Redação do Zero: gramática essencial aplicada à revisão (pontuação, concordância e regência)

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Revisão gramatical com foco em clareza

Na revisão, gramática não é “enfeite”: é ferramenta para reduzir ambiguidade, evitar ruído e deixar a leitura previsível. A ideia é localizar pontos de alto risco (concordância, regência/crase, pronomes, paralelismo e pontuação) e aplicar regras práticas que resolvem a maioria dos erros em redações.

Checklist rápido de revisão (ordem que funciona)

  • 1) Pontuação estrutural: vírgulas em enumerações, apostos, adjuntos deslocados e orações subordinadas.
  • 2) Concordância: encontre o núcleo do sujeito e do predicativo; ajuste verbos e adjetivos.
  • 3) Regência e crase: identifique o verbo/nome regente e a preposição exigida; depois verifique se há artigo.
  • 4) Pronomes: referência clara (a quem/ao quê?), colocação e concordância pronominal.
  • 5) Paralelismo: listas e estruturas coordenadas com o mesmo “formato” gramatical.

Concordância verbal: o que mais derruba a correção

Conceito

Concordância verbal é o ajuste do verbo ao núcleo do sujeito (não ao termo mais próximo). O erro típico surge quando o sujeito é longo, tem complemento ou vem depois do verbo.

Passo a passo prático

  • 1) Pergunte “quem/que + verbo?” para achar o sujeito.
  • 2) Ache o núcleo (a palavra principal do sujeito).
  • 3) Ignore “enfeites”: adjuntos, complementos, expressões entre vírgulas e orações intercaladas.
  • 4) Conjugue o verbo de acordo com o núcleo (singular/plural).

Casos frequentes com exemplos curtos

  • Sujeito com “de” (núcleo no singular)
    A maioria dos alunos chegou cedo. (núcleo: maioria)
    Um grupo de pesquisadores publicou o estudo.
  • Expressões partitivas (variação controlada)

    Com “a maioria de”, “grande parte de”, “parte de”: o verbo pode concordar com o núcleo (“maioria”) ou com o termo no plural (“alunos”), mas escolha um padrão e mantenha no texto.

    A maioria dos alunos chegou / chegaram cedo.

    Regra prática de clareza: em textos formais, prefira concordar com o núcleo (“a maioria… chegou”) para reduzir oscilação.

  • Sujeito posposto (depois do verbo)
    Chegaram cedo os alunos. (verbo no plural porque o sujeito é “os alunos”)
    Chegou cedo a turma.
  • “Haver” com sentido de existir (impessoal)
    muitos problemas no texto. (não: “Hão”)
    Havia duas soluções.
  • “Fazer” indicando tempo (impessoal)
    Faz dois anos que estudo. (não: “Fazem”)
  • “Ser” em horas, datas e distâncias
    São duas horas.
    É 10 de janeiro.
    São 20 quilômetros.
  • “Um dos que”
    Ele é um dos que mais estudam. (tende ao plural: “os que estudam”)

    Regra prática: se “que” retoma um plural (“os que”), use plural.

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  • Sujeito composto
    Clareza e objetividade melhoram a redação.

    Se os núcleos formam uma ideia única (caso raro em redação), pode ocorrer singular: Arroz com feijão é comum.

Concordância nominal: adjetivos e predicativos

Conceito

Concordância nominal é o ajuste de adjetivos, artigos, pronomes e numerais ao substantivo a que se referem. O erro comum é concordar com o termo “mais perto” e não com o núcleo.

Passo a passo prático

  • 1) Localize o substantivo núcleo (a palavra principal do grupo nominal).
  • 2) Veja o que o modifica (artigo, adjetivo, pronome).
  • 3) Ajuste gênero e número de todos os modificadores.

Casos frequentes

  • Adjetivo com dois substantivos

    Se o adjetivo vem depois de dois substantivos, pode ir para o plural (mais comum) ou concordar com o mais próximo (menos recomendado em textos formais).

    Argumentos e exemplos claros.
    Clareza e precisão necessárias.
  • Predicativo do sujeito
    As ideias estão organizadas.
    O texto e a estrutura estão coerentes.
  • “É proibido / é necessário / é bom”

    Sem artigo, tende a ficar invariável; com artigo, concorda.

    É proibido entrada. (uso comum, mas em redação prefira: É proibida a entrada.)
    É necessário estudo. / É necessário o estudo.

Regência e crase: acertar a preposição certa

Conceito

Regência é a relação de dependência entre um termo regente (verbo ou nome) e seu complemento, muitas vezes exigindo preposição. A crase é a fusão de preposição “a” + artigo “a/as” (ou “a” + demonstrativo iniciado por “a”).

Passo a passo prático (método que evita 80% dos erros)

  • 1) Identifique o verbo/nome que “puxa” a relação: quem assiste, quem obedece, quem visa etc.
  • 2) Descubra a preposição exigida (a, de, em, com, para…).
  • 3) Verifique se o termo seguinte aceita artigo (“a/as”, “o/os”).
  • 4) Se for “a” + “a/as”, use crase: à / às.

