Revisão gramatical com foco em clareza
Na revisão, gramática não é “enfeite”: é ferramenta para reduzir ambiguidade, evitar ruído e deixar a leitura previsível. A ideia é localizar pontos de alto risco (concordância, regência/crase, pronomes, paralelismo e pontuação) e aplicar regras práticas que resolvem a maioria dos erros em redações.
Checklist rápido de revisão (ordem que funciona)
- 1) Pontuação estrutural: vírgulas em enumerações, apostos, adjuntos deslocados e orações subordinadas.
- 2) Concordância: encontre o núcleo do sujeito e do predicativo; ajuste verbos e adjetivos.
- 3) Regência e crase: identifique o verbo/nome regente e a preposição exigida; depois verifique se há artigo.
- 4) Pronomes: referência clara (a quem/ao quê?), colocação e concordância pronominal.
- 5) Paralelismo: listas e estruturas coordenadas com o mesmo “formato” gramatical.
Concordância verbal: o que mais derruba a correção
Conceito
Concordância verbal é o ajuste do verbo ao núcleo do sujeito (não ao termo mais próximo). O erro típico surge quando o sujeito é longo, tem complemento ou vem depois do verbo.
Passo a passo prático
- 1) Pergunte “quem/que + verbo?” para achar o sujeito.
- 2) Ache o núcleo (a palavra principal do sujeito).
- 3) Ignore “enfeites”: adjuntos, complementos, expressões entre vírgulas e orações intercaladas.
- 4) Conjugue o verbo de acordo com o núcleo (singular/plural).
Casos frequentes com exemplos curtos
- Sujeito com “de” (núcleo no singular)
A maioria dos alunos chegou cedo.(núcleo: maioria)Um grupo de pesquisadores publicou o estudo. - Expressões partitivas (variação controlada)
Com “a maioria de”, “grande parte de”, “parte de”: o verbo pode concordar com o núcleo (“maioria”) ou com o termo no plural (“alunos”), mas escolha um padrão e mantenha no texto.
A maioria dos alunos chegou / chegaram cedo.Regra prática de clareza: em textos formais, prefira concordar com o núcleo (“a maioria… chegou”) para reduzir oscilação.
- Sujeito posposto (depois do verbo)
Chegaram cedo os alunos.(verbo no plural porque o sujeito é “os alunos”)Chegou cedo a turma. - “Haver” com sentido de existir (impessoal)
Há muitos problemas no texto.(não: “Hão”)Havia duas soluções. - “Fazer” indicando tempo (impessoal)
Faz dois anos que estudo.(não: “Fazem”) - “Ser” em horas, datas e distâncias
São duas horas.É 10 de janeiro.São 20 quilômetros. - “Um dos que”
Ele é um dos que mais estudam.(tende ao plural: “os que estudam”)Regra prática: se “que” retoma um plural (“os que”), use plural.
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- Sujeito composto
Clareza e objetividade melhoram a redação.Se os núcleos formam uma ideia única (caso raro em redação), pode ocorrer singular:
Arroz com feijão é comum.
Concordância nominal: adjetivos e predicativos
Conceito
Concordância nominal é o ajuste de adjetivos, artigos, pronomes e numerais ao substantivo a que se referem. O erro comum é concordar com o termo “mais perto” e não com o núcleo.
Passo a passo prático
- 1) Localize o substantivo núcleo (a palavra principal do grupo nominal).
- 2) Veja o que o modifica (artigo, adjetivo, pronome).
- 3) Ajuste gênero e número de todos os modificadores.
Casos frequentes
- Adjetivo com dois substantivos
Se o adjetivo vem depois de dois substantivos, pode ir para o plural (mais comum) ou concordar com o mais próximo (menos recomendado em textos formais).
Argumentos e exemplos claros.Clareza e precisão necessárias. - Predicativo do sujeito
As ideias estão organizadas.O texto e a estrutura estão coerentes. - “É proibido / é necessário / é bom”
Sem artigo, tende a ficar invariável; com artigo, concorda.
É proibido entrada.(uso comum, mas em redação prefira:É proibida a entrada.)É necessário estudo./É necessário o estudo.
Regência e crase: acertar a preposição certa
Conceito
Regência é a relação de dependência entre um termo regente (verbo ou nome) e seu complemento, muitas vezes exigindo preposição. A crase é a fusão de preposição “a” + artigo “a/as” (ou “a” + demonstrativo iniciado por “a”).
Passo a passo prático (método que evita 80% dos erros)
- 1) Identifique o verbo/nome que “puxa” a relação: quem assiste, quem obedece, quem visa etc.
