Salvamento e resgate, no contexto operacional dos Bombeiros Militares, envolve um conjunto de técnicas para localizar, acessar, estabilizar e retirar vítimas de cenários com risco (terrestre, veicular e em altura), preservando a segurança da equipe e reduzindo a piora do quadro da vítima. Em nível de edital, o foco recai sobre: avaliação e gerenciamento de riscos, estabilização de cenários, extricação básica, nós e amarrações, ancoragens, sistemas simples de vantagem mecânica, busca e salvamento (varredura, marcação e comunicação) e uso seguro de EPI/EPC.
1) Gerenciamento de riscos e segurança (equipe, cena e vítima)
1.1 Princípios operacionais
- Prioridade de segurança: 1) equipe, 2) vítima(s), 3) patrimônio/ambiente.
- Zona quente, morna e fria: delimitar áreas conforme o risco (tráfego, queda de objetos, instabilidade estrutural, energia elétrica, materiais perigosos).
- Comando e comunicação: definir líder, funções (segurança, estabilização, acesso, extração, logística), canal de rádio e sinais manuais quando necessário.
- Gerenciamento de energia: identificar e controlar fontes de energia (movimento, gravidade, elétrica, combustível, pressão, tensão em cabos/cordas).
1.2 Check-list rápido de cena (modelo prático)
Use um roteiro curto para não “pular” etapas sob estresse:
- Ver: o que está instável? há tráfego? fumaça? fios? risco de queda? terreno cede?
- Ouvir: ruídos de estalos, vazamentos, motor ligado, gritos, alarmes.
- Cheirar: combustível, gás, queimado (sem se aproximar indevidamente).
- Isolar: cones, fitas, viaturas em proteção, controle de curiosos.
- Controlar: desligar ignição, calçar/estabilizar, bloquear energia, ancorar, ventilar quando aplicável.
1.3 EPI e EPC: uso seguro e coerente com o risco
- EPI típico em salvamento: capacete com jugular, óculos/visor, luvas adequadas (corte/impacto), botas, vestimenta de proteção, colete refletivo em via, cinturão/cadeirinha para altura quando aplicável.
- EPC típico: cones, sinalização, iluminação, calços, estabilizadores, escoras, linhas de vida, ancoragens redundantes, mantas de proteção, protetores de aresta, cobertores/lençóis para proteção de vítima contra estilhaços.
- Regra prática: EPI não “compensa” cena descontrolada. Primeiro reduza o risco (EPC/isolamento), depois execute a técnica.
2) Salvamento terrestre: acesso, busca e retirada em ambientes variados
2.1 Noções de busca e salvamento (varredura, marcação e comunicação)
Busca e salvamento (B&S) envolve localizar vítimas e perigos, manter orientação e registrar o que foi verificado. Em provas, costuma aparecer como conceitos de varredura, comunicação e marcação.
- Varredura: método sistemático para cobrir área sem lacunas. Exemplos: varredura em linha (equipe lado a lado), varredura por setores (dividir área em quadrantes), varredura em espiral (quando há ponto central de referência).
- Comunicação: mensagens curtas e padronizadas (local, achado, necessidade). Ex.: “Setor B, vítima localizada, consciente, presa por membro inferior, solicitando estabilização e ferramenta de corte”.
- Marcação: sinalizar áreas já verificadas e condições encontradas (conforme protocolo local). Em estudo, memorize o princípio: marcar para evitar retrabalho e reduzir risco, sem criar confusão (marcação visível, consistente e comunicada).
2.2 Passo a passo: varredura em ambiente com baixa visibilidade (modelo didático)
Objetivo: manter orientação, cobrir área e voltar com segurança.
- 1) Preparação: definir ponto de entrada/saída, tempo de permanência, equipe em duplas, rádio testado, iluminação e EPI.
- 2) Linha-guia/Referência: usar parede, corrimão, corda guia ou referência fixa. Evitar “soltar” a referência.
- 3) Progressão: deslocamento lento, varrendo com mãos/pés e iluminação; checar portas/obstáculos antes de avançar.
- 4) Comunicação periódica: reportar posição e progresso por tempo ou por setor.
- 5) Achado de vítima: avaliar riscos imediatos (queda, esmagamento, atmosfera), proteger a vítima, sinalizar e solicitar recursos.
- 6) Retirada: retornar pela referência, mantendo a equipe coesa e sem ultrapassar o limite de segurança definido.
2.3 Técnicas básicas de retirada (sem detalhar atendimento clínico)
- Arrasto por roupas/axilas: útil em risco iminente (ex.: desabamento, explosão). Prioriza rapidez; exige cuidado com obstáculos.
- Transporte a dois socorristas: quando o terreno permite e a vítima colabora parcialmente.
- Uso de maca/lençol: reduz atrito e melhora controle em corredores/escadas, quando disponível.
