Tese: a ideia central que manda no texto
Tese é a afirmação principal que você quer que o leitor aceite ao final. Ela não é “o tema” (assunto geral), nem “o objetivo” (para quem e para quê você escreve). A tese é uma posição defendível: uma frase que pode ser sustentada com razões, evidências, exemplos e critérios.
Uma boa tese funciona como um “eixo”: tudo o que entra no texto (argumentos, dados, exemplos, contra-argumentos) deve servir para sustentar essa afirmação. Se um parágrafo não ajuda a provar a tese, ele está fora do lugar ou precisa ser reescrito.
Como reconhecer se uma tese está clara
- Tem forma de afirmação (não é pergunta nem tema solto).
- É específica (delimita o que está sendo defendido).
- É discutível (alguém poderia discordar).
- Indica direção (sugere quais razões/ângulos vão aparecer).
Ponto de vista: de “opinião” a posição defendível
Ponto de vista é o lugar de onde você fala: o recorte interpretativo e a lente usada para avaliar o tema. Ele aparece nas escolhas de critérios (eficácia, justiça, custo, impacto, viabilidade, riscos), no vocabulário e no tipo de evidência que você privilegia.
Opinião vaga é algo como “sou a favor/contra”, “acho bom/ruim”. Posição defendível é quando você transforma isso em uma afirmação com condições, critérios e justificativas.
Transformando opinião vaga em posição defendível (fórmula prática)
Use o molde abaixo para sair do “acho” e chegar a uma tese:
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Em [contexto/recorte], [posição] porque [razão 1] e [razão 2], desde que/ao considerar [condição/critério].Exemplo (opinião vaga): “Trabalho remoto é melhor.”
Exemplo (posição defendível): “Em equipes de tecnologia com tarefas mensuráveis, o trabalho remoto tende a aumentar a produtividade e reduzir custos operacionais, desde que haja metas claras e rituais de comunicação.”
Note que a frase já sugere o caminho do texto: produtividade, custos, condições de funcionamento.
Frase-guia: tese + direção argumentativa
A frase-guia é uma versão “operacional” da tese: além de dizer o que você defende, ela antecipa por quais trilhas você vai defender. É como um mapa compacto do texto.
Modelo de frase-guia (com espaços para preencher)
Defendo que [tese/posição] porque [eixo 1], [eixo 2] e [eixo 3], avaliando o tema pelos critérios de [critérios].Exemplo: “Defendo que a adoção de bicicletas compartilhadas em grandes cidades deve ser ampliada porque melhora a mobilidade de curtas distâncias, reduz emissões e incentiva hábitos saudáveis, avaliando o tema pelos critérios de segurança, custo público e integração com transporte coletivo.”
Perceba que os “eixos” viram blocos de desenvolvimento (parágrafos ou seções). Os “critérios” definem o que conta como argumento relevante.
Checklist rápido da frase-guia
- Consigo sublinhar uma única afirmação central?
- Consigo listar 2 a 4 eixos que serão desenvolvidos?
- Os eixos são diferentes entre si (não repetem a mesma ideia com outras palavras)?
- Os critérios estão claros (o texto vai julgar por quê)?
Promessa do texto: o que será defendido e com quais ângulos
A promessa do texto é um compromisso explícito com o leitor: você diz o que vai provar e como (por quais ângulos/linhas de argumentação). Ela reduz a sensação de “texto que vai para qualquer lado” e ajuda você a manter a progressão.
Modelo de promessa do texto (pronto para usar)
Neste texto, defendo que [tese]. Para sustentar essa posição, analisarei [ângulo 1] e [ângulo 2] (e, se necessário, [ângulo 3]), usando como critérios [critérios]. Também considerarei [possível objeção] para mostrar por que, ainda assim, [reforço da tese].Exemplo: “Neste texto, defendo que a proibição total de celulares em sala de aula é uma medida inadequada no ensino médio. Para sustentar essa posição, analisarei o impacto pedagógico, a viabilidade de fiscalização e os efeitos sobre autonomia do estudante, usando como critérios aprendizagem, aplicabilidade e equidade. Também considerarei a objeção de que o celular distrai para mostrar por que regras de uso orientado são mais eficazes do que a proibição.”
Essa promessa já organiza a sequência: ângulo 1 → ângulo 2 → ângulo 3 → objeção → resposta.
Passo a passo: construindo tese, frase-guia e promessa
1) Escreva a sua opinião em uma frase simples
Sem se preocupar com qualidade, apenas registre:
Eu acho que [X] é [bom/ruim/necessário/desnecessário].2) Pergunte “em que sentido?” e “em quais condições?”
- Em que contexto isso vale? (recorte)
- Para quem isso é bom/ruim? (alvo afetado)
- Quando isso funciona/não funciona? (condições)
Reescreva adicionando recorte e condição:
Em [recorte], [X] é [posição], desde que [condição].3) Escolha 2 a 4 eixos de sustentação
Complete com razões diferentes:
... porque [razão 1] e [razão 2] (e [razão 3]).Dica: se suas razões forem “porque é bom” e “porque é importante”, você ainda está no vago. Troque por razões verificáveis: custo, impacto, risco, eficácia, justiça, consequências.
