Redação do Zero: estilo e escolha vocabular (precisão, formalidade e repetição)

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Estilo e escolha vocabular: o que muda (e o que não muda) quando você troca palavras

Estilo, em redação, é o conjunto de escolhas linguísticas que dá ao texto um “tom”: mais formal ou mais coloquial, mais direto ou mais descritivo, mais técnico ou mais acessível. A escolha vocabular é a parte do estilo que decide quais palavras entram no texto e como elas aparecem (precisão, nível de formalidade, repetição, vícios de linguagem).

Um bom estilo não é “enfeitar”: é reduzir ruído. Quanto mais precisa e adequada for a palavra, menos o leitor precisa adivinhar o que você quis dizer.

1) Precisão: dizer exatamente o que você quer dizer

1.1 O que é precisão vocabular

Precisão é escolher termos que recortam o sentido com nitidez. Em vez de palavras genéricas (coisa, negócio, questão, muito, legal, ruim), você usa palavras que apontam para um significado específico (medida, procedimento, evidência, elevado, adequado, insuficiente).

1.2 Trocas que aumentam a precisão (com exemplos)

GenéricoMais precisoQuando usar
“coisa”fator, elemento, aspecto, item, medidaQuando você precisa nomear o papel daquela “coisa” no argumento
“muito”elevado, significativo, expressivo, considerávelQuando a intensidade precisa parecer objetiva
“ruim”insuficiente, inadequado, ineficaz, problemáticoQuando você quer criticar com critério
“bom”adequado, eficaz, consistente, relevanteQuando você quer elogiar sem soar vago
“melhorar”otimizar, aprimorar, corrigir, fortalecer, ampliarQuando você quer indicar o tipo de melhoria

Exemplo prático:

  • Vago: “A situação é muito ruim e precisa melhorar.”
  • Mais preciso: “O atendimento é ineficaz em horários de pico e precisa ser reestruturado para reduzir o tempo de espera.”

1.3 Passo a passo para tornar uma frase mais precisa

  • Passo 1: sublinhe palavras genéricas (coisa, questão, muito, vários, legal, ruim, bom, fazer, ter).
  • Passo 2: pergunte “que tipo?” (que tipo de problema? que tipo de melhora? que tipo de impacto?).
  • Passo 3: substitua por um termo específico (ineficaz, insuficiente, relevante, custo, prazo, evidência, risco).
  • Passo 4: confira se a troca não mudou sua intenção. Precisão não é “palavra difícil”; é “palavra certa”.

2) Redundâncias e vícios de linguagem: cortar sem perder sentido

2.1 Redundância útil x redundância inútil

Às vezes repetimos uma ideia para ênfase ou clareza. Isso pode ser aceitável. O problema é a redundância que não acrescenta nada e só alonga o texto.

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2.2 Pleonasmos desnecessários (e como corrigir)

EvitePrefiraPor quê
“subir para cima”subirO verbo já contém a ideia
“descer para baixo”descerIdem
“entrar para dentro”entrarIdem
“sair para fora”sairIdem
“há anos atrás”há anos / anos atrás“há” já indica passado
“consenso geral”consensoConsenso já é coletivo
“planejar antecipadamente”planejarPlanejar é antes

2.3 Vícios de linguagem que enfraquecem o texto

Vícios de linguagem são muletas que entram por hábito e deixam o texto impreciso, repetitivo ou informal demais.

a) Muletas de fala no texto: “tipo”, “basicamente”, “no caso”, “assim”

Essas palavras podem ter função real (ex.: “no caso de” como condição), mas muitas vezes aparecem sem necessidade.

  • Com muleta: “Basicamente, o projeto tipo que não deu certo.”
  • Sem muleta: “O projeto não deu certo.”

Quando “no caso” é válido: “No caso de atraso, haverá multa.” (aqui significa “se ocorrer atraso”).
Quando vira muleta: “No caso, precisamos revisar o texto.” (não acrescenta condição nem recorte).

b) Gerundismo inadequado

Gerúndio não é errado. O problema é o uso burocrático e vago que cria frases longas e pouco objetivas.

  • Gerundismo: “Vamos estar encaminhando o documento.”
  • Objetivo: “Vamos encaminhar o documento.”
  • Gerundismo: “A equipe vai estar verificando o problema.”
  • Objetivo: “A equipe vai verificar o problema.”

Gerúndio bem usado descreve ação em andamento de forma necessária: “O sistema travou durante a atualização” ou “O sistema travou enquanto atualizava”.

2.4 Checklist rápido de “limpeza”

  • Há palavras que não mudam o sentido se forem removidas? Corte.
  • Há expressões que repetem o que o verbo já diz? Simplifique.
  • Há muletas (“basicamente”, “tipo”, “no caso”, “assim”) sem função? Remova ou substitua por algo específico.
  • Há gerundismo burocrático (“estar + gerúndio”)? Troque por verbo direto.

3) Formalidade: tom neutro, gírias e uso da 1ª pessoa

3.1 O que é “tom formal” na prática

Formalidade não é “falar difícil”. É manter um tom neutro, com vocabulário adequado, evitando marcas fortes de oralidade, exageros e intimidade. Em geral, isso envolve:

  • Preferir palavras mais neutras (adequado, relevante, insuficiente) a gírias (top, zoado, treta).
  • Evitar exageros absolutos sem base (“sempre”, “nunca”, “todo mundo”).
  • Reduzir interjeições e comentários pessoais (“sinceramente”, “pra falar a verdade”).