- 2) Descubra a preposição exigida (a, de, em, com, para…).
- 3) Verifique se o termo seguinte aceita artigo (“a/as”, “o/os”).
- 4) Se for “a” + “a/as”, use crase:
à/às.
Regências muito cobradas em redação (com exemplos)
- Assistir (ver) = assistir a
Assisti ao debate.(a + o = ao)Evite:
Assisti o debate. - Obedecer / Desobedecer = a
O texto obedece às normas. - Preferir = preferir X a Y (sem “do que”)
- Visar
Com sentido de “ter como objetivo”: visar a.
O projeto visa a reduzir erros.Regra prática: em redação, use “visa a” para “objetivar”.
- Implicar
Com sentido de “acarretar”: sem preposição.
A mudança implica custos.Evite:
implica em(muito comum, mas menos recomendado em norma-padrão). - Chegar = a (lugar) / em (uso coloquial)
Em redação formal, prefira:
Chegar à escola./Chegar ao local.
Crase em casos frequentes (com regra prática)
- Antes de palavra feminina com artigo
Refiro-me à proposta.Teste rápido: troque por masculino. Se virar “ao”, há crase.
Refiro-me ao plano.→ então:à proposta - Locuções femininas
À medida que,À tarde,À vista de,À exceção de - Antes de “a qual / as quais”
A norma à qual me refiro… - Não ocorre crase
- Antes de palavra masculina:
a prazo,a respeito - Antes de verbo:
começou a estudar - Antes de pronomes pessoais/indefinidos (em geral):
a ela,a alguém - Antes de nomes de cidade sem artigo:
a Brasília(mas:ao Rio de Janeiro)
- Antes de palavra masculina:
Uso de pronomes: referência, clareza e colocação
Conceito
Pronome é um atalho: substitui termos para evitar repetição. O risco é criar referência ambígua (“isso”, “ele”, “ela”, “o qual” sem antecedente claro) ou quebrar a formalidade com colocação inadequada.
Regra prática de clareza (a mais importante)
Todo pronome deve ter um antecedente inequívoco e próximo. Se houver dois possíveis referentes, reescreva.
Exemplos de ambiguidade e correção
- Ambíguo:
João contou a Pedro que ele errou.
Mais claro:João contou a Pedro: “Você errou”.ouJoão disse que Pedro errou. - Vago:
Isso mostra que o tema é importante.
Mais claro:Esse dado mostra que o tema é importante.
Colocação pronominal (o essencial para revisão)
- Evite iniciar frase com pronome oblíquo átono em registro formal.
Me disseram que…→ prefira:Disseram-me que…ouFoi dito que… - Palavras que atraem próclise (pronome antes do verbo): não, nunca, já, ainda, que, quem, se, quando, como, porque.
Não me parece adequado.Quando se revisa, encontra-se erro.
Paralelismo: listas e comparações no mesmo “formato”
Conceito
Paralelismo é manter estruturas coordenadas com a mesma construção gramatical. Quando você mistura formatos, o leitor tropeça e a frase parece “torta”.
Regra prática
Se você começou uma lista com verbos no infinitivo, continue no infinitivo. Se começou com substantivos, continue com substantivos.
Exemplos
- Quebra de paralelismo:
O objetivo é explicar o tema, apresentação de exemplos e revisar o texto.
Paralelo:O objetivo é explicar o tema, apresentar exemplos e revisar o texto. - Comparação desalinhada:
Mais importante do que escrever bem é a revisão.
Paralelo:Mais importante do que escrever bem é revisar bem.
Pontuação: vírgula com função (não por “respiração”)
Conceito
Vírgula marca estrutura: separa elementos coordenados, isola explicações (aposto), destaca termos deslocados e delimita orações. O erro clássico é separar sujeito e verbo ou inserir vírgula onde não há fronteira sintática.
Erros que mais aparecem (e como corrigir)
- Não se separa sujeito do verbo
O uso de conectivos, melhora a coesão.→O uso de conectivos melhora a coesão. - Não se separa verbo do complemento
O autor defende, a tese central.→O autor defende a tese central.
Vírgula em adjuntos deslocados (tempo, modo, condição)
Adjunto adverbial curto no início pode vir sem vírgula; adjunto longo ou que possa gerar ambiguidade costuma pedir vírgula para orientar leitura.
- Curto (opcional):
Hoje (,) reviso o texto. - Longo (recomendável):
Ao revisar parágrafo por parágrafo, reduzimos erros de concordância.
Orações subordinadas adverbiais
- Quando vêm antes da principal, geralmente usam vírgula.
