O que a banca avalia em uma redação de concurso
Em concursos da Polícia Militar, a redação costuma medir sua capacidade de defender um ponto de vista com clareza, organização e linguagem adequada ao padrão formal. Em geral, a correção observa: atendimento ao tema e ao gênero solicitado (frequentemente dissertativo-argumentativo), estrutura (introdução, desenvolvimento e conclusão), progressão lógica das ideias, coesão (ligações entre frases e parágrafos), coerência (sentido global) e qualidade da argumentação (tese, justificativas, exemplos e proposta quando exigida).
Estrutura do texto dissertativo-argumentativo
1) Introdução: tema + recorte + tese
A introdução apresenta o assunto, delimita o recorte (o ângulo pelo qual você vai tratar o tema) e explicita a tese (sua posição). Uma introdução eficiente costuma ter de 2 a 4 frases, sem começar “do nada” e sem prometer o que não será cumprido.
- Tema: o assunto geral proposto.
- Recorte: o foco específico (causas, consequências, desafios, soluções, impactos em determinado grupo).
- Tese: a ideia central defendida, preferencialmente em uma frase assertiva.
Exemplo (modelo): “A violência no trânsito é um problema persistente nas cidades brasileiras. Entre os fatores que a alimentam, destacam-se a combinação de imprudência e fiscalização insuficiente. Assim, é necessário fortalecer ações educativas e medidas de controle para reduzir acidentes e preservar vidas.”
2) Desenvolvimento: argumentos organizados em parágrafos
O desenvolvimento sustenta a tese com argumentos. O padrão mais seguro é usar 2 parágrafos de desenvolvimento, cada um com um argumento principal, explicação e exemplificação. Evite “lista de ideias” sem aprofundamento.
- Parágrafo 1: argumento A (causa, diagnóstico, contexto, dado plausível, relação com cidadania/segurança).
- Parágrafo 2: argumento B (consequência, impacto social, falhas institucionais, caminhos de solução).
Estrutura interna do parágrafo (fórmula prática): tópico frasal (ideia principal) + explicação (por quê/como) + exemplo (situação concreta) + fechamento (retoma a tese ou prepara o próximo parágrafo).
Continue em nosso aplicativo
Você poderá ouvir o audiobook com a tela desligada, ganhar gratuitamente o certificado deste curso e ainda ter acesso a outros 5.000 cursos online gratuitos.
ou continue lendo abaixo...Baixar o aplicativo
3) Conclusão: síntese + encaminhamento (quando cabível)
A conclusão retoma a tese e amarra os argumentos, mostrando que o raciocínio chegou a um resultado. Em alguns editais, pode ser valorizado apresentar encaminhamentos gerais (medidas, responsabilidades, efeitos esperados), desde que sejam viáveis e coerentes com o que foi discutido, sem criar um assunto novo.
Modelo de fechamento: “Portanto, ao enfrentar o problema X por meio de Y e Z, reduz-se o impacto social e fortalece-se a proteção coletiva.”
Coesão: como ligar ideias sem “saltos”
Coesão é o conjunto de mecanismos linguísticos que conectam frases e parágrafos, guiando o leitor. Uma redação pode ter boas ideias, mas perder pontos se o texto parecer “quebrado” ou repetitivo.
Principais recursos de coesão
- Conectivos (articulação lógica): indicam relação entre ideias (causa, consequência, contraste, conclusão, exemplificação).
- Referência: uso de pronomes e expressões para retomar termos anteriores, evitando repetição excessiva.
- Substituição lexical: alternância de palavras equivalentes (sinônimos adequados ao contexto) para manter fluidez.
- Elipse: omissão de termo já recuperável pelo contexto, sem prejudicar o entendimento.
Conectivos por função (uso prático)
- Adição: “além disso”, “bem como”, “também”.
- Contraste: “porém”, “contudo”, “entretanto”.
- Causa: “porque”, “visto que”, “uma vez que”.
- Consequência: “portanto”, “assim”, “desse modo”.
- Exemplificação: “por exemplo”, “como”, “a exemplo de”.
- Finalidade: “para que”, “a fim de”.
Exemplo de melhoria por coesão: Fraco: “Há violência no trânsito. Falta fiscalização. As pessoas dirigem alcoolizadas.” Melhor: “Há violência no trânsito, sobretudo porque a fiscalização é insuficiente; além disso, parte dos condutores assume riscos, como dirigir sob efeito de álcool.”
Erros comuns de coesão (e como evitar)
- Excesso de conectivos: usar “portanto” em toda frase dá sensação de artificialidade. Varie e use apenas quando houver relação lógica real.
- Referência ambígua: “isso”, “aquilo”, “ele” sem deixar claro a que se referem. Prefira retomar com expressão mais específica: “essa prática”, “tal medida”.
- Repetição pobre: repetir a mesma palavra a cada linha. Use substituições lexicais com cuidado para não mudar o sentido.
Coerência: como garantir sentido e unidade
Coerência é a lógica global do texto: as ideias precisam fazer sentido entre si, respeitar o tema e manter um caminho argumentativo. Um texto pode estar “bem ligado” (coesão) e ainda assim ser incoerente se defender posições contraditórias ou fugir do assunto.
Como manter coerência na prática
- Fidelidade ao tema: responda ao comando. Se o tema pede “causas e consequências”, trate dos dois.
- Unidade de tese: não mude de opinião no meio do texto.
- Progressão: cada parágrafo deve acrescentar algo novo, sem circular no mesmo ponto.
