Objetivo deste capítulo
Este capítulo orienta a instalação de sistemas fotovoltaicos com foco em segurança prática e conformidade. A meta é reduzir riscos (altura, choque e arco elétrico, cortes e esmagamento), padronizar procedimentos (bloqueio/etiquetagem, isolamento CC/CA) e garantir rastreabilidade (registros mínimos do serviço) para inspeções, comissionamento e conexão à rede.
Conceitos essenciais de segurança aplicados ao fotovoltaico
Perigos x riscos x controles
Perigo é a fonte de dano (ex.: string CC energizada). Risco é a combinação de probabilidade e severidade (ex.: chance de contato + gravidade do choque). Controles são medidas para reduzir o risco, priorizando a hierarquia: eliminar/substituir, controles de engenharia (EPC), administrativos (procedimentos) e, por último, EPIs.
Particularidades do circuito CC em sistemas FV
- O circuito CC pode permanecer energizado enquanto houver irradiância, mesmo com o inversor desligado.
- Conectores e cabos CC podem gerar arco elétrico se desconectados sob carga.
- Polaridade invertida e conexões mal crimpadas são causas comuns de falhas, aquecimento e incêndio.
Diferença prática entre isolamento CC e CA
- CA (rede): normalmente é possível desenergizar de forma “clássica” abrindo disjuntores/seccionadoras e confirmando ausência de tensão.
- CC (strings): o seccionamento deve ser feito com dispositivos adequados para CC e com procedimento que evite abertura sob carga; além disso, deve-se considerar que módulos continuam gerando tensão.
EPIs e EPCs: seleção e uso correto
EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) recomendados
- Capacete com jugular (trabalho em altura e risco de queda de objetos).
- Óculos de proteção (perfuração, corte, poeira, partículas metálicas).
- Luva anticorte para manuseio de perfis, chapas e bordas de módulos; luva isolante quando aplicável a atividades elétricas (conforme procedimento e classe adequada).
- Calçado de segurança com solado antiderrapante e biqueira (impacto e escorregamento).
- Cinto paraquedista e talabarte/absorvedor (altura), com pontos de ancoragem compatíveis.
- Protetor auricular quando houver ferramentas ruidosas (furadeiras, marteletes).
- Vestuário de manga longa; em atividades com potencial de arco, considerar vestimenta com desempenho adequado ao risco definido na análise.
EPCs (Equipamentos de Proteção Coletiva) e controles de engenharia
- Linha de vida, pontos de ancoragem certificados e guarda-corpos temporários.
- Sinalização e isolamento de área (fitas, cones, placas) para impedir circulação sob a zona de trabalho.
- Tapetes/mantas isolantes e barreiras físicas em quadros elétricos quando aplicável.
- Extintor adequado ao ambiente e ao risco (definir no plano de segurança do canteiro).
- Organizadores de cabos e passagens protegidas para evitar tropeços e esmagamento.
Passo a passo: checagem rápida de EPI antes de subir ao telhado
- Verifique integridade do capacete (casco sem trincas) e ajuste da jugular.
- Inspecione cinto e talabarte: costuras, mosquetões, trava dupla e etiqueta de inspeção.
- Teste o calçado: solado limpo e aderente (sem barro/óleo).
- Confirme luvas adequadas para a tarefa do momento (anticorte para estrutura; isolante para atividade elétrica planejada).
- Garanta óculos limpos e sem riscos que prejudiquem a visão.
Análise de riscos por atividade (com controles práticos)
Trabalho em altura (telhados e estruturas elevadas)
Riscos típicos: queda de altura, queda de objetos, escorregamento, fragilidade de telhas, acesso inadequado.
- Controle de acesso: escada fixada, ângulo correto, ponto de amarração e área isolada no solo.
- Ancoragem: usar ponto de ancoragem dimensionado; evitar ancorar em elementos frágeis (calhas, telhas).
- Trânsito no telhado: caminhar sobre terças/apoios; usar passarelas quando necessário.
- Clima: suspender atividade com chuva, ventos fortes ou telhado molhado.
- Ferramentas: usar bolsa porta-ferramentas e talabarte para ferramentas quando aplicável.
Choque elétrico (CA e CC)
Riscos típicos: contato direto/indireto, energização acidental, falha de isolamento, erro de identificação de circuitos.
