Redação do Zero: conclusão eficiente e fechamento alinhado ao objetivo

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que torna uma conclusão eficiente

A conclusão é a parte do texto que fecha o sentido do que foi desenvolvido e entrega o objetivo prometido ao leitor. Ela não é um “parágrafo extra”: é um fechamento alinhado ao tipo de texto e ao efeito desejado (convencer, orientar, analisar, relatar, propor).

Uma conclusão eficiente costuma cumprir três funções, em proporções diferentes conforme o gênero:

  • Amarrar: sintetizar o raciocínio e mostrar a lógica do caminho percorrido.
  • Reafirmar: retomar a tese/posição (quando houver) com linguagem renovada.
  • Encaminhar: indicar desdobramentos (recomendação, proposta, decisão, reflexão) sem abrir um novo debate.

O que a conclusão não deve fazer

  • Introduzir argumento novo: se a ideia não foi preparada no desenvolvimento, ela soa “jogada” e enfraquece a credibilidade.
  • Copiar frases anteriores: repetir literalmente a tese ou trechos do desenvolvimento passa sensação de falta de elaboração.
  • Ser genérica: “Portanto, é muito importante…” sem especificar o quê, por quê e em que condições não fecha o texto.
  • Apelar a clichês: “Em suma”, “Conclui-se que”, “Desde os primórdios”, “O mundo de hoje” podem aparecer, mas não podem substituir conteúdo.

Modelos de conclusão conforme o tipo de texto

1) Síntese do raciocínio (fechamento por amarração)

Indicado para textos explicativos e analíticos. O foco é reunir as partes e mostrar a relação entre elas.

Estrutura sugerida (2–4 frases):

  • Retome os 2–3 pontos centrais do desenvolvimento (em novas palavras).
  • Mostre a relação entre eles (causa/efeito, comparação, condição, consequência).
  • Feche com a ideia-mãe do texto (o “resultado” do raciocínio).

Exemplo (tema: trabalho remoto e produtividade):

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Ao considerar a autonomia na gestão do tempo, a redução de deslocamentos e a necessidade de rotinas claras, fica evidente que o trabalho remoto tende a aumentar a produtividade quando há metas bem definidas e comunicação estruturada. Sem esses elementos, a flexibilidade vira dispersão e o ganho se perde.

2) Reafirmação da tese (fechamento persuasivo)

Indicado para textos argumentativos. O objetivo é reafirmar a posição à luz do que foi demonstrado, sem repetir a tese do início.

Estrutura sugerida:

  • Reformule a tese com sinônimos e mudança de ordem (não copie).
  • Recupere rapidamente a “prova” principal (o argumento mais forte ou a combinação de dois).
  • Finalize com o efeito desejado: adesão do leitor, mudança de perspectiva ou decisão.

Exemplo (tema: uso de celular em sala):

Restringir o celular durante atividades de aprendizagem não é um retrocesso, mas uma medida de foco. Quando a atenção é protegida e o uso é direcionado para tarefas específicas, o aparelho deixa de competir com a aula e passa a servir ao conteúdo.

3) Encaminhamento (fechamento com próximos passos)

Indicado para textos que buscam orientar, propor ou resolver um problema. Aqui, a conclusão aponta o que fazer a partir do que foi discutido.

Estrutura sugerida:

  • Retome o problema em uma frase (sem dramatizar).
  • Apresente 1–3 encaminhamentos coerentes com os argumentos já apresentados.
  • Indique critério de aplicação (quando, para quem, com que prioridade).

Exemplo (tema: organização financeira pessoal):

Para reduzir o endividamento, o primeiro passo é mapear gastos fixos e variáveis e definir um teto semanal para despesas flexíveis. Em seguida, vale automatizar o pagamento de contas essenciais e reservar uma parcela para emergências. Com esse tripé, o controle deixa de depender de força de vontade e passa a ser rotina.

4) Recomendação (fechamento orientado por critérios)

Indicado para resenhas, análises comparativas e textos de orientação. A recomendação funciona melhor quando vem acompanhada de condições (para quem serve, em que cenário, com que ressalvas).

Estrutura sugerida:

  • Recomende (ou não) de forma direta.
  • Justifique com 2 critérios já discutidos (ex.: custo-benefício, impacto, viabilidade).
  • Inclua uma ressalva honesta (limite, exceção, cuidado).

