Redação do Zero: reescrita com método (macroedição e microedição)

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Reescrita com método: por que editar em camadas

Reescrever não é “passar a limpo”. É tomar decisões em níveis diferentes do texto, do mais estrutural ao mais detalhado. Quando você mistura tudo (mudar tese, mexer em parágrafos, trocar palavras e caçar erros ortográficos ao mesmo tempo), a revisão fica lenta, confusa e você corre o risco de “polir” um texto que ainda está mal organizado.

Um método eficiente separa a reescrita em três camadas:

  • Macroedição: mexe no que o texto diz e em como ele se organiza (tese, estrutura, ordem de parágrafos, consistência interna).
  • Microedição: mexe em como o texto soa e flui (frases, conectivos, pontuação, escolhas de palavras, cortes e ajustes finos).
  • Acabamento: elimina ruídos finais (ortografia e formatação) para entregar um texto limpo e apresentável.

A regra prática é: não faça microedição antes de terminar a macroedição. Se você vai cortar ou mover um parágrafo inteiro, não vale a pena gastar tempo lapidando cada frase dele.

Camada 1 — Macroedição (estrutura e consistência)

Objetivo da macroedição

Garantir que o texto esteja “em pé”: cada parte cumpre uma função, a ordem faz sentido, não há buracos de lógica e não há repetições estruturais (dois parágrafos fazendo a mesma coisa).

Checklist prático de macroedição

  • Mapa rápido do texto: escreva, ao lado de cada parágrafo, uma frase dizendo o que ele faz (ex.: “define o problema”, “apresenta causa 1”, “exemplifica”, “antecipa objeção”). Se dois parágrafos tiverem a mesma função, há chance de redundância.
  • Teste da linha mestra: em uma frase, resuma a ideia central do texto. Depois, pergunte: “cada parágrafo ajuda essa frase a ficar mais convincente/mais clara?” Se não, corte, mova ou reescreva.
  • Ordem de parágrafos: verifique se a sequência é inevitável (A leva a B, que leva a C). Se você pode trocar parágrafos sem mudar nada, a progressão pode estar fraca.
  • Consistência: procure mudanças de critério (ex.: começa falando de “escolas públicas” e depois generaliza para “todas as escolas” sem avisar), mudanças de foco (ex.: sai de “causas” para “soluções” e volta para “causas”), ou mudanças de tom (ex.: técnico e, de repente, coloquial).
  • Proporção: partes importantes têm espaço suficiente? Partes secundárias estão longas demais? Ajuste a distribuição.

Técnicas de macroedição (com ações objetivas)

  • Cortar redundâncias estruturais: quando dois trechos repetem a mesma ideia com exemplos parecidos, mantenha o mais forte e elimine o outro, ou funde os dois em um parágrafo mais enxuto.
  • Fundir parágrafos curtos demais: se você tem 2–3 parágrafos de 1–2 frases cada, frequentemente eles são “fragmentos” de uma mesma unidade de sentido. Una-os para formar um bloco com ideia completa.
  • Dividir parágrafos longos: se um parágrafo tem muitas funções (explica, exemplifica, compara e conclui), ele fica pesado. Separe por função: explicação em um parágrafo, exemplo em outro, consequência em outro.
  • Reordenar por lógica: organize por causa→efeito, geral→particular, problema→critérios→proposta, ou do mais forte ao mais fraco (dependendo do objetivo do texto).

Como decidir: cortar, fundir ou dividir

Sinal no textoProblema provávelAção recomendada
Você consegue resumir dois parágrafos com a mesma fraseRedundânciaCortar um ou fundir mantendo o melhor argumento/exemplo
Parágrafos com 1 frase que “anunciam” algo e o próximo “explica”FragmentaçãoFundir: anúncio + explicação no mesmo parágrafo
Parágrafo com mais de 6–8 linhas e várias ideiasAcúmulo de funçõesDividir por função (definição / argumento / exemplo / consequência)
Você precisa reler para entender “onde o texto está”Transições fracas e ordem confusaReordenar e criar frases-ponte entre parágrafos

Camada 2 — Microedição (frases, fluidez e precisão)

Objetivo da microedição

Deixar o texto fácil de ler: frases mais diretas, conexões claras, pontuação a serviço do sentido, e escolhas de palavras que não criem ambiguidade.

