Em redações de concurso, “repertório” é o conjunto de referências (fatos, dados, conceitos, obras, leis, pesquisas, exemplos históricos, experiências sociais observáveis) que você mobiliza para sustentar argumentos. Ele se torna produtivo quando não é apenas “citação bonita”, mas sim um elemento que faz o argumento avançar: explica causa, evidencia consequência, delimita o problema, compara cenários, mostra viabilidade de uma proposta. E se torna pertinente ao recorte quando se conecta diretamente ao que o tema pede, no ângulo exato do debate, sem desviar para generalidades.
O erro mais comum não é “falta de repertório”, e sim repertório deslocado: a referência até é verdadeira e conhecida, mas não conversa com o recorte do tema. Outro erro frequente é o repertório ornamental, usado como enfeite: aparece no texto, mas não muda nada na lógica do parágrafo.
O que significa “produtivo” na prática
Repertório produtivo é aquele que cumpre pelo menos uma destas funções dentro do parágrafo:
- Função de evidência: traz dado, pesquisa, relatório, indicador, estatística ou fato verificável que torna a afirmação mais sólida.
- Função de explicação: apresenta conceito (sociológico, econômico, jurídico, psicológico, educacional) que ajuda a entender o mecanismo do problema.
- Função de exemplificação: mostra um caso concreto (política pública, episódio histórico, programa social, decisão judicial, experiência internacional) que ilustra o argumento.
- Função de comparação/contraste: compara com outro país, outro período, outro modelo de gestão, para evidenciar limites e possibilidades.
- Função de delimitação: ajuda a recortar o debate (por exemplo, distinguindo “acesso” de “permanência”, “liberdade de expressão” de “discurso de ódio”, “crescimento” de “desenvolvimento”).
- Função de viabilização: embasa uma proposta com base em instrumentos existentes (leis, políticas, órgãos, mecanismos administrativos) e mostra como ela pode funcionar.
Se a referência não cumpre nenhuma dessas funções, ela tende a virar um “nome jogado” no texto.
O que significa “pertinente ao recorte”
“Recorte” é o ângulo específico do tema: o objeto (o que está em discussão), o contexto (onde/para quem), o tempo (atualidade, histórico recente), e o tipo de abordagem (causas, consequências, desafios, caminhos). Um repertório pertinente é aquele que se encaixa nesse ângulo com precisão.
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Exemplo de diferença entre pertinente e genérico (sem depender de um tema específico):
- Genérico: “A Constituição garante direitos.”
- Pertinente: “O art. 6º da Constituição inclui direitos sociais como educação e saúde; quando o acesso existe, mas a qualidade é desigual, há violação indireta do princípio da dignidade da pessoa humana, pois o direito formal não se converte em direito efetivo.”
Note que o segundo exemplo não apenas cita: ele liga o dispositivo a um mecanismo (direito formal vs. efetivo) e, assim, serve ao argumento.
Critérios para escolher repertório com alta pontuação
1) Especificidade
Quanto mais específico, maior a chance de ser produtivo. “Desigualdade” é amplo; “desigualdade de acesso a saneamento básico em áreas periféricas” é mais recortado. “Tecnologia” é amplo; “algoritmos de recomendação e bolhas informacionais” é mais específico.
2) Confiabilidade e verificabilidade
Em concurso, evite números inventados. Se não lembrar o dado exato, prefira:
- mencionar a fonte (IBGE, Ipea, OMS, Unesco, DataSUS, TSE, CNJ, Anatel, Banco Mundial) sem cravar percentuais;
- usar formulações como “segundo relatórios do…” ou “indicadores do…”;
- usar fatos amplamente conhecidos (marcos legais, políticas públicas, eventos históricos) com cuidado para não distorcer.
3) Capacidade de gerar inferência
Um repertório bom não é só “informação”; ele permite tirar uma conclusão lógica. Por exemplo, citar a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) pode sustentar inferências sobre responsabilidade de empresas e Estado, transparência, consentimento e segurança da informação.
4) Adequação ao comando do tema
Se o comando pede “desafios”, repertório que só descreve “benefícios” pode ficar deslocado. Se pede “medidas”, repertório que só dramatiza o problema pode não ajudar. O repertório precisa “conversar” com o verbo do comando.
Passo a passo prático para construir repertório produtivo e pertinente
Passo 1 — Extraia palavras-chave do recorte
Antes de escolher referências, transforme o tema em um conjunto de palavras-chave. Um modelo simples:
- Objeto: qual fenômeno?
- Grupo/impactados: quem?
- Espaço: Brasil? cidades? ambiente digital?
- Dimensão: social, econômica, cultural, jurídica, ambiental?
- Comando: causas? consequências? desafios? soluções?
Essas palavras-chave funcionam como “filtro”: repertório que não passa por elas tende a ser enfeite.
Passo 2 — Escolha 2 a 4 “famílias de repertório” para o tema
Em vez de caçar uma citação perfeita, selecione famílias que quase sempre se conectam a temas sociais:
- Marco legal: Constituição, ECA, CDC, Estatuto do Idoso, Lei Maria da Penha, Lei de Cotas, Marco Civil da Internet, LGPD, Lei de Acesso à Informação, Política Nacional de Resíduos Sólidos.
