Por que a relação é crítica em viagens longas
A transmissão final por corrente (corrente + pinhão + coroa) transforma a força do motor em movimento na roda traseira. Em viagens longas, ela trabalha por horas em alta carga, com variações de chuva, poeira e temperatura. Uma relação mal ajustada ou desgastada pode causar trancos, ruídos, perda de desempenho, aumento de consumo e, no pior cenário, quebra da corrente.
O objetivo aqui é manter três coisas sob controle: tensão (folga) correta, alinhamento da roda e lubrificação adequada ao ambiente. E, quando necessário, substituir o conjunto antes que o desgaste vire risco.
Inspeções essenciais: o que procurar
1) Alongamento da corrente (desgaste por “esticamento”)
Corrente não “estica” como elástico; ela desgasta nos pinos e buchas, aumentando o passo entre elos. O resultado é a corrente ficar “comprida” e não casar bem com os dentes da coroa/pinhão.
- Sinal prático: você precisa ajustar a folga com frequência (ex.: a cada poucos dias) e a corrente volta a ficar frouxa rapidamente.
- Sinal no ajuste: o eixo traseiro já está perto do fim do curso dos esticadores e ainda assim a folga não fica dentro do especificado.
2) Pontos travados (elos duros)
Elos travados aparecem por falta de lubrificação, contaminação (poeira/areia), oxidação ou dano. Eles impedem a corrente de articular suavemente e criam variação de tensão ao girar a roda.
- Como identificar: com a moto no descanso central/cavalete (ou roda traseira suspensa com segurança), gire a roda lentamente e observe a corrente passando pelo pinhão/coroa. Um elo travado costuma “pular” ou passar rígido, sem dobrar bem.
- O que você sente: trancos leves em baixa velocidade, ruído metálico intermitente, e dificuldade de manter a folga uniforme.
3) Desgaste irregular (corrente e engrenagens)
Desgaste irregular geralmente vem de alinhamento ruim, tensão errada ou lubrificação inadequada.
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- Na corrente: elos com folga diferente, roletes com marcas, oxidação localizada, “achatamento” em pontos.
- Na coroa/pinhão: dentes com desgaste mais forte de um lado, formato “gancho” (puxado para trás), pontas finas ou assimetria evidente.
4) Alinhamento da roda traseira
Roda desalinhada faz a corrente trabalhar “de lado”, acelerando desgaste e criando ruídos. Mesmo pequenas diferenças entre os lados no ajuste do eixo podem causar desalinhamento.
- Sinais: corrente com desgaste lateral, ruído constante que muda ao acelerar/desacelerar, necessidade de ajustes frequentes.
- Observação importante: as marcas nos esticadores do braço oscilante ajudam, mas nem sempre são perfeitamente precisas. Use-as como referência inicial e confirme com um método adicional.
Ajuste correto de folga: passo a passo (incluindo moto carregada)
Antes de começar
- Consulte o manual para a folga especificada (normalmente medida no meio do vão entre pinhão e coroa).
- Tenha as ferramentas: chaves do eixo traseiro, chaves dos esticadores, régua/fita, torquímetro (ideal), lubrificante de corrente e pano.
- Se a viagem será com garupa/bagagem, o ajuste deve considerar a moto na condição de carga real quando aplicável.
Passo 1: encontre o ponto de maior tensão
Correntes com desgaste costumam ter um trecho mais “apertado”. Ajustar pela parte mais frouxa pode deixar a parte mais apertada tensa demais, o que é perigoso para rolamentos, retentores e a própria corrente.
- Com a roda traseira suspensa (ou empurrando a moto devagar em linha reta), gire a roda e vá medindo a folga no ponto de medição recomendado.
- Identifique onde a folga fica menor (ponto mais esticado). É por esse ponto que você ajusta.
Passo 2: considere a compressão da suspensão (moto carregada)
Em muitas motos, a corrente fica mais esticada quando a suspensão comprime, porque a distância entre pinhão e eixo traseiro muda. Para viagens com carga, há dois métodos práticos:
- Método A (recomendado quando o manual orienta): medir a folga com a moto no descanso lateral e com a carga típica (bagagem/garupa) ou com alguém sentado, mantendo a moto na vertical com ajuda.
- Método B (checagem de segurança): com a moto carregada, pressione a suspensão ou sente na moto e verifique se a corrente não fica “esticada como corda”. Deve haver alguma folga mesmo comprimida.
Se você ajustar “perfeita” sem carga e ela ficar esticada com carga, o ajuste está errado para viagem.
Passo 3: solte o eixo e ajuste os esticadores
- Afrouxe a porca do eixo traseiro o suficiente para permitir o movimento do eixo.
- Afrouxe as contraporcas dos esticadores (se houver).
- Gire os parafusos dos esticadores igualmente em ambos os lados para aumentar ou reduzir a folga.
- Meça a folga no ponto mais esticado e ajuste até ficar dentro da especificação.
Passo 4: alinhe a roda (método das marcas + verificação)
Usando as marcas: deixe os dois lados no mesmo número/posição de marca no braço oscilante. Isso é o básico.
Verificação adicional (mais confiável):
- Método da medição: meça a distância do centro do eixo traseiro até um ponto fixo idêntico em cada lado do braço oscilante (por exemplo, o pivô do braço oscilante, se acessível e simétrico). As medidas devem ser iguais.
- Método do alinhador de corrente: uma ferramenta simples que se prende à coroa e projeta uma linha; a corrente deve seguir reta. Útil em viagem se você levar uma versão compacta.
Se as marcas “batem”, mas a medição não, priorize a medição/alinhador.
Passo 5: aperto final e rechecagem
- Aperte o eixo traseiro com o torque especificado (idealmente com torquímetro).