- Planejamento: identificar fontes (rede CA, strings CC, baterias se houver) e pontos de seccionamento.
- Verificação de ausência de tensão: medir com instrumento adequado e procedimento padronizado.
- Barreiras: manter partes vivas protegidas; evitar quadros abertos sem controle de acesso.
Arco elétrico (principalmente em CC)
Riscos típicos: desconexão sob carga, conectores incompatíveis, crimpagem inadequada, mau contato e aquecimento.
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- Não desconectar conectores sob carga: garantir condição de seccionamento e procedimento correto.
- Padronização de conectores: usar conectores compatíveis e do mesmo sistema; evitar “misturas” sem validação técnica.
- Crimpagem: ferramenta correta, matriz correta e inspeção do terminal.
- Torque: aplicar torque especificado em bornes e barramentos para evitar aquecimento.
Cortes, perfurações e esmagamento
Riscos típicos: bordas de perfis e chapas, rebarbas, brocas, queda de módulos, prensamento de dedos em grampos.
- Usar luvas anticorte e manter rebarbas tratadas (lima/escareador quando necessário).
- Movimentar módulos em dupla e usar apoios para evitar queda e esmagamento.
- Manter mãos fora da zona de aperto ao posicionar grampos.
Bloqueio e etiquetagem (LOTO): procedimento aplicável ao FV
Quando aplicar
- Intervenção em quadros CA, inversores, seccionadoras, string box e circuitos que possam ser energizados por terceiros.
- Atividades com risco de reenergização acidental (ex.: equipe paralela atuando no mesmo padrão/quadros).
Passo a passo prático de LOTO (modelo operacional)
- Preparar: identifique todas as fontes de energia (CA da rede, CC das strings, fontes auxiliares).
- Comunicar: informe a equipe e, quando aplicável, o responsável pela instalação elétrica do local.
- Desligar: execute o desligamento na sequência definida (ex.: desligar inversor conforme manual, abrir seccionamento CA, depois CC conforme projeto e dispositivos).
- Isolar: acione dispositivos de seccionamento e bloqueie fisicamente (cadeado/trava).
- Etiquetar: aplique etiqueta com responsável, data/hora, motivo e contato.
- Verificar: confirme ausência de tensão com instrumento apropriado (procedimento de teste do instrumento antes e depois da medição).
- Executar o serviço: mantenha o controle das chaves/cadeados com o responsável designado.
- Retornar: após inspeção e liberação, remover bloqueios/etiquetas conforme regra do responsável e religar na sequência definida.
Boas práticas para evitar falhas comuns
- Não usar etiqueta sem bloqueio quando houver possibilidade de reenergização.
- Não deixar cadeados “compartilhados”; cada responsável deve controlar seu bloqueio.
- Registrar no diário de obra a aplicação e remoção do LOTO.
Isolamento e seccionamento de circuitos CC e CA
CA (lado da rede)
- Identifique o ponto de conexão e o dispositivo de seccionamento acessível.
- Abra o disjuntor/seccionadora e aplique LOTO quando necessário.
- Confirme ausência de tensão no ponto de trabalho antes de tocar em condutores/barramentos.
CC (strings e arranjos)
- Mapeie strings e polaridades antes de qualquer intervenção.
- Utilize dispositivos de seccionamento adequados para CC e respeite a sequência operacional do fabricante do inversor/string box.
- Evite desconectar conectores sob carga; planeje para que a abertura ocorra em condição segura.
- Após isolar, confirme tensões esperadas (ex.: tensão de circuito aberto) e verifique polaridade.
Passo a passo: verificação segura de ausência/presença de tensão
- Selecione o instrumento correto (multímetro/alicate) e a escala adequada.
- Teste o instrumento em uma fonte conhecida (antes).
- Meça no ponto de trabalho (fase-fase, fase-neutro, fase-terra; e em CC, positivo-negativo e cada polo para terra conforme aplicável).
- Teste o instrumento novamente em fonte conhecida (depois).
- Registre o resultado quando fizer parte do comissionamento ou liberação de área.
Organização do canteiro e manuseio de ferramentas
Layout e housekeeping (5 pontos práticos)
- Zona de carga/descarga definida e isolada; módulos apoiados em superfície plana e protegida.
