O que é coerência (e por que ela depende de lógica)
Coerência é a compatibilidade entre as ideias do texto: a tese (o que você defende), os argumentos (por que você defende) e os exemplos/dados (o que sustenta na prática). Um texto coerente não é apenas “bem escrito”; ele mantém um raciocínio que não se contradiz, não dá saltos e não usa exemplos que provam outra coisa (ou nada).
Pense na coerência como um “encaixe”: cada parágrafo precisa reforçar a tese e cada exemplo precisa reforçar o argumento do parágrafo. Quando esse encaixe falha, surgem problemas típicos: contradições, generalizações absolutas, circularidade (petição de princípio) e falsas relações de causa.
Compatibilidade entre tese, argumentos e exemplos
- Tese: a posição central.
- Argumento: a razão que torna a tese aceitável.
- Exemplo/dado: a evidência que torna o argumento verificável e concreto.
Um sinal de incoerência é quando o exemplo é apenas “ilustrativo”, mas não prova o argumento. Outro sinal é quando o texto muda o sentido de uma palavra-chave ao longo dos parágrafos (por exemplo, “liberdade” como “fazer o que quiser” em um trecho e como “ter direitos garantidos” em outro, sem avisar a mudança).
Checagem de pressupostos: o que você está assumindo sem perceber
Pressupostos são ideias implícitas que precisam ser verdadeiras para o argumento funcionar. Muitos textos ficam incoerentes porque assumem algo controverso como se fosse óbvio.
Como identificar pressupostos (passo a passo)
- Sublinhe a conclusão do parágrafo (a frase que “fecha” a ideia).
- Pergunte “o que precisa ser verdade para eu concluir isso?”
- Liste 1 a 3 pressupostos em frases curtas.
- Teste cada pressuposto: é fato? é opinião? precisa de prova? é amplo demais?
- Se for discutível, transforme em afirmação qualificada (com condições) ou inclua justificativa/evidência.
Exemplo
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Frase: “Proibir celulares na escola melhora a aprendizagem.”
- Pressuposto 1: o celular é a principal causa de distração.
- Pressuposto 2: a proibição será cumprida.
- Pressuposto 3: não haverá perda de usos pedagógicos.
Se você não trata esses pontos, o leitor pode rejeitar a conclusão por achar que o texto “pulou etapas”.
Erros de lógica que quebram a coerência
1) Contradição direta (A e não-A)
O texto afirma algo e depois afirma o oposto, sem explicar mudança de recorte, contexto ou exceção.
- Problema: “A avaliação deve ser totalmente objetiva. Por isso, é essencial considerar a história de vida do aluno.”
- Por que quebra: “totalmente objetiva” entra em choque com critérios subjetivos, a menos que você defina como a história de vida seria incorporada de modo objetivo.
Como corrigir: delimite termos e recorte.
Reescrita possível: “A avaliação deve ser objetiva nos critérios (rubricas claras e mesmas regras para todos), mas pode considerar o contexto do aluno em decisões de apoio pedagógico, sem alterar a nota.”
2) Contradição por mudança de critério
O texto muda a régua de comparação no meio do caminho.
- Problema: “O transporte público é ruim porque é caro. Já o carro é melhor porque é mais confortável.”
- Por que quebra: compara preço em um caso e conforto no outro, sem justificar por que critérios diferentes valem para cada opção.
Como corrigir: mantenha critérios consistentes ou explique a hierarquia (o que pesa mais e por quê).
Reescrita possível: “Para quem prioriza custo, o transporte público tende a ser mais vantajoso; para quem prioriza conforto e flexibilidade, o carro pode ser melhor — mas com maior gasto mensal.”
3) Circularidade (petição de princípio)
Você “prova” a tese repetindo a própria tese com outras palavras. Parece argumento, mas não acrescenta justificativa.
- Problema: “A leitura é importante porque é essencial para a formação.”
- Por que quebra: “importante” e “essencial” dizem quase a mesma coisa; não há razão nova.
Como corrigir: substitua por mecanismo + consequência verificável.
