Por que CKP e CMP são “sensores de sincronismo”
Para a ECU comandar faísca e injeção no momento certo, ela precisa saber duas coisas: velocidade do motor (quantas rotações por minuto) e posição do virabrequim/comando em relação ao ciclo (em que ponto do giro o motor está). O sensor de rotação do virabrequim (CKP) fornece a referência principal de rotação e posição angular. O sensor de fase do comando (CMP) informa em qual fase do ciclo o motor está, ajudando a identificar qual cilindro está em compressão.
Em muitos sistemas, sem sinal válido de CKP a ECU não “enxerga” o motor girando — e por segurança não libera faísca nem injeção. Já o CMP pode ser usado para sincronismo fino e para habilitar injeção sequencial (cada bico no seu tempo), além de ajudar em partidas mais rápidas e estáveis.
CKP (rotação): o sinal que habilita faísca e injeção
O que o CKP informa na prática
- RPM durante a partida: a ECU calcula a rotação a partir dos pulsos do CKP.
- Referência de posição: a roda fônica (com dentes e geralmente uma “falha” de dentes) permite à ECU reconhecer um ponto de referência do giro.
- Base para o ponto: a partir dessa referência, a ECU determina quando disparar bobina(s) e quando acionar os bicos (mesmo em modo não sequencial).
Sintoma clássico de CKP ausente
Motor gira no arranque e não pega, com RPM no scanner zerado (ou sem leitura), é um dos indícios mais fortes de ausência de sinal de CKP, falha de alimentação/aterramento (quando aplicável) ou problema de chicote/conector.
CMP (fase): identificação do cilindro e injeção sequencial
O que o CMP acrescenta
- Identificação de fase: permite à ECU saber qual cilindro está em compressão (sincronismo do ciclo de 4 tempos).
- Injeção sequencial: cada bico injeta no cilindro correto no momento correto, melhorando partida, marcha lenta e emissões.
- Partida e estabilidade: com CMP funcional, a ECU sincroniza mais rápido após dar partida.
Quando o motor pode funcionar sem CMP
Em vários veículos, se o CMP falhar, a ECU pode entrar em estratégia de contingência (por exemplo, injeção em pares ou semissequencial). Nesses casos, o motor pode pegar, porém com partida mais demorada, marcha lenta irregular, falhas e luz de anomalia acesa. Em outros sistemas, a falha pode impedir a partida dependendo da estratégia do fabricante.
Noções rápidas: sensores indutivos vs. Hall
Sensor indutivo (relutância variável)
- Gera um sinal AC (onda senoidal) conforme a roda fônica passa pelo sensor.
- Em geral tem 2 fios (sinal e retorno), sem alimentação dedicada.
- A amplitude do sinal tende a aumentar com a rotação; durante a partida, sinal fraco pode ocorrer por folga excessiva, roda fônica danificada ou sensor degradado.
Sensor Hall
- Gera um sinal digital (onda quadrada), normalmente com 3 fios (alimentação, terra e sinal).
- Depende de alimentação e aterramento corretos; falhas de 5V/12V ou terra ruim derrubam o sinal.
- Costuma ser mais “limpo” em baixa rotação, mas é sensível a mau contato e umidade em conectores.
Diagnóstico por sintomas (o que suspeitar primeiro)
1) Motor não pega (arranque gira)
- Suspeita forte: CKP sem sinal ou sinal inválido.
- Também considerar: chicote rompido, conector oxidado, folga do sensor, roda fônica com dente quebrado, aterramento ruim (especialmente em Hall), interferência por cabos mal roteados.
2) Pega e morre (logo após pegar)
- Suspeita: sinal de CKP/CMP intermitente, mau contato no conector, falha térmica no sensor, chicote “partido por dentro”.
- Também considerar: sincronismo instável (CMP falhando) causando estratégia errática em marcha lenta inicial.
3) Falha intermitente com aquecimento
- Suspeita forte: sensor com defeito térmico (principalmente CKP indutivo ou Hall com eletrônica interna), ou conector que perde contato com dilatação.
- Pista prática: funciona frio, falha quente; após esfriar, volta.
4) Corte em alta rotação / falha em aceleração forte
- Suspeita: perda de sinal (dropout) por folga incorreta, roda fônica empenada, chicote vibrando e abrindo contato, interferência eletromagnética, sensor fraco.
