Regulação emocional: escolher estratégias certas para cada intensidade

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é regulação emocional (e o que ela não é)

Regulação emocional é a habilidade de modular uma emoção — ajustando intensidade, duração e expressão — para agir de acordo com o que importa, sem suprimir ou “fingir que não sente”. Você continua sentindo, mas escolhe como conduzir a emoção para que ela não conduza você.

Regular não é:

  • Suprimir: empurrar para baixo, “engolir” e seguir como se nada tivesse acontecido (costuma voltar mais forte ou virar tensão/irritação).
  • Explodir: descarregar sem filtro (alivia no curto prazo, mas aumenta conflito e culpa).
  • Evitar cronicamente: organizar a vida para nunca sentir desconforto (reduz aprendizado e aumenta ansiedade a longo prazo).

Regular é:

  • Diminuir a ativação quando está alta demais.
  • Aumentar clareza e flexibilidade quando a emoção está “tomando o volante”.
  • Escolher uma expressão proporcional ao contexto (ex.: firmeza sem agressividade).

Três níveis de estratégias (e por que isso importa)

Uma estratégia “boa” pode ser ruim se usada na intensidade errada. Por isso, organize sua regulação por níveis:

1) Imediato: acalmamento fisiológico (minutos)

Objetivo: reduzir a ativação do corpo para sair do modo reativo. Ideal quando a intensidade está alta e você precisa de estabilidade para pensar.

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2) Curto prazo: reavaliação e resolução de problemas (horas/dias)

Objetivo: reorganizar pensamentos, significados e ações possíveis. Ideal quando você já consegue raciocinar sem “apagão emocional”.

3) Longo prazo: hábitos, valores e suporte social (semanas/meses)

Objetivo: diminuir a frequência e o impacto de picos emocionais ao longo do tempo, fortalecendo recursos internos e externos.

Critérios de escolha: como decidir o que usar em cada momento

Use quatro critérios simples para escolher a estratégia certa:

1) Intensidade (0–10)

IntensidadeComo costuma aparecerPrioridadeEstratégias mais indicadas
0–3Desconforto leve, ainda há clarezaAprender e ajustarReavaliação, comunicação, microações
4–6Agitação moderada, ruminação, irritaçãoEstabilizar + agirAcalmar fisiologia + resolução de problemas
7–10Pico: impulso forte, choro/raiva/pânico, “túnel”Segurança e contençãoAcalmamento imediato, pausa, apoio

2) Urgência

Pergunta-guia: preciso agir agora (ex.: reunião em 2 minutos) ou posso agir depois? Quanto maior a urgência, mais você prioriza estratégias imediatas e simples.

3) Contexto

Onde você está e com quem? Em público, no trabalho, dirigindo, em casa? O contexto define o que é possível e apropriado (ex.: chorar no banheiro pode ser viável; no meio de uma apresentação, talvez seja melhor usar respiração e pedir 2 minutos).

4) Risco

Risco para você e para outros: risco de acidente, de agressão verbal/física, de decisões irreversíveis, de autossabotagem (ex.: enviar mensagem impulsiva, gastar muito, beber). Quanto maior o risco, mais você escolhe estratégias de interrupção do impulso e adiamento de decisão.

Protocolo rápido: “Pare–Baixe–Escolha” (30 segundos a 5 minutos)

Use como um roteiro quando estiver difícil pensar:

  • Pare: interrompa a ação automática. Se possível, mude de ambiente por 1–3 minutos.
  • Baixe: reduza a ativação do corpo (uma técnica imediata abaixo).
  • Escolha: selecione uma estratégia de curto prazo (se a intensidade permitir) ou adie decisões (se ainda estiver alto).

Cardápio de estratégias (com passo a passo e quando evitar)

Nível 1 — Imediato (acalmamento fisiológico)

1) Respiração com expiração longa (2–3 minutos)

Quando usar: intensidade 6–10, urgência alta, antes de falar/decidir.

Passo a passo:

  • Inspire pelo nariz por 3–4 segundos.
  • Expire lentamente pela boca por 6–8 segundos (como se apagasse uma vela sem apagar).
  • Repita por 10 ciclos, mantendo os ombros soltos.

Quando evitar/ajustar: se você sentir tontura, reduza a profundidade da inspiração e mantenha a expiração apenas um pouco mais longa.

2) Aterramento 5–4–3–2–1 (1–3 minutos)

Quando usar: ansiedade alta, sensação de “desconexão”, ruminação acelerada.

