Segurança e normas na instalação de sistemas fotovoltaicos

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

Objetivo deste capítulo

Este capítulo orienta a instalação de sistemas fotovoltaicos com foco em segurança prática e conformidade. A meta é reduzir riscos (altura, choque e arco elétrico, cortes e esmagamento), padronizar procedimentos (bloqueio/etiquetagem, isolamento CC/CA) e garantir rastreabilidade (registros mínimos do serviço) para inspeções, comissionamento e conexão à rede.

Conceitos essenciais de segurança aplicados ao fotovoltaico

Perigos x riscos x controles

Perigo é a fonte de dano (ex.: string CC energizada). Risco é a combinação de probabilidade e severidade (ex.: chance de contato + gravidade do choque). Controles são medidas para reduzir o risco, priorizando a hierarquia: eliminar/substituir, controles de engenharia (EPC), administrativos (procedimentos) e, por último, EPIs.

Particularidades do circuito CC em sistemas FV

  • O circuito CC pode permanecer energizado enquanto houver irradiância, mesmo com o inversor desligado.
  • Conectores e cabos CC podem gerar arco elétrico se desconectados sob carga.
  • Polaridade invertida e conexões mal crimpadas são causas comuns de falhas, aquecimento e incêndio.

Diferença prática entre isolamento CC e CA

  • CA (rede): normalmente é possível desenergizar de forma “clássica” abrindo disjuntores/seccionadoras e confirmando ausência de tensão.
  • CC (strings): o seccionamento deve ser feito com dispositivos adequados para CC e com procedimento que evite abertura sob carga; além disso, deve-se considerar que módulos continuam gerando tensão.

EPIs e EPCs: seleção e uso correto

EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) recomendados

  • Capacete com jugular (trabalho em altura e risco de queda de objetos).
  • Óculos de proteção (perfuração, corte, poeira, partículas metálicas).
  • Luva anticorte para manuseio de perfis, chapas e bordas de módulos; luva isolante quando aplicável a atividades elétricas (conforme procedimento e classe adequada).
  • Calçado de segurança com solado antiderrapante e biqueira (impacto e escorregamento).
  • Cinto paraquedista e talabarte/absorvedor (altura), com pontos de ancoragem compatíveis.
  • Protetor auricular quando houver ferramentas ruidosas (furadeiras, marteletes).
  • Vestuário de manga longa; em atividades com potencial de arco, considerar vestimenta com desempenho adequado ao risco definido na análise.

EPCs (Equipamentos de Proteção Coletiva) e controles de engenharia

  • Linha de vida, pontos de ancoragem certificados e guarda-corpos temporários.
  • Sinalização e isolamento de área (fitas, cones, placas) para impedir circulação sob a zona de trabalho.
  • Tapetes/mantas isolantes e barreiras físicas em quadros elétricos quando aplicável.
  • Extintor adequado ao ambiente e ao risco (definir no plano de segurança do canteiro).
  • Organizadores de cabos e passagens protegidas para evitar tropeços e esmagamento.

Passo a passo: checagem rápida de EPI antes de subir ao telhado

  1. Verifique integridade do capacete (casco sem trincas) e ajuste da jugular.
  2. Inspecione cinto e talabarte: costuras, mosquetões, trava dupla e etiqueta de inspeção.
  3. Teste o calçado: solado limpo e aderente (sem barro/óleo).
  4. Confirme luvas adequadas para a tarefa do momento (anticorte para estrutura; isolante para atividade elétrica planejada).
  5. Garanta óculos limpos e sem riscos que prejudiquem a visão.

Análise de riscos por atividade (com controles práticos)

Trabalho em altura (telhados e estruturas elevadas)

Riscos típicos: queda de altura, queda de objetos, escorregamento, fragilidade de telhas, acesso inadequado.

  • Controle de acesso: escada fixada, ângulo correto, ponto de amarração e área isolada no solo.
  • Ancoragem: usar ponto de ancoragem dimensionado; evitar ancorar em elementos frágeis (calhas, telhas).
  • Trânsito no telhado: caminhar sobre terças/apoios; usar passarelas quando necessário.
  • Clima: suspender atividade com chuva, ventos fortes ou telhado molhado.
  • Ferramentas: usar bolsa porta-ferramentas e talabarte para ferramentas quando aplicável.

Choque elétrico (CA e CC)

Riscos típicos: contato direto/indireto, energização acidental, falha de isolamento, erro de identificação de circuitos.

