Redação do Zero: coesão textual na prática (conectivos, referência e substituição)

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é coesão textual (e o que ela faz no seu texto)

Coesão textual é o conjunto de mecanismos linguísticos que costuram frases e parágrafos para que o leitor enxergue claramente as relações entre as ideias (adição, contraste, causa, consequência etc.) e reconheça quem/que está sendo mencionado ao longo do texto. Um texto pode ter boas ideias, mas, sem coesão, o leitor se perde: não sabe se você está somando argumentos, mudando de direção, explicando uma causa ou dando um exemplo.

Na prática, a coesão aparece principalmente em três frentes: (1) conectivos (marcam relações lógicas), (2) referência (pronomes e expressões que retomam algo já dito) e (3) elipse e substituição lexical (omitir ou trocar termos para evitar repetição sem perder precisão).

1) Conectivos na prática: como escolher o “tipo de ponte” entre ideias

Passo a passo para selecionar um conectivo

  • Passo 1 — Nomeie a relação: a segunda frase está somando, contrastando, explicando causa, mostrando consequência, exemplificando ou concluindo?
  • Passo 2 — Verifique o “tom”: é um contraste forte (oposição) ou apenas uma ressalva? É causa direta ou justificativa?
  • Passo 3 — Teste a troca: substitua por um conectivo do mesmo grupo e veja se o sentido permanece. Se mudar, você escolheu o grupo errado.
  • Passo 4 — Cheque pontuação: alguns conectivos pedem vírgulas, outros funcionam melhor no início do período, e alguns exigem estrutura paralela.

Exemplos rápidos (mesma ideia, relações diferentes)

Adição: “O texto precisa de dados. Além disso, precisa explicar o que os dados significam.”

Contraste: “Há muitos dados disponíveis. No entanto, nem todos são confiáveis.”

Causa: “Nem todos são confiáveis porque parte das fontes não informa metodologia.”

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Consequência: “Parte das fontes não informa metodologia; por isso, a comparação fica comprometida.”

Exemplificação: “Algumas fontes falham em transparência; por exemplo, não indicam amostra.”

Conclusão: “As fontes variam muito em qualidade; portanto, é preciso filtrar antes de usar.”

Tabela de conectores: usos e armadilhas comuns

RelaçãoConectores úteisUso típicoArmadilhas comuns
Adiçãoe; além disso; também; ainda; bem como; não só… como tambémSomar argumentos, informações, etapasUsar “além disso” para mudar de assunto (vira quebra de foco); repetir “também” em toda frase
Contraste / oposiçãomas; porém; contudo; no entanto; entretanto; por outro ladoOpor ideias ou limitar a anteriorColocar “porém” sem contraste real; exagerar em “por outro lado” sem ter “por um lado” (ou sem dois lados claros)
Ressalva / concessãoembora; ainda que; mesmo que; apesar de; apesar dissoReconhecer um ponto e manter a teseConfundir com causa: “apesar de” não explica motivo; erro de estrutura: “embora” pede oração concessiva bem encaixada
Causa / explicaçãoporque; pois; já que; uma vez que; visto queExplicar por que algo ocorre“Pois” no início pode soar formal demais; “porque” em excesso vira justificativa repetitiva; usar causa quando é apenas exemplo
Consequênciapor isso; portanto; assim; logo; de modo que; consequentementeMostrar efeito/resultado do que foi ditoUsar “portanto” para introduzir nova informação sem derivar do anterior; “assim” ambíguo (pode ser modo, não consequência)
Exemplificaçãopor exemplo; como; isto é; ou seja; a saberIlustrar, reformular, esclarecer“Ou seja” não é exemplo: é reformulação; “como” pode virar comparação vaga se o exemplo não for específico
Conclusão / sínteseem suma; em síntese; em conclusão; desse modo; portantoFechar um raciocínio local (parágrafo/seção)Concluir cedo demais; repetir “em suma” a cada parágrafo; usar “portanto” sem premissas claras

Dica de segurança: conectivo não “conserta” lógica

Se a relação entre as frases não estiver clara, trocar “porém” por “portanto” não resolve. Primeiro, ajuste a ideia; depois, escolha o conectivo que nomeia essa relação.

