Correções após ponteamento: como recuperar esquadro, diagonais e alinhamento

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que são “correções após ponteamento” e por que fazer antes da solda definitiva

Após o ponteamento, a estrutura já tem rigidez suficiente para “segurar” a forma, mas ainda permite ajustes. Correções nessa fase servem para recuperar esquadro, diagonais e alinhamento sem acumular tensões que, na solda definitiva, viram empeno, torção ou abertura de junta. A regra prática é: corrija primeiro a geometria (medidas e ângulos), depois corrija o plano (empeno/torção), e só então avance para a solda final.

Diagnóstico: descobrir de onde vem o erro antes de “forçar” a estrutura

1) Medir diagonais e localizar o canto “culpado”

Quando as diagonais diferem, o quadro está “losangado”. Para localizar onde atuar, observe: o canto que “abre” costuma ser o oposto ao lado que está “puxando”. Em estruturas retangulares, uma diferença pequena pode ser corrigida com ajuste mecânico; diferença grande geralmente indica problema de corte ou montagem.

2) Inspecionar comprimentos reais das peças

Antes de tentar corrigir com força, confirme se os lados opostos têm o mesmo comprimento e se as travessas estão na medida. Se uma peça estiver fora de medida, você pode até “fechar” as diagonais na marra, mas vai criar tensão interna e desalinhamento em outro ponto.

3) Checar ângulos de corte e encostos

Erros comuns: mitra fora de 45°/90°, ponta “barrigada” por rebarba, ou encosto incompleto (peça apoiando só em um ponto). Se o encontro não encosta por inteiro, o ponteamento pode ter travado a peça em posição falsa.

4) Revisar o gabarito e os apoios

Se o gabarito estiver com folga, batente torto ou apoio alto/baixo, ele induz erro. Um sinal típico é: você solta os grampos e a estrutura “volta” para uma posição diferente. Isso indica que a fixação estava forçando a geometria.

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5) Reexecutar ponteamento após correção

Depois de corrigir, o ponteamento deve ser refeito de modo a travar a forma correta. Se você corrige e não reponteia, a peça pode retornar ao erro durante a manipulação ou na solda final.

Limites de correção: quando ajustar e quando desmontar/refazer

Quando a correção é aceitável

  • Diferenças pequenas de diagonais que fecham com grampos/alavanca sem deformar visivelmente os perfis.
  • Pequenos desalinhamentos de borda (degrau) que corrigem com batidas leves e reponteamento.
  • Leve “banana” (flecha) que responde à contra-flecha com sargentos e calços.

Quando é melhor desmontar e refazer

  • Uma ou mais peças estão fora de medida (comprimento errado) ou com ângulo de corte errado e isso é a causa do erro.
  • Para fechar diagonais você precisa aplicar força excessiva, deixando o quadro “carregado” (tensão perceptível ao soltar grampos).
  • O ponteamento ficou grande/duro demais, com muitos pontos longos, e qualquer ajuste começa a amassar ou torcer o perfil.
  • O erro aparece em cascata: você corrige diagonais e perde alinhamento de travessas, ou corrige plano e perde esquadro.

Critério prático: se para “consertar” você precisa deformar o material, o problema não é ajuste; é geometria errada (corte/posicionamento) e deve ser refeito.

Técnicas de correção após ponteamento (com segurança e controle)

1) Cortar e refazer ponto (método preferencial)

É a correção mais limpa quando o erro vem de posicionamento travado pelo ponteamento. Em vez de forçar a estrutura, você libera o nó e reposiciona.

Passo a passo: cortar e refazer ponto

  • Identifique o nó onde a peça está travada fora da posição (normalmente o canto ou a travessa que “puxa” a diagonal).
  • Alivie a fixação: mantenha grampos segurando a estrutura para ela não “salvar” de repente ao cortar o ponto.
  • Corte apenas o necessário: remova o ponto com esmerilhadeira/disco fino até liberar o movimento. Evite cavar o metal base.
  • Reposicione com grampos/alavanca até atingir a medida/diagonal correta.
  • Reponteie curto (pontos pequenos e alternados) para travar sem criar nova distorção.
  • Reconfira diagonais e alinhamento antes de seguir para o próximo nó.