Passo a passo:

  • Nomeie mentalmente 5 coisas que você vê.
  • 4 coisas que você sente com o tato (roupa na pele, pés no chão).
  • 3 sons que você ouve.
  • 2 cheiros (ou 2 respirações percebendo o ar).
  • 1 gosto (ou 1 sensação interna neutra, como a língua na boca).

Quando evitar/ajustar: se o ambiente tiver estímulos demais (muito barulho), foque só em tato (pés no chão + mãos) por 30 segundos.

3) Relaxamento muscular rápido (60–90 segundos)

Quando usar: raiva/irritação com tensão corporal, antes de conversas difíceis.

Passo a passo:

  • Contraia mãos e antebraços por 5 segundos.
  • Solte por 10 segundos, percebendo a diferença.
  • Repita com ombros (eleve), mandíbula (aperte levemente), e pernas (pressione os pés no chão).

Quando evitar/ajustar: se houver dor muscular, faça apenas “soltar” sem contrair.

4) Pausa com limite (time-out) para prevenir escalada (5–20 minutos)

Quando usar: conflito em escalada, intensidade 7–10, risco de dizer/fazer algo que você vai se arrepender.

Passo a passo:

  • Diga uma frase curta e respeitosa: “Eu quero continuar, mas preciso de 15 minutos para me acalmar. Volto às 19:30.”
  • Afaste-se e faça uma técnica fisiológica (respiração/aterramento).
  • Volte no horário combinado e retome com um objetivo específico (ex.: decidir próximos passos).

Quando evitar/ajustar: evite usar como “sumir” ou punir. Se você não volta, vira evasão e aumenta insegurança no outro.

Nível 2 — Curto prazo (reavaliação e resolução de problemas)

5) Reavaliação cognitiva em 3 perguntas (5–10 minutos)

Quando usar: intensidade 3–6, pensamentos rígidos (“sempre”, “nunca”), culpa, vergonha, irritação.

Passo a passo:

  • O que estou assumindo? (ex.: “ele me ignorou porque não se importa”).
  • Quais evidências a favor e contra? (ex.: a favor: não respondeu; contra: estava em reunião, respondeu outras vezes).
  • Qual interpretação alternativa é plausível e útil? (ex.: “ele pode estar ocupado; vou perguntar de forma direta”).

Quando evitar/ajustar: se a intensidade estiver 7–10, você pode “racionalizar” sem acalmar. Primeiro baixe a ativação, depois reavalie.

6) Resolução de problemas em 6 passos (10–20 minutos)

Quando usar: quando há um problema concreto (prazo, conversa, decisão) e você quer sair da ruminação.

Passo a passo:

  • Defina o problema em uma frase específica (não “minha vida está um caos”, e sim “tenho 3 tarefas atrasadas e 2 reuniões amanhã”).
  • Defina o objetivo realista para hoje (ex.: “entregar a parte A até 18h”).
  • Liste opções sem julgar (mínimo 5).
  • Avalie custo/benefício de cada opção (tempo, energia, impacto).
  • Escolha 1–2 ações pequenas e executáveis em 15–30 minutos.
  • Revise depois: o que funcionou e o que ajustar?

Quando evitar/ajustar: se você estiver exausto(a) ou com fome/sono, a qualidade das decisões cai. Nesses casos, escolha uma microação e adie decisões maiores.

7) Comunicação regulada: “Fato–Impacto–Pedido” (2–10 minutos)

Quando usar: para reduzir mal-entendidos e expressar limites sem agressividade.

Passo a passo:

  • Fato observável: “Quando você chegou depois do combinado…”
  • Impacto em mim: “…eu fiquei preocupado(a) e frustrado(a)…”
  • Pedido específico: “…da próxima vez, pode me avisar com uma mensagem?”

Quando evitar/ajustar: evite iniciar a conversa no pico (7–10). Use time-out e retome quando estiver 4–6.

8) Distração útil (curta e com retorno) (5–30 minutos)

Quando usar: intensidade 6–9, quando você precisa “baixar a onda” antes de lidar com o assunto (ex.: antes de responder uma mensagem difícil).

Passo a passo:

  • Escolha uma atividade neutra e concreta: caminhada curta, banho, arrumar um espaço, jogo simples, música calma.
  • Defina um tempo (ex.: 15 minutos) e um retorno: “Depois disso, volto e decido o próximo passo”.
  • Ao voltar, faça 1 ação pequena (ex.: rascunhar resposta e revisar depois).

