Redação do Zero: checklist completo de revisão e prevenção de erros comuns

Capítulo 15

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é um checklist de revisão (e por que ele evita “cegueira de autor”)

Ao revisar o próprio texto, é comum deixar passar falhas porque você “sabe” o que quis dizer e o cérebro completa lacunas automaticamente. Um checklist operacional reduz essa cegueira: ele transforma a revisão em uma sequência de verificações objetivas, repetíveis e rápidas. A ideia é checar primeiro o que é mais estrutural (macro) e só depois o que é mais local (micro), para não perder tempo polindo frases que talvez sejam cortadas.

Como usar: faça uma passada por categoria, marcando OK, Ajustar ou Reescrever. Se algo cair em “Reescrever”, volte um nível acima (por exemplo: se um parágrafo não cumpre função, talvez o problema seja de estrutura, não de pontuação).

Checklist operacional completo (por categorias)

1) Adequação ao tema, objetivo e público

  • Recorte respeitado: o texto responde exatamente ao que foi pedido (sem fugir do foco)?
    Teste rápido: sublinhe a pergunta/tema e escreva em 1 frase “meu texto responde a…”. Compare com o que você de fato escreveu.
  • Objetivo explícito no desenvolvimento: cada parte do texto ajuda a informar, argumentar, explicar ou instruir (conforme o objetivo)?
  • Tom e registro adequados: formalidade, vocabulário e exemplos combinam com o público?
    Sinal de alerta: alternância de “você” e “o leitor”, gírias isoladas em texto formal, ou tecnicismos sem explicação.
  • Conteúdo proporcional: o texto não gasta muitas linhas em ponto secundário e pouco no ponto principal?
  • Exemplos pertinentes: exemplos iluminam a ideia (não desviam para outro assunto)?

2) Estrutura e parágrafos

  • Função de cada parágrafo: todo parágrafo tem um papel claro (apresentar ideia, desenvolver, exemplificar, contrapor, concluir um bloco)?
    Passo prático: escreva na margem uma etiqueta por parágrafo: “ideia”, “prova”, “exemplo”, “contraponto”, “síntese”. Se não conseguir etiquetar, revise.
  • Uma ideia central por parágrafo: não há “parágrafo-sacolão” com muitos assuntos misturados?
  • Frase-núcleo visível: a ideia principal do parágrafo aparece cedo (geralmente na 1ª ou 2ª frase)?
  • Progressão: os parágrafos avançam (não repetem o mesmo ponto com palavras diferentes)?
  • Transições entre parágrafos: o final de um parágrafo prepara o próximo (ou o próximo retoma o anterior)?
  • Proporção e ritmo: parágrafos muito longos foram quebrados quando mudam de subideia? Parágrafos muito curtos foram justificados (efeito de ênfase) ou precisam ser unidos?

3) Coesão (conectivos e retomadas)

  • Conectivos com função correta: “portanto” (conclusão), “porém” (contraste), “além disso” (adição), “por exemplo” (exemplificação), “assim” (resultado/encaminhamento).
    Sinal de alerta: conectivo “bonito” usado só para enfeitar, sem relação lógica real.
  • Variedade sem excesso: há conectivos suficientes para orientar, mas não em toda frase?
  • Retomadas claras: pronomes (“isso”, “esse”, “tal”) apontam para um referente inequívoco.
    Teste rápido: circule “isso/esse/esta/aquele”. Para cada um, pergunte: “isso = o quê?” Se houver duas respostas possíveis, reescreva.
  • Substituição e repetição controlada: termos-chave são repetidos quando necessário para clareza; sinônimos não criam ambiguidade.
    Exemplo de risco: trocar “política pública” por “medida” e depois por “ação” pode confundir se não estiver claro que é a mesma coisa.
  • Encadeamento interno: dentro do parágrafo, as frases se conectam por causa/efeito, explicação, exemplificação, contraste ou sequência.

4) Coerência (lógica e consistência)

  • Sem contradições: o texto não afirma A e depois nega A sem explicar a mudança (ex.: “é sempre” vs. “raramente”).
  • Termos consistentes: o mesmo conceito não muda de nome sem aviso (ex.: “adolescente” vira “jovem” e depois “criança”).
  • Generalizações controladas: palavras absolutas (“todo”, “nunca”, “sempre”) aparecem apenas quando são defensáveis.
  • Cadeia de causa e efeito plausível: quando você diz que algo “leva a” outra coisa, há ponte explicativa (mecanismo) e não só afirmação.
  • Comparações justas: comparar elementos do mesmo tipo (evitar “maçãs com laranjas”).
  • Exemplos e dados não se chocam com a tese: o exemplo realmente prova o ponto ou abre exceção que enfraquece o argumento?