- Reaperte as contraporcas dos esticadores.
- Gire a roda novamente e confirme: folga no ponto mais esticado e alinhamento.
Dica prática: ao apertar o eixo, a folga pode mudar levemente. Se mudar, repita o ajuste.
Lubrificação inteligente: chuva, poeira e alta velocidade
Princípios que evitam erro comum
- Lubrificante não é “para deixar bonito”: ele precisa entrar nos roletes/pinos e formar filme protetor.
- Excesso de produto vira “cola” de sujeira, principalmente em estrada de terra.
- Lubrificar logo após rodar (corrente morna) ajuda a penetração. Evite aplicar com a corrente muito quente.
Como lubrificar (passo a passo)
- Se estiver muito suja, limpe com pano e produto adequado para corrente (evite solventes agressivos em correntes com retentores, a menos que o fabricante do produto indique compatibilidade).
- Aplique o lubrificante na parte interna da corrente (lado voltado para a coroa), girando a roda para distribuir.
- Espere alguns minutos para o solvente evaporar (em sprays) e o filme “assentar”.
- Remova excesso com pano para reduzir respingos na roda e acúmulo de poeira.
Ajuste do tipo de lubrificação por cenário
| Cenário | Estratégia | Frequência prática |
|---|---|---|
| Chuva constante | Lubrificante mais aderente (tack) e reaplicação após trechos longos molhados; priorize proteção contra corrosão | Ao fim do dia ou a cada 300–500 km em chuva forte |
| Poeira/terra | Aplicar pouco, remover excesso; preferir lubrificante que não fique “pegajoso” demais; limpeza leve mais frequente | Inspeção diária + reaplicar conforme aspecto “seco” |
| Alta velocidade/longos trechos | Filme consistente e aplicação uniforme; checar respingos e secagem; atenção à tensão (aquecimento pode alterar sensação) | A cada 500–800 km (ou conforme manual/condição) |
Observação: as distâncias acima são referências práticas; ajuste pela condição real (chuva, poeira, lavagem, aparência da corrente e ruído).
Quando substituir o conjunto (corrente + coroa + pinhão)
Em geral, substitui-se o conjunto completo para evitar que uma peça nova desgaste rápido por trabalhar com outra já “casada” e gasta.
Sinais claros na coroa e no pinhão
- Dentes em “gancho” (puxados para trás), pontiagudos ou muito finos.
- Desgaste desigual entre dentes (alguns mais baixos/finos).
- Marcas laterais e polimento excessivo em um lado (indício de desalinhamento).
Sinais claros na corrente
- Corrente com elos travados que não melhoram após limpeza/lubrificação.
- Variação grande de folga ao girar a roda (mesmo com alinhamento correto).
- Fim do ajuste: esticadores no limite e ainda fora da folga recomendada.
- Ruídos de estalos/ronco metálico sob carga, especialmente se acompanhados de trancos.
Teste rápido: “puxar a corrente” na coroa
Com a moto desligada e em ponto morto, tente puxar a corrente para trás na parte traseira da coroa (na posição de 3 horas). Se você consegue afastar a corrente a ponto de ver claramente parte do dente, é indício de desgaste significativo (interprete junto com os outros sinais).
Planejando troca preventiva antes da viagem
Troca preventiva é indicada quando a relação está “no limite” e a viagem terá muitos quilômetros, chuva prevista, trechos remotos ou pouca chance de manutenção no caminho.
Como decidir com antecedência
- Se a corrente já exige ajustes frequentes e a viagem é longa, programe a troca antes de sair.
- Se a coroa/pinhão mostram início de “gancho”, não espere piorar: o desgaste acelera.
- Se você está perto do fim do curso dos esticadores, não conte com “mais um ajuste” para atravessar a viagem.
O que comprar e o que conferir
- Especificação correta: passo e largura (ex.: 520/525/530), número de elos, tipo com retentores (O-ring/X-ring).
- Relação original vs. alterada: manter a original tende a facilitar consumo, velocidade de cruzeiro e disponibilidade.
- Qualidade do kit: corrente e engrenagens de marcas confiáveis; em viagem, confiabilidade vale mais que economia.
Amaciamento e checagem pós-troca
Após instalar uma relação nova, é comum haver um pequeno assentamento inicial. Planeje:
- Rechecagem de folga e alinhamento após os primeiros 200–300 km.
- Lubrificação regular desde o início (corrente nova também precisa).
Rotina diária de manutenção em viagens longas (5–7 minutos)
Checklist rápido no fim do dia (ou antes de sair)
- Folga: verifique no ponto mais esticado (gire a roda um pouco). Se estiver fora do especificado, ajuste.
- Alinhamento visual: confira se as marcas dos esticadores continuam simétricas e se a corrente corre centralizada na coroa.
- Lubrificação: se rodou na chuva, lavou a moto, pegou poeira ou a corrente está com aspecto seco/ruidoso, lubrifique e remova excesso.
- Ruídos e sensação: note estalos, trancos ou “canto” metálico ao acelerar; investigue antes de acumular quilômetros.
- Inspeção rápida de dentes: olhe a coroa por trás; procure dentes finos, tortos ou em gancho.
Rotina a cada 2–3 dias (ou após trecho pesado)
- Limpeza mais cuidadosa (sem encharcar de solvente inadequado).
- Verificação mais criteriosa de elos travados e variação de folga.
- Conferência do aperto do eixo traseiro (especialmente após ajustes recentes).
Kit mínimo útil para cuidar da relação na estrada
- Lubrificante de corrente (spray ou frasco aplicador).
- Pano e luvas nitrílicas.
- Chaves do eixo e esticadores (as corretas da sua moto).
- Pequena régua/fita para medir folga.