2) Referência e pronomes: como retomar sem confundir

Referência é quando você aponta para algo já mencionado (ou que será mencionado) para evitar repetição e manter o texto fluindo. Isso inclui pronomes (“ele”, “isso”, “essa medida”) e expressões nominais (“essa proposta”, “tal problema”). O risco é criar referência ambígua: o leitor não sabe a que “isso” se refere.

Este/esse: uso prático para evitar ambiguidade

  • Este/esta/isto: costuma apontar para o que vem agora (no próprio período) ou para o que está mais próximo no texto. Útil para anunciar: “Este é o ponto central: …”.
  • Esse/essa/isso: costuma retomar o que foi dito antes. Útil para retomada: “O método tem falhas. Isso compromete os resultados.”

Na prática, muitos textos funcionam bem mesmo com variações, mas a regra acima é uma ferramenta para reduzir confusão quando há várias possibilidades de retomada.

Como fazer retomadas claras (passo a passo)

  • Passo 1 — Identifique o referente: o que exatamente você quer retomar? Um termo (“o relatório”), uma ideia inteira (“a falta de transparência”) ou um conjunto (“essas medidas”)?
  • Passo 2 — Escolha o tipo de retomada:
    • Pronome (isso, ele, ela): mais curto, porém mais arriscado.
    • Expressão nominal (esse problema, essa decisão): mais segura, porque nomeia.
  • Passo 3 — Faça o “teste de duas opções”: se “isso” puder apontar para duas coisas diferentes, troque por uma expressão nominal.

Exemplos: ambiguidade e correção

Ambíguo: “A empresa criticou a pesquisa e o relatório. Isso gerou repercussão.” (isso = a crítica? a pesquisa? o relatório?)

Mais claro: “A empresa criticou a pesquisa e o relatório. A crítica gerou repercussão.”

Ou: “A empresa criticou a pesquisa e o relatório. Essa reação gerou repercussão.”

3) Elipse e substituição lexical: como evitar repetição sem perder precisão

Elipse (omissão) com segurança

Elipse é omitir um termo que o leitor consegue recuperar pelo contexto. Ela dá ritmo e evita repetição, mas precisa ser usada quando a recuperação é óbvia.

Exemplo: “Alguns defendem a medida; outros, não.” (omissão de “defendem a medida” após “outros”)

Armadilha: omitir o termo quando há muitos candidatos possíveis. Se o leitor tiver que adivinhar, a coesão quebra.

Substituição lexical: sinônimos e hiperônimos

Substituição lexical é trocar uma palavra repetida por outra expressão que retoma a mesma ideia. Há dois caminhos comuns:

  • Sinônimo aproximado: troca por termo de sentido próximo. Ex.: “problema” → “dificuldade”, “entrave”.
  • Hiperônimo (termo mais geral): troca por uma categoria. Ex.: “Instagram e TikTok” → “redes sociais”; “ansiedade e insônia” → “sintomas”.

Regra de ouro: só substitua se o novo termo mantiver o recorte. Se você trocar por algo geral demais, pode distorcer o sentido.

Checklist rápido para substituir sem erro

  • O termo substituto aponta para o mesmo referente?
  • Ele não amplia nem reduz demais o sentido?
  • Ele combina com o registro do texto (formal/informal)?
  • Você não está “inventando” um sinônimo que muda a avaliação (ex.: “erro” ≠ “deslize” em alguns contextos)?

Exercícios 1 — Complete as lacunas com conectivos adequados

Escolha um conectivo que deixe a relação lógica explícita. Em alguns itens, há mais de uma resposta possível; prefira a mais precisa.

