Sensores de temperatura ECT e IAT na injeção eletrônica: enriquecimento e partida a frio

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que são ECT e IAT e por que a ECU “liga” para temperatura

ECT (Engine Coolant Temperature) é o sensor que informa à ECU a temperatura do líquido de arrefecimento (na prática, é a melhor referência de temperatura do motor). IAT (Intake Air Temperature) informa a temperatura do ar admitido. Com esses dois dados, a ECU ajusta principalmente: mistura ar/combustível, marcha lenta, acionamento da ventoinha (via temperatura do motor) e estratégias de emissões (aquecimento do catalisador, correções de combustível e estabilidade de combustão).

Em motor frio, o combustível vaporiza pior e a combustão tende a ficar instável. Por isso, a ECU costuma aplicar enriquecimento (mais combustível) e marcha lenta mais alta para manter o motor funcionando até aquecer. Conforme o ECT sobe, a ECU reduz esse enriquecimento e normaliza a lenta.

Como ECT e IAT afetam mistura, marcha lenta, ventoinha e emissões

1) Mistura (enriquecimento e correções)

  • ECT baixo (motor frio): a ECU aumenta o tempo de injeção (mistura mais rica) para compensar a baixa vaporização e perdas por condensação nas paredes do coletor/cilindro.
  • ECT alto (motor quente): a ECU reduz enriquecimento e trabalha mais próximo do estequiométrico (melhor para emissões e consumo).
  • IAT: ar mais frio é mais denso (tende a “carregar” mais oxigênio por volume), e a ECU ajusta a quantidade de combustível para manter a mistura correta. Ar muito quente reduz densidade e pode exigir menos combustível. Em muitos sistemas, o IAT também influencia estratégias de proteção (ex.: reduzir avanço em ar muito quente, dependendo do projeto).

2) Marcha lenta (estabilidade e rotação alvo)

  • ECT frio: rotação de lenta alvo costuma ser maior (ex.: 1000–1400 rpm, varia por veículo) para evitar apagões e acelerar aquecimento.
  • ECT quente: lenta alvo cai para a faixa normal (ex.: 650–850 rpm, varia por veículo).
  • ECT incoerente (lendo “frio” o tempo todo): pode manter lenta alta constante, como se o motor nunca aquecesse.

3) Ventoinha (acionamento fora de hora)

O acionamento da ventoinha depende principalmente do ECT. Se o ECT estiver lendo mais quente do que a realidade, a ventoinha pode ligar cedo, ficar ligada direto ou ligar com o motor ainda frio. Se estiver lendo mais frio, pode atrasar o acionamento (risco de aquecimento real).

4) Emissões (catalisador, consumo e fumaça)

  • ECT frio: a ECU enriquece e pode manter estratégias de aquecimento, aumentando emissões no início (normal por alguns minutos).
  • ECT “travado em frio”: enriquecimento prolongado aumenta consumo, pode gerar fumaça escura (mistura rica), odor forte de combustível, carbonização e piora de emissões.
  • ECT “travado em quente”: pode reduzir enriquecimento necessário na partida, causando falha de combustão, engasgos e dificuldade de pegar a frio.

Tipo de sensor e comportamento elétrico (NTC)

Na maioria dos veículos, ECT e IAT são termistores NTC (Negative Temperature Coefficient):

  • Temperatura sobe → resistência diminui
  • Temperatura desce → resistência aumenta

Em geral, a ECU alimenta o sensor com uma referência (comumente 5 V) através de um resistor interno, formando um divisor de tensão. Assim, a ECU “enxerga” uma tensão que varia com a temperatura.

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CondiçãoNTC (resistência)Tendência típica de tensão no sinal (divisor)
Motor/ar frioAltaMais alta
Motor/ar quenteBaixaMais baixa

Observação: valores exatos mudam por fabricante. O diagnóstico inicial mais forte é por coerência (se faz sentido com a temperatura real) e por variação suave (se muda gradualmente conforme aquece).

Leituras esperadas: motor frio x motor quente (coerência com a realidade)

ECT (temperatura do motor)

  • Motor frio (após noite parado): ECT deve estar muito próximo da temperatura ambiente (diferença pequena). Ex.: ambiente 20 °C → ECT perto de 20 °C.
  • Motor quente (após aquecer): ECT normalmente fica na faixa de 80–105 °C (varia por projeto, termostática, carga, clima). A ventoinha costuma entrar em algum ponto dentro dessa faixa (varia por veículo).

IAT (temperatura do ar admitido)

  • Motor frio: IAT também tende a ficar próximo da temperatura ambiente.
  • Motor quente em marcha lenta: IAT pode ficar acima da ambiente por aquecimento do cofre e do coletor (heat soak). Em movimento, pode cair e se aproximar da ambiente dependendo da captação de ar.