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Passo a passo de microedição (linha a linha)

  • 1) Enxugue: corte palavras que não mudam o sentido (ex.: “de certa forma”, “basicamente”, “é importante ressaltar que”).
  • 2) Fortaleça verbos: troque estruturas fracas por verbos mais diretos (ex.: “fazer uma análise” → “analisar”).
  • 3) Reduza frases longas: se uma frase tem muitas vírgulas, veja se ela pode virar duas.
  • 4) Ajuste conectivos: verifique se o conectivo realmente expressa a relação (causa, contraste, consequência, exemplificação). Evite conectivo “genérico” repetido.
  • 5) Elimine repetições próximas: repetições podem ser recurso, mas repetição involuntária empobrece. Substitua por sinônimo preciso ou reestruture a frase.
  • 6) Cheque referências: pronomes e termos como “isso”, “isso tudo”, “essa questão” precisam apontar claramente para algo específico.

Como cortar trechos redundantes (micro)

Redundância em microedição costuma aparecer como:

  • Repetição da mesma ideia na mesma frase: “planejar com antecedência” (antecedência já implica antes).
  • Explicação em dobro: uma frase diz e a seguinte repete com outras palavras sem acrescentar nada.
  • Intensificadores vazios: “muito”, “extremamente”, “realmente” sem função.

Técnica rápida: sublinhe a frase e pergunte: o que eu perderia se eu apagasse este trecho? Se a resposta for “nada”, corte.

Como fundir parágrafos curtos demais (micro)

Depois da macroedição, você pode ter parágrafos curtos que ficaram “soltos”. Para fundir bem:

  • Escolha uma frase-tópico (a que melhor anuncia a ideia do bloco).
  • Transforme as outras frases em explicação, exemplo ou consequência.
  • Crie uma frase de ligação simples (ex.: “Na prática,” “Isso ocorre porque…”).

Como dividir parágrafos longos (micro)

Ao dividir, evite criar parágrafos “sem função”. Um bom corte acontece quando:

  • Você muda de etapa (definição → aplicação).
  • Você muda de tipo de conteúdo (argumento → exemplo).
  • Você muda de foco (causa 1 → causa 2).

Uma forma prática é inserir marcadores provisórios durante a edição:

[IDEIA] ... [EXEMPLO] ... [CONSEQUÊNCIA] ...

Depois, transforme cada marcador em um parágrafo próprio.

Camada 3 — Acabamento (ortografia e formatação)

Objetivo do acabamento

Remover erros e padronizar a apresentação. Aqui, você não muda ideias nem reestrutura: você limpa.

Checklist de acabamento

  • Ortografia: palavras com grafia duvidosa, acentos, hífen, maiúsculas/minúsculas.
  • Padronização: números (por extenso ou algarismos), siglas, nomes, termos repetidos sempre do mesmo jeito.
  • Pontuação final: pontos finais, espaços duplos, vírgulas faltando/excedendo (somente se for erro evidente, não para “reescrever”).
  • Formatação: parágrafos com tamanho consistente, recuos/espacamentos, títulos e subtítulos uniformes (se houver), uso consistente de itálico/negrito (se aplicável).

Uma prática útil é fazer o acabamento em uma leitura “mecânica”, procurando padrões (ex.: procurar “ ” para achar espaços duplos; procurar palavras que você costuma errar).

Roteiro de reescrita com tempo estimado (sessão única ou em blocos)

Os tempos abaixo funcionam bem para um texto curto a médio (ex.: 400–900 palavras). Para textos maiores, multiplique por blocos (por seção).

EtapaTempoO que fazerProduto da etapa
Distanciamento rápido10–20 minAfaste-se do texto antes de editar (ou mude o formato: fonte, tamanho, impressão)Olhar “fresco” para detectar falhas
Macroedição25–45 minMapear função de parágrafos, cortar redundâncias grandes, reordenar, fundir/dividir por funçãoEstrutura sólida e progressão clara
Microedição30–50 minEnxugar frases, melhorar verbos, ajustar conectivos, reduzir ambiguidade, revisar fluidezTexto mais direto e legível
Acabamento10–20 minOrtografia, padronização e formatação; leitura final procurando errosTexto limpo e pronto para entrega

Se você tiver pouco tempo, priorize assim: macroedição (maior impacto) → microediçãoacabamento.

