Redação do Zero: coerência e lógica argumentativa (evitar contradições e generalizações)

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é coerência (e por que ela depende de lógica)

Coerência é a compatibilidade entre as ideias do texto: a tese (o que você defende), os argumentos (por que você defende) e os exemplos/dados (o que sustenta na prática). Um texto coerente não é apenas “bem escrito”; ele mantém um raciocínio que não se contradiz, não dá saltos e não usa exemplos que provam outra coisa (ou nada).

Pense na coerência como um “encaixe”: cada parágrafo precisa reforçar a tese e cada exemplo precisa reforçar o argumento do parágrafo. Quando esse encaixe falha, surgem problemas típicos: contradições, generalizações absolutas, circularidade (petição de princípio) e falsas relações de causa.

Compatibilidade entre tese, argumentos e exemplos

  • Tese: a posição central.
  • Argumento: a razão que torna a tese aceitável.
  • Exemplo/dado: a evidência que torna o argumento verificável e concreto.

Um sinal de incoerência é quando o exemplo é apenas “ilustrativo”, mas não prova o argumento. Outro sinal é quando o texto muda o sentido de uma palavra-chave ao longo dos parágrafos (por exemplo, “liberdade” como “fazer o que quiser” em um trecho e como “ter direitos garantidos” em outro, sem avisar a mudança).

Checagem de pressupostos: o que você está assumindo sem perceber

Pressupostos são ideias implícitas que precisam ser verdadeiras para o argumento funcionar. Muitos textos ficam incoerentes porque assumem algo controverso como se fosse óbvio.

Como identificar pressupostos (passo a passo)

  1. Sublinhe a conclusão do parágrafo (a frase que “fecha” a ideia).
  2. Pergunte “o que precisa ser verdade para eu concluir isso?”
  3. Liste 1 a 3 pressupostos em frases curtas.
  4. Teste cada pressuposto: é fato? é opinião? precisa de prova? é amplo demais?
  5. Se for discutível, transforme em afirmação qualificada (com condições) ou inclua justificativa/evidência.

Exemplo

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Frase: “Proibir celulares na escola melhora a aprendizagem.”

  • Pressuposto 1: o celular é a principal causa de distração.
  • Pressuposto 2: a proibição será cumprida.
  • Pressuposto 3: não haverá perda de usos pedagógicos.

Se você não trata esses pontos, o leitor pode rejeitar a conclusão por achar que o texto “pulou etapas”.

Erros de lógica que quebram a coerência

1) Contradição direta (A e não-A)

O texto afirma algo e depois afirma o oposto, sem explicar mudança de recorte, contexto ou exceção.

  • Problema: “A avaliação deve ser totalmente objetiva. Por isso, é essencial considerar a história de vida do aluno.”
  • Por que quebra: “totalmente objetiva” entra em choque com critérios subjetivos, a menos que você defina como a história de vida seria incorporada de modo objetivo.

Como corrigir: delimite termos e recorte.

Reescrita possível: “A avaliação deve ser objetiva nos critérios (rubricas claras e mesmas regras para todos), mas pode considerar o contexto do aluno em decisões de apoio pedagógico, sem alterar a nota.”

2) Contradição por mudança de critério

O texto muda a régua de comparação no meio do caminho.

  • Problema: “O transporte público é ruim porque é caro. Já o carro é melhor porque é mais confortável.”
  • Por que quebra: compara preço em um caso e conforto no outro, sem justificar por que critérios diferentes valem para cada opção.

Como corrigir: mantenha critérios consistentes ou explique a hierarquia (o que pesa mais e por quê).

Reescrita possível: “Para quem prioriza custo, o transporte público tende a ser mais vantajoso; para quem prioriza conforto e flexibilidade, o carro pode ser melhor — mas com maior gasto mensal.”

3) Circularidade (petição de princípio)

Você “prova” a tese repetindo a própria tese com outras palavras. Parece argumento, mas não acrescenta justificativa.

  • Problema: “A leitura é importante porque é essencial para a formação.”
  • Por que quebra: “importante” e “essencial” dizem quase a mesma coisa; não há razão nova.

Como corrigir: substitua por mecanismo + consequência verificável.

Reescrita possível: “A leitura fortalece a formação porque amplia vocabulário e repertório, o que melhora a compreensão de textos e a capacidade de argumentar em diferentes áreas.”

