Sequência de ponteamento para evitar empeno em estruturas metálicas leves

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Por que a sequência de ponteamento define o alinhamento

Ponteamento (tack weld) é a “costura provisória” que mantém a estrutura no lugar até a solda final. Em estruturas metálicas leves, o ponteamento não serve apenas para segurar: ele já começa a “soldar” a geometria. Se os pontos forem grandes demais, colocados em sequência no mesmo lado ou concentrados em uma região, o calor cria contrações localizadas que puxam o quadro, gerando empeno, abertura/fechamento de ângulos e torção.

O que o calor faz com a peça (e por que ela entorta)

Ao aplicar um ponto de solda, a região aquecida dilata. Ao resfriar, ela contrai e “encurta” localmente. Essa contração funciona como um pequeno tirante que puxa as barras na direção do cordão/ponto. Em perfis leves (tubos finos, cantoneiras pequenas), a rigidez é baixa e a peça cede com facilidade, então a contração vira deformação visível.

  • Contração assimétrica: pontos só de um lado ou em uma única face puxam o conjunto para esse lado.
  • Contração concentrada: muitos pontos próximos somam encurtamento e criam “barriga”/arqueamento.
  • Travamento excessivo: grampos muito rígidos seguram a peça durante a contração; ao soltar, a deformação aparece “depois”, como efeito mola.

Parâmetros operacionais do ponteamento (tamanho, quantidade e espaçamento)

Tamanho do ponto (regra prática)

O ponto deve ser o menor que ainda resista ao manuseio e à sequência de montagem. Como referência operacional:

  • Ponto curto: 6 a 10 mm (uso geral em tubos leves e quadros pequenos).
  • Ponto médio: 10 a 15 mm (quando haverá movimentação, travessas ou chapa puxando).
  • Evite “ponto-cordão”: pontos longos (ex.: >20 mm) já se comportam como solda parcial e aumentam muito a contração.

Quantidade de pontos por junta

Distribua a retenção em vez de “engordar” um único ponto:

  • Junta de canto (mitra ou topo): 2 a 4 pontos pequenos, em faces alternadas quando possível.
  • Junta com travessa: 2 pontos por lado da travessa (ou 4 pontos total), priorizando simetria.
  • Junta com chapa: mais pontos curtos e espaçados, para “domar” a tendência de a chapa puxar e ondular.

Espaçamento entre pontos

Para ponteamento de retenção (antes da solda final), use espaçamento que mantenha a folga fechada sem criar uma linha rígida contínua:

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  • Quadros leves sem chapa: pontos em regiões-chave (cantos e meios), evitando “costurar” toda a junta.
  • Com chapa/fechamento parcial: pontos mais frequentes e uniformes ao redor da chapa, porém sempre alternando lados e com pontos curtos.

Princípios de sequência: alternância, simetria e ordem de execução

1) Alternância de lados (anti-puxamento)

Se você ponteia um canto pelo lado A, o próximo ponto relevante deve ser no lado oposto (lado B) ou no canto diagonalmente oposto. Isso distribui a contração e reduz a tendência de “fechar” o quadro para um lado.

2) Simetria (neutralização de contração)

Trate cada ponto como uma força de tração. Para neutralizar, aplique um ponto equivalente em posição espelhada sempre que possível. Exemplo: após ponteiar o canto superior esquerdo, ponteie o canto inferior direito antes de reforçar o mesmo canto.

3) Ordem do “travamento progressivo”

Não finalize um canto com muitos pontos antes de “prender” os demais. A ordem recomendada é:

  • Primeiro: pontos mínimos para manter a geometria global (cantos).
  • Depois: pontos de estabilização (meios de lados, travessas).
  • Por último: pontos adicionais apenas onde houver necessidade de rigidez para manuseio ou para receber chapa.

Alívio progressivo dos grampos: como evitar que a peça “salte” ao soltar

Grampos e apoios seguram a estrutura durante o aquecimento e resfriamento. Se tudo estiver travado e você soltar de uma vez, a peça pode liberar tensões e deformar. Use um alívio progressivo:

  1. Após o primeiro ciclo de ponteamento simétrico, aguarde alguns segundos para resfriamento superficial (sem pressa de “encher” pontos).
  2. Solte parcialmente um grampo por vez (meia volta/pequeno alívio), observando se abre folga ou muda o esquadro.
  3. Reaperte apenas o necessário para manter contato/encosto; evite esmagar o perfil.
  4. Complete os pontos de estabilização e repita o alívio em sequência.

Dica prática: se ao aliviar um grampo a junta abre, isso indica que a contração está puxando. Em vez de “forçar” com o grampo, compense com ponteamento simétrico no lado oposto ou no ponto espelhado, e só então ajuste novamente.

Fluxo operacional 1: quadro simples (retângulo sem travessas)

Objetivo

Travar a geometria com o mínimo de calor, distribuindo contrações em cantos opostos e alternando faces.

Passo a passo

  1. Ponto 1: canto A (ex.: superior esquerdo), ponto curto.
  2. Ponto 2: canto C (diagonal oposto), ponto curto.
  3. Ponto 3: canto B (superior direito), ponto curto.
  4. Ponto 4: canto D (inferior esquerdo), ponto curto.
  5. Repetição em face oposta: volte aos cantos A e C e aplique um segundo ponto pequeno na face oposta (se houver acesso), depois B e D.
  6. Estabilização dos lados: aplique 1 ponto no meio de cada lado longo, alternando lados (um lado longo, depois o oposto), e só então nos lados curtos se necessário.
  7. Alívio progressivo: alivie grampos gradualmente e observe se há abertura de junta ou “banana” em algum lado; corrija com ponto espelhado, não com ponto maior.

