O que é coesão textual (e o que ela faz no seu texto)
Coesão textual é o conjunto de mecanismos linguísticos que costuram frases e parágrafos para que o leitor enxergue claramente as relações entre as ideias (adição, contraste, causa, consequência etc.) e reconheça quem/que está sendo mencionado ao longo do texto. Um texto pode ter boas ideias, mas, sem coesão, o leitor se perde: não sabe se você está somando argumentos, mudando de direção, explicando uma causa ou dando um exemplo.
Na prática, a coesão aparece principalmente em três frentes: (1) conectivos (marcam relações lógicas), (2) referência (pronomes e expressões que retomam algo já dito) e (3) elipse e substituição lexical (omitir ou trocar termos para evitar repetição sem perder precisão).
1) Conectivos na prática: como escolher o “tipo de ponte” entre ideias
Passo a passo para selecionar um conectivo
- Passo 1 — Nomeie a relação: a segunda frase está somando, contrastando, explicando causa, mostrando consequência, exemplificando ou concluindo?
- Passo 2 — Verifique o “tom”: é um contraste forte (oposição) ou apenas uma ressalva? É causa direta ou justificativa?
- Passo 3 — Teste a troca: substitua por um conectivo do mesmo grupo e veja se o sentido permanece. Se mudar, você escolheu o grupo errado.
- Passo 4 — Cheque pontuação: alguns conectivos pedem vírgulas, outros funcionam melhor no início do período, e alguns exigem estrutura paralela.
Exemplos rápidos (mesma ideia, relações diferentes)
Adição: “O texto precisa de dados. Além disso, precisa explicar o que os dados significam.”
Contraste: “Há muitos dados disponíveis. No entanto, nem todos são confiáveis.”
Causa: “Nem todos são confiáveis porque parte das fontes não informa metodologia.”
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Consequência: “Parte das fontes não informa metodologia; por isso, a comparação fica comprometida.”
Exemplificação: “Algumas fontes falham em transparência; por exemplo, não indicam amostra.”
Conclusão: “As fontes variam muito em qualidade; portanto, é preciso filtrar antes de usar.”
Tabela de conectores: usos e armadilhas comuns
| Relação | Conectores úteis | Uso típico | Armadilhas comuns |
|---|---|---|---|
| Adição | e; além disso; também; ainda; bem como; não só… como também | Somar argumentos, informações, etapas | Usar “além disso” para mudar de assunto (vira quebra de foco); repetir “também” em toda frase |
| Contraste / oposição | mas; porém; contudo; no entanto; entretanto; por outro lado | Opor ideias ou limitar a anterior | Colocar “porém” sem contraste real; exagerar em “por outro lado” sem ter “por um lado” (ou sem dois lados claros) |
| Ressalva / concessão | embora; ainda que; mesmo que; apesar de; apesar disso | Reconhecer um ponto e manter a tese | Confundir com causa: “apesar de” não explica motivo; erro de estrutura: “embora” pede oração concessiva bem encaixada |
| Causa / explicação | porque; pois; já que; uma vez que; visto que | Explicar por que algo ocorre | “Pois” no início pode soar formal demais; “porque” em excesso vira justificativa repetitiva; usar causa quando é apenas exemplo |
| Consequência | por isso; portanto; assim; logo; de modo que; consequentemente | Mostrar efeito/resultado do que foi dito | Usar “portanto” para introduzir nova informação sem derivar do anterior; “assim” ambíguo (pode ser modo, não consequência) |
| Exemplificação | por exemplo; como; isto é; ou seja; a saber | Ilustrar, reformular, esclarecer | “Ou seja” não é exemplo: é reformulação; “como” pode virar comparação vaga se o exemplo não for específico |
| Conclusão / síntese | em suma; em síntese; em conclusão; desse modo; portanto | Fechar um raciocínio local (parágrafo/seção) | Concluir cedo demais; repetir “em suma” a cada parágrafo; usar “portanto” sem premissas claras |
Dica de segurança: conectivo não “conserta” lógica
Se a relação entre as frases não estiver clara, trocar “porém” por “portanto” não resolve. Primeiro, ajuste a ideia; depois, escolha o conectivo que nomeia essa relação.
2) Referência e pronomes: como retomar sem confundir
Referência é quando você aponta para algo já mencionado (ou que será mencionado) para evitar repetição e manter o texto fluindo. Isso inclui pronomes (“ele”, “isso”, “essa medida”) e expressões nominais (“essa proposta”, “tal problema”). O risco é criar referência ambígua: o leitor não sabe a que “isso” se refere.
Este/esse: uso prático para evitar ambiguidade
- Este/esta/isto: costuma apontar para o que vem agora (no próprio período) ou para o que está mais próximo no texto. Útil para anunciar: “Este é o ponto central: …”.
- Esse/essa/isso: costuma retomar o que foi dito antes. Útil para retomada: “O método tem falhas. Isso compromete os resultados.”
Na prática, muitos textos funcionam bem mesmo com variações, mas a regra acima é uma ferramenta para reduzir confusão quando há várias possibilidades de retomada.
Como fazer retomadas claras (passo a passo)
- Passo 1 — Identifique o referente: o que exatamente você quer retomar? Um termo (“o relatório”), uma ideia inteira (“a falta de transparência”) ou um conjunto (“essas medidas”)?
- Passo 2 — Escolha o tipo de retomada:
- Pronome (isso, ele, ela): mais curto, porém mais arriscado.
- Expressão nominal (esse problema, essa decisão): mais segura, porque nomeia.
