O que é um checklist de revisão (e por que ele evita “cegueira de autor”)
Ao revisar o próprio texto, é comum deixar passar falhas porque você “sabe” o que quis dizer e o cérebro completa lacunas automaticamente. Um checklist operacional reduz essa cegueira: ele transforma a revisão em uma sequência de verificações objetivas, repetíveis e rápidas. A ideia é checar primeiro o que é mais estrutural (macro) e só depois o que é mais local (micro), para não perder tempo polindo frases que talvez sejam cortadas.
Como usar: faça uma passada por categoria, marcando OK, Ajustar ou Reescrever. Se algo cair em “Reescrever”, volte um nível acima (por exemplo: se um parágrafo não cumpre função, talvez o problema seja de estrutura, não de pontuação).
Checklist operacional completo (por categorias)
1) Adequação ao tema, objetivo e público
- Recorte respeitado: o texto responde exatamente ao que foi pedido (sem fugir do foco)?
Teste rápido: sublinhe a pergunta/tema e escreva em 1 frase “meu texto responde a…”. Compare com o que você de fato escreveu. - Objetivo explícito no desenvolvimento: cada parte do texto ajuda a informar, argumentar, explicar ou instruir (conforme o objetivo)?
- Tom e registro adequados: formalidade, vocabulário e exemplos combinam com o público?
Sinal de alerta: alternância de “você” e “o leitor”, gírias isoladas em texto formal, ou tecnicismos sem explicação. - Conteúdo proporcional: o texto não gasta muitas linhas em ponto secundário e pouco no ponto principal?
- Exemplos pertinentes: exemplos iluminam a ideia (não desviam para outro assunto)?
2) Estrutura e parágrafos
- Função de cada parágrafo: todo parágrafo tem um papel claro (apresentar ideia, desenvolver, exemplificar, contrapor, concluir um bloco)?
Passo prático: escreva na margem uma etiqueta por parágrafo: “ideia”, “prova”, “exemplo”, “contraponto”, “síntese”. Se não conseguir etiquetar, revise. - Uma ideia central por parágrafo: não há “parágrafo-sacolão” com muitos assuntos misturados?
- Frase-núcleo visível: a ideia principal do parágrafo aparece cedo (geralmente na 1ª ou 2ª frase)?
- Progressão: os parágrafos avançam (não repetem o mesmo ponto com palavras diferentes)?
- Transições entre parágrafos: o final de um parágrafo prepara o próximo (ou o próximo retoma o anterior)?
- Proporção e ritmo: parágrafos muito longos foram quebrados quando mudam de subideia? Parágrafos muito curtos foram justificados (efeito de ênfase) ou precisam ser unidos?
3) Coesão (conectivos e retomadas)
- Conectivos com função correta: “portanto” (conclusão), “porém” (contraste), “além disso” (adição), “por exemplo” (exemplificação), “assim” (resultado/encaminhamento).
Sinal de alerta: conectivo “bonito” usado só para enfeitar, sem relação lógica real. - Variedade sem excesso: há conectivos suficientes para orientar, mas não em toda frase?
- Retomadas claras: pronomes (“isso”, “esse”, “tal”) apontam para um referente inequívoco.
Teste rápido: circule “isso/esse/esta/aquele”. Para cada um, pergunte: “isso = o quê?” Se houver duas respostas possíveis, reescreva. - Substituição e repetição controlada: termos-chave são repetidos quando necessário para clareza; sinônimos não criam ambiguidade.
Exemplo de risco: trocar “política pública” por “medida” e depois por “ação” pode confundir se não estiver claro que é a mesma coisa. - Encadeamento interno: dentro do parágrafo, as frases se conectam por causa/efeito, explicação, exemplificação, contraste ou sequência.
4) Coerência (lógica e consistência)
- Sem contradições: o texto não afirma A e depois nega A sem explicar a mudança (ex.: “é sempre” vs. “raramente”).
- Termos consistentes: o mesmo conceito não muda de nome sem aviso (ex.: “adolescente” vira “jovem” e depois “criança”).
- Generalizações controladas: palavras absolutas (“todo”, “nunca”, “sempre”) aparecem apenas quando são defensáveis.
