Finalidade da minuta e do apoio à decisão
No contexto do apoio jurisdicional, a minuta é um instrumento técnico de organização do caso e de proposição de solução, permitindo ao magistrado decidir com base em um encadeamento lógico de fatos relevantes, enquadramento jurídico e consequências processuais. A qualidade da minuta depende de: (i) correta identificação do que foi pedido e por quê; (ii) delimitação do que está controvertido; (iii) seleção do direito aplicável e, quando pertinente, de precedentes; (iv) redação impessoal, clara e verificável.
Leitura técnica da petição: pedidos, causa de pedir e delimitação do objeto
1) Identificação dos pedidos (o que se quer)
Pedido é a providência jurisdicional pretendida. Na prática, o pedido pode estar distribuído em tópicos, em itens numerados ou diluído no texto. Para identificar com precisão, procure: verbos de comando ("requer", "postula", "pede", "seja determinado"), o capítulo final de requerimentos e eventuais pedidos subsidiários/alternativos.
- Pedido principal: a providência central (ex.: condenação, declaração, anulação, concessão de tutela, homologação).
- Pedidos acessórios: consequências do principal (ex.: juros, correção, honorários, multa, expedição de ofício).
- Pedidos incidentais: providências no curso do processo (ex.: tutela provisória, produção de prova, gratuidade, segredo de justiça).
- Pedidos sucessivos/subsidiários: formulados para hipótese de improcedência do principal.
Checagem prática: transforme cada pedido em uma frase objetiva iniciada por “Pretende-se que o juízo…”. Se não for possível, o pedido está ambíguo e isso deve ser sinalizado para saneamento ou esclarecimento.
2) Identificação da causa de pedir (por que se quer)
A causa de pedir é o fundamento do pedido e costuma ser apresentada em dois planos: (i) fático (eventos narrados) e (ii) jurídico (normas/princípios/teses invocadas). Para fins de minuta, interessa extrair apenas os fatos juridicamente relevantes e o nexo entre esses fatos e o pedido.
- Causa de pedir fática: linha do tempo dos acontecimentos, condutas atribuídas, documentos que sustentam a narrativa.
- Causa de pedir jurídica: qualificação jurídica dos fatos (ex.: inadimplemento, ilicitude, nulidade, vício, abuso, ilegalidade).
Ferramenta útil: escreva um parágrafo “Fatos essenciais” com 3 a 6 frases, cada uma contendo: data/intervalo + evento + prova indicada + relevância para o pedido.
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3) Pontos controvertidos (o que está em disputa)
Pontos controvertidos são as questões de fato e de direito sobre as quais há divergência entre as partes e que influenciam o resultado. Eles orientam saneamento, instrução e fundamentação. Para identificá-los, compare: (i) narrativa inicial; (ii) contestação/manifestação; (iii) réplica; (iv) documentos e alegações sobre ônus probatório.
- Controvérsia fática: divergência sobre ocorrência de evento, autoria, extensão do dano, datas, pagamentos, entrega, ciência, etc.
- Controvérsia jurídica: divergência sobre enquadramento normativo, prescrição/decadência, legitimidade, competência, cabimento de tutela, interpretação de cláusula, etc.
Critério de relevância: um ponto só é controvertido “útil” se, ao ser resolvido, altera o dispositivo (resultado). Questões laterais podem ser registradas como “alegações acessórias” sem ocupar o núcleo da fundamentação.
Organização das informações para subsidiar despachos e decisões
Mapa do caso (quadro de extração)
Antes de redigir, consolide um “mapa do caso” com campos fixos. Isso reduz omissões e melhora a consistência entre relatório, fundamentação e dispositivo.
MAPA DO CASO (modelo conceitual) 1) Partes e representação: quem é quem; procurações; capacidade/regularidade 2) Pedido(s): principal; acessórios; incidentais; subsidiários 3) Causa de pedir: fatos essenciais; tese jurídica central 4) Defesa: preliminares; mérito; documentos; impugnações 5) Pontos controvertidos: fatos; direito; ônus probatório 6) Provas: já existentes; requeridas; pertinência; necessidade 7) Questões processuais pendentes: competência; legitimidade; pressupostos; prazos; intimações 8) Precedentes/entendimentos: se aplicáveis ao ponto decisório 9) Efeitos e providências: prazos; cumprimento; comunicação; recursos cabíveisChecklist de coerência interna
- Correspondência: todo fundamento deve responder a um pedido ou a uma questão necessária para julgá-lo.
- Exaustividade mínima: enfrentar teses capazes de infirmar a conclusão (sem reproduzir argumentos irrelevantes).
- Proporcionalidade textual: mais espaço para o que decide o caso; menos para o periférico.
- Rastreabilidade: fatos relevantes vinculados a documentos/atos processuais (ex.: “conforme documento X”, “conforme certidão”).