  1. O texto apresenta dados relevantes; ________ não explica a origem das informações.
  2. A proposta é simples, ________ exige mudança de hábito.
  3. O autor define o conceito; ________, mostra um caso concreto para ilustrá-lo.
  4. As fontes divergem; ________, é necessário comparar metodologia e amostra.
  5. O argumento parece forte, ________ depende de uma premissa não demonstrada.
  6. O parágrafo está claro. ________, falta indicar a consequência do problema.
  7. O estudo não detalha o método, ________ não permite replicação.
  8. Há duas medidas possíveis: reduzir custos e renegociar prazos. ________, a segunda é menos arriscada no curto prazo.

Soluções seguras (com justificativa curta)

  1. no entanto (contraste entre “apresenta dados” e “não explica origem”)
  2. mas (contraste/ressalva)
  3. em seguida ou por exemplo (sequência ou exemplificação; se for caso concreto, “por exemplo” é mais direto)
  4. portanto (conclusão derivada do fato de divergirem)
  5. porém (contraste/limitação)
  6. contudo (contraste: está claro, mas falta algo)
  7. por isso (consequência do método não detalhado)
  8. nesse sentido ou assim (encaminha escolha; se quiser conclusão forte: “portanto”)

Exercícios 2 — Revisão de repetição (com substituições seguras)

Reescreva os trechos reduzindo repetições. Use pelo menos dois recursos: (a) referência (pronomes/expressões nominais), (b) elipse, (c) substituição lexical (sinônimo/hiperônimo). Evite trocar por palavras que alterem o sentido.

Trecho A (repetição de “texto”)

O texto precisa ser claro. O texto também precisa ser objetivo. Quando o texto não é claro, o texto perde força.

Uma solução segura

O texto precisa ser claro e objetivo. Quando não é, perde força.

Trecho B (repetição de “pesquisa”)

A pesquisa foi divulgada ontem. A pesquisa analisou 2.000 pessoas. A pesquisa, porém, não informou a margem de erro.

Uma solução segura

A pesquisa foi divulgada ontem e analisou 2.000 pessoas; porém, não informou a margem de erro.

Trecho C (repetição de “medida” e referência ambígua)

A medida foi anunciada pelo governo. A medida gerou críticas. Isso pode afetar a medida nos próximos meses.

Uma solução segura

A medida foi anunciada pelo governo e gerou críticas. Essa reação pode afetar a implementação nos próximos meses.

Trecho D (substituição lexical com hiperônimo)

Instagram e TikTok influenciam o consumo. Instagram e TikTok também influenciam a autoestima.

Uma solução segura

Essas redes sociais influenciam o consumo e também a autoestima.

Trecho E (elipse bem aplicada)

Alguns autores defendem a mudança. Outros autores rejeitam a mudança.

Uma solução segura

Alguns autores defendem a mudança; outros, rejeitam.

Mini-guia de revisão: como checar coesão em 5 minutos

  • Sublinhe conectivos: cada parágrafo tem conectivos suficientes para indicar relações (sem exagero)?
  • Circule pronomes (isso, ele, ela, essa, tal): cada um tem referente único e próximo?
  • Marque repetições: repetições são intencionais (ênfase/termo técnico) ou ruído?
  • Teste de leitura linear: leia só as primeiras frases de cada período; as “pontes” ainda fazem sentido?
  • Troca controlada: substitua um conectivo por outro do mesmo grupo; se o sentido muda muito, a relação estava mal definida.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao revisar um parágrafo, você percebe que o pronome “isso” pode retomar duas ideias diferentes e gerar confusão. Qual é a melhor estratégia para aumentar a coesão nesse caso?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quando um pronome pode apontar para mais de uma ideia, cria ambiguidade. A solução mais segura é substituir por uma expressão nominal que nomeie claramente o referente, garantindo retomada precisa e coesão.

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