholes são microaberturas indesejadas na emulsão, geralmente causadas por poeira, bolhas na emulsão, tela mal limpa, secagem inadequada ou aplicação irregular.
Como retocar com tapa-furos (passo a passo)
- Garanta a tela seca: retocar com umidade reduz a aderência.
- Identifique os pinholes: use uma luz por trás da tela para enxergar pontos de passagem.
- Aplique tapa-furos: com pincel fino ou aplicador, cubra apenas o ponto. Evite invadir o desenho.
- Seque o retoque: aguarde secar totalmente antes de imprimir.
Alternativa prática: em alguns casos, um pequeno toque de emulsão pode funcionar como tapa-furos, desde que seque bem e não reaja com a tinta do seu processo.
Bloqueio de áreas para evitar vazamentos de tinta (fita e bloqueador)
Por que bloquear
Mesmo com a gravação correta, áreas fora do desenho podem permitir passagem de tinta: bordas internas do quadro, emendas, pequenas falhas e regiões onde a emulsão ficou fina. O bloqueio cria uma “barreira” para evitar vazamentos e sujeira na camiseta.
Bloqueio com fita (procedimento)
- Com a tela seca, aplique fita resistente nas bordas internas do quadro, cobrindo a transição entre malha e madeira/alumínio.
- Vede também áreas de malha que não serão usadas (ex.: laterais), deixando apenas a janela de impressão necessária.
- Pressione bem para evitar que tinta infiltre por baixo.
Bloqueio líquido (bloqueador) para vedação fina
- Use bloqueador próprio para serigrafia nas áreas onde a fita não resolve bem (cantos, microfalhas, regiões irregulares).
- Aplique em camada fina e uniforme, evitando escorrer para dentro do desenho.
- Seque completamente antes de imprimir.
Teste rápido de vedação antes da primeira camiseta
Antes de imprimir a peça final, faça um teste simples:
- Coloque a tela em posição e passe uma pequena quantidade de tinta apenas para verificar se há vazamentos nas bordas e pontos fora do desenho.
- Se aparecerem pontos indesejados, pare e corrija com fita/bloqueador/tapa-furos, espere secar e teste novamente.