Princípios de energia solar fotovoltaica aplicados à instalação de placas solares

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que você precisa saber para dimensionar e instalar com segurança técnica

Para transformar “sol no telhado” em energia elétrica previsível, o projeto precisa traduzir condições reais (irradiação, orientação, temperatura, sombras e perdas) em números: potência instalada (kWp), energia gerada (kWh) e área necessária (m²). Nesta seção, você verá os conceitos essenciais e como eles afetam decisões práticas de instalação e dimensionamento.

Irradiação e como ela vira energia (kWh)

Conceito

Irradiação é a energia solar que chega a uma área ao longo do tempo, normalmente expressa em kWh/m²/dia (média diária) ou kWh/m²/mês. Em projetos fotovoltaicos, usa-se com frequência a irradiação no plano do gerador (POA) ou uma aproximação baseada na irradiação horizontal ajustada por orientação/inclinação.

Uma forma prática de conectar irradiação à geração é por meio das Horas de Sol Pleno (HSP): numericamente, HSP (h/dia) ≈ irradiação (kWh/m²/dia). Ex.: 5,0 kWh/m²/dia ≈ 5,0 HSP.

Impacto no projeto

  • Quanto maior a irradiação local, menor a potência instalada (kWp) necessária para gerar a mesma energia mensal.
  • Diferenças sazonais (verão/inverno) mudam a geração mensal; o dimensionamento deve considerar o mês crítico conforme o objetivo (autoconsumo, compensação anual, etc.).

Passo a passo: estimar energia mensal a partir de irradiação

Uma estimativa rápida e útil em pré-projeto é:

E_mensal (kWh) ≈ P_instalada (kWp) × HSP_média (h/dia) × dias_do_mês × PR

Onde PR (Performance Ratio) agrega perdas reais do sistema (temperatura, inversor, cabos, sujeira, mismatch, disponibilidade, etc.). Em estimativas iniciais, usa-se frequentemente PR entre 0,75 e 0,85, dependendo do nível de conservadorismo e das condições do local.

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Exemplo prático: sistema de 5,0 kWp, HSP média 5,2 h/dia, mês com 30 dias, PR=0,80.

E_mensal ≈ 5,0 × 5,2 × 30 × 0,80 = 624 kWh/mês

Se você tiver a irradiação mensal em kWh/m²/mês (em vez de HSP), pode usar:

E_mensal (kWh) ≈ P_instalada (kWp) × Irrad_mensal_equiv (kWh/kWp) × PR

Na prática, muitos bancos de dados já fornecem “kWh/kWp” por mês (energia específica). Quando não houver, a fórmula com HSP é a mais direta para estimativa.

Orientação e inclinação: onde apontar e com que ângulo

Conceito

Orientação (azimute) é a direção para a qual os módulos “olham”. Inclinação é o ângulo em relação à horizontal. Esses dois fatores alteram a irradiação no plano do módulo e, portanto, a geração.

Regra prática: quanto mais o plano do módulo estiver alinhado com o caminho do sol ao longo do ano, maior a captação. Ajustes finos dependem de latitude, sazonalidade e objetivo (maximizar anual, favorecer inverno, etc.).

Impacto no projeto

  • Desvios moderados de orientação e inclinação podem ser aceitáveis, mas reduzem a energia anual e mudam o perfil horário (importante para autoconsumo).
  • Inclinações muito baixas podem aumentar acúmulo de sujeira e água, elevando perdas por soiling e manutenção.
  • Em telhados com múltiplas águas, pode ser melhor dividir strings por orientação para reduzir mismatch e facilitar MPPT.

Passo a passo: como tratar orientação/inclinação na estimativa

  • Passo 1: identifique orientação e inclinação reais do telhado (bússola/azimute e inclinômetro ou geometria do telhado).
  • Passo 2: obtenha HSP/irradiação para o plano mais próximo (quando disponível) ou aplique um fator de ajuste simplificado.
  • Passo 3: se houver duas orientações diferentes, estime energia separadamente por campo e some.

Exemplo prático (fator simplificado): suponha que a orientação/inclinação escolhida resulte em 95% da irradiação ótima anual. Se o cálculo inicial deu 624 kWh/mês, ajuste:

E_ajustada ≈ 624 × 0,95 = 593 kWh/mês

Esse tipo de fator é útil para triagem, mas em projeto executivo o ideal é usar dados no plano do gerador ou simulação com geometria e perdas.

Sombreamento e perdas: o que mais derruba a geração

Conceito

Sombreamento ocorre quando obstáculos (caixa d’água, platibanda, árvores, edificações) bloqueiam parte da luz. Em módulos FV, sombra não reduz apenas a área sombreada: ela pode limitar a corrente de uma série inteira, acionando diodos de bypass e criando perdas desproporcionais.

Perdas são reduções de energia por diversos mecanismos: temperatura, sujeira (soiling), cabos (queda de tensão), inversor, mismatch, degradação, indisponibilidade, etc.