- Cadeia de causa e efeito plausível: quando você diz que algo “leva a” outra coisa, há ponte explicativa (mecanismo) e não só afirmação.
- Comparações justas: comparar elementos do mesmo tipo (evitar “maçãs com laranjas”).
- Exemplos e dados não se chocam com a tese: o exemplo realmente prova o ponto ou abre exceção que enfraquece o argumento?
5) Gramática (concordância, regência, crase, pontuação)
Use esta etapa quando a estrutura já estiver estável. Aqui, o objetivo é eliminar erros que prejudicam credibilidade e clareza.
5.1 Concordância
- Sujeito distante do verbo: confira frases longas.
Exemplo: “A lista de medidas foram discutidas.” → “A lista de medidas foi discutida.” - Expressões partitivas: “A maioria de” pode concordar com “maioria” (singular) ou com o termo plural, mas mantenha padrão no texto.
Exemplo: “A maioria dos alunos chegou cedo.” (padrão formal comum)
5.2 Regência
- Verbos que pedem preposição: “assistir a” (ver), “preferir X a Y”, “implicar em” (quando = acarretar, uso comum), “visar a” (objetivar).
Exemplo: “Visamos melhorar o processo.” → “Visamos a melhorar o processo.” - Nominais: “necessário a”, “favorável a”, “contrário a”, “capaz de”.
5.3 Crase
- Antes de palavra feminina com artigo: “a + a = à”.
Exemplo: “Entregou a proposta a diretoria.” → “Entregou a proposta à diretoria.” - Sem crase: antes de palavra masculina, verbo, pronomes de tratamento sem artigo (em geral), e nomes de cidade sem artigo.
Exemplo: “Cheguei à São Paulo.” (em geral) → “Cheguei a São Paulo.” - Teste do masculino: troque por um termo masculino: se virar “ao”, então é “à”.
Exemplo: “Referi-me à situação” → “Referi-me ao caso” (logo, crase ok).
5.4 Pontuação
- Vírgula entre sujeito e verbo: evite.
Exemplo: “O aumento do custo, afeta todos.” → “O aumento do custo afeta todos.” - Períodos longos: quebre frases com muitas orações para reduzir ambiguidade.
- Adjuntos e explicações: isole com vírgulas quando forem explicativos; não isole quando forem restritivos (mudam o sentido).
Exemplo: “Os alunos, que estudaram, passaram.” (todos estudaram) vs. “Os alunos que estudaram passaram.” (só alguns) - Dois-pontos: use para anunciar explicação, lista ou consequência direta. Evite quando não houver anúncio real.
6) Estilo (repetição, precisão, formalidade)
- Repetição útil vs. repetição pobre: repita termos-chave para manter o tópico; evite repetir verbos e adjetivos genéricos (“fazer”, “coisa”, “muito importante”).
Troca prática: “fazer uma análise” → “analisar”; “dar uma explicação” → “explicar”. - Precisão lexical: prefira palavras que dizem exatamente o que acontece.
Exemplo: “O projeto ajuda” → “O projeto reduz custos / amplia acesso / acelera atendimento”. - Evite vagueza: “de certa forma”, “em alguns casos”, “muito”, “vários” sem quantificação ou critério.
Correção: substitua por condição (“quando…”) ou por recorte (“em contextos de…”). - Formalidade consistente: evite contrações informais (“pra”, “tá”), marcas de oralidade (“tipo”, “daí”) e exageros (“absurdamente”).
- Voz ativa quando clareia: “Foi realizado um estudo” → “Pesquisadores realizaram um estudo” (quando o agente importa).
- Evite pleonasmos e redundâncias: “subir para cima”, “planejar antecipadamente”, “consenso geral”.
7) Finalização (ortografia e consistência)
- Ortografia e acentuação: passe corretor, mas confirme manualmente palavras que o corretor não pega (homônimos).
Exemplo: “mas” vs. “mais”; “há” vs. “a”. - Consistência de termos: escolha uma forma e mantenha: “internet/Internet”, “e-mail/email”, “WhatsApp/Whatsapp”, siglas com ou sem pontos.
- Consistência de números: defina padrão: números por extenso até nove? datas no formato “31 de janeiro de 2026”? mantenha igual.
- Maiúsculas: nomes próprios e instituições; evite maiúsculas por ênfase (“Importante”).
