Por que separar finanças pessoais e empresariais
Separar o dinheiro do dono do dinheiro da empresa significa tratar o negócio como uma “entidade” com regras próprias: ele tem receitas, despesas, obrigações e metas que não se misturam com as contas da casa. Na prática, isso evita três problemas comuns: (1) você não sabe se o negócio dá lucro ou só “gira dinheiro”; (2) falta caixa para pagar fornecedores e impostos porque o dinheiro saiu em gastos pessoais; (3) decisões ficam no “achismo” porque não existe registro confiável.
Uma regra simples ajuda: toda movimentação precisa ter um motivo empresarial claro e um registro. Se não tiver, é pessoal.
Conceitos essenciais: pró-labore, retiradas e reembolso
Pró-labore (salário do dono)
É o valor fixo (ou quase fixo) que o dono recebe por trabalhar no negócio. Ele deve ser planejado para caber no caixa e ser pago em data definida, como se fosse a folha de pagamento de um funcionário.
- Objetivo: dar previsibilidade para suas finanças pessoais e proteger o caixa da empresa.
- Como registrar: despesa da empresa (categoria: “Pró-labore”) e entrada na conta pessoal (como “Salário/Pró-labore”).
Retiradas (distribuição de lucro)
Retirada é quando você tira dinheiro do negócio por ele ter gerado resultado (lucro) e existir caixa disponível. Diferente do pró-labore, não deve ser “automática” todo mês se o negócio oscila.
- Objetivo: remunerar o dono pelo resultado, sem comprometer capital de giro.
- Como registrar: saída da empresa (categoria: “Distribuição/Retirada de lucro”) e entrada na conta pessoal (categoria: “Retirada de lucro”).
Reembolso de despesas (quando você paga algo do negócio com dinheiro pessoal)
Reembolso é quando você adianta um gasto da empresa com seu cartão/conta pessoal e depois a empresa devolve exatamente aquele valor, com comprovante.
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- Objetivo: corrigir uma exceção sem virar bagunça.
- Como registrar: no momento da compra, registrar como despesa da empresa com forma de pagamento “pessoal (a reembolsar)”; no reembolso, registrar uma saída da empresa (categoria: “Reembolso”) e uma entrada na sua conta pessoal (categoria: “Reembolso recebido”).
Como definir um pró-labore que não destrói o caixa
Regra prática (simples e segura)
- Defina um valor que você consiga manter por pelo menos 3 meses, mesmo em meses fracos.
- Comece menor e aumente depois de estabilizar o fluxo de caixa.
- Escolha uma data fixa de pagamento (ex.: todo dia 5).
Exemplo numérico
Seu negócio fatura em média R$ 20.000/mês, mas varia entre R$ 14.000 e R$ 26.000. As despesas fixas (aluguel, internet, ferramentas, etc.) somam R$ 9.000 e as variáveis (insumos, comissões, fretes) variam. Para não correr risco, você define pró-labore de R$ 3.000 com pagamento no dia 5. Se o mês for excelente, você avalia retirada de lucro depois de fechar o mês e garantir reservas.
Situações comuns (e como corrigir sem culpa, mas com regra)
1) Pagar conta pessoal com o caixa do negócio
Situação: você pagou sua conta de luz de casa (R$ 280) usando o cartão/PIX da empresa.
O que fazer:
- Se foi exceção: registre como “Adiantamento ao sócio” (ou “Retirada do sócio”) e devolva para a empresa no próximo dia útil ou na data combinada.
- Se acontece sempre: isso é sinal de pró-labore mal definido. Ajuste o pró-labore e pare de pagar contas pessoais pela empresa.
Como registrar (modelo):
- Empresa: saída R$ 280 — categoria
Retirada do sócio (pessoal)— descrição “Conta de luz residencial”. - Pessoal: entrada R$ 280 — categoria
Pagamento de conta pessoal (via empresa)(para você enxergar que foi pago, mas não confundir com renda).
2) Usar o cartão pessoal para comprar algo do negócio
Situação: você comprou embalagens (R$ 190) no seu cartão pessoal porque era mais rápido.
O que fazer: trate como despesa da empresa “a reembolsar”. Guarde comprovante e peça reembolso em data fixa (ex.: toda sexta).
Como registrar (modelo):
- Empresa: despesa R$ 190 — categoria
Embalagens— pagamentoPessoal (reembolsar). - Quando reembolsar: empresa saída R$ 190 — categoria
Reembolso— descrição “Reembolso embalagens (cartão pessoal)”.
3) Misturar assinaturas e serviços (ex.: celular, internet, apps)
Situação: seu celular é usado para trabalho e vida pessoal e a conta vem no seu nome.
Regras possíveis (escolha uma):
- Regra A (simples): empresa paga uma porcentagem fixa (ex.: 50%) como reembolso mensal, com registro.
