Serigrafia em camisetas: preparação da base de impressão e fixação da peça para evitar borrões

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é a “base de impressão” (platen) e por que ela evita borrões

Na serigrafia em camisetas, a base de impressão (platen) é a superfície onde a peça fica apoiada e fixada durante a passada do rodo. Ela precisa estar plana, nivelada e com aderência controlada para que o tecido não deslize, não estique além do necessário e não “cole” na tela. Borrões e serrilhados quase sempre aparecem quando há movimento relativo entre camiseta, tela e rodo (mesmo que mínimo) ou quando a tela encosta demais no tecido durante a impressão.

Preparação da base (platen): nivelamento, revestimento e adesivo

1) Nivelamento e verificação de plano

Objetivo: garantir que a base esteja paralela à tela e sem “barriga” (empeno). Se a base estiver torta, você compensa com pressão no rodo sem perceber, gerando falhas de cobertura de um lado e borrão do outro.

  • Cheque o plano: use uma régua reta (ou nível) encostada em diferentes direções na base. Procure folgas e pontos altos.
  • Cheque o paralelismo com a tela: com a tela abaixada (sem tinta), observe se a distância entre tela e base é uniforme nas quatro extremidades.
  • Ajuste: se sua mesa tiver regulagem, corrija pelos parafusos/pés. Se não tiver, calce a base com lâminas finas (papel cartão, acetato, fita) até ficar estável.

2) Revestimento da base (proteção e limpeza rápida)

Revestir a base facilita a limpeza e mantém a aderência do adesivo mais previsível.

  • Opção prática: aplique uma camada de fita larga (ex.: fita kraft ou fita de embalagem) sobre a superfície da base, com sobreposição mínima. Evite rugas.
  • Troca: em séries pequenas, troque o revestimento quando acumular fiapos, tinta seca ou perder uniformidade de tack.

3) Aplicação do adesivo e “tempo de tack” ideal

O adesivo (spray ou cola de platen) serve para segurar a camiseta no lugar. O ponto crítico é o tack: a aderência “pegajosa” suficiente para não escorregar, mas não tão forte a ponto de puxar o tecido ao levantar a tela.

  • Aplicação uniforme: aplique uma névoa fina e homogênea. Excesso cria pontos muito pegajosos e pode marcar o tecido ou acumular sujeira.
  • Tempo de tack: aguarde o adesivo “assentar” até ficar pegajoso ao toque, sem transferir para o dedo. Em geral, isso ocorre em 30–120 segundos (varia por produto, temperatura e ventilação).
  • Teste rápido: encoste um retalho de tecido e puxe. Deve soltar sem “tranco” e sem deixar resíduo visível.
  • Reativação: se o tack cair por poeira/fiapos, limpe a base e reaplique uma camada leve. Evite “empilhar” camadas sem limpeza, pois vira uma película irregular.

Posicionamento da camiseta: esquadro, referências e controle de estiramento

1) Criando referências na base (sem depender do “olhômetro”)

Para repetir posição em série pequena, você precisa de referências fixas na base.

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  • Esquadro: marque um “L” de referência com fita (uma linha horizontal e outra vertical) alinhado às bordas da base.
  • Centro: marque o centro da base (uma pequena marca) para alinhar o centro da estampa.
  • Limites de gola e ombro: faça marcas discretas indicando onde a gola deve parar e onde os ombros devem encostar (ajuda a manter altura constante).

2) Vestindo a camiseta na base (passo a passo)

  1. Abra a camiseta e deslize sobre a base até a costura do ombro ficar simétrica.
  2. Alinhe a gola com a marca de altura. A gola não deve ficar “torta” em relação ao esquadro.
  3. Centralize usando a marca de centro: dobre levemente a camiseta ao meio (sem vincar forte) para achar o meio e alinhar com o centro da base.
  4. Assente o tecido do centro para fora, com a palma da mão, para expulsar ar e evitar rugas.
  5. Controle de estiramento: puxe o tecido apenas o suficiente para ficar liso. Se você esticar demais, a estampa pode “encolher” quando a peça relaxar, e o registro pode variar entre camisetas.

