O que é um plano de contas (e por que ele precisa ser enxuto)
Plano de contas é a lista de categorias que você usa para registrar entradas e saídas de dinheiro. Ele funciona como “gavetas” onde cada movimento financeiro é guardado para depois virar informação: quanto entrou, com o quê você gastou, onde está pesando e o que dá retorno.
Um plano de contas enxuto é aquele que:
- Ajuda a decidir (cortar, investir, reajustar preço, renegociar).
- É fácil de usar no dia a dia (pouca dúvida na hora de classificar).
- Não vira burocracia (não exige dezenas de categorias para “ficar perfeito”).
Regra prática: se uma categoria não muda nenhuma decisão, ela provavelmente não precisa existir.
Como montar categorias que realmente ajudam
Princípio 1: categorias devem responder perguntas de gestão
Antes de criar categorias, defina as perguntas que você quer responder todo mês. Exemplos:
- Quanto eu vendo por produto vs serviço?
- Quanto pago de impostos e taxas?
- Quanto gasto para atrair clientes (marketing) e para entregar (logística)?
- Quanto custa manter a operação (estrutura) e a equipe (pessoal)?
Essas perguntas viram grupos de contas. O resto pode ficar em “Outras despesas” por um tempo, até justificar detalhamento.
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Princípio 2: poucos níveis e nomes óbvios
Evite hierarquias profundas. Um modelo simples é:
- Grupo (ex.: Marketing)
- Categoria (ex.: Anúncios)
Nomes devem ser claros para qualquer pessoa que registre: “Taxas bancárias” é melhor do que “Despesas financeiras operacionais”.
Princípio 3: o plano de contas nasce pequeno e cresce por necessidade
Comece com 10 a 20 categorias no total (somando receitas e despesas). Só crie uma nova categoria quando:
- o valor for relevante (pesa no mês), ou
- você precisa separar para tomar decisão (ex.: “Anúncios” vs “Designer”), ou
- há obrigação de controle (ex.: impostos específicos).
Passo a passo prático para criar seu plano de contas enxuto
Passo 1: liste seus principais tipos de receita
Use poucas categorias de receita. Um bom começo:
- Vendas de produtos (quando você vende itens)
- Serviços (quando você presta serviço)
- Outras receitas (juros recebidos, reembolsos, venda de ativo, etc.)
Se você vende por canais muito diferentes (ex.: loja física e online) e isso muda decisões, você pode separar por canal. Se não muda, mantenha simples.
Passo 2: agrupe despesas por “natureza de decisão”
Crie grupos que representem áreas de gestão. Um conjunto funcional para a maioria dos negócios:
- Impostos
- Fornecedores / Insumos
- Marketing
- Taxas (bancárias, cartão, marketplaces)
- Pessoal
- Estrutura (aluguel, internet, energia, sistemas)
- Logística (fretes, entregas, combustível)
- Outras despesas
Esses grupos já são suficientes para enxergar para onde o dinheiro vai sem virar um labirinto.
Passo 3: defina 1 a 3 categorias dentro de cada grupo (no máximo)
Exemplo de detalhamento enxuto:
- Fornecedores / Insumos: Matéria-prima/mercadoria; Serviços de terceiros
- Marketing: Anúncios; Criação/Design
- Taxas: Taxas de cartão; Tarifas bancárias
- Pessoal: Salários/Pró-labore; Encargos/benefícios
- Estrutura: Aluguel/condomínio; Contas (água/luz/internet); Sistemas/assinaturas
- Logística: Fretes/transportadoras; Combustível/estacionamento
Se você sentir vontade de criar “Energia do escritório”, “Energia do estoque”, “Energia da loja”… pare e pergunte: isso muda alguma decisão? Na maioria dos casos, “Contas (água/luz/internet)” resolve.