Impacto no projeto

  • Sombra em horários de alta irradiância (meio do dia) costuma ser mais crítica do que sombra no início/fim do dia.
  • Sombras “finas” (antenas, cabos) podem causar perdas relevantes dependendo do caminho sobre as células.
  • Decisões típicas: reposicionar módulos, elevar estrutura, afastar de obstáculos, separar strings por área sombreada, usar mais MPPTs, ou otimização por módulo quando necessário.

Passo a passo: estimar perdas e montar um PR coerente

Uma abordagem prática é decompor o PR em perdas típicas e depois multiplicar (ou somar percentuais com cuidado). Exemplo de orçamento de perdas (valores ilustrativos):

ItemPerda típicaObservação
Temperatura6% a 12%Depende do clima, ventilação e coeficiente do módulo
Inversor (conversão)2% a 4%Eficiência e operação fora do ponto ideal
Cabos CC+CA1% a 3%Seção, distância e corrente
Sujeira (soiling)2% a 8%Depende de poeira, chuva e inclinação
Mismatch1% a 3%Diferenças entre módulos e condições
Sombreamento0% a 20%+Altamente dependente do local

Se você estimar perdas totais de 20%, então PR ≈ 0,80. Em locais com sombra relevante, PR pode cair bastante; isso muda diretamente o kWp necessário.

Curva I-V: por que tensão e corrente importam na instalação

Conceito

A curva I-V descreve como a corrente (I) do módulo varia com a tensão (V) para uma condição de irradiância e temperatura. Dela vêm pontos-chave:

  • Isc (corrente de curto-circuito): corrente máxima aproximada em V=0.
  • Voc (tensão de circuito aberto): tensão máxima aproximada em I=0.
  • Ponto de máxima potência (MPP): onde V×I é máximo (Vmp e Imp).

O inversor (ou MPPT) tenta operar o arranjo no MPP. Mudanças de irradiância e temperatura deslocam a curva, alterando Vmp/Imp e a potência disponível.

Impacto no projeto

  • Temperatura baixa aumenta Voc: isso afeta o número máximo de módulos em série para não exceder o limite de tensão do inversor.
  • Irradiância alta aumenta corrente: isso afeta dimensionamento de cabos, conectores e limites de corrente por MPPT.
  • Sombreamento cria “degraus” na curva P-V e pode levar a MPPT em máximos locais; por isso, strings com sombras diferentes devem ser separadas quando possível.

Potência nominal (Wp) e eficiência: o que significam na prática

Conceito

Wp (Watt-pico) é a potência do módulo em condições padrão de teste (STC): irradiância 1000 W/m², temperatura de célula 25°C e espectro padrão. Um módulo de 550 Wp entrega 550 W nessas condições, não necessariamente no telhado.

Eficiência do módulo é a fração da irradiância convertida em potência elétrica em STC. Ela se relaciona diretamente com a área necessária:

Área do módulo (m²) ≈ Potência (W) / (Eficiência × 1000)

Impacto no projeto

  • Maior eficiência geralmente reduz área para a mesma potência instalada (útil em telhados pequenos).
  • Wp maior por módulo reduz quantidade de módulos para o mesmo kWp, mas pode exigir atenção a dimensões, peso e manuseio.

Exemplo prático: área aproximada por potência

Suponha módulo de 550 Wp com eficiência de 21%:

Área ≈ 550 / (0,21 × 1000) ≈ 2,62 m²

Para 5,0 kWp (5000 Wp), número de módulos:

N ≈ 5000 / 550 ≈ 9,1 → 10 módulos (arredondando para cima)

Área aproximada:

A_total ≈ 10 × 2,62 ≈ 26,2 m²

Na prática, some folgas para afastamentos, passagens, bordas do telhado e layout (nem toda área vira área útil).

Temperatura e coeficientes: por que o módulo “perde potência” no calor

Conceito

Módulos fotovoltaicos têm coeficientes de temperatura, principalmente o coeficiente de potência (geralmente negativo). Um valor típico é algo como -0,30%/°C a -0,45%/°C (ver ficha técnica do módulo). Isso significa que, acima de 25°C de temperatura de célula, a potência cai proporcionalmente.

A temperatura de célula costuma ser maior que a temperatura ambiente, especialmente com baixa ventilação (telhado colado) e alta irradiância.

Impacto no projeto

  • Climas quentes e montagem com pouca ventilação reduzem energia anual e podem justificar mais kWp para atingir a meta de kWh.
  • Temperatura baixa eleva Voc e pode limitar o comprimento de strings (segurança elétrica e compatibilidade com inversor).

Exemplo prático: ajuste de potência por temperatura (estimativa)

Suponha coeficiente de potência -0,35%/°C e temperatura de célula estimada em 60°C em operação. Diferença para STC: 60 - 25 = 35°C.