Estrutura de fundamentação: fatos, direito, precedentes e conclusão lógica
1) Fatos (recorte relevante)
Na fundamentação, “fatos” não é repetição integral do relatório. É seleção do que será usado como premissa. Use linguagem descritiva e verificável, evitando adjetivações. Indique, quando possível, a fonte (documento, termo, certidão, depoimento).
- Boa prática: “Consta dos autos que…”, “Verifica-se do documento…”, “A controvérsia fática cinge-se a…”.
- Evitar: “É evidente que…”, “Claramente…”, “A parte agiu de má-fé” (sem base e sem decisão específica).
2) Direito (subsunção e resposta às teses)
O núcleo é a subsunção: premissa fática + norma/entendimento + conclusão. Organize por tópicos correspondentes aos pontos controvertidos e às preliminares. Ao enfrentar teses, explicite por que são acolhidas ou rejeitadas, com base no conjunto probatório e no direito aplicável.
Modelo lógico: “Diante de (fato provado/assumido), aplica-se (regra/entendimento). Assim, (consequência jurídica).”
3) Precedentes (quando cabíveis)
Precedentes são úteis quando: (i) há controvérsia interpretativa; (ii) o tema é repetitivo; (iii) há orientação consolidada do tribunal; (iv) a decisão precisa demonstrar alinhamento institucional. O uso deve ser funcional: o precedente entra para justificar a regra aplicada ao caso, não para “encher” a fundamentação.
- Como inserir: enuncie a tese do precedente (a razão decisória) e conecte ao fato do processo.
- Como evitar erro comum: não citar apenas ementa sem explicar a pertinência; não usar precedente de matéria distinta.
4) Conclusão lógica (ponte para o dispositivo)
Ao final da fundamentação, sintetize em 2 a 4 frases: (i) quais premissas foram fixadas; (ii) qual tese foi adotada; (iii) qual consequência processual decorre. Essa síntese deve “preparar” o dispositivo, sem antecipar comandos contraditórios.
Padrões de linguagem jurídica impessoal e técnica
Impessoalidade e foco no ato processual
- Preferir: “Verifica-se”, “Constata-se”, “Entende-se”, “Considera-se”, “Decide-se”.
- Evitar: “Eu entendo”, “Na minha opinião”, “Acho”.
Precisão terminológica e temporal
- Use “intime-se”, “cite-se”, “dê-se vista”, “certifique-se”, “junte-se”, “remetam-se” conforme a providência.
- Indique prazos e marcos: “no prazo de X dias”, “após o decurso”, “com/sem urgência”.
Neutralidade e cautela com juízos de valor
Evite atribuir intenção ou qualificar condutas sem base. Quando necessário, descreva o comportamento processual de forma objetiva (ex.: “não apresentou documento”, “deixou transcorrer o prazo”).
Modelos conceituais de minuta: lógica e elementos obrigatórios
1) Despacho ordinatório (impulso oficial)
Despacho ordinatório organiza o andamento e determina providências de rotina, sem resolver controvérsia de mérito. A minuta deve ser curta, operacional e com comandos claros.
- Elementos: identificação do ato a praticar; destinatário (parte/serventia); prazo; forma de cumprimento; consequência do descumprimento quando prevista; determinação de certificação/juntada.
- Lógica: “Diante da necessidade de (ato), determine-se (providência) para viabilizar (próximo passo).”
2) Decisão interlocutória simples (questão incidental)
Decisão interlocutória simples resolve questão processual ou incidental (ex.: deferimento/indeferimento de prova, tutela de urgência, saneamento pontual). Exige fundamentação suficiente e dispositivo compatível.
- Elementos: relatório mínimo do incidente; delimitação da questão; fundamentos (fatos + direito); conclusão lógica; dispositivo com comando e prazos; determinação de intimações.
- Cuidados: (i) explicitar o requisito analisado (quando houver); (ii) indicar por que a prova é pertinente/dispensável; (iii) evitar decidir além do pedido do incidente.
3) Relatório (organização do histórico processual)
O relatório é a narrativa estruturada do andamento e das alegações relevantes, sem argumentação. Serve para situar o leitor e fixar o objeto do julgamento/decisão.
- Elementos: identificação das partes; síntese dos pedidos; síntese da defesa; principais atos processuais; indicação do ponto a decidir; registro de provas relevantes já produzidas.
- Boa prática: escrever em ordem cronológica e com parágrafos curtos; evitar transcrever peças.
4) Ementa (noções e função)
A ementa sintetiza o conteúdo decisório para fins de indexação e compreensão rápida. Mesmo quando não exigida em todos os atos, compreender sua lógica ajuda a redigir decisões mais objetivas.
- Elementos típicos: ramo/tema; questão jurídica central; tese aplicada; resultado (provimento/improvimento, deferimento/indeferimento); efeitos relevantes (quando essenciais).
- Regra de ouro: a ementa deve refletir a ratio decidendi, não detalhes periféricos.