Quando evitar: se você usa distração sempre que surge desconforto e nunca retorna ao tema, vira evitação crônica (o problema cresce e a ansiedade também). Sinal de alerta: “eu sempre prometo que vou resolver depois, mas não resolvo”.

Nível 3 — Longo prazo (hábitos, valores e suporte social)

9) Rotina de “base regulatória” (sono, alimentação, movimento) (planejamento semanal)

Quando usar: como prevenção. Emoções ficam mais intensas quando o corpo está no limite.

Passo a passo:

  • Escolha 1 ajuste por semana (ex.: deitar 30 min mais cedo 3x/semana).
  • Defina um gatilho de hábito (ex.: “após o jantar, preparo o ambiente para dormir”).
  • Monitore 7 dias: energia (0–10) e reatividade (0–10).

Quando evitar/ajustar: evite metas perfeccionistas (“nunca mais vou dormir tarde”). Prefira consistência mínima.

10) Valores como bússola: “o que eu quero sustentar mesmo desconfortável?” (5–15 minutos)

Quando usar: quando você está dividido(a) entre impulso e direção (ex.: atacar vs conversar; desistir vs tentar).

Passo a passo:

  • Escreva a situação em 1 linha.
  • Escolha 1 valor relevante (ex.: respeito, coragem, honestidade, cuidado, justiça).
  • Complete: “Se eu agir com (valor), eu faço _______ nas próximas 24 horas.”
  • Escolha uma ação pequena alinhada ao valor (ex.: pedir desculpas, marcar conversa, colocar limite).

Quando evitar/ajustar: valores não são para se punir (“se eu fosse uma pessoa boa…”). Use como direção prática, não como julgamento moral.

11) Suporte social estratégico (10–30 minutos)

Quando usar: quando a intensidade está alta, quando há risco, ou quando você está preso(a) em ruminação.

Passo a passo:

  • Escolha a pessoa certa para o objetivo: acolhimento, conselho prático ou apenas companhia.
  • Faça um pedido claro: “Preciso de 10 minutos para desabafar sem conselho” ou “Me ajuda a pensar em 2 opções?”.
  • Combine um próximo passo (ex.: “depois da ligação, vou tomar banho e escrever o que vou dizer”).

Quando evitar/ajustar: evite buscar validação infinita (falar com muitas pessoas para “ter certeza”). Isso pode aumentar dependência e confusão. Se você já falou com 2 pessoas e continua pior, volte ao nível 1 (acalmar) e ao nível 2 (plano).

Como montar seu “plano pessoal” por intensidade

Para facilitar na hora do pico, deixe pré-definido um plano simples:

Meu plano 0–3 (leve)

  • Estratégia principal: reavaliação em 3 perguntas.
  • Ação: uma microconversa ou microtarefa em 15 minutos.

Meu plano 4–6 (moderado)

  • Estratégia principal: respiração com expiração longa + resolução de problemas (1 passo).
  • Regra: não tomar decisões grandes com o corpo agitado.

Meu plano 7–10 (alto)

  • Estratégia principal: time-out + aterramento.
  • Regra de segurança: adiar mensagens/decisões por 30–120 minutos (ou até a intensidade cair para 5–6).
  • Se houver risco: acionar suporte (pessoa de confiança/profissional/serviço local).

Erros comuns (e ajustes rápidos)

Erro 1: tentar “pensar positivo” no pico

Ajuste: primeiro fisiologia (nível 1), depois reavaliação (nível 2).

Erro 2: usar distração como estilo de vida

Ajuste: transforme em distração útil com tempo e retorno. Se não há retorno, é evitação.

Erro 3: confundir desabafo com solução

Ajuste: desabafe com limite e depois escolha 1 ação pequena. Pergunta-chave: “O que eu faço nas próximas 2 horas?”

Erro 4: querer regular tudo sozinho(a)

Ajuste: regulação também é relacional. Pedir apoio é estratégia, não fraqueza.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao perceber que sua emoção chegou a um pico (intensidade 7–10), qual é a prioridade mais adequada para escolher estratégias de regulação emocional?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em intensidade 7–10, a prioridade é segurança e contenção. Isso envolve pausar a ação automática, reduzir a ativação fisiológica (nível 1) e adiar decisões até a emoção cair para um nível que permita pensar com clareza.

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