O que são avaliações técnicas e por que usar
Avaliações técnicas são instrumentos práticos para observar, com evidências, como a pessoa candidata executa atividades relacionadas ao trabalho. Elas podem assumir formatos diferentes (teste objetivo, case, simulação, exercício de pair, análise de portfólio), mas têm o mesmo propósito: reduzir suposições e aumentar a previsibilidade de desempenho em tarefas-chave do cargo.
Use avaliações técnicas quando: (1) a função exige entrega prática verificável (ex.: programar, analisar dados, desenhar interfaces, redigir textos, operar rotinas financeiras), (2) o risco de erro é alto (ex.: compliance, segurança, produção), (3) há grande variação de nível entre candidatos com currículos semelhantes, (4) a entrevista não é suficiente para demonstrar execução (ex.: raciocínio lógico, qualidade de código, clareza de escrita).
Evite ou simplifique quando: (1) o cargo é muito inicial e você consegue avaliar por exercícios curtos, (2) o trabalho é altamente confidencial e não dá para simular sem expor dados, (3) o tempo de contratação é crítico e o teste não agregará informação nova, (4) a tarefa tende a virar “trabalho real” não remunerado.
Proporcionalidade: escolher o instrumento certo para o nível do cargo
O princípio central é proporcionalidade: quanto maior o impacto do cargo e maior a complexidade técnica, mais robusta pode ser a avaliação — sem perder o respeito ao tempo do candidato.
| Nível / contexto | Instrumentos recomendados | Tempo sugerido | O que observar |
|---|---|---|---|
| Estágio / Júnior | Exercício curto, quiz aplicado, mini-simulação guiada, revisão de portfólio | 30–60 min | Fundamentos, clareza de raciocínio, capacidade de aprender |
| Pleno | Case enxuto, tarefa prática com critérios claros, simulação de rotina | 60–120 min | Qualidade, autonomia, priorização, consistência |
| Sênior / Especialista | Discussão de case realista, revisão de arquitetura/decisões, simulação de incidentes, apresentação técnica | 90–180 min | Trade-offs, impacto, tomada de decisão, mentoria |
| Liderança técnica | Simulação de gestão (planejamento, feedback), análise de roadmap, tomada de decisão com restrições | 90–180 min | Alinhamento, comunicação, gestão de risco, visão sistêmica |
Regra prática: se a avaliação exigir mais de 2 horas de trabalho assíncrono, reavalie o desenho. Muitas vezes é possível medir o mesmo com uma simulação ao vivo de 60–90 minutos ou com um recorte menor do problema.
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Formatos comuns e quando usar
1) Teste objetivo (quiz)
Útil para checar fundamentos e reduzir falsos positivos em volume alto. Deve ser curto e focado em itens essenciais.
- Quando usar: triagem técnica inicial, vagas com muitos candidatos, requisitos normativos.
- Cuidados: não confundir memorização com competência; evite pegadinhas.
2) Case prático (assíncrono)
Útil para observar como a pessoa estrutura uma solução e entrega um artefato (relatório, código, plano, peça de design).
- Quando usar: quando a qualidade do entregável é central e dá para simular sem virar trabalho real.
- Cuidados: delimitar escopo e tempo; fornecer dados fictícios; explicar critérios.
3) Simulação de trabalho (ao vivo)
Reproduz uma situação típica do dia a dia com interação (ex.: depurar um bug, priorizar backlog, responder a um incidente, revisar um texto com feedback).
- Quando usar: para avaliar tomada de decisão, comunicação e colaboração.
- Cuidados: padronizar o roteiro e o papel do avaliador para reduzir viés.
4) Portfólio e amostras anteriores
Analisa evidências já produzidas (projetos, artigos, designs, repositórios). Reduz necessidade de tarefa nova.
- Quando usar: áreas criativas, engenharia, dados, produto, conteúdo.
- Cuidados: considerar contexto (recursos, equipe, restrições); pedir explicação do “porquê” das decisões.
5) Dinâmica de trabalho (com cautela)
Atividade em grupo para observar interação. Pode ser útil, mas frequentemente introduz ruído (dominância, ansiedade, diferenças culturais).
- Quando usar: apenas se colaboração em grupo for central e se houver facilitação experiente.
- Cuidados: garantir turnos de fala, critérios objetivos e acessibilidade; evitar “competição”.