3) Evitando que a camiseta levante junto com a tela

Se ao levantar a tela a camiseta “vem junto”, você terá borrão na próxima passada ou ao reposicionar.

  • Reduza tack: menos adesivo ou mais tempo de tack antes de colocar a peça.
  • Aumente off-contact (ver seção abaixo): tela muito colada no tecido aumenta a chance de puxar a peça.
  • Cheque pressão: pressão excessiva no rodo “amassa” o tecido na malha e aumenta aderência entre tinta/tela/tecido.

Alinhamento da tela ao ponto de impressão (setup repetível)

1) “Ponto de impressão” e travas

O ponto de impressão é a posição exata onde a arte na tela encontra a camiseta. Para repetir, a tela precisa voltar sempre ao mesmo lugar.

  • Use batentes/travas do suporte (quando houver) para que a tela desça sempre na mesma posição.
  • Marcas de referência: com a tela abaixada e a camiseta posicionada, marque discretamente na base (com fita) onde a estampa deve cair (ex.: linha de topo da arte).

2) Checagem de alinhamento antes de colocar tinta

Antes de qualquer tinta, faça um “ensaio a seco”.

  1. Abaixe a tela sem tinta.
  2. Observe se a arte está na altura e centralização desejadas em relação às marcas da base.
  3. Se necessário, ajuste a posição do quadro no suporte e repita até bater.

Off-contact (contato), pressão do rodo, ângulo e velocidade: como cada fator cria ou evita borrões

1) Off-contact: a distância que salva a nitidez

Off-contact é a pequena distância entre a tela e o tecido quando a tela está abaixada, antes da passada. Durante a impressão, a pressão do rodo faz a tela tocar o tecido apenas na linha de contato, e depois a tela “descola” do tecido.

  • Pouco off-contact (tela muito colada): aumenta borrão, “fantasma” e risco de a tela arrastar tinta ao voltar.
  • Muito off-contact: exige mais pressão para encostar, pode dar falha de cobertura e distorcer a malha, gerando serrilhado.
  • Faixa prática: comece com algo em torno de 2–4 mm para camisetas (varia com tensão da tela, tamanho do quadro e área chapada).

2) Pressão do rodo: o mínimo necessário

Pressão é a força aplicada para fazer a tinta atravessar a malha. O erro comum é usar pressão demais para “compensar” problemas de off-contact, tinta ou base.

  • Pressão excessiva: empurra tinta para baixo e para os lados, aumenta borrão nas bordas, pode causar serrilhado e deixa a estampa “chapada” demais (perde definição).
  • Pressão insuficiente: falha de cobertura, textura irregular, áreas “lavadas”.
  • Regra prática: ajuste para que a tela encoste e solte com facilidade, sem precisar “deitar” o rodo.

3) Ângulo do rodo: controla depósito e definição

O ângulo muda o quanto o rodo “corta” a tinta (mais vertical) ou “empurra” (mais deitado).

  • Mais vertical (ex.: 70–80°): melhor definição, menos depósito de tinta, tende a reduzir borrão.
  • Mais deitado (ex.: 45–60°): deposita mais tinta, pode ajudar cobertura, mas aumenta risco de borrão e serrilhado se combinado com pressão alta.

4) Velocidade e consistência do movimento

Velocidade irregular cria variações de cobertura e borda. O ideal é uma passada contínua.

  • Muito rápido: pode falhar cobertura (principalmente em áreas chapadas) e deixar “riscado”.
  • Muito lento: aumenta depósito e chance de vazamento lateral, principalmente se a tela estiver muito próxima do tecido.
  • Meta: uma passada firme, contínua, com início e fim controlados (sem “frear” em cima da arte).