Como comparar com a realidade (termômetro e ambiente)

  • Referência 1: temperatura ambiente (aplicativo de clima, termômetro simples ou estação local).
  • Referência 2: termômetro infravermelho (se disponível): medir carcaça da válvula termostática, mangueira superior do radiador ou região próxima ao sensor ECT (evitar medir em partes muito refletivas sem critério).
  • Regra prática de coerência: após horas parado, ECT e IAT devem “concordar” com o ambiente. Diferenças grandes sem motivo são suspeitas.

Por que ECT incorreto causa partida difícil, consumo alto e fumaça (mistura rica)

Cenário A: ECT indicando mais frio do que a realidade

Se o ECT “diz” para a ECU que o motor está frio quando na verdade já está quente (ou aquecendo normalmente), a ECU tende a:

  • Manter enriquecimento por mais tempo
  • Manter marcha lenta elevada
  • Alterar estratégias de emissões como se ainda estivesse em aquecimento

Resultados típicos:

  • Consumo alto
  • Cheiro de combustível e possível fumaça escura na aceleração
  • Motor “pesado”, velas encharcadas/carbonizadas em casos mais severos
  • Ventoinha pode atrasar (dependendo do erro), elevando risco de aquecimento real

Cenário B: ECT indicando mais quente do que a realidade

Se o ECT “diz” que o motor está quente quando ele está frio, a ECU pode não enriquecer o suficiente na partida a frio. Resultados típicos:

  • Dificuldade de partida pela manhã (pega e morre, ou precisa insistir)
  • Marcha lenta instável nos primeiros minutos
  • Engasgos até aquecer

Sintomas comuns e como pensar por coerência de dados

Partida difícil pela manhã

  • Suspeita forte: ECT lendo “quente” demais em motor frio (ex.: manhã fria e scanner mostra 60–80 °C antes de ligar).
  • Checagem rápida: com motor totalmente frio, comparar ECT e IAT no scanner. Ambos deveriam estar próximos da temperatura ambiente.

Lenta alta constante (mesmo após aquecer)

  • Suspeita forte: ECT lendo “frio” demais o tempo todo (ex.: após 10–15 min, ainda marca 20–40 °C sem justificativa).
  • Checagem rápida: observar se o ECT sobe gradualmente e atinge faixa típica de operação. Se “trava” ou sobe muito devagar, investigar sensor, conector, aterramento, termostática travada aberta (contexto mecânico) e coerência com aquecimento real.

Ventilador acionando fora de hora

  • Ventoinha liga cedo ou fica ligada: ECT pode estar indicando temperatura alta indevida, ou a ECU pode entrar em modo de segurança se detectar falha no circuito do ECT (alguns sistemas acionam ventoinha por segurança quando perdem o sinal).
  • Ventoinha demora demais: ECT pode estar indicando frio indevido (ou problema no comando do relé/módulo, mas primeiro ver coerência do ECT).

Consumo alto e fumaça escura

  • Suspeita forte: ECT “frio” permanente mantendo enriquecimento.
  • Checagem rápida: verificar no scanner se, com motor quente, o ECT está em faixa plausível (ex.: 85–100 °C) e se a leitura é estável (sem saltos).

Leituras no scanner: o que observar (diagnóstico por coerência)

Checklist de coerência (sem desmontar nada)

  • Antes de dar partida (motor frio): ECT ≈ IAT ≈ ambiente.
  • Após ligar: ECT deve subir de forma progressiva (sem picos e quedas bruscas).
  • Após aquecer: ECT deve estabilizar numa faixa típica e variar com carga/ventoinha.
  • IAT: pode subir parado e cair em movimento; o importante é não mostrar valores impossíveis (ex.: -40 °C ou 150 °C sem motivo).

Sinais de falha elétrica típicos (padrões comuns)

  • Leitura muito baixa (ex.: -40 °C): frequentemente indica circuito aberto (sensor desconectado, fio rompido). Em NTC, circuito aberto tende a ser interpretado como muito frio.
  • Leitura muito alta (ex.: 130–150 °C): frequentemente indica curto no sinal/aterramento (dependendo do sistema). Em NTC, curto pode ser interpretado como muito quente.
  • Leitura “pulando”: mau contato em conector, oxidação, fio quebrado internamente.

Importante: esses extremos variam por fabricante, mas o raciocínio de coerência permanece: valores impossíveis ou fixos geralmente apontam falha de circuito.