5) Gramática (concordância, regência, crase, pontuação)

Use esta etapa quando a estrutura já estiver estável. Aqui, o objetivo é eliminar erros que prejudicam credibilidade e clareza.

5.1 Concordância

  • Sujeito distante do verbo: confira frases longas.
    Exemplo: “A lista de medidas foram discutidas.” → “A lista de medidas foi discutida.”
  • Expressões partitivas: “A maioria de” pode concordar com “maioria” (singular) ou com o termo plural, mas mantenha padrão no texto.
    Exemplo: “A maioria dos alunos chegou cedo.” (padrão formal comum)

5.2 Regência

  • Verbos que pedem preposição: “assistir a” (ver), “preferir X a Y”, “implicar em” (quando = acarretar, uso comum), “visar a” (objetivar).
    Exemplo: “Visamos melhorar o processo.” → “Visamos a melhorar o processo.”
  • Nominais: “necessário a”, “favorável a”, “contrário a”, “capaz de”.

5.3 Crase

  • Antes de palavra feminina com artigo: “a + a = à”.
    Exemplo: “Entregou a proposta a diretoria.” → “Entregou a proposta à diretoria.”
  • Sem crase: antes de palavra masculina, verbo, pronomes de tratamento sem artigo (em geral), e nomes de cidade sem artigo.
    Exemplo: “Cheguei à São Paulo.” (em geral) → “Cheguei a São Paulo.”
  • Teste do masculino: troque por um termo masculino: se virar “ao”, então é “à”.
    Exemplo: “Referi-me à situação” → “Referi-me ao caso” (logo, crase ok).

5.4 Pontuação

  • Vírgula entre sujeito e verbo: evite.
    Exemplo: “O aumento do custo, afeta todos.” → “O aumento do custo afeta todos.”
  • Períodos longos: quebre frases com muitas orações para reduzir ambiguidade.
  • Adjuntos e explicações: isole com vírgulas quando forem explicativos; não isole quando forem restritivos (mudam o sentido).
    Exemplo: “Os alunos, que estudaram, passaram.” (todos estudaram) vs. “Os alunos que estudaram passaram.” (só alguns)
  • Dois-pontos: use para anunciar explicação, lista ou consequência direta. Evite quando não houver anúncio real.

6) Estilo (repetição, precisão, formalidade)

  • Repetição útil vs. repetição pobre: repita termos-chave para manter o tópico; evite repetir verbos e adjetivos genéricos (“fazer”, “coisa”, “muito importante”).
    Troca prática: “fazer uma análise” → “analisar”; “dar uma explicação” → “explicar”.
  • Precisão lexical: prefira palavras que dizem exatamente o que acontece.
    Exemplo: “O projeto ajuda” → “O projeto reduz custos / amplia acesso / acelera atendimento”.
  • Evite vagueza: “de certa forma”, “em alguns casos”, “muito”, “vários” sem quantificação ou critério.
    Correção: substitua por condição (“quando…”) ou por recorte (“em contextos de…”).
  • Formalidade consistente: evite contrações informais (“pra”, “tá”), marcas de oralidade (“tipo”, “daí”) e exageros (“absurdamente”).
  • Voz ativa quando clareia: “Foi realizado um estudo” → “Pesquisadores realizaram um estudo” (quando o agente importa).
  • Evite pleonasmos e redundâncias: “subir para cima”, “planejar antecipadamente”, “consenso geral”.

7) Finalização (ortografia e consistência)

  • Ortografia e acentuação: passe corretor, mas confirme manualmente palavras que o corretor não pega (homônimos).
    Exemplo: “mas” vs. “mais”; “há” vs. “a”.
  • Consistência de termos: escolha uma forma e mantenha: “internet/Internet”, “e-mail/email”, “WhatsApp/Whatsapp”, siglas com ou sem pontos.
  • Consistência de números: defina padrão: números por extenso até nove? datas no formato “31 de janeiro de 2026”? mantenha igual.
  • Maiúsculas: nomes próprios e instituições; evite maiúsculas por ênfase (“Importante”).
  • Referências internas: se houver “como dito acima/abaixo”, verifique se realmente existe e se está no lugar certo.
  • Formatação: títulos, subtítulos, recuos, listas e espaçamento seguem o mesmo padrão.