Exemplo (tema: leitura digital vs. impressa):

Para quem precisa estudar em deslocamentos e consultar trechos rapidamente, a leitura digital é a opção mais prática, sobretudo pela busca e pela portabilidade. Já em leituras longas e densas, o impresso tende a favorecer a concentração. A melhor escolha, portanto, depende do objetivo: agilidade e consulta, no digital; imersão, no papel.

5) Fechamento reflexivo sem clichês (fechamento interpretativo)

Indicado para crônicas, artigos de opinião mais literários e textos que buscam provocar reflexão. O cuidado aqui é não cair em frases vazias (“fica a reflexão”). O fechamento reflexivo funciona quando condensa o sentido do texto em uma imagem, contraste ou pergunta genuína.

Estrutura sugerida:

  • Retome o núcleo do texto por contraste (o que parece vs. o que é).
  • Feche com uma frase de síntese interpretativa ou uma pergunta que não abra um novo tema, apenas aprofunde o mesmo.

Exemplo (tema: pressa cotidiana):

Corremos para ganhar tempo e, no caminho, perdemos a experiência do que deveria valer a pena. Talvez a pergunta não seja “como fazer mais”, mas “o que não merece mais ser feito”.

Como retomar pontos-chave sem copiar frases anteriores

Retomar não é repetir: é reapresentar a mesma ideia com outra forma e com a vantagem de agora ter o desenvolvimento como base. Use estas técnicas:

Técnica 1: paráfrase com mudança de foco

Antes (no desenvolvimento): “A falta de sono reduz a atenção e aumenta erros.”

Na conclusão (retomada): “Quando o descanso é negligenciado, a atenção cai e a chance de falhas cresce.”

Técnica 2: compressão (resumo em uma frase)

Escolha 2–3 pontos e transforme em uma frase com estrutura paralela.

Exemplo: “Com metas claras, rotina viável e acompanhamento constante, o plano deixa de ser intenção e vira execução.”

Técnica 3: síntese por relação lógica

Em vez de listar, mostre a relação entre os pontos.

Exemplo: “Não é a ferramenta que garante o resultado; é o método que faz a ferramenta funcionar.”

Técnica 4: retomada por palavras-chave (sem copiar períodos)

Reaproveite termos do texto (conceitos centrais), mas construa frases novas.

  • Palavras-chave: “autonomia”, “metas”, “comunicação”.
  • Conclusão: “Autonomia só vira ganho quando metas e comunicação sustentam a rotina.”

Como evitar introduzir argumentos novos no fim

Use este checklist rápido antes de finalizar:

  • Teste da pergunta: “Eu expliquei isso antes?” Se a resposta for “não”, corte ou leve para o desenvolvimento.
  • Teste da prova: “Eu dei exemplo, dado, comparação ou justificativa para essa afirmação?” Se não, ela está nua.
  • Teste do leitor: “Isso muda o rumo do texto?” Se abre uma nova discussão, não é conclusão.

Uma forma prática de corrigir é transformar o “argumento novo” em encaminhamento (próximo passo) ou em ressalva (limite do que foi defendido), desde que não exija demonstração adicional.

Passo a passo prático para escrever a conclusão

Passo 1: defina o papel da sua conclusão

Escolha um modelo principal: síntese, reafirmação, encaminhamento, recomendação ou reflexivo. Evite misturar todos; no máximo, combine síntese + encaminhamento ou reafirmação + recomendação.

Passo 2: liste os 3 elementos que não podem faltar

  • Ponto A (argumento/ideia 1 do desenvolvimento)
  • Ponto B (argumento/ideia 2 do desenvolvimento)
  • Resultado (o que esses pontos provam/explicam juntos)

Passo 3: escreva uma versão “crua” em 4 frases

  • Frase 1: retoma o tema recortado.
  • Frase 2: retoma Ponto A + Ponto B (sem detalhes).
  • Frase 3: explicita o resultado (síntese/tese reformulada).
  • Frase 4: encaminhamento/recomendação/reflexão (conforme o objetivo).