Perda ≈ 35 × 0,35% = 12,25%

Ou seja, um módulo de 550 Wp poderia operar próximo de:

P ≈ 550 × (1 - 0,1225) ≈ 483 W (em condição quente semelhante)

Isso não substitui simulação, mas ajuda a entender por que o Wp não é a potência “no telhado” em horários quentes.

Mismatch: quando módulos “iguais” não se comportam iguais

Conceito

Mismatch é a perda causada por diferenças entre módulos e condições dentro de uma mesma string: tolerância de fabricação, envelhecimento desigual, sujeira localizada, micro-sombreamento, diferenças de orientação/inclinação, ou até diferenças térmicas (módulos mais ventilados vs. menos ventilados).

Impacto no projeto

  • Strings devem agrupar módulos com condições semelhantes (mesma água do telhado, mesma inclinação, mesma exposição a sombras).
  • Separar campos por MPPT reduz perdas quando há orientações diferentes.
  • Em locais com sombras parciais inevitáveis, a topologia do sistema (strings, MPPTs, eletrônica por módulo) pode ser decisiva para reduzir mismatch.

Degradação: como a produção muda ao longo dos anos

Conceito

Degradação é a redução gradual da potência do módulo ao longo do tempo. É comum considerar uma taxa anual (ex.: 0,4% a 0,8% ao ano, conforme tecnologia e garantia). Há também a possibilidade de degradação inicial (LID/LeTID) dependendo do tipo de célula, normalmente tratada em especificações do fabricante.

Impacto no projeto

  • Para metas de energia ao longo de 10–25 anos, a degradação reduz a geração futura; isso influencia a viabilidade e o atendimento de consumo no longo prazo.
  • Em projetos com pouco espaço, pode ser necessário instalar mais potência no início para compensar a queda ao longo do tempo (quando o objetivo é manter uma energia mínima futura).

Traduzindo energia desejada em kWp, número de módulos e área

Passo a passo completo (com exemplo)

Objetivo: atender 600 kWh/mês (média) com HSP média 5,0 h/dia, 30 dias, PR=0,80. Módulos de 550 Wp, eficiência 21% (área ~2,62 m² por módulo).

  • Passo 1 — Calcular energia por kWp no mês:
E_por_kWp ≈ HSP × dias × PR = 5,0 × 30 × 0,80 = 120 kWh/kWp/mês
  • Passo 2 — Calcular kWp necessário:
P_necessária ≈ E_desejada / E_por_kWp = 600 / 120 = 5,0 kWp
  • Passo 3 — Converter kWp em quantidade de módulos:
N ≈ (5,0 kWp × 1000) / 550 ≈ 9,1 → 10 módulos
  • Passo 4 — Estimar área de módulos:
A_total ≈ 10 × 2,62 ≈ 26,2 m²
  • Passo 5 — Ajustar por orientação/sombreamento (se aplicável):

Se houver perda adicional estimada de 8% por orientação não ideal e 5% por sombreamento parcial em parte do ano, você pode reduzir o PR efetivo (ou aplicar um fator na energia). Exemplo conservador: PR efetivo = 0,80 × 0,92 × 0,95 ≈ 0,70.

E_por_kWp ≈ 5,0 × 30 × 0,70 = 105 kWh/kWp/mês → P_necessária ≈ 600/105 ≈ 5,7 kWp

Isso pode levar a:

N ≈ (5,7 × 1000) / 550 ≈ 10,4 → 11 módulos

Note como pequenas perdas mudam a quantidade final de módulos, especialmente quando o telhado é limitado.

Checklist técnico rápido para decisões de projeto (sem simulação avançada)

  • Irradiação/HSP do local: use valores mensais quando possível; identifique mês mais fraco.
  • Orientação e inclinação reais: se houver múltiplas águas, trate campos separadamente.
  • Sombreamento: mapeie obstáculos e horários críticos; evite sombras no miolo do dia.
  • PR coerente: explicite perdas (temperatura, sujeira, cabos, inversor, mismatch, sombra).
  • Wp e eficiência: converta energia desejada em kWp e depois em número de módulos e área útil.
  • Temperatura: considere perda de potência no calor e aumento de Voc no frio para strings.
  • Mismatch: agrupe módulos por condições semelhantes e use MPPTs adequadamente.
  • Degradação: se a meta for “energia mínima futura”, considere margem de potência inicial.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao estimar rapidamente a energia mensal gerada por um sistema fotovoltaico, qual combinação de fatores é usada para ligar a potência instalada (kWp) à geração (kWh) e incorporar as perdas reais do sistema?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A estimativa rápida usa E_mensal ≈ kWp × HSP × dias × PR. A HSP conecta a irradiação à energia e o PR agrega perdas como temperatura, inversor, cabos, sujeira, mismatch e sombreamento.

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Tipos de sistemas fotovoltaicos: on-grid, off-grid e híbrido na prática

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