- Regra B (mais limpa): criar uma linha/conta separada só do negócio e a empresa paga 100%.
Passo a passo: criando contas e “caixinhas” financeiras
Você pode fazer isso com contas em bancos diferentes, subcontas, envelopes digitais ou até planilha com saldos separados. O importante é existir separação e rotina.
Passo 1 — Defina as contas mínimas
- Conta da empresa (movimentação): recebe vendas e paga despesas do negócio.
- Conta pessoal do dono: recebe pró-labore, retiradas e reembolsos.
Se hoje tudo está misturado, comece abrindo (ou escolhendo) uma conta exclusiva para a empresa e migre as entradas e saídas aos poucos, em 30 dias.
Passo 2 — Crie “caixinhas” (sub-saldos) dentro da empresa
Mesmo com uma única conta bancária, você pode controlar caixinhas como saldos separados no seu controle financeiro. Um modelo simples:
- Caixinha 1: Operação do mês (pagar despesas correntes)
- Caixinha 2: Impostos e taxas (separar um percentual assim que entra receita)
- Caixinha 3: Reserva de segurança (para meses fracos e emergências)
- Caixinha 4: Pró-labore (garantir o pagamento na data)
Passo 3 — Defina percentuais ou valores fixos para alimentar as caixinhas
Exemplo prático (ajuste à sua realidade):
- Ao receber vendas: separar 10% para
Impostos e taxas. - Separar 5% para
Reserva de segurançaaté acumular um alvo (ex.: 1 a 3 meses de despesas fixas). - Separar um valor fixo mensal para
Pró-labore(ex.: R$ 3.000). - O restante fica em
Operação do mês.
Passo 4 — Crie um calendário de movimentações
- Diário (ou a cada 2 dias): registrar entradas e saídas.
- Semanal: dia fixo para reembolsos (ex.: sexta-feira).
- Mensal: pagar pró-labore em data fixa; avaliar retirada de lucro após fechar o mês.
Passo 5 — Padronize categorias para não se perder
Use poucas categorias, mas consistentes. Sugestão:
Pró-laboreRetirada de lucroReembolso (pago/recebido)Adiantamento ao sócio(quando a empresa paga algo pessoal)Despesas operacionais(com subcategorias: aluguel, insumos, marketing, frete etc.)
Políticas internas simples: o que pode, o que não pode e como registrar exceções
Política 1 — O que pode
- A empresa pagar despesas do negócio, sempre com comprovante e categoria correta.
- O dono receber pró-labore em data fixa, com valor definido.
- O dono receber reembolso de despesas do negócio pagas no pessoal, com comprovante.
- Fazer retirada de lucro apenas após apuração do mês e verificação de caixa mínimo.
Política 2 — O que não pode
- Pagar contas pessoais recorrentes pela empresa (supermercado, escola, aluguel residencial, lazer).
- Usar o caixa da empresa como “extensão” da carteira pessoal.
- Fazer retiradas sem registro (saques sem descrição, PIX sem motivo).
- Comprar itens do negócio no cartão pessoal sem registrar como “a reembolsar”.
Política 3 — Como lidar com exceções (quando acontecer)
Exceções acontecem; o problema é virar hábito. Use um protocolo:
- Registrar no mesmo dia como
Adiantamento ao sócio(se a empresa pagou algo pessoal) ou comoDespesa do negócio a reembolsar(se o dono pagou algo do negócio). - Anexar comprovante (foto/arquivo) e descrever o motivo.
- Definir data de correção: reembolso ao dono ou devolução à empresa (ex.: até a próxima sexta).
- Executar a correção via transferência identificada (PIX/TED) e registrar a baixa.
Modelo de registro de exceção (para copiar e colar)
Data: 12/03
Tipo: Exceção
O que aconteceu: Empresa pagou conta pessoal (R$ 280)
Categoria: Adiantamento ao sócio
Motivo: Falta de saldo na conta pessoal
Como será corrigido: Sócio devolverá via PIX
Data limite: 15/03
Comprovante: anexo_1203_conta_luz.jpgChecklist rápido para implementar em 7 dias
| Dia | Ação | Resultado esperado |
|---|---|---|
| 1 | Escolher/abrir conta exclusiva da empresa | Entradas e saídas do negócio em um lugar |
| 2 | Definir pró-labore (valor + data) | Previsibilidade pessoal e proteção do caixa |
| 3 | Criar caixinhas (Operação, Impostos, Reserva, Pró-labore) | Dinheiro “com destino” |
| 4 | Definir regra de reembolso (dia fixo + comprovante) | Compras no pessoal não viram bagunça |
| 5 | Escrever políticas do “pode/não pode” em 10 linhas | Decisão rápida e consistente |
| 6 | Organizar categorias e padrão de descrição | Relatórios e conferência fáceis |
| 7 | Revisar a semana e corrigir exceções pendentes | Separação funcionando na prática |