- Passo 3 — Faça o “teste de duas opções”: se “isso” puder apontar para duas coisas diferentes, troque por uma expressão nominal.
Exemplos: ambiguidade e correção
Ambíguo: “A empresa criticou a pesquisa e o relatório. Isso gerou repercussão.” (isso = a crítica? a pesquisa? o relatório?)
Mais claro: “A empresa criticou a pesquisa e o relatório. A crítica gerou repercussão.”
Ou: “A empresa criticou a pesquisa e o relatório. Essa reação gerou repercussão.”
3) Elipse e substituição lexical: como evitar repetição sem perder precisão
Elipse (omissão) com segurança
Elipse é omitir um termo que o leitor consegue recuperar pelo contexto. Ela dá ritmo e evita repetição, mas precisa ser usada quando a recuperação é óbvia.
Exemplo: “Alguns defendem a medida; outros, não.” (omissão de “defendem a medida” após “outros”)
Armadilha: omitir o termo quando há muitos candidatos possíveis. Se o leitor tiver que adivinhar, a coesão quebra.
Substituição lexical: sinônimos e hiperônimos
Substituição lexical é trocar uma palavra repetida por outra expressão que retoma a mesma ideia. Há dois caminhos comuns:
- Sinônimo aproximado: troca por termo de sentido próximo. Ex.: “problema” → “dificuldade”, “entrave”.
- Hiperônimo (termo mais geral): troca por uma categoria. Ex.: “Instagram e TikTok” → “redes sociais”; “ansiedade e insônia” → “sintomas”.
Regra de ouro: só substitua se o novo termo mantiver o recorte. Se você trocar por algo geral demais, pode distorcer o sentido.
Checklist rápido para substituir sem erro
- O termo substituto aponta para o mesmo referente?
- Ele não amplia nem reduz demais o sentido?
- Ele combina com o registro do texto (formal/informal)?
- Você não está “inventando” um sinônimo que muda a avaliação (ex.: “erro” ≠ “deslize” em alguns contextos)?
Exercícios 1 — Complete as lacunas com conectivos adequados
Escolha um conectivo que deixe a relação lógica explícita. Em alguns itens, há mais de uma resposta possível; prefira a mais precisa.
- O texto apresenta dados relevantes; ________ não explica a origem das informações.
- A proposta é simples, ________ exige mudança de hábito.
- O autor define o conceito; ________, mostra um caso concreto para ilustrá-lo.
- As fontes divergem; ________, é necessário comparar metodologia e amostra.
- O argumento parece forte, ________ depende de uma premissa não demonstrada.
- O parágrafo está claro. ________, falta indicar a consequência do problema.
- O estudo não detalha o método, ________ não permite replicação.
- Há duas medidas possíveis: reduzir custos e renegociar prazos. ________, a segunda é menos arriscada no curto prazo.
Soluções seguras (com justificativa curta)
- no entanto (contraste entre “apresenta dados” e “não explica origem”)
- mas (contraste/ressalva)
- em seguida ou por exemplo (sequência ou exemplificação; se for caso concreto, “por exemplo” é mais direto)
- portanto (conclusão derivada do fato de divergirem)
- porém (contraste/limitação)
- contudo (contraste: está claro, mas falta algo)
- por isso (consequência do método não detalhado)
- nesse sentido ou assim (encaminha escolha; se quiser conclusão forte: “portanto”)
Exercícios 2 — Revisão de repetição (com substituições seguras)
Reescreva os trechos reduzindo repetições. Use pelo menos dois recursos: (a) referência (pronomes/expressões nominais), (b) elipse, (c) substituição lexical (sinônimo/hiperônimo). Evite trocar por palavras que alterem o sentido.
Trecho A (repetição de “texto”)
O texto precisa ser claro. O texto também precisa ser objetivo. Quando o texto não é claro, o texto perde força.
Uma solução segura
O texto precisa ser claro e objetivo. Quando não é, perde força.
Trecho B (repetição de “pesquisa”)
A pesquisa foi divulgada ontem. A pesquisa analisou 2.000 pessoas. A pesquisa, porém, não informou a margem de erro.
Uma solução segura
A pesquisa foi divulgada ontem e analisou 2.000 pessoas; porém, não informou a margem de erro.
Trecho C (repetição de “medida” e referência ambígua)
A medida foi anunciada pelo governo. A medida gerou críticas. Isso pode afetar a medida nos próximos meses.
Uma solução segura
A medida foi anunciada pelo governo e gerou críticas. Essa reação pode afetar a implementação nos próximos meses.
Trecho D (substituição lexical com hiperônimo)
Instagram e TikTok influenciam o consumo. Instagram e TikTok também influenciam a autoestima.
Uma solução segura
Essas redes sociais influenciam o consumo e também a autoestima.
Trecho E (elipse bem aplicada)
Alguns autores defendem a mudança. Outros autores rejeitam a mudança.
Uma solução segura
Alguns autores defendem a mudança; outros, rejeitam.
Mini-guia de revisão: como checar coesão em 5 minutos
- Sublinhe conectivos: cada parágrafo tem conectivos suficientes para indicar relações (sem exagero)?
- Circule pronomes (isso, ele, ela, essa, tal): cada um tem referente único e próximo?
- Marque repetições: repetições são intencionais (ênfase/termo técnico) ou ruído?
- Teste de leitura linear: leia só as primeiras frases de cada período; as “pontes” ainda fazem sentido?
- Troca controlada: substitua um conectivo por outro do mesmo grupo; se o sentido muda muito, a relação estava mal definida.