Objetivo do texto: o que você quer que o leitor faça, pense ou saiba
Antes de escrever, defina com precisão o objetivo: qual efeito o texto deve produzir no leitor ao final. O objetivo orienta linguagem (mais neutra ou persuasiva), estrutura (ordem das ideias) e conteúdo (o que entra e o que fica de fora). Um bom objetivo é específico e verificável: em vez de “falar sobre alimentação”, prefira “explicar 3 hábitos para reduzir consumo de ultraprocessados e como aplicá-los no dia a dia”.
Principais objetivos e como eles mudam suas escolhas
- Informar: prioriza clareza e neutralidade. Linguagem objetiva, dados e definições. Estrutura comum: contexto > explicação > detalhes > implicações.
- Argumentar: busca adesão a uma tese. Linguagem mais persuasiva, conectivos de causa e consequência, antecipação de objeções. Estrutura comum: tese > argumentos > evidências > contra-argumentos > reforço.
- Relatar: descreve fatos/acontecimentos. Linguagem precisa, marcadores temporais, foco em “o que aconteceu”. Estrutura comum: situação inicial > sequência de eventos > desfecho/estado final (sem necessariamente opinar).
- Instruir: orienta ação. Verbos no imperativo ou infinitivo (“faça”, “evite”, “misturar”), passos numerados, critérios de sucesso e alertas. Estrutura comum: objetivo da tarefa > materiais/requisitos > passo a passo > checagem.
- Analisar: interpreta e explica relações. Linguagem técnica moderada, categorias, comparação, critérios. Estrutura comum: objeto de análise > critérios > evidências > interpretação > implicações.
Como o objetivo altera linguagem, estrutura e conteúdo (exemplos rápidos)
Tema: “uso de celular antes de dormir”.
- Informar: define “luz azul”, cita efeitos no sono, recomendações gerais. Evita mandar; explica.
- Argumentar: defende “reduzir o uso é necessário”, usa evidências e refuta “mas eu relaxo com o celular”.
- Relatar: descreve um experimento/rotina observada, horários, resultados, sem prescrever.
- Instruir: ensina um protocolo: “ative modo noturno”, “defina horário de desligar”, “substitua por leitura leve”.
- Analisar: compara perfis (adolescentes vs adultos), variáveis (tempo de tela, conteúdo), e interpreta por que afeta o sono.
Público-alvo e situação comunicativa: para quem, onde e com que expectativa
Público-alvo é o grupo de leitores que você quer atingir; situação comunicativa é o contexto em que o texto circula (canal, finalidade, relação entre autor e leitor, tempo disponível, grau de formalidade). Definir isso evita dois erros comuns: explicar de menos (o leitor se perde) ou explicar demais (o leitor se irrita e abandona).
Elementos práticos para definir o público
- Conhecimento prévio: iniciante, intermediário, especialista? Quais termos o leitor já domina?
- Necessidade do leitor: quer decidir algo, aprender a fazer, entender um debate, cumprir uma tarefa?
- Restrições: tempo para ler, acesso a recursos, idade, contexto profissional, sensibilidade a jargões.
- Relação com o autor: você fala como colega, como especialista, como instituição? Isso muda o tratamento e o tom.
Elementos da situação comunicativa que mudam o texto
- Nível de formalidade: e-mail profissional, comunicado, artigo, manual, postagem informativa. Formalidade afeta pronomes, contrações, gírias e ritmo.
- Vocabulário: termos técnicos podem ser necessários, mas devem ser definidos quando o público não os domina.
- Exemplos apropriados: exemplos do cotidiano para leigos; casos e métricas para profissionais; analogias com a área do leitor.
- Extensão: leitores com pouco tempo precisam de parágrafos curtos, subtítulos e sínteses; leitores técnicos aceitam mais densidade.
- Tom: neutro, orientativo, persuasivo, cauteloso. Tom deve combinar com objetivo e contexto (ex.: instruções pedem objetividade).
Passo a passo: definir objetivo e público antes de escrever
1) Escreva o objetivo em uma frase testável
Use o modelo: Ao final do texto, o leitor deve (saber/entender/aceitar/fazer) X.
- Exemplo (informar):
Ao final do texto, o leitor deve entender o que é inflação e por que ela afeta o preço dos alimentos. - Exemplo (instruir):
Ao final do texto, o leitor deve conseguir montar um orçamento mensal simples em 15 minutos.
2) Escolha o objetivo principal (e limite objetivos secundários)
Um texto pode ter objetivos secundários, mas precisa de um principal. Se você tenta informar, argumentar e instruir com o mesmo peso, a estrutura fica confusa. Defina: objetivo principal + no máximo 1 objetivo secundário.
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- Exemplo: principal = argumentar; secundário = informar conceitos mínimos.
3) Desenhe um “leitor padrão” em 5 linhas
Responda rapidamente:
- Quem é? (perfil)
- O que já sabe?
- O que precisa agora?
- Que objeção/dúvida pode ter?
- Que linguagem ele espera?
Exemplo: “Adulto que trabalha, pouco tempo, sabe o básico de finanças, quer reduzir gastos, tem dúvida sobre por onde começar, prefere linguagem direta e exemplos do cotidiano.”
4) Defina parâmetros de escrita (um mini-briefing)
- Formalidade: informal moderado / neutro / formal.
- Vocabulário: sem jargão / jargão com definição / jargão livre.
- Extensão: curta (até X palavras) / média / longa.