Erros comuns e correção

  • Erro: fazer 3–4 pontos seguidos no mesmo canto para “garantir”. Correção: pare, vá para o canto diagonal e aplique ponto equivalente; retorne alternando.
  • Erro: ponto muito longo no primeiro canto. Correção: reduza o tamanho e aumente a quantidade distribuída, mantendo simetria.

Fluxo operacional 2: quadro com travessas (uma ou mais)

Objetivo

Evitar que a travessa “puxe” o quadro para dentro (encurtando um lado) e evitar torção por ponteamento unilateral.

Sequência recomendada (uma travessa central)

  1. Trave o perímetro primeiro: execute o ponteamento do quadro simples (cantos alternados/diagonais) com pontos mínimos.
  2. Posicione a travessa e aplique 2 pontos curtos em uma extremidade (um em cada face acessível, ou em lados opostos da junta).
  3. Vá para a outra extremidade da travessa e aplique 2 pontos curtos equivalentes.
  4. Reforce de forma espelhada: se precisar de mais retenção, aplique mais 1 ponto em cada extremidade, alternando (extremidade 1, depois extremidade 2).
  5. Travessas múltiplas: trabalhe do centro para fora, sempre alternando a travessa seguinte no lado oposto do quadro para equilibrar contrações.
  6. Alívio progressivo: alivie grampos do perímetro antes de aliviar os da travessa, em pequenas etapas, observando se a travessa está “encolhendo” o vão.

Observação prática

Se a travessa estiver ligeiramente “forçando” para entrar (ajuste apertado), ela tende a puxar mais ao ponteiar. Nesses casos, prefira pontos ainda menores e mais simétricos, e evite concentrar calor em uma única extremidade.

Fluxo operacional 3: quadro com chapa/fechamento parcial

Objetivo

Controlar ondulação da chapa e evitar que o quadro “embarque” (empeno em forma de prato) devido à contração distribuída ao longo do fechamento.

Sequência recomendada

  1. Ponteie e verifique o quadro base (perímetro e travessas, se houver) com pontos mínimos e simétricos antes de encostar a chapa.
  2. Assentamento inicial da chapa: aplique 4 pontos curtos nos quatro cantos da chapa (ou nos extremos do fechamento parcial), alternando cantos em diagonal.
  3. Pontos de meio: aplique pontos nos meios das bordas da chapa, alternando lados opostos (meio de cima, meio de baixo, meio da esquerda, meio da direita).
  4. Divisão por metades: continue preenchendo pontos sempre “quebrando o vão” pela metade (entre canto e meio), alternando lados opostos, até a chapa ficar estável.
  5. Controle de calor: mantenha pontos curtos e espaçados; evite fazer uma sequência contínua ao longo de uma mesma borda.
  6. Alívio progressivo: alivie grampos em etapas, começando pelos mais próximos do centro do fechamento e indo para as extremidades, observando se surge arqueamento.

Quando o fechamento é parcial (apenas um trecho)

O trecho com chapa fica mais rígido e “manda” no conjunto. Para não criar torção:

  • ponteie o fechamento parcial em padrão alternado e simétrico em relação ao centro do trecho;
  • aplique pontos de compensação no lado oposto do quadro (em juntas equivalentes), se perceber tendência de puxar para o lado do fechamento.

Checklist de verificação após o ponteamento (antes da solda final)

Use esta lista como liberação obrigatória. Se algo estiver fora, corrija agora (com ajuste mecânico e ponteamentos simétricos), não na solda final.

  • Diagonais: medir e comparar; se diferirem, identificar qual canto “fechou” e corrigir com alívio/ajuste e pontos espelhados.
  • Esquadro nos cantos: conferir ângulos; se um canto abriu/fechou, evitar reforçar esse canto com mais calor; compensar no oposto.
  • Torção: verificar se os quatro cantos apoiam no mesmo plano; se houver “canto alto”, aliviar grampos e redistribuir ponteamentos (alternando faces) antes de travar novamente.
  • Prumo/retitude de montantes (quando houver): checar se algum elemento ficou inclinado após ponteamento; corrigir com reposicionamento e pontos simétricos.
  • Folgas e contato nas juntas: observar abertura após alívio progressivo; se abriu, reduzir tensão (reajuste) e aplicar ponto curto no lado oposto/espelhado.
  • Distribuição dos pontos: confirmar que não há concentração de pontos longos em um único lado; se houver, interromper e equilibrar com pontos equivalentes em posição oposta.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao ponteiar um quadro metálico leve, qual prática ajuda a reduzir o risco de empeno e torção causados pela contração do calor?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Pontos curtos e alternados em posições opostas distribuem as contrações e reduzem o “puxamento” para um lado. Travar primeiro os cantos com o mínimo de calor e só depois estabilizar meios/travessas ajuda a manter alinhamento e esquadro.

Próximo capitúlo

Correções após ponteamento: como recuperar esquadro, diagonais e alinhamento

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