  • Planejamento: identificar fontes (rede CA, strings CC, baterias se houver) e pontos de seccionamento.
  • Verificação de ausência de tensão: medir com instrumento adequado e procedimento padronizado.
  • Barreiras: manter partes vivas protegidas; evitar quadros abertos sem controle de acesso.

Arco elétrico (principalmente em CC)

Riscos típicos: desconexão sob carga, conectores incompatíveis, crimpagem inadequada, mau contato e aquecimento.

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  • Não desconectar conectores sob carga: garantir condição de seccionamento e procedimento correto.
  • Padronização de conectores: usar conectores compatíveis e do mesmo sistema; evitar “misturas” sem validação técnica.
  • Crimpagem: ferramenta correta, matriz correta e inspeção do terminal.
  • Torque: aplicar torque especificado em bornes e barramentos para evitar aquecimento.

Cortes, perfurações e esmagamento

Riscos típicos: bordas de perfis e chapas, rebarbas, brocas, queda de módulos, prensamento de dedos em grampos.

  • Usar luvas anticorte e manter rebarbas tratadas (lima/escareador quando necessário).
  • Movimentar módulos em dupla e usar apoios para evitar queda e esmagamento.
  • Manter mãos fora da zona de aperto ao posicionar grampos.

Bloqueio e etiquetagem (LOTO): procedimento aplicável ao FV

Quando aplicar

  • Intervenção em quadros CA, inversores, seccionadoras, string box e circuitos que possam ser energizados por terceiros.
  • Atividades com risco de reenergização acidental (ex.: equipe paralela atuando no mesmo padrão/quadros).

Passo a passo prático de LOTO (modelo operacional)

  1. Preparar: identifique todas as fontes de energia (CA da rede, CC das strings, fontes auxiliares).
  2. Comunicar: informe a equipe e, quando aplicável, o responsável pela instalação elétrica do local.
  3. Desligar: execute o desligamento na sequência definida (ex.: desligar inversor conforme manual, abrir seccionamento CA, depois CC conforme projeto e dispositivos).
  4. Isolar: acione dispositivos de seccionamento e bloqueie fisicamente (cadeado/trava).
  5. Etiquetar: aplique etiqueta com responsável, data/hora, motivo e contato.
  6. Verificar: confirme ausência de tensão com instrumento apropriado (procedimento de teste do instrumento antes e depois da medição).
  7. Executar o serviço: mantenha o controle das chaves/cadeados com o responsável designado.
  8. Retornar: após inspeção e liberação, remover bloqueios/etiquetas conforme regra do responsável e religar na sequência definida.

Boas práticas para evitar falhas comuns

  • Não usar etiqueta sem bloqueio quando houver possibilidade de reenergização.
  • Não deixar cadeados “compartilhados”; cada responsável deve controlar seu bloqueio.
  • Registrar no diário de obra a aplicação e remoção do LOTO.

Isolamento e seccionamento de circuitos CC e CA

CA (lado da rede)

  • Identifique o ponto de conexão e o dispositivo de seccionamento acessível.
  • Abra o disjuntor/seccionadora e aplique LOTO quando necessário.
  • Confirme ausência de tensão no ponto de trabalho antes de tocar em condutores/barramentos.

CC (strings e arranjos)

  • Mapeie strings e polaridades antes de qualquer intervenção.
  • Utilize dispositivos de seccionamento adequados para CC e respeite a sequência operacional do fabricante do inversor/string box.
  • Evite desconectar conectores sob carga; planeje para que a abertura ocorra em condição segura.
  • Após isolar, confirme tensões esperadas (ex.: tensão de circuito aberto) e verifique polaridade.

Passo a passo: verificação segura de ausência/presença de tensão

  1. Selecione o instrumento correto (multímetro/alicate) e a escala adequada.
  2. Teste o instrumento em uma fonte conhecida (antes).
  3. Meça no ponto de trabalho (fase-fase, fase-neutro, fase-terra; e em CC, positivo-negativo e cada polo para terra conforme aplicável).
  4. Teste o instrumento novamente em fonte conhecida (depois).
  5. Registre o resultado quando fizer parte do comissionamento ou liberação de área.

Organização do canteiro e manuseio de ferramentas

Layout e housekeeping (5 pontos práticos)

  • Zona de carga/descarga definida e isolada; módulos apoiados em superfície plana e protegida.
  • Corredores livres para circulação; cabos e extensões sem cruzar áreas de passagem sem proteção.
  • Separação de resíduos (metal, plástico, papelão) e descarte de pontas de cabos/conectores.
  • Controle de peças pequenas (parafusos, grampos) em caixas organizadoras para evitar quedas do telhado.
  • Proteção do telhado: mantas/panos para evitar danos e reduzir escorregamento em áreas críticas.