Passo a passo prático: verificando ECT e IAT com scanner e multímetro

Passo a passo 1 — Teste de coerência com scanner (o mais rápido)

  • 1) Deixar o carro parado por tempo suficiente para esfriar (ideal: várias horas).
  • 2) Ligar a ignição (sem dar partida) e ler no scanner: ECT e IAT.
  • 3) Comparar com a temperatura ambiente. Diferenças grandes sugerem sensor/circuito com problema ou leitura incorreta.
  • 4) Dar partida e acompanhar o ECT subindo. Ele deve aumentar gradualmente até a faixa de operação.
  • 5) Observar o momento de acionamento da ventoinha e a temperatura indicada. Se a ventoinha aciona com ECT “baixo” demais ou não aciona com ECT “alto” demais, há incoerência a investigar.

Passo a passo 2 — Conferência com termômetro (validação do “mundo real”)

  • 1) Com motor frio, medir a temperatura em um ponto metálico próximo ao ECT (carcaça/saída d’água) com termômetro infravermelho.
  • 2) Comparar com o ECT do scanner. A leitura deve ser próxima (considerando pequenas diferenças por ponto de medição).
  • 3) Repetir com motor quente, medindo próximo ao mesmo ponto.

Passo a passo 3 — Teste do sensor NTC por resistência (quando aplicável)

  • 1) Desconectar o sensor (ECT ou IAT) com ignição desligada.
  • 2) Medir a resistência entre os terminais do sensor com multímetro.
  • 3) Comparar com uma tabela do fabricante. Se não houver tabela, usar a lógica NTC: frio = resistência alta, quente = resistência baixa.
  • 4) Aquecer o sensor (ex.: com ar quente controlado) ou observar a queda de resistência conforme o motor aquece (no ECT, com cuidado e procedimento seguro). A variação deve ser suave, sem “buracos”.

Exemplo de raciocínio sem números exatos: se o motor está frio e o sensor mede resistência muito baixa (comportamento de quente), há forte suspeita de sensor defeituoso ou curto interno.

Passo a passo 4 — Verificação básica do chicote (quando a leitura é extrema)

  • 1) Se o scanner mostra -40 °C (ou valor mínimo), inspecionar conector solto/oxidado e continuidade do fio (possível circuito aberto).
  • 2) Se o scanner mostra 130–150 °C (ou valor máximo), procurar curto no chicote, umidade no conector, isolamento danificado encostando em massa.
  • 3) Movimentar levemente o chicote com o motor funcionando e observar se a leitura oscila (indício de mau contato).

Códigos de falha comuns (como contexto) e como usar junto com dados

Alguns DTCs frequentemente associados a ECT e IAT (podem variar por marca):

  • ECT: P0115 (circuito), P0116 (faixa/desempenho), P0117 (entrada baixa), P0118 (entrada alta)
  • IAT: P0110 (circuito), P0111 (faixa/desempenho), P0112 (entrada baixa), P0113 (entrada alta)

Use o código como pista, mas confirme com coerência: um P0116 (desempenho) muitas vezes aparece quando a temperatura indicada não “faz sentido” com o comportamento do motor (ex.: ECT não sobe, sobe rápido demais, ou oscila).

Exercícios práticos de diagnóstico por coerência (situações típicas)

Situação 1: manhã a 18 °C, ECT no scanner marca 72 °C antes de ligar

  • Interpretação: ECU acredita que o motor está quente e pode reduzir enriquecimento de partida.
  • Sintoma esperado: pega difícil, falha e morre nos primeiros segundos.
  • Próximo passo: comparar com IAT (se IAT está perto de 18 °C e ECT está 72 °C, incoerência forte). Testar sensor ECT e chicote.

Situação 2: após 15 minutos rodando, ECT ainda em 35 °C e lenta alta

  • Interpretação: ECU mantém estratégia de aquecimento (enriquecimento e lenta elevada).
  • Sintoma esperado: consumo alto, cheiro de combustível, possível fumaça escura.
  • Próximo passo: validar temperatura real com termômetro e verificar se o ECT está “travado” ou se há problema mecânico de aquecimento (ex.: termostática aberta) — sempre guiado pela coerência entre dado e realidade.

Situação 3: ventoinha liga com motor aparentemente frio e ECT “salta” valores

  • Interpretação: mau contato no conector/chicote ou sensor com falha intermitente.
  • Próximo passo: teste de movimentação do chicote, inspeção de oxidação e medição de resistência/continuidade.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao diagnosticar uma partida difícil pela manhã, qual verificação no scanner ajuda mais a identificar incoerência no sensor ECT antes de dar partida?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Após horas parado, ECT e IAT devem “concordar” com a temperatura ambiente. Se o ECT indicar quente demais com o motor frio, a ECU pode reduzir o enriquecimento e causar dificuldade de partida.

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