Como desenhar uma avaliação técnica segura (passo a passo)
Passo 1 — Defina o objetivo da avaliação em 1 frase
Exemplos:
- Dados: “Avaliar se a pessoa consegue limpar dados e gerar insights acionáveis com explicações claras.”
- Engenharia: “Avaliar capacidade de escrever código legível e testar uma função simples.”
- Financeiro: “Avaliar domínio de conciliação e identificação de inconsistências com base em extratos fictícios.”
Passo 2 — Escolha 2 a 4 competências técnicas observáveis
Evite listas longas. Competências observáveis são aquelas que aparecem no entregável ou na execução.
- Ex.: “modelagem de dados”, “clareza de comunicação escrita”, “tratamento de erros”, “priorização”.
Passo 3 — Crie uma tarefa representativa e pequena
Uma boa tarefa tem: contexto mínimo, dados/insumos fornecidos, restrições claras e um entregável definido.
Exemplo (Analista de Dados Pleno, 90 min):
- Insumos: planilha fictícia com vendas e atendimento.
- Tarefa: identificar 3 hipóteses para queda de conversão e propor 2 ações.
- Entregável: 1 página (texto + 1 gráfico) explicando método e conclusões.
Exemplo (Dev Júnior, 60 min):
- Insumos: enunciado + testes unitários básicos.
- Tarefa: implementar função de validação e corrigir 1 bug simples.
- Entregável: código + breve explicação de decisões.
Passo 4 — Defina tempo, limite e “o que não é necessário”
Declare explicitamente o tempo esperado e o que não será avaliado para evitar overdelivery.
- Tempo esperado: “60–90 minutos”.
- Limite: “Não precisa criar interface, apenas lógica”.
- O que não é necessário: “Não precisa otimizar para escala; foque em legibilidade e correção”.
Passo 5 — Crie critérios de correção e uma rubrica (com pesos)
Rubrica é uma tabela que descreve níveis de desempenho por critério. Ela reduz subjetividade e facilita calibragem entre avaliadores.
| Critério | Peso | Insuficiente | Adequado | Excelente |
|---|---|---|---|---|
| Correção técnica | 40% | Erros que inviabilizam o resultado | Atende ao enunciado com pequenos ajustes | Atende e antecipa casos de borda |
| Clareza e organização | 25% | Difícil de entender, sem estrutura | Estrutura clara e justificativas básicas | Narrativa objetiva, decisões bem justificadas |
| Raciocínio e trade-offs | 25% | Decisões sem explicação | Explica escolhas principais | Explica alternativas e impactos |
| Cuidados com qualidade | 10% | Sem checagens/validações | Algumas validações | Validações consistentes e atenção a detalhes |
Dica de segurança: inclua um campo “Observações” para registrar evidências (ex.: “explicou por que escolheu X”, “tratou valores nulos”), evitando julgamentos vagos (“parece bom”).
Passo 6 — Prepare um gabarito ou solução de referência (mesmo que parcial)
Para cases abertos, o gabarito pode ser uma lista de pontos esperados, armadilhas comuns e exemplos de boas respostas. Isso ajuda a manter consistência.
Checklist de referência (exemplo - case de dados): 1) Checou dados faltantes e outliers 2) Definiu métrica de conversão corretamente 3) Segmentou por canal e período 4) Propôs hipóteses testáveis 5) Sugeriu ações com impacto e esforçoPasso 7 — Faça um piloto rápido e ajuste
Rode a tarefa internamente (ou com alguém de fora) cronometrando. Se exceder o tempo previsto, corte escopo. Se ficar ambígua, reescreva instruções.
Evitar tarefas extensas e não remuneradas (quando não fizer sentido)
Uma avaliação técnica deve ser uma amostra do trabalho, não uma entrega de valor para a empresa. Para reduzir risco de exploração:
- Use dados fictícios ou anonimizados e cenários genéricos.
- Evite pedir materiais prontos para uso (ex.: “crie 10 posts para a próxima campanha real”, “desenhe a tela do nosso produto atual”). Prefira: “crie 2 exemplos com base em briefing fictício”.
- Limite o escopo com entregáveis pequenos e tempo esperado.
- Ofereça alternativa: portfólio + conversa técnica pode substituir case em alguns perfis.
- Se precisar de algo maior (raro), considere remunerar e formalizar: escopo, prazo, pagamento, propriedade intelectual.