Ferramentas: uso seguro e qualidade da instalação

  • Ferramenta de crimpagem: usar matriz compatível com o terminal; executar teste de tração (puxão controlado) em amostras.
  • Torquímetro: aplicar torque especificado em grampos, trilhos e conexões elétricas; registrar quando exigido.
  • Furadeiras/parafusadeiras: controle de profundidade e cuidado com perfuração de telhas e estruturas; atenção a cabos ocultos.
  • Instrumentos de medição: manter calibrados/funcionais; pontas de prova íntegras e classificadas para a aplicação.

Como interpretar requisitos normativos aplicáveis (visão prática)

Normas e requisitos técnicos devem ser lidos como um conjunto de obrigações de segurança, desempenho e verificabilidade. Na prática, você deve traduzir o texto normativo em: (1) critérios de projeto/instalação, (2) inspeções e ensaios, (3) documentação.

Instalações elétricas de baixa tensão

  • Critérios práticos: dimensionamento e proteção de condutores, seccionamento, proteção contra choques (contato direto/indireto), identificação de circuitos, seleção de dispositivos de proteção.
  • Evidências: diagrama unifilar atualizado, identificação em quadros, registros de testes elétricos.

Aterramento e equipotencialização

  • Critérios práticos: continuidade elétrica entre estruturas metálicas, interligação ao sistema de aterramento conforme projeto, conexões protegidas contra corrosão.
  • Evidências: registro de continuidade/equipotencialização e fotos das conexões antes do fechamento.

Proteção contra surtos (DPS) e coordenação

  • Critérios práticos: seleção e instalação de DPS nos pontos definidos (CC e/ou CA), condutores curtos e roteamento adequado para reduzir indutâncias, aterramento correto do DPS.
  • Evidências: identificação do DPS instalado (modelo/classe), fotos do roteamento e conexões.

Comissionamento e verificação

  • Critérios práticos: inspeção visual completa, testes elétricos previstos, validação de polaridade, continuidade, isolação quando aplicável, funcionalidade do seccionamento e proteções.
  • Evidências: checklist assinado, relatórios de medições, registros de configuração do inversor quando aplicável.

Conexão à rede (interface com a concessionária)

  • Critérios práticos: atender requisitos do ponto de conexão, proteções exigidas, identificação e acessibilidade de seccionamento, documentação técnica para solicitação e vistoria.
  • Evidências: diagrama, memorial/relatórios exigidos, fotos do padrão e do seccionamento, registros do comissionamento.

Boas práticas operacionais (diretrizes objetivas)

  • Identificação e etiquetagem: rotular strings, polaridades, quadros, seccionadoras e circuitos; usar padrão consistente.
  • Roteamento de cabos: evitar laços desnecessários, proteger contra UV e abrasão, evitar esmagamento em cantos vivos, usar prensa-cabos adequados.
  • Compatibilidade: não misturar conectores e componentes sem validação técnica; manter padrão do projeto.
  • Controle de torque: aplicar torque especificado em grampos e conexões elétricas; reaperto apenas quando previsto.
  • Gestão de mudanças: qualquer alteração em campo deve ser registrada (as built) e aprovada tecnicamente.
  • Dupla checagem: antes de energizar, uma segunda pessoa revisa polaridade, aperto e identificação.

Checklists operacionais

Checklist antes da instalação (pré-obra)

  • Equipe treinada e autorizada para as atividades previstas (altura e elétrica).
  • APR/Análise de riscos da atividade preenchida e comunicada à equipe.
  • EPIs inspecionados (cinto, talabarte, capacete, luvas, óculos, calçado).
  • EPCs definidos e instalados (isolamento de área, linha de vida/ancoragens, sinalização).
  • Ferramentas conferidas (crimpadora, torquímetro, instrumentos de medição, pontas de prova).
  • Plano de acesso ao telhado (escada fixada, pontos de ancoragem, rota segura).
  • Materiais conferidos e compatíveis (conectores, cabos, grampos, DPS, disjuntores/seccionadoras).
  • Documentos disponíveis em campo: diagrama unifilar, layout, lista de materiais, procedimentos de seccionamento do inversor.
  • Definição do responsável por LOTO e por liberação de energização.