- Corredores livres para circulação; cabos e extensões sem cruzar áreas de passagem sem proteção.
- Separação de resíduos (metal, plástico, papelão) e descarte de pontas de cabos/conectores.
- Controle de peças pequenas (parafusos, grampos) em caixas organizadoras para evitar quedas do telhado.
- Proteção do telhado: mantas/panos para evitar danos e reduzir escorregamento em áreas críticas.
Ferramentas: uso seguro e qualidade da instalação
- Ferramenta de crimpagem: usar matriz compatível com o terminal; executar teste de tração (puxão controlado) em amostras.
- Torquímetro: aplicar torque especificado em grampos, trilhos e conexões elétricas; registrar quando exigido.
- Furadeiras/parafusadeiras: controle de profundidade e cuidado com perfuração de telhas e estruturas; atenção a cabos ocultos.
- Instrumentos de medição: manter calibrados/funcionais; pontas de prova íntegras e classificadas para a aplicação.
Como interpretar requisitos normativos aplicáveis (visão prática)
Normas e requisitos técnicos devem ser lidos como um conjunto de obrigações de segurança, desempenho e verificabilidade. Na prática, você deve traduzir o texto normativo em: (1) critérios de projeto/instalação, (2) inspeções e ensaios, (3) documentação.
Instalações elétricas de baixa tensão
- Critérios práticos: dimensionamento e proteção de condutores, seccionamento, proteção contra choques (contato direto/indireto), identificação de circuitos, seleção de dispositivos de proteção.
- Evidências: diagrama unifilar atualizado, identificação em quadros, registros de testes elétricos.
Aterramento e equipotencialização
- Critérios práticos: continuidade elétrica entre estruturas metálicas, interligação ao sistema de aterramento conforme projeto, conexões protegidas contra corrosão.
- Evidências: registro de continuidade/equipotencialização e fotos das conexões antes do fechamento.
Proteção contra surtos (DPS) e coordenação
- Critérios práticos: seleção e instalação de DPS nos pontos definidos (CC e/ou CA), condutores curtos e roteamento adequado para reduzir indutâncias, aterramento correto do DPS.
- Evidências: identificação do DPS instalado (modelo/classe), fotos do roteamento e conexões.
Comissionamento e verificação
- Critérios práticos: inspeção visual completa, testes elétricos previstos, validação de polaridade, continuidade, isolação quando aplicável, funcionalidade do seccionamento e proteções.
- Evidências: checklist assinado, relatórios de medições, registros de configuração do inversor quando aplicável.
Conexão à rede (interface com a concessionária)
- Critérios práticos: atender requisitos do ponto de conexão, proteções exigidas, identificação e acessibilidade de seccionamento, documentação técnica para solicitação e vistoria.
- Evidências: diagrama, memorial/relatórios exigidos, fotos do padrão e do seccionamento, registros do comissionamento.
Boas práticas operacionais (diretrizes objetivas)
- Identificação e etiquetagem: rotular strings, polaridades, quadros, seccionadoras e circuitos; usar padrão consistente.
- Roteamento de cabos: evitar laços desnecessários, proteger contra UV e abrasão, evitar esmagamento em cantos vivos, usar prensa-cabos adequados.
- Compatibilidade: não misturar conectores e componentes sem validação técnica; manter padrão do projeto.
- Controle de torque: aplicar torque especificado em grampos e conexões elétricas; reaperto apenas quando previsto.
- Gestão de mudanças: qualquer alteração em campo deve ser registrada (as built) e aprovada tecnicamente.
- Dupla checagem: antes de energizar, uma segunda pessoa revisa polaridade, aperto e identificação.
Checklists operacionais
Checklist antes da instalação (pré-obra)
- Equipe treinada e autorizada para as atividades previstas (altura e elétrica).
- APR/Análise de riscos da atividade preenchida e comunicada à equipe.
- EPIs inspecionados (cinto, talabarte, capacete, luvas, óculos, calçado).
- EPCs definidos e instalados (isolamento de área, linha de vida/ancoragens, sinalização).
- Ferramentas conferidas (crimpadora, torquímetro, instrumentos de medição, pontas de prova).
- Plano de acesso ao telhado (escada fixada, pontos de ancoragem, rota segura).
