Recrutamento e Seleção: testes, cases e avaliações técnicas com segurança

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que são avaliações técnicas e por que usar

Avaliações técnicas são instrumentos práticos para observar, com evidências, como a pessoa candidata executa atividades relacionadas ao trabalho. Elas podem assumir formatos diferentes (teste objetivo, case, simulação, exercício de pair, análise de portfólio), mas têm o mesmo propósito: reduzir suposições e aumentar a previsibilidade de desempenho em tarefas-chave do cargo.

Use avaliações técnicas quando: (1) a função exige entrega prática verificável (ex.: programar, analisar dados, desenhar interfaces, redigir textos, operar rotinas financeiras), (2) o risco de erro é alto (ex.: compliance, segurança, produção), (3) há grande variação de nível entre candidatos com currículos semelhantes, (4) a entrevista não é suficiente para demonstrar execução (ex.: raciocínio lógico, qualidade de código, clareza de escrita).

Evite ou simplifique quando: (1) o cargo é muito inicial e você consegue avaliar por exercícios curtos, (2) o trabalho é altamente confidencial e não dá para simular sem expor dados, (3) o tempo de contratação é crítico e o teste não agregará informação nova, (4) a tarefa tende a virar “trabalho real” não remunerado.

Proporcionalidade: escolher o instrumento certo para o nível do cargo

O princípio central é proporcionalidade: quanto maior o impacto do cargo e maior a complexidade técnica, mais robusta pode ser a avaliação — sem perder o respeito ao tempo do candidato.

Nível / contextoInstrumentos recomendadosTempo sugeridoO que observar
Estágio / JúniorExercício curto, quiz aplicado, mini-simulação guiada, revisão de portfólio30–60 minFundamentos, clareza de raciocínio, capacidade de aprender
PlenoCase enxuto, tarefa prática com critérios claros, simulação de rotina60–120 minQualidade, autonomia, priorização, consistência
Sênior / EspecialistaDiscussão de case realista, revisão de arquitetura/decisões, simulação de incidentes, apresentação técnica90–180 minTrade-offs, impacto, tomada de decisão, mentoria
Liderança técnicaSimulação de gestão (planejamento, feedback), análise de roadmap, tomada de decisão com restrições90–180 minAlinhamento, comunicação, gestão de risco, visão sistêmica

Regra prática: se a avaliação exigir mais de 2 horas de trabalho assíncrono, reavalie o desenho. Muitas vezes é possível medir o mesmo com uma simulação ao vivo de 60–90 minutos ou com um recorte menor do problema.

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Formatos comuns e quando usar

1) Teste objetivo (quiz)

Útil para checar fundamentos e reduzir falsos positivos em volume alto. Deve ser curto e focado em itens essenciais.

  • Quando usar: triagem técnica inicial, vagas com muitos candidatos, requisitos normativos.
  • Cuidados: não confundir memorização com competência; evite pegadinhas.

2) Case prático (assíncrono)

Útil para observar como a pessoa estrutura uma solução e entrega um artefato (relatório, código, plano, peça de design).

  • Quando usar: quando a qualidade do entregável é central e dá para simular sem virar trabalho real.
  • Cuidados: delimitar escopo e tempo; fornecer dados fictícios; explicar critérios.

3) Simulação de trabalho (ao vivo)

Reproduz uma situação típica do dia a dia com interação (ex.: depurar um bug, priorizar backlog, responder a um incidente, revisar um texto com feedback).

  • Quando usar: para avaliar tomada de decisão, comunicação e colaboração.
  • Cuidados: padronizar o roteiro e o papel do avaliador para reduzir viés.

4) Portfólio e amostras anteriores

Analisa evidências já produzidas (projetos, artigos, designs, repositórios). Reduz necessidade de tarefa nova.

  • Quando usar: áreas criativas, engenharia, dados, produto, conteúdo.
  • Cuidados: considerar contexto (recursos, equipe, restrições); pedir explicação do “porquê” das decisões.

5) Dinâmica de trabalho (com cautela)

Atividade em grupo para observar interação. Pode ser útil, mas frequentemente introduz ruído (dominância, ansiedade, diferenças culturais).

  • Quando usar: apenas se colaboração em grupo for central e se houver facilitação experiente.
  • Cuidados: garantir turnos de fala, critérios objetivos e acessibilidade; evitar “competição”.