Regências muito cobradas em redação (com exemplos)

  • Assistir (ver) = assistir a
    Assisti ao debate. (a + o = ao)

    Evite: Assisti o debate.

  • Obedecer / Desobedecer = a
    O texto obedece às normas.
  • Preferir = preferir X a Y (sem “do que”)
  • Visar

    Com sentido de “ter como objetivo”: visar a.

    O projeto visa a reduzir erros.

    Regra prática: em redação, use “visa a” para “objetivar”.

  • Implicar

    Com sentido de “acarretar”: sem preposição.

    A mudança implica custos.

    Evite: implica em (muito comum, mas menos recomendado em norma-padrão).

  • Chegar = a (lugar) / em (uso coloquial)

    Em redação formal, prefira:

    Chegar à escola. / Chegar ao local.

Crase em casos frequentes (com regra prática)

  • Antes de palavra feminina com artigo
    Refiro-me à proposta.

    Teste rápido: troque por masculino. Se virar “ao”, há crase.

    Refiro-me ao plano. → então: à proposta
  • Locuções femininas
    À medida que, À tarde, À vista de, À exceção de
  • Antes de “a qual / as quais”
    A norma à qual me refiro…
  • Não ocorre crase
    • Antes de palavra masculina: a prazo, a respeito
    • Antes de verbo: começou a estudar
    • Antes de pronomes pessoais/indefinidos (em geral): a ela, a alguém
    • Antes de nomes de cidade sem artigo: a Brasília (mas: ao Rio de Janeiro)

Uso de pronomes: referência, clareza e colocação

Conceito

Pronome é um atalho: substitui termos para evitar repetição. O risco é criar referência ambígua (“isso”, “ele”, “ela”, “o qual” sem antecedente claro) ou quebrar a formalidade com colocação inadequada.

Regra prática de clareza (a mais importante)

Todo pronome deve ter um antecedente inequívoco e próximo. Se houver dois possíveis referentes, reescreva.

Exemplos de ambiguidade e correção

  • Ambíguo: João contou a Pedro que ele errou.
    Mais claro: João contou a Pedro: “Você errou”. ou João disse que Pedro errou.
  • Vago: Isso mostra que o tema é importante.
    Mais claro: Esse dado mostra que o tema é importante.

Colocação pronominal (o essencial para revisão)

  • Evite iniciar frase com pronome oblíquo átono em registro formal.
    Me disseram que… → prefira: Disseram-me que… ou Foi dito que…
  • Palavras que atraem próclise (pronome antes do verbo): não, nunca, já, ainda, que, quem, se, quando, como, porque.
    Não me parece adequado.
    Quando se revisa, encontra-se erro.

Paralelismo: listas e comparações no mesmo “formato”

Conceito

Paralelismo é manter estruturas coordenadas com a mesma construção gramatical. Quando você mistura formatos, o leitor tropeça e a frase parece “torta”.

Regra prática

Se você começou uma lista com verbos no infinitivo, continue no infinitivo. Se começou com substantivos, continue com substantivos.

Exemplos

  • Quebra de paralelismo: O objetivo é explicar o tema, apresentação de exemplos e revisar o texto.
    Paralelo: O objetivo é explicar o tema, apresentar exemplos e revisar o texto.
  • Comparação desalinhada: Mais importante do que escrever bem é a revisão.
    Paralelo: Mais importante do que escrever bem é revisar bem.

Pontuação: vírgula com função (não por “respiração”)

Conceito

Vírgula marca estrutura: separa elementos coordenados, isola explicações (aposto), destaca termos deslocados e delimita orações. O erro clássico é separar sujeito e verbo ou inserir vírgula onde não há fronteira sintática.

Erros que mais aparecem (e como corrigir)

  • Não se separa sujeito do verbo
    O uso de conectivos, melhora a coesão.O uso de conectivos melhora a coesão.
  • Não se separa verbo do complemento
    O autor defende, a tese central.O autor defende a tese central.

Vírgula em adjuntos deslocados (tempo, modo, condição)

Adjunto adverbial curto no início pode vir sem vírgula; adjunto longo ou que possa gerar ambiguidade costuma pedir vírgula para orientar leitura.

  • Curto (opcional): Hoje (,) reviso o texto.
  • Longo (recomendável): Ao revisar parágrafo por parágrafo, reduzimos erros de concordância.

Orações subordinadas adverbiais

  • Quando vêm antes da principal, geralmente usam vírgula.
    Quando o período é longo, o leitor se perde.
  • Quando vêm depois, a vírgula depende de ênfase/clareza (muitas vezes dispensável).
    O leitor se perde quando o período é longo.

