Relação e transmissão: corrente, coroa e pinhão prontos para muitos quilômetros

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que a relação é crítica em viagens longas

A transmissão final por corrente (corrente + pinhão + coroa) transforma a força do motor em movimento na roda traseira. Em viagens longas, ela trabalha por horas em alta carga, com variações de chuva, poeira e temperatura. Uma relação mal ajustada ou desgastada pode causar trancos, ruídos, perda de desempenho, aumento de consumo e, no pior cenário, quebra da corrente.

O objetivo aqui é manter três coisas sob controle: tensão (folga) correta, alinhamento da roda e lubrificação adequada ao ambiente. E, quando necessário, substituir o conjunto antes que o desgaste vire risco.

Inspeções essenciais: o que procurar

1) Alongamento da corrente (desgaste por “esticamento”)

Corrente não “estica” como elástico; ela desgasta nos pinos e buchas, aumentando o passo entre elos. O resultado é a corrente ficar “comprida” e não casar bem com os dentes da coroa/pinhão.

  • Sinal prático: você precisa ajustar a folga com frequência (ex.: a cada poucos dias) e a corrente volta a ficar frouxa rapidamente.
  • Sinal no ajuste: o eixo traseiro já está perto do fim do curso dos esticadores e ainda assim a folga não fica dentro do especificado.

2) Pontos travados (elos duros)

Elos travados aparecem por falta de lubrificação, contaminação (poeira/areia), oxidação ou dano. Eles impedem a corrente de articular suavemente e criam variação de tensão ao girar a roda.

  • Como identificar: com a moto no descanso central/cavalete (ou roda traseira suspensa com segurança), gire a roda lentamente e observe a corrente passando pelo pinhão/coroa. Um elo travado costuma “pular” ou passar rígido, sem dobrar bem.
  • O que você sente: trancos leves em baixa velocidade, ruído metálico intermitente, e dificuldade de manter a folga uniforme.

3) Desgaste irregular (corrente e engrenagens)

Desgaste irregular geralmente vem de alinhamento ruim, tensão errada ou lubrificação inadequada.

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  • Na corrente: elos com folga diferente, roletes com marcas, oxidação localizada, “achatamento” em pontos.
  • Na coroa/pinhão: dentes com desgaste mais forte de um lado, formato “gancho” (puxado para trás), pontas finas ou assimetria evidente.

4) Alinhamento da roda traseira

Roda desalinhada faz a corrente trabalhar “de lado”, acelerando desgaste e criando ruídos. Mesmo pequenas diferenças entre os lados no ajuste do eixo podem causar desalinhamento.

  • Sinais: corrente com desgaste lateral, ruído constante que muda ao acelerar/desacelerar, necessidade de ajustes frequentes.
  • Observação importante: as marcas nos esticadores do braço oscilante ajudam, mas nem sempre são perfeitamente precisas. Use-as como referência inicial e confirme com um método adicional.

Ajuste correto de folga: passo a passo (incluindo moto carregada)

Antes de começar

  • Consulte o manual para a folga especificada (normalmente medida no meio do vão entre pinhão e coroa).
  • Tenha as ferramentas: chaves do eixo traseiro, chaves dos esticadores, régua/fita, torquímetro (ideal), lubrificante de corrente e pano.
  • Se a viagem será com garupa/bagagem, o ajuste deve considerar a moto na condição de carga real quando aplicável.

Passo 1: encontre o ponto de maior tensão

Correntes com desgaste costumam ter um trecho mais “apertado”. Ajustar pela parte mais frouxa pode deixar a parte mais apertada tensa demais, o que é perigoso para rolamentos, retentores e a própria corrente.

  1. Com a roda traseira suspensa (ou empurrando a moto devagar em linha reta), gire a roda e vá medindo a folga no ponto de medição recomendado.
  2. Identifique onde a folga fica menor (ponto mais esticado). É por esse ponto que você ajusta.

