Por que a sequência de ponteamento define o alinhamento
Ponteamento (tack weld) é a “costura provisória” que mantém a estrutura no lugar até a solda final. Em estruturas metálicas leves, o ponteamento não serve apenas para segurar: ele já começa a “soldar” a geometria. Se os pontos forem grandes demais, colocados em sequência no mesmo lado ou concentrados em uma região, o calor cria contrações localizadas que puxam o quadro, gerando empeno, abertura/fechamento de ângulos e torção.
O que o calor faz com a peça (e por que ela entorta)
Ao aplicar um ponto de solda, a região aquecida dilata. Ao resfriar, ela contrai e “encurta” localmente. Essa contração funciona como um pequeno tirante que puxa as barras na direção do cordão/ponto. Em perfis leves (tubos finos, cantoneiras pequenas), a rigidez é baixa e a peça cede com facilidade, então a contração vira deformação visível.
- Contração assimétrica: pontos só de um lado ou em uma única face puxam o conjunto para esse lado.
- Contração concentrada: muitos pontos próximos somam encurtamento e criam “barriga”/arqueamento.
- Travamento excessivo: grampos muito rígidos seguram a peça durante a contração; ao soltar, a deformação aparece “depois”, como efeito mola.
Parâmetros operacionais do ponteamento (tamanho, quantidade e espaçamento)
Tamanho do ponto (regra prática)
O ponto deve ser o menor que ainda resista ao manuseio e à sequência de montagem. Como referência operacional:
- Ponto curto: 6 a 10 mm (uso geral em tubos leves e quadros pequenos).
- Ponto médio: 10 a 15 mm (quando haverá movimentação, travessas ou chapa puxando).
- Evite “ponto-cordão”: pontos longos (ex.: >20 mm) já se comportam como solda parcial e aumentam muito a contração.
Quantidade de pontos por junta
Distribua a retenção em vez de “engordar” um único ponto:
- Junta de canto (mitra ou topo): 2 a 4 pontos pequenos, em faces alternadas quando possível.
- Junta com travessa: 2 pontos por lado da travessa (ou 4 pontos total), priorizando simetria.
- Junta com chapa: mais pontos curtos e espaçados, para “domar” a tendência de a chapa puxar e ondular.
Espaçamento entre pontos
Para ponteamento de retenção (antes da solda final), use espaçamento que mantenha a folga fechada sem criar uma linha rígida contínua:
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- Quadros leves sem chapa: pontos em regiões-chave (cantos e meios), evitando “costurar” toda a junta.
- Com chapa/fechamento parcial: pontos mais frequentes e uniformes ao redor da chapa, porém sempre alternando lados e com pontos curtos.
Princípios de sequência: alternância, simetria e ordem de execução
1) Alternância de lados (anti-puxamento)
Se você ponteia um canto pelo lado A, o próximo ponto relevante deve ser no lado oposto (lado B) ou no canto diagonalmente oposto. Isso distribui a contração e reduz a tendência de “fechar” o quadro para um lado.
2) Simetria (neutralização de contração)
Trate cada ponto como uma força de tração. Para neutralizar, aplique um ponto equivalente em posição espelhada sempre que possível. Exemplo: após ponteiar o canto superior esquerdo, ponteie o canto inferior direito antes de reforçar o mesmo canto.
3) Ordem do “travamento progressivo”
Não finalize um canto com muitos pontos antes de “prender” os demais. A ordem recomendada é:
- Primeiro: pontos mínimos para manter a geometria global (cantos).
- Depois: pontos de estabilização (meios de lados, travessas).
- Por último: pontos adicionais apenas onde houver necessidade de rigidez para manuseio ou para receber chapa.
Alívio progressivo dos grampos: como evitar que a peça “salte” ao soltar
Grampos e apoios seguram a estrutura durante o aquecimento e resfriamento. Se tudo estiver travado e você soltar de uma vez, a peça pode liberar tensões e deformar. Use um alívio progressivo:
- Após o primeiro ciclo de ponteamento simétrico, aguarde alguns segundos para resfriamento superficial (sem pressa de “encher” pontos).
- Solte parcialmente um grampo por vez (meia volta/pequeno alívio), observando se abre folga ou muda o esquadro.
- Reaperte apenas o necessário para manter contato/encosto; evite esmagar o perfil.
- Complete os pontos de estabilização e repita o alívio em sequência.
Dica prática: se ao aliviar um grampo a junta abre, isso indica que a contração está puxando. Em vez de “forçar” com o grampo, compense com ponteamento simétrico no lado oposto ou no ponto espelhado, e só então ajuste novamente.
Fluxo operacional 1: quadro simples (retângulo sem travessas)
Objetivo
Travar a geometria com o mínimo de calor, distribuindo contrações em cantos opostos e alternando faces.
Passo a passo
- Ponto 1: canto A (ex.: superior esquerdo), ponto curto.
- Ponto 2: canto C (diagonal oposto), ponto curto.