Leitura guiada de decisões e acórdãos: extraindo ratio decidendi, dispositivos aplicados e efeitos
Como localizar a ratio decidendi (razão de decidir)
A ratio decidendi é a regra/tese necessária para chegar ao resultado, aplicada aos fatos relevantes. Para extraí-la, separe: (i) fatos considerados; (ii) questão jurídica; (iii) norma/entendimento aplicado; (iv) conclusão indispensável. Diferencie de obiter dicta (comentários laterais que não sustentam o resultado).
Roteiro de extração (ratio) 1) Qual foi a pergunta que o órgão julgador respondeu? 2) Quais fatos foram tratados como premissas? 3) Qual regra/tese foi adotada para responder? 4) Essa regra era necessária para o resultado? (se retirar, o resultado muda?)Como identificar os dispositivos aplicados
Dispositivos aplicados são as normas efetivamente usadas como fundamento determinante (não apenas citadas). Procure: (i) artigos mencionados no trecho de subsunção; (ii) referências a súmulas/teses; (iii) expressões como “nos termos de”, “à luz de”, “aplica-se”.
- Dica prática: destaque o parágrafo onde a decisão conecta o artigo ao fato (“como o fato X ocorreu, incide o artigo Y”). Esse é o ponto de aplicação.
Como extrair efeitos processuais do dispositivo
O dispositivo contém comandos e consequências: deferimento/indeferimento, extinção, determinação de atos, condenações, prazos, comunicações e, em decisões colegiadas, resultado do recurso. Para leitura técnica, identifique:
- Resultado: o que foi acolhido/rejeitado.
- Alcance: a quem se aplica (parte, terceiro, órgão).
- Providências: intimações, expedições, remessas, cumprimento.
- Temporalidade: prazos e marcos (imediato, após trânsito, após decurso).
Exercícios práticos (leitura guiada e elaboração de mapa do caso)
Exercício 1 — Extração de pedidos e causa de pedir
Enunciado: Leia uma petição inicial (real ou simulada) e produza um quadro com: pedidos (principal, acessórios, incidentais), causa de pedir fática (5 linhas) e causa de pedir jurídica (tese central em 2 linhas).
Passo a passo:
- Marque todos os verbos de requerimento e consolide em lista única.
- Reescreva cada pedido em frase objetiva (“Pretende-se que…”).
- Monte uma linha do tempo com os fatos essenciais e associe a cada fato um documento indicado.
- Resuma a tese jurídica em uma frase de subsunção (fato + regra + consequência).
Exercício 2 — Delimitação de pontos controvertidos
Enunciado: Compare inicial e contestação e liste: (i) 3 pontos controvertidos de fato; (ii) 3 pontos controvertidos de direito; (iii) quais provas parecem necessárias para cada ponto fático.
Passo a passo:
- Faça duas colunas: “Alega autor” x “Alega réu”.
- Sublinhe divergências que impactam o resultado.
- Para cada divergência fática, escreva: “Para provar X, seria útil Y (documento/perícia/testemunha)”.
Exercício 3 — Leitura guiada de decisão interlocutória
Enunciado: Escolha uma decisão interlocutória (por exemplo, sobre prova ou tutela) e extraia: questão decidida, fundamentos (fatos + direito), dispositivo e efeitos processuais imediatos.
Ficha de leitura (preencher) 1) Questão: 2) Fatos considerados: 3) Norma/entendimento aplicado: 4) Ratio decidendi (1 a 2 frases): 5) Dispositivo (comandos): 6) Efeitos: prazos, intimações, próximos atosExercício 4 — Leitura guiada de acórdão: ratio e tese
Enunciado: Leia um acórdão e identifique: (i) tema; (ii) questão jurídica central; (iii) tese (ratio) em uma frase; (iv) dispositivos aplicados; (v) resultado do recurso e efeitos (reforma, manutenção, anulação, determinação de retorno).
Passo a passo:
- Leia primeiro a ementa para localizar o tema (sem assumir que ela contém toda a ratio).
- Vá ao voto e encontre o trecho em que o julgador responde diretamente à questão.
- Reescreva a tese como regra geral (“Em casos de…, deve-se…”).
- Confira no dispositivo se o resultado corresponde à tese extraída.
Minuta orientada por problemas: como transformar o mapa do caso em texto decisório
Sequência recomendada de redação
- 1) Defina o objeto: qual pedido/incidente será decidido agora.
- 2) Fixe premissas fáticas: apenas as necessárias para o objeto.
- 3) Enquadre juridicamente: regra aplicável + resposta às teses relevantes.
- 4) Se pertinente, conecte precedente: tese do precedente + aderência ao caso.
- 5) Escreva a síntese conclusiva: ponte para o dispositivo.
- 6) Dispositivo operacional: comando claro, prazos, intimações, certificações.
Erros comuns e como evitar
- Relatório excessivo: substitua transcrições por sínteses e referências a eventos processuais.
- Fundamentação genérica: sempre conecte norma a fato específico do processo.
- Decidir além do pedido: confira se o dispositivo corresponde ao objeto delimitado.
- Omissão de efeitos: inclua providências de cumprimento (intimação, prazo, juntada, remessa).