Passo 4: revise com três cortes

  • Corte 1 (repetição): apague trechos que copiam frases anteriores e reescreva com outra estrutura.
  • Corte 2 (novidade): elimine qualquer ideia que exija explicação nova.
  • Corte 3 (vazio): substitua palavras genéricas (“importante”, “melhor”, “ruim”) por critérios (“mais eficaz porque…”, “problemático quando…”).

Passo 5: ajuste o tamanho

Como regra prática:

  • Textos curtos: conclusão de 2–4 frases.
  • Textos médios: 1 parágrafo.
  • Textos longos: 1–2 parágrafos, evitando recontar tudo.

Reescritas: de conclusões fracas para conclusões específicas

Caso 1: conclusão genérica (“é importante”)

Fraca: “Portanto, é muito importante cuidar do meio ambiente, pois isso afeta a todos.”

Problemas: genérica, sem síntese do que foi discutido, sem critério, sem encaminhamento.

Reescrita (síntese + encaminhamento): “Como a redução de resíduos depende tanto de hábitos domésticos quanto de coleta eficiente, o impacto ambiental diminui quando consumo e descarte são tratados como parte do mesmo processo. Por isso, separar recicláveis e reduzir descartáveis são medidas imediatas, mas só funcionam de forma consistente quando acompanhadas por logística de coleta e fiscalização.”

Caso 2: conclusão que repete a introdução

Fraca: “Conclui-se que a leitura é fundamental para o desenvolvimento das pessoas.”

Problemas: repetição, ausência de amarração, clichê.

Reescrita (reafirmação com critérios): “A leitura não contribui apenas por ‘aumentar conhecimento’, mas por treinar interpretação, ampliar repertório e melhorar a tomada de decisão. Quando vira rotina — ainda que em poucos minutos diários — ela deixa de ser um ideal abstrato e passa a produzir ganhos concretos na forma de pensar e argumentar.”

Caso 3: conclusão com argumento novo

Fraca: “Assim, a escola deve investir em tecnologia e também em aulas de programação, pois o futuro será digital.”

Problemas: “aulas de programação” pode não ter sido discutido; “futuro será digital” é vago.

Reescrita (encaminhamento coerente com o que já foi discutido): “Diante dos benefícios e limites apresentados, o investimento em tecnologia escolar precisa priorizar uso pedagógico: formação docente, regras de uso e infraestrutura mínima de acesso. Sem esses três pontos, a presença de equipamentos tende a aumentar distrações e desigualdades em vez de melhorar a aprendizagem.”

Caso 4: fechamento moralista e vazio

Fraca: “No final, basta cada um fazer sua parte para termos um mundo melhor.”

Problemas: moralismo, falta de especificidade, não fecha o raciocínio.

Reescrita (fechamento reflexivo sem clichê): “A mudança não depende de gestos heroicos, mas de escolhas repetidas que parecem pequenas justamente por serem diárias. O que decide o resultado, no fim, é o que vira hábito — e o que continuamos adiando.”

Modelos prontos (para adaptar) sem soar mecânico

Objetivo do textoMolde de conclusão
Sintetizar análiseAo considerar [ponto 1] e [ponto 2], percebe-se que [resultado]. Assim, [síntese final do sentido].
Defender teseMais do que [visão comum], trata-se de [tese reformulada]. Isso se sustenta porque [argumento-chave] e porque [argumento-chave 2].
Orientar açãoPara lidar com [problema], o caminho mais viável é [ação 1] e [ação 2], com prioridade para [critério]. Dessa forma, [benefício esperado].
Recomendar com ressalva[Recomendo/não recomendo] [opção] para [perfil], sobretudo por [critério 1] e [critério 2]. Ainda assim, [ressalva/limite].
Fechar com reflexãoNo fundo, [contraste/virada]. Talvez a questão seja [pergunta de aprofundamento] — e não [pergunta superficial].

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao revisar a conclusão de um texto, qual escolha mantém o fechamento alinhado ao objetivo e evita enfraquecer a credibilidade?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Uma conclusão eficiente fecha o sentido: amarra e/ou reafirma com linguagem renovada e pode encaminhar desdobramentos sem introduzir argumento novo, sem copiar frases e sem cair em generalidades.

Próximo capitúlo

Redação do Zero: reescrita com método (macroedição e microedição)

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