4) Defina critérios (como você vai julgar)
Critérios são “réguas” de avaliação. Exemplos comuns:
- Eficácia (funciona?)
- Viabilidade (dá para implementar?)
- Custo-benefício (vale o investimento?)
- Equidade (afeta grupos de forma justa?)
- Riscos (quais efeitos colaterais?)
Inclua 1 a 3 critérios na frase-guia ou na promessa.
5) Escreva a frase-guia (tese + direção)
Junte tese + eixos + critérios em uma frase. Se ficar longa demais, mantenha a tese em uma frase e a direção em outra.
6) Escreva a promessa do texto (compromisso com o leitor)
Use o modelo e inclua uma objeção provável. Isso melhora a robustez do ponto de vista.
Exercícios: fortalecendo teses fracas (reescrita guiada)
Nos exercícios abaixo, há uma tese fraca e uma versão forte. Depois, você reescreve a sua própria seguindo o mesmo padrão.
Exercício 1
Tese fraca: “A leitura é importante.”
Problemas: genérica, indiscutível, sem recorte nem direção.
Tese forte (exemplo): “No ensino fundamental, a leitura diária orientada é uma das estratégias mais eficazes para melhorar a escrita dos alunos, porque amplia repertório linguístico e fortalece a compreensão textual, desde que haja acompanhamento e metas de progressão.”
Sua reescrita (preencha):
Em [recorte], [X] é [posição] porque [razão 1] e [razão 2], desde que [condição].Exercício 2
Tese fraca: “Redes sociais fazem mal.”
Problemas: generaliza, não define “mal”, não indica critérios.
Tese forte (exemplo): “Para adolescentes, o uso intenso e não mediado de redes sociais tende a aumentar ansiedade e reduzir qualidade do sono, especialmente quando há exposição constante a comparação social, o que justifica políticas de orientação de uso e limites de horário.”
Sua reescrita (com critérios):
Para [grupo], [fenômeno] tende a [efeito] e [efeito] quando [condição], avaliando pelos critérios de [critério 1] e [critério 2].Exercício 3
Tese fraca: “O transporte público precisa melhorar.”
Problemas: óbvia, sem proposta implícita, sem direção.
Tese forte (exemplo): “Em cidades médias, priorizar corredores exclusivos de ônibus é a medida mais custo-efetiva para reduzir tempo de deslocamento, porque aumenta a velocidade média e melhora a previsibilidade, desde que haja integração tarifária e fiscalização.”
Sua reescrita (com promessa):
Neste texto, defendo que [tese]. Para sustentar, analisarei [ângulo 1] e [ângulo 2], usando os critérios [critérios].Exercício 4
Tese fraca: “A escola deveria ensinar educação financeira.”
Problemas: falta recorte (idade? disciplina?), falta direção (por quê? como?), falta condição.
Tese forte (exemplo): “No ensino médio, incluir educação financeira aplicada (orçamento, juros e consumo) em projetos interdisciplinares melhora a tomada de decisão do aluno, porque conecta matemática ao cotidiano e reduz vulnerabilidade a dívidas, desde que o conteúdo seja contextualizado e sem viés publicitário.”
Sua reescrita (inclua condição e risco):
Em [recorte], [proposta] é [posição] porque [razões], desde que [condição], evitando [risco].Erros comuns que enfraquecem a tese (e como corrigir)
| Erro | Como aparece | Como corrigir |
|---|---|---|
| Generalização | “Sempre”, “todo mundo”, “nunca” | Adicionar recorte: grupo, contexto, período, condição |
| Vaguidão | “melhor”, “pior”, “importante” sem explicar | Trocar por critérios: eficaz, viável, justo, seguro, econômico |
| Tese descritiva | “Existe um problema…” | Transformar em posição: “Deve-se…” / “A melhor medida é…” |
| Muitas teses | Defende 3 coisas diferentes | Escolher 1 afirmação central e subordinar o resto como eixos |
| Direção escondida | Não dá para prever os argumentos | Escrever frase-guia com 2–4 eixos explícitos |
Mini-roteiro de progressão: da tese aos parágrafos
Depois de escrever a frase-guia, transforme os eixos em um esqueleto de desenvolvimento. Exemplo:
Frase-guia: Defendo que [tese] porque [eixo 1], [eixo 2] e [eixo 3].Vira um plano simples:
- Parágrafo/Seção 1: desenvolver eixo 1 (definição + evidência + exemplo)
- Parágrafo/Seção 2: desenvolver eixo 2 (comparação/causa e efeito)
- Parágrafo/Seção 3: desenvolver eixo 3 (viabilidade/impacto/riscos)
- Parágrafo/Seção 4 (opcional): objeção forte + resposta alinhada aos critérios
Se, ao planejar, você não consegue imaginar evidências ou exemplos para um eixo, isso é sinal de que a tese ainda está fraca ou que o eixo escolhido não sustenta bem a posição.