Quando o período é longo, o leitor se perde. - Quando vêm depois, a vírgula depende de ênfase/clareza (muitas vezes dispensável).
O leitor se perde quando o período é longo.
Aposto e explicações no meio da frase
Aposto explicativo e informações acessórias devem ser isolados por vírgulas (ou travessões/parênteses), porque são “encaixes” que não podem grudar no núcleo.
A revisão, etapa decisiva, melhora a clareza.Enumerações
- Itens simples:
Revise concordância, regência e pontuação. - Itens com vírgulas internas: use ponto e vírgula para organizar.
Revise a concordância, sobretudo em sujeitos longos; a regência, em verbos frequentes; e a pontuação, em orações subordinadas.
Vírgula antes de “e”
Em geral, não se usa. Use quando:
- há sujeitos diferentes:
O autor apresentou dados, e os leitores questionaram a fonte. - há efeito de contraste/ênfase:
Revisou o texto, e ainda assim manteve erros.
Lista de erros recorrentes (para caçar no rascunho)
- Concordância: verbo concordando com termo próximo (“a maioria dos alunos chegaram”).
- Impersonalidade: “houveram”, “fazem dois anos”.
- Regência: “assistir o”, “implica em”, “visar reduzir” sem “a”.
- Crase: usar antes de masculino/verbo (“à prazo”, “à fazer”) ou omitir em locuções (“a medida que”).
- Pronomes: “isso” sem referente; “ele/ela” ambíguo; iniciar frase com “me/te/se” em registro formal.
- Paralelismo: lista misturando infinitivo com substantivo (“analisar, revisão e corrigir”).
- Vírgula: separar sujeito e verbo; vírgula “por pausa”; falta de vírgulas em apostos e orações deslocadas.
Exercícios de correção comentada
Como fazer
- 1) Reescreva a frase corrigindo apenas o necessário.
- 2) Identifique qual regra foi aplicada (concordância, regência, crase, pronome, paralelismo, pontuação).
- 3) Explique em uma linha como a correção melhora a clareza.
Exercício 1 (concordância + vírgula)
Frase: A análise dos argumentos apresentados no texto, mostram falhas.
Correção: A análise dos argumentos apresentados no texto mostra falhas.
Comentário: não se separa sujeito e verbo por vírgula; o núcleo do sujeito é “análise” (singular), então o verbo fica no singular.
Exercício 2 (haver impessoal)
Frase: Houveram muitos problemas na introdução.
Correção: Houve muitos problemas na introdução.
Comentário: “haver” com sentido de existir é impessoal e fica no singular, aumentando a correção sem mudar o sentido.
Exercício 3 (regência: assistir)
Frase: O leitor assistiu o vídeo e entendeu o ponto.
Correção: O leitor assistiu ao vídeo e entendeu o ponto.
Comentário: “assistir” (ver) exige preposição “a”; a contração com “o” forma “ao”, evitando erro de regência.
Exercício 4 (crase: teste do masculino)
Frase: O texto se refere a norma apresentada.
Correção: O texto se refere à norma apresentada.
Comentário: “referir-se a” pede preposição “a” e “norma” admite artigo “a”; pelo teste: “ao regulamento” → portanto “à norma”.
Exercício 5 (paralelismo)
Frase: Para melhorar, é preciso planejar, a escrita clara e revisar.
Correção: Para melhorar, é preciso planejar, escrever com clareza e revisar.
Comentário: a lista deve manter o mesmo formato (infinitivos). A correção deixa a sequência lógica e fácil de acompanhar.
Exercício 6 (pronome com referente claro)
Frase: O autor citou dados e opiniões. Isso mostra falta de rigor.
Correção: O autor citou opiniões sem fonte. Esse procedimento mostra falta de rigor.
Comentário: “isso” era vago (podia retomar “dados” ou “opiniões”); ao nomear o referente, a crítica fica precisa.
Exercício 7 (oração subordinada deslocada)
Frase: Se o parágrafo é longo o leitor perde o foco.
Correção: Se o parágrafo é longo, o leitor perde o foco.
Comentário: a oração subordinada adverbial anteposta (“Se…”) pede vírgula para delimitar a estrutura e guiar a leitura.
Exercício 8 (enumeração com itens complexos)
Frase: Revise a tese, os exemplos que sustentam o argumento, a pontuação em períodos longos e a concordância.
Correção: Revise a tese; os exemplos que sustentam o argumento; a pontuação em períodos longos; e a concordância.
Comentário: como há itens extensos, o ponto e vírgula organiza a enumeração e evita leitura “embolada”.