Passo 2: considere a compressão da suspensão (moto carregada)

Em muitas motos, a corrente fica mais esticada quando a suspensão comprime, porque a distância entre pinhão e eixo traseiro muda. Para viagens com carga, há dois métodos práticos:

  • Método A (recomendado quando o manual orienta): medir a folga com a moto no descanso lateral e com a carga típica (bagagem/garupa) ou com alguém sentado, mantendo a moto na vertical com ajuda.
  • Método B (checagem de segurança): com a moto carregada, pressione a suspensão ou sente na moto e verifique se a corrente não fica “esticada como corda”. Deve haver alguma folga mesmo comprimida.

Se você ajustar “perfeita” sem carga e ela ficar esticada com carga, o ajuste está errado para viagem.

Passo 3: solte o eixo e ajuste os esticadores

  1. Afrouxe a porca do eixo traseiro o suficiente para permitir o movimento do eixo.
  2. Afrouxe as contraporcas dos esticadores (se houver).
  3. Gire os parafusos dos esticadores igualmente em ambos os lados para aumentar ou reduzir a folga.
  4. Meça a folga no ponto mais esticado e ajuste até ficar dentro da especificação.

Passo 4: alinhe a roda (método das marcas + verificação)

Usando as marcas: deixe os dois lados no mesmo número/posição de marca no braço oscilante. Isso é o básico.

Verificação adicional (mais confiável):

  • Método da medição: meça a distância do centro do eixo traseiro até um ponto fixo idêntico em cada lado do braço oscilante (por exemplo, o pivô do braço oscilante, se acessível e simétrico). As medidas devem ser iguais.
  • Método do alinhador de corrente: uma ferramenta simples que se prende à coroa e projeta uma linha; a corrente deve seguir reta. Útil em viagem se você levar uma versão compacta.

Se as marcas “batem”, mas a medição não, priorize a medição/alinhador.

Passo 5: aperto final e rechecagem

  1. Aperte o eixo traseiro com o torque especificado (idealmente com torquímetro).
  2. Reaperte as contraporcas dos esticadores.
  3. Gire a roda novamente e confirme: folga no ponto mais esticado e alinhamento.

Dica prática: ao apertar o eixo, a folga pode mudar levemente. Se mudar, repita o ajuste.

Lubrificação inteligente: chuva, poeira e alta velocidade

Princípios que evitam erro comum

  • Lubrificante não é “para deixar bonito”: ele precisa entrar nos roletes/pinos e formar filme protetor.
  • Excesso de produto vira “cola” de sujeira, principalmente em estrada de terra.
  • Lubrificar logo após rodar (corrente morna) ajuda a penetração. Evite aplicar com a corrente muito quente.

Como lubrificar (passo a passo)

  1. Se estiver muito suja, limpe com pano e produto adequado para corrente (evite solventes agressivos em correntes com retentores, a menos que o fabricante do produto indique compatibilidade).
  2. Aplique o lubrificante na parte interna da corrente (lado voltado para a coroa), girando a roda para distribuir.
  3. Espere alguns minutos para o solvente evaporar (em sprays) e o filme “assentar”.
  4. Remova excesso com pano para reduzir respingos na roda e acúmulo de poeira.

Ajuste do tipo de lubrificação por cenário

CenárioEstratégiaFrequência prática
Chuva constanteLubrificante mais aderente (tack) e reaplicação após trechos longos molhados; priorize proteção contra corrosãoAo fim do dia ou a cada 300–500 km em chuva forte
Poeira/terraAplicar pouco, remover excesso; preferir lubrificante que não fique “pegajoso” demais; limpeza leve mais frequenteInspeção diária + reaplicar conforme aspecto “seco”
Alta velocidade/longos trechosFilme consistente e aplicação uniforme; checar respingos e secagem; atenção à tensão (aquecimento pode alterar sensação)A cada 500–800 km (ou conforme manual/condição)

Observação: as distâncias acima são referências práticas; ajuste pela condição real (chuva, poeira, lavagem, aparência da corrente e ruído).

Quando substituir o conjunto (corrente + coroa + pinhão)

Em geral, substitui-se o conjunto completo para evitar que uma peça nova desgaste rápido por trabalhar com outra já “casada” e gasta.