Checklist durante a instalação (execução)

  • Área abaixo do telhado isolada; ferramentas presas/organizadas.
  • Trabalho em altura com ancoragem ativa e deslocamento seguro.
  • Estruturas fixadas conforme especificação; verificação de alinhamento e aperto.
  • Cabos roteados com proteção mecânica; sem esmagamento e sem contato com bordas cortantes.
  • Conectores crimpados com ferramenta correta; inspeção visual e teste de tração por amostragem.
  • Strings identificadas (string ID, polaridade, origem/destino).
  • Seccionamento e proteções instalados conforme projeto; DPS com condutores curtos e aterramento correto.
  • Quadros fechados quando não estiverem em intervenção; controle de acesso.
  • Aplicação de LOTO sempre que houver risco de reenergização por terceiros.
  • Registro fotográfico de pontos críticos antes de fechar eletrodutos/calhas/quadros.

Checklist após a instalação (pré-energização e comissionamento)

  • Inspeção visual: fixações, integridade de cabos, prensa-cabos, vedação, identificação e organização.
  • Continuidade/equipotencialização das partes metálicas verificada e registrada.
  • Polaridade CC verificada por string; valores coerentes com o esperado.
  • Verificação de seccionamento: dispositivos CC e CA operando corretamente e identificados.
  • Proteções conferidas: disjuntores, DPS, aterramento e conexões.
  • Instrumentos testados e medições registradas (com data, responsável e equipamento usado).
  • Configurações do inversor revisadas conforme projeto e requisitos de rede (quando aplicável).
  • Limpeza do canteiro: remoção de resíduos, sobras de cabos, embalagens e itens soltos no telhado.
  • Atualização do “as built” quando houver mudanças em campo.

Documentação mínima e rastreabilidade do serviço

O que registrar (mínimo recomendável)

  • APR/Análise de riscos e lista de presença do DDS (quando aplicável).
  • Checklist antes/durante/depois, com assinaturas e datas.
  • Diagrama unifilar e layout atualizados (as built).
  • Lista de equipamentos com modelo e número de série (módulos, inversor, DPS, proteções).
  • Registros de medições (tensões por string, continuidade/equipotencialização, verificações funcionais).
  • Registro fotográfico de: conexões de aterramento, DPS, roteamento de cabos, identificação de strings, quadros antes de fechar.
  • Controle de torque quando exigido pelo procedimento interno/projeto (pontos críticos definidos).
  • Registro de LOTO (quando aplicado): data/hora, responsável, ponto bloqueado e liberação.

Modelo simples de tabela de rastreabilidade (exemplo)

ItemIdentificaçãoLocalVerificaçãoResultadoResponsável/Data
String CCS01String boxPolaridade e VocOK____ / __/__/__
AterramentoEstruturaTelhadoContinuidadeOK____ / __/__/__
DPSCA-QD1QuadroConexão/roteamentoOK____ / __/__/__

Procedimentos rápidos (referência em campo)

Sequência segura típica para intervenção em inversor/string box

  1. Comunicar equipe e isolar área.
  2. Executar desligamento conforme manual (parada do inversor).
  3. Abrir seccionamento CA e aplicar LOTO se necessário.
  4. Abrir seccionamento CC conforme projeto/dispositivos.
  5. Verificar ausência/presença de tensão nos pontos de trabalho com procedimento de medição.
  6. Executar intervenção com ferramentas adequadas e organização de cabos.
  7. Revisar conexões, torque e identificação.
  8. Fechar tampas/quadros, remover LOTO conforme regra, religar na sequência definida e registrar.

Erros críticos a evitar (lista curta)

  • Desconectar conectores CC sob carga.
  • Inverter polaridade de strings ou unir strings sem verificação.
  • Deixar cabos sem fixação, sujeitos a abrasão/UV/vento.
  • Usar conectores incompatíveis ou crimpagem fora do padrão.
  • Ignorar torque especificado em conexões elétricas e grampos.
  • Trabalhar em altura sem ancoragem ativa e área isolada no solo.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao intervir em um circuito CC de um sistema fotovoltaico, qual cuidado é essencial para reduzir o risco de arco elétrico e choque, mesmo com o inversor desligado?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No lado CC, as strings podem permanecer energizadas com irradiância e a desconexão sob carga pode gerar arco elétrico. Por isso, é necessário seccionamento próprio para CC, sequência/procedimento seguro e verificação de tensão e polaridade com instrumento adequado.

Próximo capitúlo

Princípios de energia solar fotovoltaica aplicados à instalação de placas solares

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