Passo 4: crie critérios de classificação para reduzir dúvidas
O que mais atrasa o controle financeiro é a dúvida recorrente: “isso vai em qual categoria?”. Resolva com regras simples e escritas. Exemplos:
- Regra do benefício principal: classifique pelo principal motivo do gasto. Ex.: assinatura de ferramenta de e-mail marketing vai em “Marketing > Sistemas/assinaturas de marketing” (ou “Marketing > Anúncios/Automação”, se você tiver).
- Regra do fornecedor: se o mesmo fornecedor sempre presta o mesmo tipo de serviço, mantenha a categoria fixa. Ex.: contador sempre em “Impostos > Contabilidade” (ou “Estrutura > Contabilidade”, conforme seu modelo).
- Regra do recorrente vs pontual: gastos recorrentes de operação vão em “Estrutura”; gastos pontuais ligados a campanha vão em “Marketing”.
Passo 5: teste por 30 dias e ajuste com base em volume e utilidade
Depois de um mês registrando, revise:
- Quais categorias ficaram quase vazias? (candidatas a juntar)
- Quais ficaram grandes demais e escondem decisões? (candidatas a separar)
- Quais geraram dúvida repetida? (precisam de regra ou renome)
O objetivo é reduzir atrito: quanto mais fácil classificar, mais consistente será seu controle.
Como evitar excesso de categorias (sem perder controle)
Sinais de que você exagerou
- Você demora para lançar porque fica em dúvida.
- Você tem várias categorias com valores pequenos e raros.
- Você precisa “adivinhar” onde lançar e cada mês fica diferente.
Regras simples para manter enxuto
- Limite de categorias: comece com até 5 categorias de receita e até 15 de despesa.
- Regra dos 80/20: detalhe apenas o que representa a maior parte do gasto ou do esforço de gestão.
- Use “Outras despesas” com disciplina: ela existe para o que é raro ou irrelevante, mas se “Outras” crescer demais, é sinal de que falta uma categoria útil.
- Não crie categoria para cada fornecedor: categorize pelo tipo de gasto, não pelo nome do fornecedor (salvo exceções estratégicas).
Como tratar gastos mistos (quando uma compra serve para mais de uma coisa)
Gastos mistos são aqueles que poderiam cair em mais de uma categoria. Ex.: uma nota fiscal de mercado com itens de limpeza (estrutura) e itens para produção (insumos). Para não virar confusão, escolha um método e aplique sempre.
Método A: dividir quando for relevante
Divida o lançamento quando:
- o valor é significativo, e
- as partes impactam decisões diferentes.
Exemplo: compra de R$ 1.000 com R$ 700 de mercadoria e R$ 300 de material de escritório.
Fornecedores/Insumos > Matéria-prima/mercadoria: R$ 700 Estrutura > Material de escritório/limpeza: R$ 300Método B: “categoria dominante” quando não vale dividir
Quando a divisão dá trabalho e não muda nada, use a categoria dominante (a maior parte do valor).
Exemplo: compra de R$ 120 com R$ 100 de embalagem (insumo) e R$ 20 de fita para uso geral. Lance tudo em “Fornecedores/Insumos”.
Método C: conta de “Reembolsos” (quando alguém paga e depois você devolve)
Se um colaborador paga algo e você reembolsa, você pode registrar:
- a despesa na categoria correta (ex.: “Logística > Combustível”), e
- o pagamento como “Reembolso a colaboradores” dentro de “Pessoal” apenas se você precisa controlar esse fluxo como processo.
Para manter enxuto, muitas empresas registram direto na categoria final da despesa, e usam o histórico/descrição para indicar “reembolso”.