Dica prática: se houver dois pontos no mesmo encontro, muitas vezes basta cortar um para ganhar mobilidade e ajustar; depois reponteia e só então reforça o outro.

2) Ajuste mecânico com alavancas e grampos (contra-flecha e fechamento de diagonais)

Usa-se quando a estrutura precisa de um “empurrão” controlado para voltar ao lugar, sem cortar pontos, ou após cortar um ponto para reposicionar com precisão.

Passo a passo: fechar diagonais com grampos/alavanca

  • Defina o sentido: a diagonal maior indica o sentido do “losango”. O objetivo é aproximar os cantos correspondentes para igualar diagonais.
  • Monte o conjunto de correção: use sargento de barra, cinta de aperto ou grampo que permita tracionar/comprimir no sentido necessário.
  • Aplique força gradual: aperte aos poucos e meça a cada ajuste. Evite “passar do ponto”.
  • Trave com reponteamento: com a estrutura na medida, reponteie nos nós que estavam cedendo.
  • Solte e verifique retorno: ao aliviar o grampo, a medida deve permanecer. Se voltar, há tensão acumulada ou ponto travando errado; considere cortar e refazer ponto.

Passo a passo: contra-flecha para corrigir leve empeno

  • Identifique a flecha (onde está alto/baixo).
  • Crie apoio e reação: use calços em dois pontos e aplique força no ponto oposto para “inverter” levemente a flecha (contra-flecha).
  • Prenda com grampos mantendo a contra-flecha.
  • Reponteie em sequência alternada ao redor da região para “congelar” o plano.
  • Libere e confira se o plano ficou correto sem esforço residual.

Se a contra-flecha necessária for grande, o problema costuma estar em peça fora de medida, apoio irregular ou ponteamento excessivo em um lado.

3) Batidas leves em regiões adequadas (assentamento e ajuste fino)

Batidas leves servem para assentar encostos, alinhar degraus pequenos e corrigir microdeslocamentos. Não é técnica para “puxar” quadro torto. O objetivo é deslocar milímetros, não centímetros.

Onde bater e onde não bater

  • Regiões adequadas: próximo ao encontro (nó) que precisa assentar, em área com apoio por trás (para não amassar), e preferencialmente no sentido do deslocamento desejado.
  • Evite: bater no meio do vão de tubo fino (amassa), bater diretamente sobre o ponto de solda (pode trincar), bater em cantos sem apoio (entorta).

Passo a passo: ajuste por batidas leves

  • Prenda a peça para que a energia da batida resulte em deslocamento no nó, não em vibração do conjunto.
  • Use martelo adequado (ex.: borracha/nylon para não marcar, ou metálico com taco de madeira quando necessário).
  • Dê batidas curtas e confira a medida a cada 2–3 batidas.
  • Reponteie se o ajuste alterou a posição do encontro.

4) Aquecimento localizado controlado (quando aplicável)

O aquecimento localizado é uma técnica para correção de empenos/torções leves por contração controlada ao resfriar. É útil quando a estrutura já está rígida e ajustes mecânicos não resolvem sem forçar demais. Deve ser aplicado com critério, pois pode alterar propriedades do material, queimar pintura/galvanização e introduzir novas tensões.

Quando considerar aquecimento

  • Empeno leve em perfil que não volta com contra-flecha mecânica.
  • Torção pequena em quadro já travado, onde cortar pontos seria mais destrutivo.

Quando evitar aquecimento

  • Perfis muito finos que amassam ou ondulam facilmente.
  • Peças galvanizadas/pintadas que não podem perder revestimento.
  • Quando o erro é claramente de medida/ângulo (aquecimento não corrige geometria errada).