- Materiais conferidos e compatíveis (conectores, cabos, grampos, DPS, disjuntores/seccionadoras).
- Documentos disponíveis em campo: diagrama unifilar, layout, lista de materiais, procedimentos de seccionamento do inversor.
- Definição do responsável por LOTO e por liberação de energização.
Checklist durante a instalação (execução)
- Área abaixo do telhado isolada; ferramentas presas/organizadas.
- Trabalho em altura com ancoragem ativa e deslocamento seguro.
- Estruturas fixadas conforme especificação; verificação de alinhamento e aperto.
- Cabos roteados com proteção mecânica; sem esmagamento e sem contato com bordas cortantes.
- Conectores crimpados com ferramenta correta; inspeção visual e teste de tração por amostragem.
- Strings identificadas (string ID, polaridade, origem/destino).
- Seccionamento e proteções instalados conforme projeto; DPS com condutores curtos e aterramento correto.
- Quadros fechados quando não estiverem em intervenção; controle de acesso.
- Aplicação de LOTO sempre que houver risco de reenergização por terceiros.
- Registro fotográfico de pontos críticos antes de fechar eletrodutos/calhas/quadros.
Checklist após a instalação (pré-energização e comissionamento)
- Inspeção visual: fixações, integridade de cabos, prensa-cabos, vedação, identificação e organização.
- Continuidade/equipotencialização das partes metálicas verificada e registrada.
- Polaridade CC verificada por string; valores coerentes com o esperado.
- Verificação de seccionamento: dispositivos CC e CA operando corretamente e identificados.
- Proteções conferidas: disjuntores, DPS, aterramento e conexões.
- Instrumentos testados e medições registradas (com data, responsável e equipamento usado).
- Configurações do inversor revisadas conforme projeto e requisitos de rede (quando aplicável).
- Limpeza do canteiro: remoção de resíduos, sobras de cabos, embalagens e itens soltos no telhado.
- Atualização do “as built” quando houver mudanças em campo.
Documentação mínima e rastreabilidade do serviço
O que registrar (mínimo recomendável)
- APR/Análise de riscos e lista de presença do DDS (quando aplicável).
- Checklist antes/durante/depois, com assinaturas e datas.
- Diagrama unifilar e layout atualizados (as built).
- Lista de equipamentos com modelo e número de série (módulos, inversor, DPS, proteções).
- Registros de medições (tensões por string, continuidade/equipotencialização, verificações funcionais).
- Registro fotográfico de: conexões de aterramento, DPS, roteamento de cabos, identificação de strings, quadros antes de fechar.
- Controle de torque quando exigido pelo procedimento interno/projeto (pontos críticos definidos).
- Registro de LOTO (quando aplicado): data/hora, responsável, ponto bloqueado e liberação.
Modelo simples de tabela de rastreabilidade (exemplo)
| Item | Identificação | Local | Verificação | Resultado | Responsável/Data |
|---|---|---|---|---|---|
| String CC | S01 | String box | Polaridade e Voc | OK | ____ / __/__/__ |
| Aterramento | Estrutura | Telhado | Continuidade | OK | ____ / __/__/__ |
| DPS | CA-QD1 | Quadro | Conexão/roteamento | OK | ____ / __/__/__ |
Procedimentos rápidos (referência em campo)
Sequência segura típica para intervenção em inversor/string box
- Comunicar equipe e isolar área.
- Executar desligamento conforme manual (parada do inversor).
- Abrir seccionamento CA e aplicar LOTO se necessário.
- Abrir seccionamento CC conforme projeto/dispositivos.
- Verificar ausência/presença de tensão nos pontos de trabalho com procedimento de medição.
- Executar intervenção com ferramentas adequadas e organização de cabos.
- Revisar conexões, torque e identificação.
- Fechar tampas/quadros, remover LOTO conforme regra, religar na sequência definida e registrar.
Erros críticos a evitar (lista curta)
- Desconectar conectores CC sob carga.
- Inverter polaridade de strings ou unir strings sem verificação.
- Deixar cabos sem fixação, sujeitos a abrasão/UV/vento.
- Usar conectores incompatíveis ou crimpagem fora do padrão.
- Ignorar torque especificado em conexões elétricas e grampos.
- Trabalhar em altura sem ancoragem ativa e área isolada no solo.