4) Falsa causa (confundir correlação com causa)

O texto atribui causa a algo apenas porque ocorreu junto ou antes.

  • Problema: “Depois que a escola adotou uniforme, as notas subiram. Logo, o uniforme causou a melhora.”
  • Por que quebra: pode haver outras mudanças simultâneas (reforço, troca de material, gestão, perfil da turma).

Como corrigir: use linguagem de cautela e inclua condições/alternativas.

Reescrita possível: “Após a adoção do uniforme, as notas subiram; é possível que a medida tenha contribuído indiretamente (por reduzir conflitos sobre vestimenta), mas a melhora pode também estar ligada a outras ações implementadas no mesmo período.”

5) Generalizações absolutas (sempre, nunca, todo mundo)

Generalizações totais são fáceis de refutar com um contraexemplo. Elas fragilizam a coerência porque o texto promete mais do que consegue sustentar.

  • Problema: “Todo mundo aprende melhor sozinho.”
  • Por que quebra: basta lembrar de quem aprende melhor em grupo para derrubar a frase.

Como corrigir: qualifique (frequência, contexto, grupo, condição) e, se possível, explique o recorte.

Reescrita possível: “Muitas pessoas aprendem melhor em momentos de estudo individual, especialmente para consolidar conteúdo; ainda assim, atividades em grupo podem ser mais eficazes para discutir ideias e resolver problemas complexos.”

Roteiro de validação lógica (para revisar parágrafo por parágrafo)

Use este roteiro como checklist. A ideia é testar se o raciocínio se sustenta sem “buracos”.

Checklist essencial

  • 1) O parágrafo responde ao objetivo? Se eu apagar este parágrafo, a tese perde sustentação ou ele era apenas repetição?
  • 2) Qual é a ideia central do parágrafo em uma frase? Se eu não consigo resumir, provavelmente há mistura de ideias.
  • 3) O exemplo prova a ideia? Ele é evidência (mostra/indica) ou só ilustração (enfeita)?
  • 4) Há salto entre frases? Existe alguma conclusão que aparece sem ponte (“portanto” sem “porque”)?
  • 5) Há pressupostos escondidos? O leitor precisaria aceitar algo não dito para concordar?
  • 6) Há termos vagos? Palavras como “melhor”, “pior”, “muito”, “eficiente” estão definidas por critério?
  • 7) Há generalizações absolutas? Troque “sempre/nunca/todo mundo” por recortes e condições.
  • 8) Há falsa causa? Estou confundindo coincidência com explicação?

Modelo rápido de revisão (em 4 linhas)

Ideia do parágrafo: _______________________. (o que afirmo?)
Justificativa: ___________________________. (por que isso é verdade?)
Evidência/exemplo: _______________________. (o que sustenta?)
Limite/condição: _________________________. (quando pode não valer?)

Esse modelo força você a incluir justificativa e qualificação, reduzindo contradições e exageros.

Mini-casos: argumentos frágeis e reescrita com justificativa e qualificação

Caso 1 — “Todo mundo” + exemplo que não prova

Versão frágil: “Todo mundo fica menos ansioso quando usa redes sociais, porque conversar distrai. Por exemplo, eu me sinto melhor quando entro nelas.”

Problemas

  • Generalização (“todo mundo”).
  • Exemplo único não prova uma afirmação universal.
  • Pressuposto: distração = redução de ansiedade (pode ser o contrário).

Reescrita mais coerente: “Para algumas pessoas, usar redes sociais pode aliviar a ansiedade no curto prazo, porque a interação social funciona como distração momentânea. No entanto, esse efeito varia: em certos casos, a comparação social e o excesso de estímulos podem aumentar a ansiedade. Em vez de afirmar um resultado universal, é mais preciso dizer que o impacto depende do modo de uso e do perfil do usuário.”

Caso 2 — Circularidade disfarçada de argumento

Versão frágil: “A educação financeira é necessária porque é fundamental para a vida.”

Problemas

  • Repete a tese com sinônimos.
  • Não explica mecanismo nem consequência.

Reescrita mais coerente: “A educação financeira é necessária porque ajuda a planejar gastos, criar reserva e evitar dívidas de alto custo. Com esses hábitos, a pessoa reduz risco de inadimplência e ganha margem para lidar com imprevistos, o que impacta diretamente a estabilidade do cotidiano.”

Caso 3 — Falsa causa (um evento “explica” tudo)

Versão frágil: “A cidade instalou câmeras e a violência caiu. Logo, câmeras resolvem a violência.”

