O que é a “base de impressão” (platen) e por que ela evita borrões
Na serigrafia em camisetas, a base de impressão (platen) é a superfície onde a peça fica apoiada e fixada durante a passada do rodo. Ela precisa estar plana, nivelada e com aderência controlada para que o tecido não deslize, não estique além do necessário e não “cole” na tela. Borrões e serrilhados quase sempre aparecem quando há movimento relativo entre camiseta, tela e rodo (mesmo que mínimo) ou quando a tela encosta demais no tecido durante a impressão.
Preparação da base (platen): nivelamento, revestimento e adesivo
1) Nivelamento e verificação de plano
Objetivo: garantir que a base esteja paralela à tela e sem “barriga” (empeno). Se a base estiver torta, você compensa com pressão no rodo sem perceber, gerando falhas de cobertura de um lado e borrão do outro.
- Cheque o plano: use uma régua reta (ou nível) encostada em diferentes direções na base. Procure folgas e pontos altos.
- Cheque o paralelismo com a tela: com a tela abaixada (sem tinta), observe se a distância entre tela e base é uniforme nas quatro extremidades.
- Ajuste: se sua mesa tiver regulagem, corrija pelos parafusos/pés. Se não tiver, calce a base com lâminas finas (papel cartão, acetato, fita) até ficar estável.
2) Revestimento da base (proteção e limpeza rápida)
Revestir a base facilita a limpeza e mantém a aderência do adesivo mais previsível.
- Opção prática: aplique uma camada de fita larga (ex.: fita kraft ou fita de embalagem) sobre a superfície da base, com sobreposição mínima. Evite rugas.
- Troca: em séries pequenas, troque o revestimento quando acumular fiapos, tinta seca ou perder uniformidade de tack.
3) Aplicação do adesivo e “tempo de tack” ideal
O adesivo (spray ou cola de platen) serve para segurar a camiseta no lugar. O ponto crítico é o tack: a aderência “pegajosa” suficiente para não escorregar, mas não tão forte a ponto de puxar o tecido ao levantar a tela.
- Aplicação uniforme: aplique uma névoa fina e homogênea. Excesso cria pontos muito pegajosos e pode marcar o tecido ou acumular sujeira.
- Tempo de tack: aguarde o adesivo “assentar” até ficar pegajoso ao toque, sem transferir para o dedo. Em geral, isso ocorre em 30–120 segundos (varia por produto, temperatura e ventilação).
- Teste rápido: encoste um retalho de tecido e puxe. Deve soltar sem “tranco” e sem deixar resíduo visível.
- Reativação: se o tack cair por poeira/fiapos, limpe a base e reaplique uma camada leve. Evite “empilhar” camadas sem limpeza, pois vira uma película irregular.
Posicionamento da camiseta: esquadro, referências e controle de estiramento
1) Criando referências na base (sem depender do “olhômetro”)
Para repetir posição em série pequena, você precisa de referências fixas na base.
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- Esquadro: marque um “L” de referência com fita (uma linha horizontal e outra vertical) alinhado às bordas da base.
- Centro: marque o centro da base (uma pequena marca) para alinhar o centro da estampa.
- Limites de gola e ombro: faça marcas discretas indicando onde a gola deve parar e onde os ombros devem encostar (ajuda a manter altura constante).
2) Vestindo a camiseta na base (passo a passo)
- Abra a camiseta e deslize sobre a base até a costura do ombro ficar simétrica.
- Alinhe a gola com a marca de altura. A gola não deve ficar “torta” em relação ao esquadro.
- Centralize usando a marca de centro: dobre levemente a camiseta ao meio (sem vincar forte) para achar o meio e alinhar com o centro da base.
- Assente o tecido do centro para fora, com a palma da mão, para expulsar ar e evitar rugas.
- Controle de estiramento: puxe o tecido apenas o suficiente para ficar liso. Se você esticar demais, a estampa pode “encolher” quando a peça relaxar, e o registro pode variar entre camisetas.
3) Evitando que a camiseta levante junto com a tela
Se ao levantar a tela a camiseta “vem junto”, você terá borrão na próxima passada ou ao reposicionar.
- Reduza tack: menos adesivo ou mais tempo de tack antes de colocar a peça.
- Aumente off-contact (ver seção abaixo): tela muito colada no tecido aumenta a chance de puxar a peça.
- Cheque pressão: pressão excessiva no rodo “amassa” o tecido na malha e aumenta aderência entre tinta/tela/tecido.
Alinhamento da tela ao ponto de impressão (setup repetível)
1) “Ponto de impressão” e travas
O ponto de impressão é a posição exata onde a arte na tela encontra a camiseta. Para repetir, a tela precisa voltar sempre ao mesmo lugar.
- Use batentes/travas do suporte (quando houver) para que a tela desça sempre na mesma posição.
- Marcas de referência: com a tela abaixada e a camiseta posicionada, marque discretamente na base (com fita) onde a estampa deve cair (ex.: linha de topo da arte).
2) Checagem de alinhamento antes de colocar tinta
Antes de qualquer tinta, faça um “ensaio a seco”.
- Abaixe a tela sem tinta.
- Observe se a arte está na altura e centralização desejadas em relação às marcas da base.
- Se necessário, ajuste a posição do quadro no suporte e repita até bater.
Off-contact (contato), pressão do rodo, ângulo e velocidade: como cada fator cria ou evita borrões
1) Off-contact: a distância que salva a nitidez
Off-contact é a pequena distância entre a tela e o tecido quando a tela está abaixada, antes da passada. Durante a impressão, a pressão do rodo faz a tela tocar o tecido apenas na linha de contato, e depois a tela “descola” do tecido.