- Tom: acolhedor / técnico / persuasivo / institucional.
- Exemplos: cotidiano / profissionais / acadêmicos.
Esse mini-briefing funciona como “trava” para manter consistência: se um parágrafo fugir do tom e do nível de explicação, você detecta rápido.
5) Transforme objetivo + público em um esqueleto de tópicos
Monte 4 a 7 tópicos que conduzam o leitor ao objetivo. A ordem muda conforme o objetivo:
- Informar: definição > como funciona > por que importa > exemplos > dúvidas comuns.
- Argumentar: tese > 2–3 argumentos > evidências > resposta a objeções > implicação prática.
- Instruir: resultado esperado > requisitos > passos > erros comuns > checagem.
Quadro comparativo: mesmo tema para públicos distintos
Tema escolhido: “Como reduzir o consumo de açúcar no dia a dia”.
| Elemento | Público A: adolescentes (12–16) e responsáveis | Público B: profissionais de saúde (atenção primária) |
|---|---|---|
| Objetivo | Instruir com motivação: reduzir açúcar em escolhas comuns da rotina escolar. | Analisar e orientar condutas: apoiar aconselhamento breve com critérios e exemplos. |
| Formalidade | Neutro-informal, frases curtas, tom próximo. | Neutro-formal, tom técnico e preciso. |
| Vocabulário | Termos simples: “açúcar escondido”, “rótulo”, “refrigerante”. Definições rápidas. | Termos técnicos moderados: “açúcares livres”, “densidade energética”, “triagem”. |
| Exemplos | Lanche, cantina, bebidas, sobremesa em casa, aplicativos de delivery. | Casos clínicos breves, padrões alimentares, metas SMART, leitura de rótulos por porção. |
| Pressupostos | Não sabe ler rótulo bem; pode achar “suco de caixinha é saudável”. | Já conhece recomendações gerais; precisa de ferramentas práticas e linguagem de aconselhamento. |
| Nível de explicação | Explica o básico: diferença entre “natural” e “sem açúcar adicionado”, como comparar produtos. | Explica critérios: como estimar consumo, como negociar metas, como lidar com barreiras. |
| Estrutura sugerida | 1) Onde o açúcar aparece 2) Trocas fáceis 3) Como ler rótulo 4) Plano de 7 dias. | 1) Definições operacionais 2) Avaliação rápida 3) Intervenções 4) Monitoramento e adesão. |
| Trecho-modelo | Troca rápida: se você toma refrigerante todo dia, comece trocando 3 dias da semana por água com gás + limão. No rótulo, procure “açúcares” e compare: escolha o que tiver menos por porção. | Aconselhamento breve: investigar fontes de açúcares livres (bebidas adoçadas, ultraprocessados). Pactuar meta SMART (ex.: reduzir bebidas adoçadas de 7 para 3/semana) e revisar em 2–4 semanas, explorando barreiras e reforçadores. |
Checklist de adequação ao público e à situação comunicativa
Use este checklist na revisão do rascunho. Se marcar “não” em itens críticos, ajuste antes de seguir.
- Vocabulário
- Evitei jargões desnecessários para este público?
- Quando usei termos técnicos, defini de forma simples (ou com nota curta)?
- As palavras escolhidas combinam com o nível de formalidade definido?
- Exemplos
- Os exemplos são reconhecíveis e relevantes para o cotidiano do leitor?
- Evitei exemplos que exigem experiências que o público provavelmente não tem?
- Os exemplos reforçam o objetivo (e não desviam para outro tema)?
- Pressupostos
- Estou assumindo conhecimento prévio que o leitor talvez não tenha?
- Deixei claro o que é “básico” e o que é “avançado” quando necessário?
- Evitei “pular etapas” lógicas (afirmações sem ponte explicativa)?
- Nível de explicação
- Expliquei o suficiente para o leitor agir/entender, sem excesso de detalhes irrelevantes?
- Incluí definições, critérios ou passos compatíveis com o objetivo (informar/argumentar/instruir/analisar/relatar)?
- O texto responde às dúvidas mais prováveis desse público?
- Tratamento do leitor (tom e relação)
- O pronome e o tratamento (você/senhor(a)/impessoal) estão consistentes?
- O tom é adequado (nem paternalista, nem agressivo, nem informal demais)?
- Se o texto orienta ações, usei verbos claros e instruções executáveis?
- Estrutura e extensão
- A ordem das seções conduz o leitor ao objetivo sem desvios?
- O tamanho dos parágrafos e a densidade de informação combinam com o tempo de leitura esperado?
- Usei subtítulos e listas quando o público precisa de leitura rápida?
Modelos rápidos para você preencher (copiar e usar)
Modelo 1: objetivo + público em 30 segundos
Objetivo principal: ________________________________ (informar/argumentar/relatar/instruir/analisar) Leitor: __________________________________________ (quem é) Conhecimento prévio: ______________________________ Situação comunicativa: _____________________________ (onde circula, relação, tempo) Formalidade e tom: _________________________________ O que NÃO vou fazer neste texto: ____________________Modelo 2: ajuste de frase conforme público
Ideia: “reduzir açúcar melhora saúde”.
- Para leigos: “Diminuir bebidas adoçadas e doces frequentes ajuda a controlar energia ao longo do dia e reduz o risco de problemas de saúde com o tempo.”
- Para público técnico: “A redução de açúcares livres está associada a melhor controle de peso e menor risco cardiometabólico, especialmente quando substitui bebidas adoçadas e ultraprocessados.”