- Ponto 3: canto B (superior direito), ponto curto.
- Ponto 4: canto D (inferior esquerdo), ponto curto.
- Repetição em face oposta: volte aos cantos A e C e aplique um segundo ponto pequeno na face oposta (se houver acesso), depois B e D.
- Estabilização dos lados: aplique 1 ponto no meio de cada lado longo, alternando lados (um lado longo, depois o oposto), e só então nos lados curtos se necessário.
- Alívio progressivo: alivie grampos gradualmente e observe se há abertura de junta ou “banana” em algum lado; corrija com ponto espelhado, não com ponto maior.
Erros comuns e correção
- Erro: fazer 3–4 pontos seguidos no mesmo canto para “garantir”. Correção: pare, vá para o canto diagonal e aplique ponto equivalente; retorne alternando.
- Erro: ponto muito longo no primeiro canto. Correção: reduza o tamanho e aumente a quantidade distribuída, mantendo simetria.
Fluxo operacional 2: quadro com travessas (uma ou mais)
Objetivo
Evitar que a travessa “puxe” o quadro para dentro (encurtando um lado) e evitar torção por ponteamento unilateral.
Sequência recomendada (uma travessa central)
- Trave o perímetro primeiro: execute o ponteamento do quadro simples (cantos alternados/diagonais) com pontos mínimos.
- Posicione a travessa e aplique 2 pontos curtos em uma extremidade (um em cada face acessível, ou em lados opostos da junta).
- Vá para a outra extremidade da travessa e aplique 2 pontos curtos equivalentes.
- Reforce de forma espelhada: se precisar de mais retenção, aplique mais 1 ponto em cada extremidade, alternando (extremidade 1, depois extremidade 2).
- Travessas múltiplas: trabalhe do centro para fora, sempre alternando a travessa seguinte no lado oposto do quadro para equilibrar contrações.
- Alívio progressivo: alivie grampos do perímetro antes de aliviar os da travessa, em pequenas etapas, observando se a travessa está “encolhendo” o vão.
Observação prática
Se a travessa estiver ligeiramente “forçando” para entrar (ajuste apertado), ela tende a puxar mais ao ponteiar. Nesses casos, prefira pontos ainda menores e mais simétricos, e evite concentrar calor em uma única extremidade.
Fluxo operacional 3: quadro com chapa/fechamento parcial
Objetivo
Controlar ondulação da chapa e evitar que o quadro “embarque” (empeno em forma de prato) devido à contração distribuída ao longo do fechamento.
Sequência recomendada
- Ponteie e verifique o quadro base (perímetro e travessas, se houver) com pontos mínimos e simétricos antes de encostar a chapa.
- Assentamento inicial da chapa: aplique 4 pontos curtos nos quatro cantos da chapa (ou nos extremos do fechamento parcial), alternando cantos em diagonal.
- Pontos de meio: aplique pontos nos meios das bordas da chapa, alternando lados opostos (meio de cima, meio de baixo, meio da esquerda, meio da direita).
- Divisão por metades: continue preenchendo pontos sempre “quebrando o vão” pela metade (entre canto e meio), alternando lados opostos, até a chapa ficar estável.
- Controle de calor: mantenha pontos curtos e espaçados; evite fazer uma sequência contínua ao longo de uma mesma borda.
- Alívio progressivo: alivie grampos em etapas, começando pelos mais próximos do centro do fechamento e indo para as extremidades, observando se surge arqueamento.
Quando o fechamento é parcial (apenas um trecho)
O trecho com chapa fica mais rígido e “manda” no conjunto. Para não criar torção:
- ponteie o fechamento parcial em padrão alternado e simétrico em relação ao centro do trecho;
- aplique pontos de compensação no lado oposto do quadro (em juntas equivalentes), se perceber tendência de puxar para o lado do fechamento.
Checklist de verificação após o ponteamento (antes da solda final)
Use esta lista como liberação obrigatória. Se algo estiver fora, corrija agora (com ajuste mecânico e ponteamentos simétricos), não na solda final.
- Diagonais: medir e comparar; se diferirem, identificar qual canto “fechou” e corrigir com alívio/ajuste e pontos espelhados.
- Esquadro nos cantos: conferir ângulos; se um canto abriu/fechou, evitar reforçar esse canto com mais calor; compensar no oposto.
- Torção: verificar se os quatro cantos apoiam no mesmo plano; se houver “canto alto”, aliviar grampos e redistribuir ponteamentos (alternando faces) antes de travar novamente.
- Prumo/retitude de montantes (quando houver): checar se algum elemento ficou inclinado após ponteamento; corrigir com reposicionamento e pontos simétricos.
- Folgas e contato nas juntas: observar abertura após alívio progressivo; se abriu, reduzir tensão (reajuste) e aplicar ponto curto no lado oposto/espelhado.
- Distribuição dos pontos: confirmar que não há concentração de pontos longos em um único lado; se houver, interromper e equilibrar com pontos equivalentes em posição oposta.