- Instituições e políticas: SUS, SUAS/CRAS, escolas e universidades, conselhos tutelares, Defensoria Pública, Ministério Público, agências reguladoras.
- Indicadores e fontes: IBGE, Ipea, Unicef, OMS, Unesco, CNJ, TCU, DataSUS.
- Conceitos explicativos: cidadania, vulnerabilidade social, capital cultural (Bourdieu), anomia (Durkheim), biopoder (Foucault), indústria cultural (Adorno/Horkheimer), modernidade líquida (Bauman), racismo estrutural, interseccionalidade.
- Casos e comparações: programas brasileiros (ex.: campanhas de vacinação, políticas de transferência de renda), experiências internacionais (ex.: regulação de plataformas, modelos educacionais), desde que conectados ao recorte.
O objetivo é ter “gavetas” prontas. A pertinência vem do encaixe com as palavras-chave do tema.
Passo 3 — Para cada repertório escolhido, escreva a ponte (a frase que conecta)
A ponte é a parte mais importante. Ela responde: “Então, o que isso prova aqui?”. Um repertório sem ponte vira nome solto.
Modelo de ponte em 3 movimentos:
- Apresente a referência (lei, dado, conceito, caso);
- Explique o que ela significa;
- Relacione diretamente ao argumento do parágrafo.
Exemplo (modelo genérico):
Segundo a LGPD, o tratamento de dados pessoais exige finalidade e segurança. Isso implica que, em ambientes digitais, a coleta massiva sem transparência amplia riscos de vazamento e uso indevido. Assim, a fragilidade na proteção de dados contribui para a perpetuação do problema ao expor cidadãos a fraudes e violar direitos fundamentais.Perceba: a referência não está “decorando” o texto; ela sustenta um mecanismo causal.
Passo 4 — Transforme repertório em argumento (não em citação)
Uma forma prática é usar a estrutura afirmação → por quê → evidência → implicação:
- Afirmação: sua ideia central do parágrafo.
- Por quê: o mecanismo (causa/explicação).
- Evidência: repertório (dado, lei, conceito, caso).
- Implicação: o que isso gera no cenário do tema.
Exemplo (esqueleto):
Afirmação: Há falha de acesso/qualidade/informação/gestão em X. (ajuste ao tema)
Por quê: Isso ocorre porque Y (mecanismo).
Evidência: Tal mecanismo é observado em... (IBGE/Ipea/lei/conceito).
Implicação: Logo, Z (efeito direto no recorte).Essa sequência força o repertório a ser produtivo.
Passo 5 — Use “dupla ancoragem” quando o tema for complexo
Dupla ancoragem é combinar dois repertórios complementares no mesmo parágrafo:
- um repertório explicativo (conceito) + um repertório evidencial (dado/fonte/relatório);
- um repertório legal (direito) + um repertório de política pública (como operacionalizar).
Exemplo (conceito + fonte):
À luz do conceito de capital cultural, a desigualdade tende a se reproduzir quando grupos distintos não têm o mesmo acesso a repertórios e práticas valorizadas institucionalmente. Indicadores de órgãos como o IBGE e o Ipea frequentemente mostram disparidades associadas a renda e território, o que reforça que o problema não é apenas individual, mas estrutural. Dessa forma, o recorte evidencia um ciclo de reprodução de oportunidades.Mesmo sem números, a combinação dá densidade e pertinência.
Como evitar repertório “coringa” que derruba a pertinência
1) Citações filosóficas genéricas
Frases famosas (de filósofos, escritores, líderes) costumam ser amplas e, se não forem muito bem conectadas, soam como enfeite. Se usar, faça a ponte com clareza e prefira quando a frase realmente delimita o problema.
Exemplo de uso fraco:
Como disse Aristóteles, o homem é um animal social. Portanto, o problema é grave.Exemplo de uso mais produtivo (ainda assim, exige cuidado):
Ao considerar que a vida em sociedade depende de regras e cooperação, torna-se evidente que a normalização de práticas que violam direitos fragiliza a confiança social. Assim, o recorte aponta para impactos que extrapolam o indivíduo e atingem o tecido coletivo.Note que a frase não resolve sozinha; o argumento é que precisa carregar o parágrafo.
2) “Brasil é desigual” sem especificar desigualdade de quê
“Desigualdade” é um guarda-chuva. Para ser pertinente, especifique a dimensão: renda, raça, gênero, território, acesso a serviços, conectividade, moradia, saneamento, educação, saúde, justiça.
3) Lei citada sem efeito prático
Citar uma lei apenas para dizer que “existe” é pouco produtivo. O que pontua é mostrar:
- qual direito/obrigação ela estabelece;
- qual lacuna de implementação existe;
- como isso se relaciona ao recorte (por exemplo, fiscalização, orçamento, capacitação, acesso à informação).