- Pouco off-contact (tela muito colada): aumenta borrão, “fantasma” e risco de a tela arrastar tinta ao voltar.
- Muito off-contact: exige mais pressão para encostar, pode dar falha de cobertura e distorcer a malha, gerando serrilhado.
- Faixa prática: comece com algo em torno de 2–4 mm para camisetas (varia com tensão da tela, tamanho do quadro e área chapada).
2) Pressão do rodo: o mínimo necessário
Pressão é a força aplicada para fazer a tinta atravessar a malha. O erro comum é usar pressão demais para “compensar” problemas de off-contact, tinta ou base.
- Pressão excessiva: empurra tinta para baixo e para os lados, aumenta borrão nas bordas, pode causar serrilhado e deixa a estampa “chapada” demais (perde definição).
- Pressão insuficiente: falha de cobertura, textura irregular, áreas “lavadas”.
- Regra prática: ajuste para que a tela encoste e solte com facilidade, sem precisar “deitar” o rodo.
3) Ângulo do rodo: controla depósito e definição
O ângulo muda o quanto o rodo “corta” a tinta (mais vertical) ou “empurra” (mais deitado).
- Mais vertical (ex.: 70–80°): melhor definição, menos depósito de tinta, tende a reduzir borrão.
- Mais deitado (ex.: 45–60°): deposita mais tinta, pode ajudar cobertura, mas aumenta risco de borrão e serrilhado se combinado com pressão alta.
4) Velocidade e consistência do movimento
Velocidade irregular cria variações de cobertura e borda. O ideal é uma passada contínua.
- Muito rápido: pode falhar cobertura (principalmente em áreas chapadas) e deixar “riscado”.
- Muito lento: aumenta depósito e chance de vazamento lateral, principalmente se a tela estiver muito próxima do tecido.
- Meta: uma passada firme, contínua, com início e fim controlados (sem “frear” em cima da arte).
5) Como esses fatores se manifestam nos defeitos
| Defeito | Causa provável | Ajuste rápido |
|---|---|---|
| Borrão (arrasto) | Tecido deslizando; tack baixo; off-contact baixo; pressão alta; tela não descola | Aumente tack (ou uniformize); aumente off-contact; reduza pressão; confira nivelamento |
| Serrilhado nas bordas | Movimento do tecido; tela distorcendo por pressão; ângulo muito deitado; off-contact alto exigindo força | Reduza pressão; deixe o rodo mais vertical; reduza off-contact se estiver exagerado; estabilize a peça |
| Falta de cobertura | Pressão baixa; ângulo muito vertical; passada rápida; off-contact alto; peça com rugas | Aumente levemente pressão; deite um pouco o rodo; desacelere; assente melhor o tecido |
Passo a passo de setup completo (do zero até a primeira impressão)
- Nivele a base e confirme paralelismo com a tela.
- Revista a base (fita/filme) para superfície limpa e uniforme.
- Aplique adesivo em camada fina e espere o tack ficar pegajoso sem transferir.
- Marque referências (esquadro, centro, altura da gola).
- Posicione a camiseta alinhando gola/ombros e centro; assente do centro para fora; estique só o necessário.
- Abaixe a tela sem tinta e confira alinhamento do ponto de impressão com as marcas.
- Ajuste off-contact para a tela tocar e descolar com facilidade.
- Faça uma impressão de teste em retalho ou camiseta de teste para validar: nitidez, cobertura e se a peça não se move.
- Trave o que for possível (posição do quadro, batentes, marcas) antes de iniciar a série.
Checklist de pré-impressão (para evitar borrões antes de acontecer)
- Base plana e firme (sem balanço)
- Revestimento limpo, sem rugas e sem acúmulo de tinta seca
- Adesivo aplicado em névoa uniforme
- Tack no ponto: segura sem arrancar o tecido ao levantar a tela
- Referências na base (esquadro, centro, altura)
- Camiseta assentada, sem rugas, com estiramento mínimo e consistente
- Tela alinhada ao ponto de impressão e travada
- Off-contact ajustado (tela descola após a passada)
- Rodo com ângulo e pressão definidos (anote para repetir)
- Teste inicial aprovado (nitidez e cobertura)
Rotina para séries pequenas com consistência (5 a 30 peças)
1) Padronize a sequência de movimentos
Faça sempre na mesma ordem: posicionar camiseta → assentar → conferir marcas → imprimir. Mudanças de ordem geram variação de estiramento e alinhamento.
2) Controle de tack ao longo da série
- A cada 3–5 peças, toque a base rapidamente: se estiver “seca” (escorrega), reaplique uma névoa leve e espere o tack.
- Se estiver “grudando demais” e puxando a peça, limpe a área e reaplique menos adesivo, aguardando mais tempo.
3) Marcas de referência como “gabarito”
Não confie na memória visual. Use sempre as marcas de centro e altura. Se trocar o tamanho da camiseta (P/M/G), ajuste as marcas de ombro/gola e faça um novo teste.
4) Microajustes sem perder o padrão
- Se começou a borrar: pare e verifique primeiro movimento da peça (tack e assentamento), depois off-contact, depois pressão.
- Se começou a falhar cobertura: ajuste ângulo/pressão em pequenos incrementos e mantenha a mesma velocidade.
5) Registro e repetição
Anote em um papel preso à mesa (ou em etiqueta no suporte): off-contact aproximado, ângulo do rodo (mais vertical/deitado), sensação de pressão (leve/média) e posição das marcas na base. Isso reduz o “recomeçar do zero” a cada sessão.