- Compatibilidade: exemplos e justificativas devem apoiar a tese, não competir com ela.
Exemplo de incoerência: defender que “a fiscalização é essencial” e, no parágrafo seguinte, afirmar que “a fiscalização não influencia em nada” sem explicar mudança de perspectiva. Se for comparar, sinalize: “embora”, “por outro lado”, e justifique.
Argumentação: como defender sua tese com força
Argumentar é sustentar uma tese com razões consistentes. Em concursos, a banca valoriza clareza, pertinência e capacidade de relacionar o tema a aspectos sociais, institucionais e de cidadania, sem exageros ou afirmações impossíveis de sustentar.
Elementos de uma boa argumentação
- Tese: posição clara.
- Argumentos: razões que sustentam a tese (causas, consequências, comparações, princípios, dados plausíveis).
- Exemplos: situações concretas (cotidiano, políticas públicas, realidade urbana, segurança viária, prevenção).
- Encadeamento lógico: “se… então…”, “porque… logo…”.
Tipos de argumento (com exemplos aplicáveis)
- Causa e consequência: “A baixa percepção de risco favorece condutas imprudentes; por isso, aumentam acidentes e custos hospitalares.”
- Autoridade institucional (sem citar pessoas específicas): “Órgãos públicos de trânsito e segurança têm papel central na prevenção por meio de fiscalização e educação.”
- Exemplificação social: “Em vias com maior controle de velocidade, observa-se redução de colisões, o que reforça a eficácia da medida.”
- Comparação: “Assim como campanhas de saúde alteram hábitos, ações educativas contínuas podem reduzir comportamentos de risco no trânsito.”
Falácias e armadilhas que derrubam a nota
- Generalização: “ninguém respeita leis”, “todo jovem é imprudente”. Prefira: “parte”, “muitos”, “em diversos casos”.
- Senso comum vazio: frases prontas sem explicação (“a educação é a solução”). Diga como, por quem e com qual efeito.
- Contradição: defender e negar a mesma ideia.
- Exagero: prometer “acabar com o problema” em curto prazo. Prefira metas realistas: “reduzir”, “mitigar”, “ampliar”.
Passo a passo prático para escrever uma redação em 60–90 minutos
Passo 1: Leia o tema e transforme em pergunta
Converta o comando em uma pergunta objetiva para evitar fuga ao tema. Exemplo: tema sobre “violência no trânsito” pode virar: “Quais fatores explicam a violência no trânsito e que medidas podem reduzi-la?”
Passo 2: Defina tese em 1 frase
Escreva uma frase com posição e direção do texto. Exemplo: “A violência no trânsito decorre principalmente de imprudência recorrente e fiscalização insuficiente, exigindo ações educativas e controle efetivo.”
Passo 3: Escolha 2 argumentos e um exemplo para cada
- Argumento 1: diagnóstico/causa (com exemplo do cotidiano).
- Argumento 2: consequência/solução (com exemplo de medida viável).
Passo 4: Monte o esqueleto dos parágrafos
Introdução: tema + recorte + tese. 2–4 frases. Desenvolvimento 1: tópico frasal + explicação + exemplo + fechamento. Desenvolvimento 2: tópico frasal + explicação + exemplo + fechamento. Conclusão: retomada da tese + síntese dos argumentos + encaminhamento coerente (se couber).Passo 5: Escreva priorizando clareza e progressão
Use frases diretas e conectivos com função real. Evite parágrafos muito longos. Cada parágrafo deve cumprir um objetivo.
Passo 6: Revisão final (checklist de banca)
- Tema: respondi exatamente ao que foi pedido?
- Tese: está explícita na introdução?
- Parágrafos: cada desenvolvimento tem um argumento principal?
- Coesão: conectivos e retomadas estão claros, sem ambiguidade?
- Coerência: não há contradições, nem informações fora do recorte?
- Argumentação: há justificativa e exemplo, não apenas opinião?
Modelos práticos (para treinar estrutura e encadeamento)
Modelo de introdução (preenchível)
O(a) [tema] é um desafio relevante no contexto [recorte]. Isso ocorre, sobretudo, devido a [causa 1] e [causa 2]. Portanto, torna-se necessário [direção/encaminhamento coerente com a tese].Modelo de parágrafo de desenvolvimento (preenchível)
Em primeiro lugar, [argumento principal]. Isso se explica porque [explicação]. Um exemplo disso é [exemplo concreto]. Assim, [fechamento que reforça a tese].Modelo de conclusão (preenchível)
Logo, [retomada da tese]. Diante disso, [síntese dos argumentos] e [encaminhamento viável, se solicitado], a fim de [efeito esperado].Exercícios guiados para fixação
Exercício 1: tese em 1 frase
Escolha um tema típico (por exemplo, “segurança no trânsito”, “prevenção ao uso de drogas”, “violência urbana”) e escreva 3 teses diferentes, cada uma com um recorte distinto: causas, consequências e soluções. Depois, selecione a mais específica (a que permite argumentos mais concretos).
Exercício 2: parágrafo com tópico frasal + exemplo
Escreva um parágrafo de desenvolvimento com 5 a 7 linhas seguindo a fórmula: tópico frasal + explicação + exemplo + fechamento. Em seguida, sublinhe o tópico frasal e verifique se o restante do parágrafo realmente o sustenta.
Exercício 3: coesão por conectivos
Reescreva um texto curto substituindo repetições de “e”, “mas”, “porque” por conectivos mais precisos, sem alterar o sentido. Verifique se cada conectivo indica uma relação lógica verdadeira.