- Referências internas: se houver “como dito acima/abaixo”, verifique se realmente existe e se está no lugar certo.
- Formatação: títulos, subtítulos, recuos, listas e espaçamento seguem o mesmo padrão.
Checklist de 10 erros comuns (com exemplo e correção)
| Erro comum | Exemplo (problema) | Correção (melhor) |
|---|---|---|
| 1) Fuga do foco no meio do parágrafo | “A medida reduz custos. Além disso, a história do setor mostra…” | “A medida reduz custos ao cortar etapas do processo. (Se a história não sustenta a ideia, corte; se sustenta, conecte: ‘Esse ganho é relevante porque…’)” |
| 2) Conectivo sem relação lógica | “O serviço é caro. Portanto, precisa de mais divulgação.” | “O serviço é caro. Mesmo assim, precisa de mais divulgação para ampliar a base de usuários.” |
| 3) Pronome com referente ambíguo | “O governo discutiu com as empresas e elas criticaram isso.” | “O governo discutiu com as empresas, e as empresas criticaram a proposta.” |
| 4) Generalização absoluta | “Todo jovem é dependente de tecnologia.” | “Muitos jovens usam tecnologia diariamente, especialmente para estudo e comunicação.” |
| 5) Contradição interna | “A prática é rara. Ela ocorre em quase todas as escolas.” | “A prática ainda é pouco difundida, mas já aparece em muitas escolas de grandes centros.” |
| 6) Vírgula entre sujeito e verbo | “A falta de planejamento, gera retrabalho.” | “A falta de planejamento gera retrabalho.” |
| 7) Concordância inadequada | “Os dados da pesquisa mostra…” | “Os dados da pesquisa mostram…” |
| 8) Regência inadequada | “O texto visa melhorar o entendimento.” | “O texto visa a melhorar o entendimento.” |
| 9) Crase indevida ou ausente | “Entregou o relatório a equipe.” | “Entregou o relatório à equipe.” |
| 10) Palavra vaga/“enchimento” | “Isso é muito importante e de certa forma melhora tudo.” | “Isso é importante porque reduz o tempo de espera e aumenta a previsibilidade do atendimento.” |
Procedimento final: duas leituras para caçar falhas (voz baixa e leitura reversa)
Leitura em voz baixa (para fluidez, pontuação e clareza)
Objetivo: detectar frases longas demais, pontuação mal colocada, repetições sonoras e trechos confusos que “engasgam”.
- Prepare o texto: aumente o espaçamento (ou use modo de leitura) para enxergar melhor as pausas.
- Leia devagar, articulando: se você precisar “consertar” mentalmente a frase para conseguir ler, marque o trecho.
- Marque três tipos de problema:
- Fôlego: frase longa sem pausa → quebre em duas ou reorganize.
- Pausa errada: vírgula onde não deveria ou falta de vírgula em explicação → ajuste pontuação.
- Ambiguidade: você não sabe “quem fez o quê” na primeira leitura → explicite sujeito/objeto.
- Reescreva o trecho marcado: priorize ordem direta e verbos específicos.
- Leia novamente só os trechos alterados: confirme que a mudança resolveu sem criar novo problema.
Leitura reversa (para ortografia, concordância e detalhes)
Objetivo: reduzir o “piloto automático” e enxergar palavra por palavra. Aqui você não avalia ideias; você caça erros locais.
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- Comece do último período: leia a última frase, depois a penúltima, e assim por diante.
- Foque em microerros: acentos, letras trocadas, “mas/mais”, “há/a”, concordância e regência.
- Cheque nomes e números: datas, siglas, grafia de termos técnicos e consistência de maiúsculas.
- Faça uma varredura de pronomes e conectivos: confirme se “isso/esse/portanto/porém” ainda fazem sentido após as edições.
Mini-rotina de 7 minutos (quando o prazo estiver curto)
- 2 min: releia introdução e conclusão do texto (ou início e fechamento) para ver se prometem e entregam a mesma coisa.
- 2 min: leia só as primeiras frases de cada parágrafo (teste de esqueleto).
- 2 min: leitura em voz baixa de um parágrafo crítico (o mais importante).
- 1 min: leitura reversa dos últimos 10 períodos (onde erros escapam mais).