Exemplos de antes/depois (macroedição e microedição)

Exemplo 1 — Cortar redundância e melhorar ordem (macro)

Antes (trechos com repetição e ordem fraca):

Parágrafo 1: A leitura é importante para escrever melhor, porque amplia o vocabulário e melhora a interpretação. Além disso, ler é fundamental para ter repertório. Parágrafo 2: Outro ponto é que a leitura ajuda a escrever, pois dá ideias e referências. Sem leitura, o texto fica pobre.

Problemas: dois parágrafos fazem a mesma função (defender a leitura) com argumentos sobrepostos; falta progressão.

Depois (fusão + progressão):

A leitura melhora a escrita por dois motivos principais: amplia o repertório de ideias e refina a percepção de como textos bem construídos funcionam. Com mais referências, fica mais fácil sustentar argumentos e evitar generalizações; com mais contato com diferentes estilos, você reconhece escolhas de linguagem que pode aplicar no próprio texto.

Exemplo 2 — Fundir parágrafos curtos demais (macro + micro)

Antes:

O problema não é falta de informação. É excesso. Por isso, selecionar é essencial. Isso vale para qualquer tema.

Depois (um parágrafo com ideia completa):

O problema, muitas vezes, não é falta de informação, e sim excesso. Por isso, selecionar o que entra no texto é essencial: a escolha do que fica de fora costuma determinar a clareza do que fica dentro.

Exemplo 3 — Dividir parágrafo longo e criar unidades de sentido (macro)

Antes (parágrafo longo com funções misturadas):

Reescrever é importante porque melhora a qualidade do texto e também porque ajuda a perceber falhas de lógica, e quando a pessoa revisa ela consegue ajustar as frases e deixar tudo mais claro, e ainda dá para corrigir erros de português, então é uma etapa que não pode ser ignorada e que deve ser feita com calma.

Depois (divisão por função):

Reescrever melhora a qualidade do texto porque revela falhas que passam despercebidas no rascunho, como saltos de lógica e repetições.
Na prática, a reescrita funciona melhor em camadas: primeiro você ajusta estrutura e consistência; depois, lapida frases e conexões; por fim, corrige ortografia e padroniza a formatação.

Exemplo 4 — Microedição: enxugar, fortalecer verbos e ajustar conectivos

Antes:

É importante ressaltar que, atualmente, muitas pessoas acabam tendo dificuldades no que diz respeito à escrita, e por causa disso, é possível observar que existe uma necessidade de se fazer uma melhora nesse aspecto.

Depois:

Muitas pessoas têm dificuldade para escrever; por isso, vale investir em práticas de reescrita que melhorem clareza e consistência.

Exemplo 5 — Microedição: pontuação para clareza e corte de “enchimentos”

Antes:

O texto, de certa forma, fica mais fácil de entender, quando o autor, basicamente, organiza melhor as ideias.

Depois:

O texto fica mais fácil de entender quando o autor organiza melhor as ideias.

Modelo de folha de revisão (para usar durante a reescrita)

Use este modelo como guia, marcando rapidamente enquanto lê:

  • [M] mover parágrafo
  • [C] cortar trecho
  • [F] fundir parágrafos
  • [D] dividir parágrafo
  • [R] reescrever frase
  • [X] ajustar conectivo/transição
  • [O] ortografia/formatação

Exemplo de anotação direta no texto (rascunho de edição):

[M] Este parágrafo funciona melhor antes do exemplo. [C] Cortar repetição da ideia “excesso de informação”. [F] Unir com o parágrafo anterior. [X] Trocar “além disso” por um conectivo de consequência.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao reescrever um texto usando um método em camadas, qual sequência de etapas é a mais eficiente para evitar “polir” um texto ainda mal organizado?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Editar em camadas evita retrabalho: primeiro ajusta-se o que o texto diz e como se organiza (macro), depois lapida-se a forma e a fluidez (micro) e só então corrige-se ortografia e formatação (acabamento).

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