Reescrita possível: “A leitura fortalece a formação porque amplia vocabulário e repertório, o que melhora a compreensão de textos e a capacidade de argumentar em diferentes áreas.”
4) Falsa causa (confundir correlação com causa)
O texto atribui causa a algo apenas porque ocorreu junto ou antes.
- Problema: “Depois que a escola adotou uniforme, as notas subiram. Logo, o uniforme causou a melhora.”
- Por que quebra: pode haver outras mudanças simultâneas (reforço, troca de material, gestão, perfil da turma).
Como corrigir: use linguagem de cautela e inclua condições/alternativas.
Reescrita possível: “Após a adoção do uniforme, as notas subiram; é possível que a medida tenha contribuído indiretamente (por reduzir conflitos sobre vestimenta), mas a melhora pode também estar ligada a outras ações implementadas no mesmo período.”
5) Generalizações absolutas (sempre, nunca, todo mundo)
Generalizações totais são fáceis de refutar com um contraexemplo. Elas fragilizam a coerência porque o texto promete mais do que consegue sustentar.
- Problema: “Todo mundo aprende melhor sozinho.”
- Por que quebra: basta lembrar de quem aprende melhor em grupo para derrubar a frase.
Como corrigir: qualifique (frequência, contexto, grupo, condição) e, se possível, explique o recorte.
Reescrita possível: “Muitas pessoas aprendem melhor em momentos de estudo individual, especialmente para consolidar conteúdo; ainda assim, atividades em grupo podem ser mais eficazes para discutir ideias e resolver problemas complexos.”
Roteiro de validação lógica (para revisar parágrafo por parágrafo)
Use este roteiro como checklist. A ideia é testar se o raciocínio se sustenta sem “buracos”.
Checklist essencial
- 1) O parágrafo responde ao objetivo? Se eu apagar este parágrafo, a tese perde sustentação ou ele era apenas repetição?
- 2) Qual é a ideia central do parágrafo em uma frase? Se eu não consigo resumir, provavelmente há mistura de ideias.
- 3) O exemplo prova a ideia? Ele é evidência (mostra/indica) ou só ilustração (enfeita)?
- 4) Há salto entre frases? Existe alguma conclusão que aparece sem ponte (“portanto” sem “porque”)?
- 5) Há pressupostos escondidos? O leitor precisaria aceitar algo não dito para concordar?
- 6) Há termos vagos? Palavras como “melhor”, “pior”, “muito”, “eficiente” estão definidas por critério?
- 7) Há generalizações absolutas? Troque “sempre/nunca/todo mundo” por recortes e condições.
- 8) Há falsa causa? Estou confundindo coincidência com explicação?
Modelo rápido de revisão (em 4 linhas)
Ideia do parágrafo: _______________________. (o que afirmo?)
Justificativa: ___________________________. (por que isso é verdade?)
Evidência/exemplo: _______________________. (o que sustenta?)
Limite/condição: _________________________. (quando pode não valer?)Esse modelo força você a incluir justificativa e qualificação, reduzindo contradições e exageros.
Mini-casos: argumentos frágeis e reescrita com justificativa e qualificação
Caso 1 — “Todo mundo” + exemplo que não prova
Versão frágil: “Todo mundo fica menos ansioso quando usa redes sociais, porque conversar distrai. Por exemplo, eu me sinto melhor quando entro nelas.”
Problemas
- Generalização (“todo mundo”).
- Exemplo único não prova uma afirmação universal.
- Pressuposto: distração = redução de ansiedade (pode ser o contrário).
Reescrita mais coerente: “Para algumas pessoas, usar redes sociais pode aliviar a ansiedade no curto prazo, porque a interação social funciona como distração momentânea. No entanto, esse efeito varia: em certos casos, a comparação social e o excesso de estímulos podem aumentar a ansiedade. Em vez de afirmar um resultado universal, é mais preciso dizer que o impacto depende do modo de uso e do perfil do usuário.”
Caso 2 — Circularidade disfarçada de argumento
Versão frágil: “A educação financeira é necessária porque é fundamental para a vida.”
Problemas
- Repete a tese com sinônimos.
- Não explica mecanismo nem consequência.