Passo a passo: aquecimento localizado (visão prática)

  • Marque a região onde a contração deve “puxar” o material (normalmente no lado que precisa encurtar).
  • Aplique calor em área pequena e de forma gradual, evitando aquecer grandes trechos.
  • Controle o efeito: após aquecer, deixe resfriar naturalmente e reavalie. Repita em ciclos curtos em vez de um aquecimento longo.
  • Reconfira medidas (diagonais e alinhamento) após cada ciclo.

Se após 1–2 ciclos o efeito for imprevisível (corrige um lado e piora outro), interrompa e volte ao método de cortar/refazer ponto ou desmontar o nó.

Procedimento completo de correção: roteiro de diagnóstico e ação

Roteiro em 9 passos (para usar na bancada)

  1. Meça diagonais e anote a diferença.
  2. Cheque comprimentos dos lados e travessas para confirmar se há peça fora de medida.
  3. Verifique encostos nos encontros (se há fresta, rebarba ou apoio em um único ponto).
  4. Confirme ângulos de corte nos cantos problemáticos (principalmente mitras).
  5. Revise gabarito/apoios e elimine qualquer ponto que esteja forçando a estrutura.
  6. Escolha a técnica: se é travamento por ponto, corte e refaça; se é ajuste pequeno, use grampos/alavanca; se é assentamento fino, batidas leves; se é empeno residual, aquecimento controlado quando aplicável.
  7. Corrija gradualmente, medindo a cada ajuste (não corrija “no olho”).
  8. Reponteie para travar a forma correta, com pontos curtos e distribuídos.
  9. Valide: diagonais iguais, lados na medida, encontros assentados e plano/alinhamento coerentes. Se ao soltar grampos a peça “anda”, volte ao passo 6 e considere desmontar/refazer o nó.

Como identificar se o erro é de peça fora de medida ou de fixação inadequada

SintomaCausa provávelAção recomendada
Diagonais não fecham sem força grande; ao soltar grampo, voltaPeça fora de medida ou ângulo de corte erradoConferir comprimentos/ângulos; ajustar corte ou substituir peça; repontear
Diagonais quase fecham; com pequeno aperto ficam iguais e permanecemFixação/ponteamento travou levemente foraAjuste com grampo/alavanca e reponteamento curto
Encontro com fresta em um lado e encosto no outroRebarba, corte irregular, assentamento ruimAliviar ponto, assentar, corrigir borda se necessário e repontear
Plano “balança” na bancada mesmo com diagonais corretasTorção/empeno por travamento ou apoio desigualContra-flecha com grampos e calços; se persistir, aquecimento localizado controlado ou refazer ponteamento

Exemplos práticos de correção (situações comuns)

Exemplo 1: quadro losangado após ponteamento em dois cantos

  • Diagnóstico: diagonais diferentes; lados na medida; ângulos aparentam corretos.
  • Correção: aplicar grampo para fechar a diagonal maior até igualar; repontear nos cantos que estavam “soltos”.
  • Se não segurar: cortar um ponto no canto que está travando e refazer ponto com o quadro na medida.

Exemplo 2: travessa interna desalinhada (degrau) e quadro no esquadro

  • Diagnóstico: diagonais ok; problema local na travessa.
  • Correção: aliviar/cortar o ponto da travessa, alinhar com grampo, dar batidas leves para assentar e repontear curto.

Exemplo 3: leve empeno no lado longo após ponteamento

  • Diagnóstico: diagonais ok; lado longo com flecha.
  • Correção: aplicar contra-flecha com calços e sargento; repontear distribuído na região; reavaliar.
  • Alternativa: aquecimento localizado controlado se a contra-flecha mecânica não estabilizar sem excesso de força.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao perceber que as diagonais de um quadro ponteado estão diferentes e, ao soltar os grampos, a estrutura volta ao erro, qual é a conduta mais indicada?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Se a peça volta ao erro ao soltar grampos, há tensão acumulada e a causa tende a ser geometria errada (medida/ângulo). O correto é conferir comprimentos/ângulos, corrigir a origem do erro e repontear para travar a forma certa.

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