Técnicas de “encaixe” para aumentar a pertinência
Técnica 1 — Pergunta de checagem: “Se eu apagar essa referência, o parágrafo perde força?”
Se não perder, o repertório está ornamental. Reescreva a ponte para que a referência seja indispensável.
Técnica 2 — Ajuste de escala (micro x macro)
Alguns temas pedem escala macro (políticas nacionais, economia, legislação). Outros pedem micro (escola, família, comunidade, serviços locais). Um repertório pertinente respeita a escala do recorte.
- Se o recorte é local/operacional, citar “globalização” pode soar distante.
- Se o recorte é estrutural, ficar apenas em exemplos individuais pode parecer superficial.
Técnica 3 — Nomeie o mecanismo
Depois do repertório, explicite o mecanismo com um termo claro: “desinformação”, “subnotificação”, “precarização”, “incentivo econômico”, “assimetria informacional”, “falta de fiscalização”, “barreira de acesso”, “estigma social”. Isso ajuda a banca a enxergar a lógica.
Exemplo:
Relatórios de órgãos públicos frequentemente apontam que a ausência de fiscalização efetiva reduz o cumprimento de normas. Nesse cenário, o mecanismo central é a impunidade administrativa, que incentiva a repetição de condutas e mantém o problema no recorte analisado.Banco enxuto de repertórios “altamente adaptáveis” (com uso produtivo)
A seguir, referências que costumam ser bem aceitas em concursos, com sugestões de como torná-las produtivas. A ideia não é decorar tudo, e sim ter opções para encaixar com pertinência.
Constituição Federal (direitos e dignidade)
- Como usar: mostrar distância entre direito formal e efetividade; relacionar a dever do Estado e corresponsabilidade social.
- Evite: “a Constituição garante” sem explicar qual direito e qual falha concreta.
Marco Civil da Internet
- Como usar: discutir direitos e deveres no ambiente digital, responsabilidade, privacidade, neutralidade, acesso à informação.
- Ponte produtiva: ligar a regulação à redução de danos (fraudes, discurso de ódio, desinformação), conforme o recorte.
LGPD
- Como usar: finalidade, consentimento, segurança, responsabilização; riscos de vazamento e perfilamento.
- Ponte produtiva: mostrar como falta de cultura de proteção de dados amplia vulnerabilidades.
ECA (crianças e adolescentes)
- Como usar: prioridade absoluta, proteção integral, dever compartilhado (família, sociedade, Estado).
- Ponte produtiva: conectar a falhas de rede de proteção, escola, saúde, assistência social.
SUS e prevenção
- Como usar: atenção primária, prevenção, campanhas, vigilância em saúde.
- Ponte produtiva: mostrar como prevenção e informação reduzem custos e agravos, conforme o recorte.
IBGE/Ipea (indicadores sociais)
- Como usar: desigualdades por renda, território, raça, escolaridade; acesso a serviços.
- Ponte produtiva: evidenciar que o problema tem padrão social, não é caso isolado.
Conceitos sociológicos (capital cultural, indústria cultural, modernidade líquida)
- Como usar: explicar mecanismos de reprodução social, consumo, influência midiática, fragilidade de vínculos.
- Ponte produtiva: sempre traduzir o conceito em efeito concreto no recorte (comportamento, acesso, decisão, política).
Exercícios práticos para treinar repertório pertinente
Exercício 1 — “Três repertórios, uma tese”
Escolha um tema qualquer (de atualidades) e escreva:
- 1 repertório legal (lei/estatuto/marco);
- 1 repertório evidencial (fonte/indicador/relatório);
- 1 repertório conceitual (conceito explicativo).
Depois, para cada um, escreva uma ponte de 2 frases conectando ao mesmo argumento. O objetivo é treinar a pertinência: três caminhos diferentes sustentando a mesma ideia.
Exercício 2 — “Ponte obrigatória”
Escreva um parágrafo argumentativo curto (6 a 8 linhas) e imponha a regra: a referência só pode aparecer se vier acompanhada de uma frase que comece com “isso evidencia que…” ou “logo, no recorte…”. Essa restrição força a transformação do repertório em inferência.
Exercício 3 — “Repertório sem nome próprio”
Treine escrever um parágrafo sem citar autores famosos. Use apenas:
- um marco legal;
- um órgão/fonte;
- um mecanismo nomeado (ex.: “assimetria informacional”, “subnotificação”, “barreira de acesso”).
Esse exercício reduz a dependência de citações e aumenta a produtividade.
Checklist rápido de pertinência (para revisar o texto)
- O repertório responde ao comando do tema (causas, efeitos, desafios, medidas)?
- Ele está no mesmo “nível de escala” do recorte (macro/micro)?
- Há ponte explícita ligando referência → mecanismo → efeito?
- Se eu remover a referência, o parágrafo perde evidência ou explicação?
- Evitei generalidades (“desde os primórdios”, “a humanidade”, “sempre foi assim”)?
- Evitei dados inventados e preferi fonte/indicador quando não lembro números?
- Usei a referência para sustentar uma inferência, e não para ornamentar?