5) Como esses fatores se manifestam nos defeitos

DefeitoCausa provávelAjuste rápido
Borrão (arrasto)Tecido deslizando; tack baixo; off-contact baixo; pressão alta; tela não descolaAumente tack (ou uniformize); aumente off-contact; reduza pressão; confira nivelamento
Serrilhado nas bordasMovimento do tecido; tela distorcendo por pressão; ângulo muito deitado; off-contact alto exigindo forçaReduza pressão; deixe o rodo mais vertical; reduza off-contact se estiver exagerado; estabilize a peça
Falta de coberturaPressão baixa; ângulo muito vertical; passada rápida; off-contact alto; peça com rugasAumente levemente pressão; deite um pouco o rodo; desacelere; assente melhor o tecido

Passo a passo de setup completo (do zero até a primeira impressão)

  1. Nivele a base e confirme paralelismo com a tela.
  2. Revista a base (fita/filme) para superfície limpa e uniforme.
  3. Aplique adesivo em camada fina e espere o tack ficar pegajoso sem transferir.
  4. Marque referências (esquadro, centro, altura da gola).
  5. Posicione a camiseta alinhando gola/ombros e centro; assente do centro para fora; estique só o necessário.
  6. Abaixe a tela sem tinta e confira alinhamento do ponto de impressão com as marcas.
  7. Ajuste off-contact para a tela tocar e descolar com facilidade.
  8. Faça uma impressão de teste em retalho ou camiseta de teste para validar: nitidez, cobertura e se a peça não se move.
  9. Trave o que for possível (posição do quadro, batentes, marcas) antes de iniciar a série.

Checklist de pré-impressão (para evitar borrões antes de acontecer)

  • Base plana e firme (sem balanço)
  • Revestimento limpo, sem rugas e sem acúmulo de tinta seca
  • Adesivo aplicado em névoa uniforme
  • Tack no ponto: segura sem arrancar o tecido ao levantar a tela
  • Referências na base (esquadro, centro, altura)
  • Camiseta assentada, sem rugas, com estiramento mínimo e consistente
  • Tela alinhada ao ponto de impressão e travada
  • Off-contact ajustado (tela descola após a passada)
  • Rodo com ângulo e pressão definidos (anote para repetir)
  • Teste inicial aprovado (nitidez e cobertura)

Rotina para séries pequenas com consistência (5 a 30 peças)

1) Padronize a sequência de movimentos

Faça sempre na mesma ordem: posicionar camiseta → assentar → conferir marcas → imprimir. Mudanças de ordem geram variação de estiramento e alinhamento.

2) Controle de tack ao longo da série

  • A cada 3–5 peças, toque a base rapidamente: se estiver “seca” (escorrega), reaplique uma névoa leve e espere o tack.
  • Se estiver “grudando demais” e puxando a peça, limpe a área e reaplique menos adesivo, aguardando mais tempo.

3) Marcas de referência como “gabarito”

Não confie na memória visual. Use sempre as marcas de centro e altura. Se trocar o tamanho da camiseta (P/M/G), ajuste as marcas de ombro/gola e faça um novo teste.

4) Microajustes sem perder o padrão

  • Se começou a borrar: pare e verifique primeiro movimento da peça (tack e assentamento), depois off-contact, depois pressão.
  • Se começou a falhar cobertura: ajuste ângulo/pressão em pequenos incrementos e mantenha a mesma velocidade.

5) Registro e repetição

Anote em um papel preso à mesa (ou em etiqueta no suporte): off-contact aproximado, ângulo do rodo (mais vertical/deitado), sensação de pressão (leve/média) e posição das marcas na base. Isso reduz o “recomeçar do zero” a cada sessão.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao perceber borrões porque a camiseta se moveu levemente durante a passada do rodo, qual ajuste está mais alinhado com a preparação correta da base e fixação da peça?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Borrões costumam surgir por movimento relativo entre peça, tela e rodo. Uma aplicação uniforme de adesivo e o tempo correto de tack ajudam a camiseta a não deslizar, sem grudar a ponto de levantar junto com a tela.

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