Acessibilidade e inclusão: como não excluir bons candidatos
Avaliações técnicas podem criar barreiras involuntárias. Boas práticas:
- Formato acessível: ofereça enunciado em texto copiável; evite PDFs escaneados; garanta contraste e legibilidade.
- Compatibilidade com leitores de tela: tabelas simples, imagens com descrição quando necessário, arquivos editáveis.
- Flexibilidade razoável: permitir extensão de prazo quando houver justificativa (ex.: necessidade de acessibilidade, fuso, responsabilidades de cuidado).
- Evite dependência de ferramentas pagas para executar a tarefa; se for inevitável, forneça alternativa gratuita.
- Não penalize estilo neurodivergente quando não for requisito do cargo (ex.: comunicação oral performática em simulação que poderia ser escrita).
- Ambiente ao vivo: explique regras, tempo, se pode pesquisar, se pode fazer perguntas, e como será a interação.
Comunicação clara ao candidato: modelo de briefing do teste
Uma comunicação clara reduz ansiedade, melhora a qualidade das respostas e aumenta a percepção de justiça. Inclua sempre:
- Objetivo: por que esse teste existe e o que ele mede.
- Formato: assíncrono/ao vivo, ferramentas permitidas, se pode consultar materiais.
- Tempo esperado: e prazo final de entrega.
- Entregável: arquivo, link, texto, apresentação, repositório.
- Critérios de avaliação: rubrica resumida (o que pesa mais).
- Políticas: confidencialidade, uso de IA (permitido/limitado), autoria.
- Acessibilidade: canal para solicitar adaptações.
- Próximos passos: quando terá retorno e como será a devolutiva.
Exemplo de mensagem (adaptável):
Objetivo: avaliar como você estrutura uma solução e comunica decisões técnicas. Formato: case assíncrono. Tempo esperado: 90 min (não recomendamos exceder isso). Prazo: até 3 dias após o envio. Entregável: 1 página em PDF/Doc com 1 gráfico e suas conclusões. O que será avaliado: correção do raciocínio, clareza, justificativas e cuidados com qualidade (rubrica anexa). Você pode consultar materiais e usar ferramentas comuns; descreva o que utilizou. Se precisar de adaptação de acessibilidade ou ajuste de prazo, responda este e-mail.Correção com segurança: consistência, vieses e rastreabilidade
Calibragem entre avaliadores
Se mais de uma pessoa corrige, alinhe antes com 2 ou 3 respostas exemplo (uma fraca, uma média, uma forte). Isso reduz discrepâncias.
Separar “gosto pessoal” de critério
Ex.: preferir uma linguagem de programação específica não deve ser critério se o cargo aceita alternativas. O critério deve ser “clareza, correção e manutenção”, não “meu estilo”.
Registro de evidências
Para cada critério, registre 1–3 evidências observáveis. Exemplo: “tratou valores nulos”, “explicou trade-off entre precisão e tempo”, “testes cobrindo caso de borda”.
Como integrar o resultado do teste à decisão (sem ser instrumento único)
O resultado da avaliação técnica deve entrar como uma evidência dentro do conjunto de informações do processo. Para não transformar um único instrumento em “sentença”, use estas práticas:
- Defina faixas de decisão: por exemplo, “Aprovado”, “Aprovado com ressalvas”, “Reprovado”, com gatilhos claros (ex.: erro crítico em requisito essencial).
- Combine com outras evidências: se o teste foi mediano, mas há forte evidência em portfólio e simulação ao vivo, investigue discrepâncias com perguntas direcionadas.
- Faça uma entrevista de devolutiva técnica curta: 15–30 min para a pessoa explicar decisões, responder perguntas e corrigir mal-entendidos. Isso diferencia falta de tempo de falta de competência.
- Considere contexto: tempo limitado, nervosismo, familiaridade com ferramenta. Avalie o que é essencial para o cargo e o que é treinável.
- Documente a decisão: registre como o resultado do teste influenciou a recomendação (ex.: “atendeu aos requisitos essenciais; pontos de melhoria em X, mitigáveis com onboarding”).
Uma forma simples de integrar é usar uma matriz de evidências, onde o teste técnico é apenas uma das colunas, e a decisão final se baseia no padrão consistente de sinais — não em um único desempenho pontual.