3) Salvamento veicular: estabilização, acesso e extricação básica
3.1 Conceitos essenciais
Salvamento veicular é o conjunto de ações para tornar o veículo e o entorno seguros, criar acesso e retirar a vítima com o mínimo de movimentação desnecessária. Em edital, o núcleo é: estabilização, controle de riscos e extricação básica.
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3.2 Gerenciamento de riscos em ocorrências veiculares
- Tráfego: posicionar viatura como barreira, sinalizar com cones, iluminação e coletes refletivos; criar corredor de segurança.
- Incêndio/combustível: observar vazamentos, odor, fumaça; manter extintor/linha pronta conforme protocolo local.
- Energia do veículo: desligar ignição, retirar chave, acionar freio de estacionamento quando possível; atenção a sistemas elétricos e airbags (risco residual).
- Estabilidade: risco de tombamento/rolagem; estabilizar antes de entrar ou apoiar peso no veículo.
- Vidros e arestas: estilhaços e cortes; usar proteção ocular e coberturas.
3.3 Passo a passo: estabilização de veículo (cenário padrão em via)
Objetivo: impedir movimentos do veículo durante o acesso e a retirada.
- 1) Isolamento e posicionamento: delimitar zona de trabalho; viatura em proteção; cones e sinalização.
- 2) Avaliação do veículo: posição (sobre rodas, lateral, teto), pontos de contato com o solo, risco de escorregamento.
- 3) Imobilização primária: calçar rodas (quando aplicável), travar movimento com cunhas/calços.
- 4) Estabilização estrutural: usar estabilizadores, escoras ou calços em pontos firmes do chassi/estrutura, criando “triangulação” de apoio.
- 5) Controle de energia: desligar ignição, remover chave, desconectar fonte conforme procedimento local; manter atenção a airbags não deflagrados.
- 6) Checagem: testar estabilidade com empurrão controlado (sem colocar-se em zona de esmagamento). Se houver movimento, reforçar estabilização.
3.4 Extricação básica: acesso e retirada com mínima agressão
Extricação básica prioriza acesso rápido e seguro e retirada controlada, usando técnicas simples e ferramentas disponíveis, sem depender de manobras complexas.
- Acesso por portas: após estabilização, avaliar se abre normalmente; se travada, criar folga com ferramenta de alavanca e proteger a vítima de estilhaços.
- Gerenciamento de vidros: controlar estilhaçamento, cobrir vítima, remover fragmentos com técnica e proteção.
- Criação de espaço: rebatimento de banco, ajuste de encosto, remoção de obstáculos internos quando possível.
- Retirada: coordenar equipe (comando único), manter alinhamento corporal da vítima conforme necessidade operacional, evitar tração em membros presos.
3.5 Comunicação e funções na equipe (modelo de organização)
- Líder: decide estratégia e comanda tempos.
- Segurança: monitora tráfego, fogo, vazamentos, estabilidade e zona de risco.
- Acesso/Extricação: executa abertura/criação de espaço e retirada.
- Estabilização: calços/escoras/ancoragens e checagem contínua.
4) Salvamento em altura: nós, ancoragens e sistemas simples
4.1 Conceitos operacionais
- Trabalho em altura: envolve risco de queda e exige redundância, ancoragens confiáveis, proteção de arestas e comunicação clara.
- Sistema pessoal: cadeirinha/cinturão apropriado, talabarte, conectores, capacete com jugular, luvas e calçado aderente.
- Linhas: linha de trabalho (principal) e linha de segurança (backup), conforme procedimento e material disponível.
4.2 Nós e amarrações fundamentais (o que saber e como treinar)
Em edital, é comum cobrar identificação, finalidade e aplicação básica. Treine sempre com inspeção visual e teste de carga progressivo (sem choque).
- Oito (figure-eight) e oito duplo: formar laço seguro para encordamento e pontos de ancoragem.
- Azelha (bowline): laço que não corre, útil para amarração em vítima/ancoragem quando permitido pelo protocolo.
- Pescador duplo: unir cordas/fitas ou fazer nós de bloqueio em cordins.
- Prusik (autoblocante): fricção para progressão, backup e captura de carga em sistemas simples.
- Volta do fiel / nó de ancoragem simples: fixação rápida em ponto robusto (varia conforme doutrina local; foque no princípio: fixar sem escorregar e com fácil inspeção).
4.3 Passo a passo: montagem de ancoragem segura (princípios)
Objetivo: criar ponto confiável para suportar carga, com redundância e direção correta.
- 1) Escolha do ponto: estrutura sólida (viga/coluna/árvore saudável/olhal certificado). Evitar pontos cortantes, corroídos ou com risco de arrancamento.
- 2) Direção da carga: alinhar a ancoragem para que a força puxe no sentido mais favorável ao ponto.
- 3) Redundância: quando possível, usar dois pontos independentes equalizados (se um falhar, o outro sustenta).
- 4) Proteção de arestas: usar protetores, mantas ou roletes para evitar corte/abrasão da corda.