Sinais claros na coroa e no pinhão

  • Dentes em “gancho” (puxados para trás), pontiagudos ou muito finos.
  • Desgaste desigual entre dentes (alguns mais baixos/finos).
  • Marcas laterais e polimento excessivo em um lado (indício de desalinhamento).

Sinais claros na corrente

  • Corrente com elos travados que não melhoram após limpeza/lubrificação.
  • Variação grande de folga ao girar a roda (mesmo com alinhamento correto).
  • Fim do ajuste: esticadores no limite e ainda fora da folga recomendada.
  • Ruídos de estalos/ronco metálico sob carga, especialmente se acompanhados de trancos.

Teste rápido: “puxar a corrente” na coroa

Com a moto desligada e em ponto morto, tente puxar a corrente para trás na parte traseira da coroa (na posição de 3 horas). Se você consegue afastar a corrente a ponto de ver claramente parte do dente, é indício de desgaste significativo (interprete junto com os outros sinais).

Planejando troca preventiva antes da viagem

Troca preventiva é indicada quando a relação está “no limite” e a viagem terá muitos quilômetros, chuva prevista, trechos remotos ou pouca chance de manutenção no caminho.

Como decidir com antecedência

  • Se a corrente já exige ajustes frequentes e a viagem é longa, programe a troca antes de sair.
  • Se a coroa/pinhão mostram início de “gancho”, não espere piorar: o desgaste acelera.
  • Se você está perto do fim do curso dos esticadores, não conte com “mais um ajuste” para atravessar a viagem.

O que comprar e o que conferir

  • Especificação correta: passo e largura (ex.: 520/525/530), número de elos, tipo com retentores (O-ring/X-ring).
  • Relação original vs. alterada: manter a original tende a facilitar consumo, velocidade de cruzeiro e disponibilidade.
  • Qualidade do kit: corrente e engrenagens de marcas confiáveis; em viagem, confiabilidade vale mais que economia.

Amaciamento e checagem pós-troca

Após instalar uma relação nova, é comum haver um pequeno assentamento inicial. Planeje:

  • Rechecagem de folga e alinhamento após os primeiros 200–300 km.
  • Lubrificação regular desde o início (corrente nova também precisa).

Rotina diária de manutenção em viagens longas (5–7 minutos)

Checklist rápido no fim do dia (ou antes de sair)

  • Folga: verifique no ponto mais esticado (gire a roda um pouco). Se estiver fora do especificado, ajuste.
  • Alinhamento visual: confira se as marcas dos esticadores continuam simétricas e se a corrente corre centralizada na coroa.
  • Lubrificação: se rodou na chuva, lavou a moto, pegou poeira ou a corrente está com aspecto seco/ruidoso, lubrifique e remova excesso.
  • Ruídos e sensação: note estalos, trancos ou “canto” metálico ao acelerar; investigue antes de acumular quilômetros.
  • Inspeção rápida de dentes: olhe a coroa por trás; procure dentes finos, tortos ou em gancho.

Rotina a cada 2–3 dias (ou após trecho pesado)

  • Limpeza mais cuidadosa (sem encharcar de solvente inadequado).
  • Verificação mais criteriosa de elos travados e variação de folga.
  • Conferência do aperto do eixo traseiro (especialmente após ajustes recentes).

Kit mínimo útil para cuidar da relação na estrada

  • Lubrificante de corrente (spray ou frasco aplicador).
  • Pano e luvas nitrílicas.
  • Chaves do eixo e esticadores (as corretas da sua moto).
  • Pequena régua/fita para medir folga.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao ajustar a folga da corrente para uma viagem longa, qual procedimento ajuda a evitar que a corrente fique tensa demais em algum trecho?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Correntes podem ter trechos mais apertados; ajustar pelo ponto mais esticado evita que uma parte fique tensa demais, o que pode causar danos. Em viagens com carga, a compressão da suspensão pode esticar ainda mais, então o ajuste deve considerar essa condição.

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