- Em indutivos: ruído/forma de onda distorcida por folga, limalha metálica acumulada na ponta do sensor ou roda fônica danificada.
Passo a passo prático: checagens essenciais com scanner e inspeção
Passo 1 — Verificar RPM no scanner durante a partida
Com o scanner conectado, observe o parâmetro de RPM enquanto dá partida:
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- RPM = 0 (ou não aparece): provável ausência de sinal de CKP, falha de alimentação/terra (Hall), curto/aberto no chicote, conector solto.
- RPM aparece (ex.: 150–300 rpm) mas não pega: CKP provavelmente está presente; avance para verificar sincronismo (CMP), combustível/ignição e códigos relacionados.
- RPM oscila e cai durante a partida: pode indicar sinal intermitente, mau contato, folga incorreta ou roda fônica com defeito.
Dica: alguns scanners exibem também estado de SYNC (sincronizado/não sincronizado) ou “cam/crank sync”. Se houver esse parâmetro, ele ajuda a separar falha de CKP (sem RPM) de falha de CMP (RPM ok, mas sem sincronismo estável).
Passo 2 — Ler DTCs e dados congelados (quando disponíveis)
- Procure códigos relacionados a CKP e CMP (circuito, sinal implausível, sincronismo).
- Use o freeze frame para ver se a falha ocorreu em quente, em alta rotação, em aceleração, etc.
Passo 3 — Inspeção visual do sensor, roda fônica e folga
- Localização e fixação: confirme se o sensor está bem preso e alinhado.
- Folga (gap): folga excessiva pode enfraquecer o sinal (especialmente em indutivos). Folga muito pequena pode causar contato mecânico.
- Roda fônica: verifique dentes quebrados, sujeira, empeno e a região da “falha” de dentes (quando existir).
- Limalha metálica: em CKP indutivo, acúmulo na ponta pode distorcer o sinal; limpe com cuidado e investigue a origem do excesso de limalha.
Passo 4 — Inspeção de chicote e conectores (foco em intermitência)
- Procure: fios ressecados, esmagados, emenda mal feita, isolamento rompido, contato com partes quentes, e pontos de vibração.
- Conectores: pinos abertos, oxidação, folga, trava quebrada, presença de óleo/água.
- Teste de movimentação com critério: com o motor em marcha lenta (se possível) ou durante a partida, movimente levemente o chicote próximo ao conector para ver se a leitura de RPM/sincronismo falha. Evite puxões.
Passo 5 — Verificar alimentação e aterramentos (principalmente em Hall)
- Em sensores Hall, confirme presença de tensão de alimentação e terra estável no conector.
- Quedas de tensão em aterramentos podem causar falhas intermitentes e códigos “fantasma”.
- Se houver suspeita, inspecione pontos de aterramento do motor/chassi e aperto/oxidação.
Exemplos de interpretação rápida (scanner + sintoma)
| Sintoma | RPM no scanner na partida | Suspeita mais provável | Próxima ação |
|---|---|---|---|
| Gira e não pega | 0 | CKP sem sinal / circuito | Conector, chicote, folga, roda fônica, alimentação/terra (se Hall) |
| Gira e não pega | 200 rpm | CKP ok; pode ser CMP/sincronismo ou outra causa | Ver parâmetro de sincronismo, DTCs CMP, inspeção CMP |
| Pega e morre | Cai para 0 no momento da falha | CKP intermitente | Chicote/conector, defeito térmico, folga |
| Corte em alta | Queda brusca de RPM lida | Perda de sinal em vibração/rotação | Roteamento do chicote, fixação, roda fônica, sensor fraco |
Boas práticas e alertas (evitar criar defeitos no diagnóstico)
- Não puxe o chicote para “testar”: isso pode romper fios internamente ou afrouxar terminais. Prefira movimentação leve e localizada.
- Proteja conectores contra umidade: após inspeção/limpeza, garanta vedação e travas íntegras; umidade causa oxidação e falhas intermitentes.
- Verifique aterramentos: aterramento ruim pode simular defeito de sensor, principalmente em sensores Hall e em sistemas sensíveis a ruído.
- Cuidado com limpeza agressiva: não use objetos metálicos para raspar pinos; evite produtos que ataquem plásticos/borrachas de vedação.
- Roteamento do chicote: mantenha longe de cabos de alta corrente/ignição quando aplicável, e fixe para reduzir vibração.