Checklist de 10 erros comuns (com exemplo e correção)

Erro comumExemplo (problema)Correção (melhor)
1) Fuga do foco no meio do parágrafo“A medida reduz custos. Além disso, a história do setor mostra…”“A medida reduz custos ao cortar etapas do processo. (Se a história não sustenta a ideia, corte; se sustenta, conecte: ‘Esse ganho é relevante porque…’)”
2) Conectivo sem relação lógica“O serviço é caro. Portanto, precisa de mais divulgação.”“O serviço é caro. Mesmo assim, precisa de mais divulgação para ampliar a base de usuários.”
3) Pronome com referente ambíguo“O governo discutiu com as empresas e elas criticaram isso.”“O governo discutiu com as empresas, e as empresas criticaram a proposta.”
4) Generalização absoluta“Todo jovem é dependente de tecnologia.”“Muitos jovens usam tecnologia diariamente, especialmente para estudo e comunicação.”
5) Contradição interna“A prática é rara. Ela ocorre em quase todas as escolas.”“A prática ainda é pouco difundida, mas já aparece em muitas escolas de grandes centros.”
6) Vírgula entre sujeito e verbo“A falta de planejamento, gera retrabalho.”“A falta de planejamento gera retrabalho.”
7) Concordância inadequada“Os dados da pesquisa mostra…”“Os dados da pesquisa mostram…”
8) Regência inadequada“O texto visa melhorar o entendimento.”“O texto visa a melhorar o entendimento.”
9) Crase indevida ou ausente“Entregou o relatório a equipe.”“Entregou o relatório à equipe.”
10) Palavra vaga/“enchimento”“Isso é muito importante e de certa forma melhora tudo.”“Isso é importante porque reduz o tempo de espera e aumenta a previsibilidade do atendimento.”

Procedimento final: duas leituras para caçar falhas (voz baixa e leitura reversa)

Leitura em voz baixa (para fluidez, pontuação e clareza)

Objetivo: detectar frases longas demais, pontuação mal colocada, repetições sonoras e trechos confusos que “engasgam”.

  1. Prepare o texto: aumente o espaçamento (ou use modo de leitura) para enxergar melhor as pausas.
  2. Leia devagar, articulando: se você precisar “consertar” mentalmente a frase para conseguir ler, marque o trecho.
  3. Marque três tipos de problema:
    • Fôlego: frase longa sem pausa → quebre em duas ou reorganize.
    • Pausa errada: vírgula onde não deveria ou falta de vírgula em explicação → ajuste pontuação.
    • Ambiguidade: você não sabe “quem fez o quê” na primeira leitura → explicite sujeito/objeto.
  4. Reescreva o trecho marcado: priorize ordem direta e verbos específicos.
  5. Leia novamente só os trechos alterados: confirme que a mudança resolveu sem criar novo problema.

Leitura reversa (para ortografia, concordância e detalhes)

Objetivo: reduzir o “piloto automático” e enxergar palavra por palavra. Aqui você não avalia ideias; você caça erros locais.

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  1. Comece do último período: leia a última frase, depois a penúltima, e assim por diante.
  2. Foque em microerros: acentos, letras trocadas, “mas/mais”, “há/a”, concordância e regência.
  3. Cheque nomes e números: datas, siglas, grafia de termos técnicos e consistência de maiúsculas.
  4. Faça uma varredura de pronomes e conectivos: confirme se “isso/esse/portanto/porém” ainda fazem sentido após as edições.

Mini-rotina de 7 minutos (quando o prazo estiver curto)

  • 2 min: releia introdução e conclusão do texto (ou início e fechamento) para ver se prometem e entregam a mesma coisa.
  • 2 min: leia só as primeiras frases de cada parágrafo (teste de esqueleto).
  • 2 min: leitura em voz baixa de um parágrafo crítico (o mais importante).
  • 1 min: leitura reversa dos últimos 10 períodos (onde erros escapam mais).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao revisar um texto com um checklist, qual é a lógica recomendada para organizar a ordem das verificações?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A revisão deve seguir do macro ao micro: primeiro confirmar foco, objetivo e estrutura; depois ajustar gramática, estilo e detalhes. Assim, evita-se gastar tempo refinando frases que podem ser removidas ou reescritas.

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