Problemas

  • Conclusão forte demais (“resolvem”).
  • Ignora variáveis simultâneas.
  • Troca “caiu” (tendência) por “resolve” (solução total).

Reescrita mais coerente: “A instalação de câmeras pode contribuir para reduzir certos crimes em áreas monitoradas, seja por efeito de dissuasão, seja por facilitar a identificação de suspeitos. Ainda assim, a queda da violência pode envolver outras medidas adotadas no período (policiamento, iluminação, ações sociais). Por isso, é mais consistente afirmar que câmeras podem ajudar, e não que resolvem o problema.”

Caso 4 — Contradição por mudança de recorte

Versão frágil: “Trabalho remoto aumenta a produtividade. Ao mesmo tempo, trabalhar em casa sempre diminui a produtividade.”

Problemas

  • Afirmações incompatíveis (“aumenta” vs “sempre diminui”).
  • Uso de absoluto (“sempre”).

Reescrita mais coerente: “O trabalho remoto pode aumentar a produtividade em tarefas que exigem concentração e autonomia, especialmente quando há estrutura adequada e metas claras. Por outro lado, em casas com muitas interrupções ou sem espaço apropriado, a produtividade pode cair. Assim, o efeito depende das condições de trabalho e do tipo de atividade.”

Técnicas rápidas para evitar contradições e exageros

1) Troque absolutos por recortes verificáveis

Frase absolutaReescrita qualificada
“Sempre funciona.”“Tende a funcionar quando X e Y estão presentes.”
“Nunca dá certo.”“Raramente dá certo em contextos como X; em Y pode funcionar.”
“Todo mundo pensa assim.”“É uma visão comum em grupos como X / em parte do público.”
“Isso prova que…”“Isso sugere/indica que…, embora não seja a única explicação.”

2) Use “ponte lógica” antes do “portanto”

Quando você escreve uma conclusão, inclua uma frase que explicite a ligação causal ou inferencial.

Estrutura útil:

Se (condição/razão), então (consequência).
Como (razão) ocorre aqui, então (conclusão).

Exemplo:

“Se a medida reduz o tempo de espera, então melhora o acesso ao serviço. Como o novo agendamento diminuiu filas em horários de pico, a medida tende a melhorar o acesso, especialmente para quem tem pouco tempo disponível.”

3) Faça o “teste do contraexemplo”

Pegue uma frase forte e tente imaginar um caso realista que a derrube. Se um contraexemplo simples existir, a frase precisa de qualificação.

  • “Estudar de madrugada é melhor.” → Contraexemplo: pessoas que rendem mais cedo e dormem cedo.
  • Reescrita: “Para quem tem silêncio e energia nesse horário, estudar de madrugada pode render mais; para outros, prejudica o desempenho por reduzir o sono.”

Prática guiada: revisão lógica em 10 minutos

  1. Marque a tese (uma frase).
  2. Para cada parágrafo, escreva ao lado: “este parágrafo prova a tese por meio de ______”.
  3. Sublinhe conectivos de conclusão (logo, portanto, assim). Antes de cada um, verifique se há justificativa explícita.
  4. Procure absolutos (“sempre”, “nunca”, “todo”, “ninguém”) e reescreva com recorte/condição.
  5. Cheque exemplos: ao lado de cada exemplo, responda em uma frase: “o que exatamente este exemplo demonstra?” Se não demonstrar nada específico, ajuste o argumento ou troque o exemplo.
  6. Teste causa: quando houver “X levou a Y”, acrescente “pode ter contribuído” e liste 1 alternativa plausível. Se o texto ficar mais honesto e ainda convincente, você ganhou coerência.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao revisar um parágrafo, qual alternativa descreve melhor como manter a coerência entre tese, argumentos e exemplos, evitando saltos lógicos e exageros?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A coerência depende do “encaixe” entre tese, argumentos e evidências. Exemplos devem sustentar o argumento, e frases absolutas tendem a quebrar o texto por serem fáceis de refutar; por isso, é melhor qualificar com condições e recortes e explicitar a ponte lógica.

Próximo capitúlo

Redação do Zero: gramática essencial aplicada à revisão (pontuação, concordância e regência)

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Redação do Zero: Como Planejar, Escrever e Revisar um Texto
63%

Redação do Zero: Como Planejar, Escrever e Revisar um Texto

Novo curso

16 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.