Reescrita mais coerente: “A educação financeira é necessária porque ajuda a planejar gastos, criar reserva e evitar dívidas de alto custo. Com esses hábitos, a pessoa reduz risco de inadimplência e ganha margem para lidar com imprevistos, o que impacta diretamente a estabilidade do cotidiano.”
Caso 3 — Falsa causa (um evento “explica” tudo)
Versão frágil: “A cidade instalou câmeras e a violência caiu. Logo, câmeras resolvem a violência.”
Problemas
- Conclusão forte demais (“resolvem”).
- Ignora variáveis simultâneas.
- Troca “caiu” (tendência) por “resolve” (solução total).
Reescrita mais coerente: “A instalação de câmeras pode contribuir para reduzir certos crimes em áreas monitoradas, seja por efeito de dissuasão, seja por facilitar a identificação de suspeitos. Ainda assim, a queda da violência pode envolver outras medidas adotadas no período (policiamento, iluminação, ações sociais). Por isso, é mais consistente afirmar que câmeras podem ajudar, e não que resolvem o problema.”
Caso 4 — Contradição por mudança de recorte
Versão frágil: “Trabalho remoto aumenta a produtividade. Ao mesmo tempo, trabalhar em casa sempre diminui a produtividade.”
Problemas
- Afirmações incompatíveis (“aumenta” vs “sempre diminui”).
- Uso de absoluto (“sempre”).
Reescrita mais coerente: “O trabalho remoto pode aumentar a produtividade em tarefas que exigem concentração e autonomia, especialmente quando há estrutura adequada e metas claras. Por outro lado, em casas com muitas interrupções ou sem espaço apropriado, a produtividade pode cair. Assim, o efeito depende das condições de trabalho e do tipo de atividade.”
Técnicas rápidas para evitar contradições e exageros
1) Troque absolutos por recortes verificáveis
| Frase absoluta | Reescrita qualificada |
|---|---|
| “Sempre funciona.” | “Tende a funcionar quando X e Y estão presentes.” |
| “Nunca dá certo.” | “Raramente dá certo em contextos como X; em Y pode funcionar.” |
| “Todo mundo pensa assim.” | “É uma visão comum em grupos como X / em parte do público.” |
| “Isso prova que…” | “Isso sugere/indica que…, embora não seja a única explicação.” |
2) Use “ponte lógica” antes do “portanto”
Quando você escreve uma conclusão, inclua uma frase que explicite a ligação causal ou inferencial.
Estrutura útil:
Se (condição/razão), então (consequência).
Como (razão) ocorre aqui, então (conclusão).Exemplo:
“Se a medida reduz o tempo de espera, então melhora o acesso ao serviço. Como o novo agendamento diminuiu filas em horários de pico, a medida tende a melhorar o acesso, especialmente para quem tem pouco tempo disponível.”
3) Faça o “teste do contraexemplo”
Pegue uma frase forte e tente imaginar um caso realista que a derrube. Se um contraexemplo simples existir, a frase precisa de qualificação.
- “Estudar de madrugada é melhor.” → Contraexemplo: pessoas que rendem mais cedo e dormem cedo.
- Reescrita: “Para quem tem silêncio e energia nesse horário, estudar de madrugada pode render mais; para outros, prejudica o desempenho por reduzir o sono.”
Prática guiada: revisão lógica em 10 minutos
- Marque a tese (uma frase).
- Para cada parágrafo, escreva ao lado: “este parágrafo prova a tese por meio de ______”.
- Sublinhe conectivos de conclusão (logo, portanto, assim). Antes de cada um, verifique se há justificativa explícita.
- Procure absolutos (“sempre”, “nunca”, “todo”, “ninguém”) e reescreva com recorte/condição.
- Cheque exemplos: ao lado de cada exemplo, responda em uma frase: “o que exatamente este exemplo demonstra?” Se não demonstrar nada específico, ajuste o argumento ou troque o exemplo.
- Teste causa: quando houver “X levou a Y”, acrescente “pode ter contribuído” e liste 1 alternativa plausível. Se o texto ficar mais honesto e ainda convincente, você ganhou coerência.