Aposto e explicações no meio da frase

Aposto explicativo e informações acessórias devem ser isolados por vírgulas (ou travessões/parênteses), porque são “encaixes” que não podem grudar no núcleo.

A revisão, etapa decisiva, melhora a clareza.

Enumerações

  • Itens simples: Revise concordância, regência e pontuação.
  • Itens com vírgulas internas: use ponto e vírgula para organizar.
    Revise a concordância, sobretudo em sujeitos longos; a regência, em verbos frequentes; e a pontuação, em orações subordinadas.

Vírgula antes de “e”

Em geral, não se usa. Use quando:

  • há sujeitos diferentes: O autor apresentou dados, e os leitores questionaram a fonte.
  • há efeito de contraste/ênfase: Revisou o texto, e ainda assim manteve erros.

Lista de erros recorrentes (para caçar no rascunho)

  • Concordância: verbo concordando com termo próximo (“a maioria dos alunos chegaram”).
  • Impersonalidade: “houveram”, “fazem dois anos”.
  • Regência: “assistir o”, “implica em”, “visar reduzir” sem “a”.
  • Crase: usar antes de masculino/verbo (“à prazo”, “à fazer”) ou omitir em locuções (“a medida que”).
  • Pronomes: “isso” sem referente; “ele/ela” ambíguo; iniciar frase com “me/te/se” em registro formal.
  • Paralelismo: lista misturando infinitivo com substantivo (“analisar, revisão e corrigir”).
  • Vírgula: separar sujeito e verbo; vírgula “por pausa”; falta de vírgulas em apostos e orações deslocadas.

Exercícios de correção comentada

Como fazer

  • 1) Reescreva a frase corrigindo apenas o necessário.
  • 2) Identifique qual regra foi aplicada (concordância, regência, crase, pronome, paralelismo, pontuação).
  • 3) Explique em uma linha como a correção melhora a clareza.

Exercício 1 (concordância + vírgula)

Frase: A análise dos argumentos apresentados no texto, mostram falhas.

Correção: A análise dos argumentos apresentados no texto mostra falhas.

Comentário: não se separa sujeito e verbo por vírgula; o núcleo do sujeito é “análise” (singular), então o verbo fica no singular.

Exercício 2 (haver impessoal)

Frase: Houveram muitos problemas na introdução.

Correção: Houve muitos problemas na introdução.

Comentário: “haver” com sentido de existir é impessoal e fica no singular, aumentando a correção sem mudar o sentido.

Exercício 3 (regência: assistir)

Frase: O leitor assistiu o vídeo e entendeu o ponto.

Correção: O leitor assistiu ao vídeo e entendeu o ponto.

Comentário: “assistir” (ver) exige preposição “a”; a contração com “o” forma “ao”, evitando erro de regência.

Exercício 4 (crase: teste do masculino)

Frase: O texto se refere a norma apresentada.

Correção: O texto se refere à norma apresentada.

Comentário: “referir-se a” pede preposição “a” e “norma” admite artigo “a”; pelo teste: “ao regulamento” → portanto “à norma”.

Exercício 5 (paralelismo)

Frase: Para melhorar, é preciso planejar, a escrita clara e revisar.

Correção: Para melhorar, é preciso planejar, escrever com clareza e revisar.

Comentário: a lista deve manter o mesmo formato (infinitivos). A correção deixa a sequência lógica e fácil de acompanhar.

Exercício 6 (pronome com referente claro)

Frase: O autor citou dados e opiniões. Isso mostra falta de rigor.

Correção: O autor citou opiniões sem fonte. Esse procedimento mostra falta de rigor.

Comentário: “isso” era vago (podia retomar “dados” ou “opiniões”); ao nomear o referente, a crítica fica precisa.

Exercício 7 (oração subordinada deslocada)

Frase: Se o parágrafo é longo o leitor perde o foco.

Correção: Se o parágrafo é longo, o leitor perde o foco.

Comentário: a oração subordinada adverbial anteposta (“Se…”) pede vírgula para delimitar a estrutura e guiar a leitura.

Exercício 8 (enumeração com itens complexos)

Frase: Revise a tese, os exemplos que sustentam o argumento, a pontuação em períodos longos e a concordância.

Correção: Revise a tese; os exemplos que sustentam o argumento; a pontuação em períodos longos; e a concordância.

Comentário: como há itens extensos, o ponto e vírgula organiza a enumeração e evita leitura “embolada”.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao revisar a frase "A análise dos argumentos apresentados no texto, mostram falhas.", qual correção aplica simultaneamente as regras de não separar sujeito e verbo por vírgula e de concordar o verbo com o núcleo do sujeito?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Remove-se a vírgula entre sujeito e verbo e faz-se a concordância com o núcleo do sujeito. Como o núcleo é "análise" (singular), o verbo deve ficar no singular: "mostra".

Próximo capitúlo

Redação do Zero: estilo e escolha vocabular (precisão, formalidade e repetição)

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