3.2 Quando usar 1ª pessoa (e quando evitar)

A 1ª pessoa (“eu”, “nós”) pode ser adequada quando:

  • O gênero pede posicionamento pessoal (relato, carta, depoimento, texto opinativo que aceite voz autoral).
  • Você precisa assumir responsabilidade por uma ação: “Neste texto, defendo que…”
  • Você quer transparência metodológica (em textos mais técnicos): “Analisamos os dados…”

Evite 1ª pessoa quando:

  • O texto exige impessoalidade (muitos textos acadêmicos, relatórios formais, comunicados).
  • O “eu acho” substitui argumento: “Eu acho que é ruim” (melhor: “É inadequado porque…”).

Alternativas à 1ª pessoa (sem deixar o texto artificial):

  • “Eu acho importante…” → “É importante…”
  • “Na minha opinião…” → “Do ponto de vista X…” ou simplesmente apresente a tese sem marcador.
  • “Eu vou falar sobre…” → “O texto aborda…”

3.3 Como evitar gírias e manter neutralidade

Troque termos coloquiais por equivalentes neutros, sem inflar o texto.

ColoquialNeutro
“muito top”muito eficaz / muito adequado
“deu ruim”falhou / apresentou problemas
“treta”conflito / impasse / problema
“galera”pessoas / público / participantes
“tá ok”está adequado / está correto

4) Repetição: quando é defeito e quando é estratégia

4.1 Repetição que atrapalha

Repetir a mesma palavra em sequência pode dar sensação de texto pobre ou descuidado, especialmente quando existem alternativas claras.

Exemplo:

  • Repetitivo: “O problema é que o problema aumenta quando o problema não é medido.”
  • Melhor: “A dificuldade aumenta quando a situação não é medida.”

4.2 Repetição que ajuda

Às vezes, repetir um termo é útil para manter o leitor orientado, principalmente com conceitos-chave. Trocar demais pode confundir.

  • Bom uso: repetir o termo técnico central (ex.: “evasão escolar”) para não alternar com sinônimos que mudem nuance (“abandono”, “desistência”) se você não definiu equivalência.
  • Bom uso: repetir palavras de estrutura (“primeiro”, “em seguida”, “por fim”) para guiar a leitura.

5) Técnicas de variação lexical sem perder sentido

5.1 Variação por categoria (sinônimo com controle)

Troque apenas quando o sentido for realmente equivalente no seu contexto. Uma técnica prática é variar por categoria:

  • Problema: problema, dificuldade, obstáculo, falha (nem todos servem sempre).
  • Melhoria: aprimoramento, correção, ajuste, otimização (cada um sugere um tipo de ação).
  • Importância: relevância, impacto, peso, centralidade.

Regra de segurança: se a palavra alternativa muda a “gravidade” ou o “tipo” do fenômeno, não é sinônimo; é outra ideia.

5.2 Variação por reescrita (mais segura que sinônimo)

Em vez de caçar sinônimos, você pode variar a forma:

  • Substituir o substantivo por verbo: “fazer uma análise” → “analisar”.
  • Substituir verbo genérico por específico: “fazer” → “executar, elaborar, implementar, realizar, produzir” (conforme o caso).
  • Trocar “há” por estrutura equivalente: “há três anos” → “há três anos” (aqui não precisa variar) ou “nos últimos três anos” (se o recorte for de duração).

5.3 Variação por referência (retomadas claras)

Para evitar repetição sem perder clareza, retome com expressões que apontem para o mesmo referente:

  • “o projeto” → “a iniciativa”, “a proposta” (se forem equivalentes).
  • “essa medida” → “essa estratégia”, “essa ação” (se a categoria for a mesma).

Cuidado: não use “isso”, “essa coisa”, “tal questão” como fuga. Retomada boa mantém o leitor localizado.

6) Exercício: limpeza de parágrafo para ganhar objetividade

6.1 Parágrafo original (com muletas, redundâncias e informalidade)

Basicamente, no caso da empresa, a gente tipo precisa estar melhorando a comunicação interna, porque hoje em dia ela está meio ruim e acaba gerando vários problemas, como por exemplo atrasos e retrabalho, e isso no final das contas prejudica muito os resultados.”

6.2 Passo a passo de limpeza

  • Passo 1: corte muletas (basicamente, tipo, meio, no final das contas).
  • Passo 2: troque informalidade (“a gente”) por forma neutra (“a empresa”, “a equipe”, “é necessário”).
  • Passo 3: remova gerundismo burocrático (“estar melhorando” → “melhorar” ou “aprimorar”).
  • Passo 4: substitua vagas por precisas (“vários”, “muito”, “ruim”) por termos específicos (frequentes, significativo, ineficaz).
  • Passo 5: compacte e organize causa → efeitos (com verbos diretos).

6.3 Versão reescrita (mais objetiva e formal)

“É necessário aprimorar a comunicação interna da empresa, pois ela é ineficaz em etapas críticas do fluxo de trabalho. Essa falha provoca atrasos e retrabalho, com impacto significativo nos resultados.”

6.4 Tarefa prática (para você aplicar em qualquer texto)

  • Escolha um parágrafo seu com 4 a 6 linhas.
  • Sublinhe: (1) muletas de fala, (2) palavras genéricas, (3) gerundismo “estar + gerúndio”, (4) repetições próximas.
  • Reescreva mantendo o sentido, mas com: (a) verbos mais diretos, (b) termos mais específicos, (c) tom neutro.
  • Compare as versões e responda: o que ficou mais claro? o que ficou mais curto? alguma troca mudou o sentido?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao revisar um parágrafo para ganhar objetividade e manter tom neutro, qual conjunto de ações está mais alinhado às boas práticas de escolha vocabular e estilo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Um bom estilo reduz ruído: remove muletas e pleonasmos, troca termos vagos por escolhas precisas, evita gerundismo burocrático e controla a informalidade para manter um tom neutro, preservando a intenção.

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