- 5) Conectores: usar mosquetões/travas adequadas, com carga no eixo principal e trava fechada.
- 6) Checagem cruzada: dupla conferência (socorrista A confere o de B e vice-versa) antes de carregar o sistema.
4.4 Sistemas simples de vantagem mecânica (VM): noções e aplicação
Vantagem mecânica reduz o esforço necessário para içar/arrastar uma carga, ao custo de maior quantidade de corda e mais atrito. Em nível básico, memorize os arranjos mais comuns:
- 1:1 (sem VM): puxada direta.
- 2:1: uma roldana móvel na carga (ou arranjo equivalente), reduz esforço aproximadamente pela metade (descontando atrito).
- 3:1 (tipo “Z-rig”): combinação comum com prusik para captura de progresso; muito cobrada por ser simples e eficiente.
4.5 Passo a passo: sistema 3:1 (Z-rig) com captura de progresso (modelo conceitual)
Objetivo: tracionar carga (ex.: elevar vítima em maca em pequeno desnível) com controle e sem perder progresso.
- 1) Ancoragem principal: montar ponto seguro e proteger arestas.
- 2) Linha até a carga: conectar a corda à carga (maca/triângulo de resgate) com nó adequado.
- 3) Roldana móvel: instalar roldana na carga (ou no ponto móvel) e retornar a corda para a ancoragem.
- 4) Captura de progresso: instalar prusik/ bloqueador na linha de tração para impedir retorno quando a equipe soltar.
- 5) Puxada coordenada: comando único (“puxar”, “parar”, “segurar”), evitando trancos; monitorar arestas e aquecimento por atrito.
- 6) Reposicionamento: quando o curso de puxada acabar, travar o progresso, resetar o sistema e continuar.
5) Exercícios operacionais para fixação (descrições práticas)
Exercício 1: Estabilização e acesso em veículo sobre rodas
Cenário: colisão frontal leve, veículo em via, vítima consciente no banco do motorista.
- Objetivo: montar zona segura, estabilizar e criar acesso sem agravar riscos.
- Passos: (1) sinalizar e isolar; (2) designar funções; (3) desligar ignição e controlar energia; (4) calçar rodas e estabilizar; (5) checar vazamentos; (6) proteger vítima de estilhaços; (7) abrir porta ou criar acesso com alavanca; (8) coordenar retirada.
- Pontos de avaliação: veículo não pode se mover durante a operação; comunicação clara; proteção ocular e de vítima; ferramentas usadas com controle.
Exercício 2: Busca por setores com marcação e comunicação
Cenário: galpão com corredores, baixa visibilidade simulada, duas “vítimas” (manequins) em setores diferentes.
- Objetivo: cobrir área sem lacunas e registrar progresso.
- Passos: (1) dividir em setores A/B/C; (2) definir ponto de entrada e tempo; (3) varredura por dupla mantendo referência; (4) comunicar achados; (5) marcar setor verificado conforme padrão combinado; (6) retirar vítima pelo caminho seguro.
- Pontos de avaliação: ninguém perde contato com referência; setores não se sobrepõem; mensagens de rádio objetivas; marcação consistente.
Exercício 3: Nós fundamentais e inspeção
Cenário: bancada com cordas e mosquetões.
- Objetivo: executar nós com rapidez e inspeção correta.
- Passos: (1) fazer oito duplo; (2) fazer azelha; (3) unir cordas com pescador duplo; (4) montar prusik e testar fricção; (5) inspeção cruzada (parceiro confere acabamento, folgas e direção de carga).
- Pontos de avaliação: nós “vestidos” (bem assentados), com sobra adequada; prusik segura sob carga e desliza quando aliviado; conectores travados.
Exercício 4: Ancoragem redundante e proteção de arestas
Cenário: ponto alto com quina (simulada) e dois pontos de ancoragem disponíveis.
- Objetivo: montar ancoragem com redundância e reduzir abrasão.
- Passos: (1) selecionar dois pontos independentes; (2) equalizar de forma simples; (3) instalar protetor de aresta; (4) passar corda e checar alinhamento; (5) teste de carga progressivo; (6) revisão final por outro socorrista.
- Pontos de avaliação: ausência de contato direto da corda com quina; carga distribuída; sistema fácil de inspecionar.
Exercício 5: Montagem de 3:1 (Z-rig) e tração controlada
Cenário: içamento de carga simulada (saco de areia) em desnível curto.
- Objetivo: aplicar VM com captura de progresso e comando único.
- Passos: (1) montar ancoragem; (2) conectar carga; (3) instalar roldanas; (4) instalar prusik de captura; (5) puxar em ciclos curtos, sem trancos; (6) travar, resetar e repetir.
- Pontos de avaliação: prusik captura sem escorregar; equipe não fica em linha de carga; comunicação de “parar/segurar” respeitada; arestas protegidas.