Modelo pronto de plano de contas enxuto (para copiar)
Abaixo um modelo genérico que atende a maioria dos pequenos negócios. Ajuste nomes para sua realidade, mas evite aumentar demais.
| Tipo | Grupo | Categoria | O que entra aqui |
|---|---|---|---|
| Receita | Vendas/Serviços | Vendas de produtos | Recebimentos por venda de itens |
| Receita | Vendas/Serviços | Serviços | Recebimentos por prestação de serviço |
| Receita | Outras receitas | Outras receitas | Reembolsos recebidos, juros, receitas não recorrentes |
| Despesa | Impostos | Impostos sobre vendas | Simples/ISS/ICMS e similares (conforme seu caso) |
| Despesa | Impostos | Contabilidade | Honorários contábeis e serviços fiscais |
| Despesa | Fornecedores | Mercadorias/Matéria-prima | Compra de itens para revenda ou produção |
| Despesa | Fornecedores | Serviços de terceiros | Freelancers, manutenção, consultorias pontuais |
| Despesa | Marketing | Anúncios | Tráfego pago, impulsionamentos, mídia |
| Despesa | Marketing | Criação/Design/Conteúdo | Designer, fotógrafo, produção de conteúdo |
| Despesa | Taxas | Taxas de cartão/intermediadores | Taxas de adquirência, gateways, marketplaces |
| Despesa | Taxas | Tarifas bancárias | Pacotes, TED/Pix (quando tarifado), tarifas |
| Despesa | Pessoal | Salários/Pró-labore | Pagamentos fixos à equipe e retirada do gestor (se aplicável) |
| Despesa | Pessoal | Encargos/Benefícios | INSS/FGTS/vale-transporte/benefícios |
| Despesa | Estrutura | Aluguel/Condomínio | Aluguel, condomínio, IPTU (se fizer sentido aqui) |
| Despesa | Estrutura | Contas (água/luz/internet) | Utilidades e telecom |
| Despesa | Estrutura | Sistemas/Assinaturas | Softwares, ferramentas, licenças |
| Despesa | Logística | Fretes/Entregas | Transportadoras, motoboy, correios |
| Despesa | Logística | Combustível/Deslocamento | Combustível, estacionamento, pedágio |
| Despesa | Outras despesas | Outras despesas | Gastos raros, pequenos ou não recorrentes |
Critérios de classificação (guia rápido para o dia a dia)
Use este mini “manual” para reduzir dúvidas:
- Vendas de produtos: entrou dinheiro por item vendido (mesmo que seja via link, maquininha ou transferência).
- Serviços: entrou dinheiro por hora/projeto/atendimento/contrato de serviço.
- Impostos sobre vendas: guias e recolhimentos ligados ao faturamento.
- Mercadorias/Matéria-prima: tudo que vira produto/entrega ao cliente (inclui embalagens se forem parte relevante do custo).
- Serviços de terceiros: alguém de fora executou algo para você (manutenção, freelancer, consultoria).
- Anúncios: compra de mídia (Meta/Google e similares), impulsionamentos, afiliados quando for taxa de divulgação.
- Criação/Design/Conteúdo: produção criativa, fotos, vídeos, identidade visual.
- Taxas de cartão/intermediadores: MDR, antecipação, taxas de plataforma de pagamento.
- Tarifas bancárias: tarifas do banco e serviços financeiros recorrentes.
- Salários/Pró-labore: pagamentos fixos a pessoas da operação.
- Encargos/Benefícios: custos adicionais de pessoal (encargos e benefícios).
- Estrutura: despesas para manter o negócio funcionando (aluguel, contas, sistemas).
- Logística: custos para entregar, transportar ou se deslocar para operar.
- Outras despesas: só o que não se encaixa e não justifica nova categoria.
Exemplos de classificação (para tirar dúvidas comuns)
- Taxa do cartão descontada no recebimento: “Taxas > Taxas de cartão/intermediadores”.
- Assinatura de ferramenta de gestão: “Estrutura > Sistemas/Assinaturas”.
- Assinatura de ferramenta de disparo de e-mail: se usada para vendas, “Marketing”; se usada só para operação interna, “Estrutura”.
- Embalagens: se são parte importante do custo do produto, “Fornecedores > Mercadorias/Matéria-prima”; se são pequenas e raras, pode ficar em “Outras despesas” até ganhar relevância.
- Manutenção de equipamento: geralmente “Fornecedores > Serviços de terceiros” (ou “Estrutura” se for manutenção recorrente do ponto/instalação).
- Frete pago para enviar ao cliente: “Logística > Fretes/Entregas”.