Como desenhar uma avaliação técnica segura (passo a passo)

Passo 1 — Defina o objetivo da avaliação em 1 frase

Exemplos:

  • Dados: “Avaliar se a pessoa consegue limpar dados e gerar insights acionáveis com explicações claras.”
  • Engenharia: “Avaliar capacidade de escrever código legível e testar uma função simples.”
  • Financeiro: “Avaliar domínio de conciliação e identificação de inconsistências com base em extratos fictícios.”

Passo 2 — Escolha 2 a 4 competências técnicas observáveis

Evite listas longas. Competências observáveis são aquelas que aparecem no entregável ou na execução.

  • Ex.: “modelagem de dados”, “clareza de comunicação escrita”, “tratamento de erros”, “priorização”.

Passo 3 — Crie uma tarefa representativa e pequena

Uma boa tarefa tem: contexto mínimo, dados/insumos fornecidos, restrições claras e um entregável definido.

Exemplo (Analista de Dados Pleno, 90 min):

  • Insumos: planilha fictícia com vendas e atendimento.
  • Tarefa: identificar 3 hipóteses para queda de conversão e propor 2 ações.
  • Entregável: 1 página (texto + 1 gráfico) explicando método e conclusões.

Exemplo (Dev Júnior, 60 min):

  • Insumos: enunciado + testes unitários básicos.
  • Tarefa: implementar função de validação e corrigir 1 bug simples.
  • Entregável: código + breve explicação de decisões.

Passo 4 — Defina tempo, limite e “o que não é necessário”

Declare explicitamente o tempo esperado e o que não será avaliado para evitar overdelivery.

  • Tempo esperado: “60–90 minutos”.
  • Limite: “Não precisa criar interface, apenas lógica”.
  • O que não é necessário: “Não precisa otimizar para escala; foque em legibilidade e correção”.

Passo 5 — Crie critérios de correção e uma rubrica (com pesos)

Rubrica é uma tabela que descreve níveis de desempenho por critério. Ela reduz subjetividade e facilita calibragem entre avaliadores.

CritérioPesoInsuficienteAdequadoExcelente
Correção técnica40%Erros que inviabilizam o resultadoAtende ao enunciado com pequenos ajustesAtende e antecipa casos de borda
Clareza e organização25%Difícil de entender, sem estruturaEstrutura clara e justificativas básicasNarrativa objetiva, decisões bem justificadas
Raciocínio e trade-offs25%Decisões sem explicaçãoExplica escolhas principaisExplica alternativas e impactos
Cuidados com qualidade10%Sem checagens/validaçõesAlgumas validaçõesValidações consistentes e atenção a detalhes

Dica de segurança: inclua um campo “Observações” para registrar evidências (ex.: “explicou por que escolheu X”, “tratou valores nulos”), evitando julgamentos vagos (“parece bom”).

Passo 6 — Prepare um gabarito ou solução de referência (mesmo que parcial)

Para cases abertos, o gabarito pode ser uma lista de pontos esperados, armadilhas comuns e exemplos de boas respostas. Isso ajuda a manter consistência.

Checklist de referência (exemplo - case de dados): 1) Checou dados faltantes e outliers 2) Definiu métrica de conversão corretamente 3) Segmentou por canal e período 4) Propôs hipóteses testáveis 5) Sugeriu ações com impacto e esforço

Passo 7 — Faça um piloto rápido e ajuste

Rode a tarefa internamente (ou com alguém de fora) cronometrando. Se exceder o tempo previsto, corte escopo. Se ficar ambígua, reescreva instruções.

Evitar tarefas extensas e não remuneradas (quando não fizer sentido)

Uma avaliação técnica deve ser uma amostra do trabalho, não uma entrega de valor para a empresa. Para reduzir risco de exploração:

  • Use dados fictícios ou anonimizados e cenários genéricos.
  • Evite pedir materiais prontos para uso (ex.: “crie 10 posts para a próxima campanha real”, “desenhe a tela do nosso produto atual”). Prefira: “crie 2 exemplos com base em briefing fictício”.
  • Limite o escopo com entregáveis pequenos e tempo esperado.
  • Ofereça alternativa: portfólio + conversa técnica pode substituir case em alguns perfis.
  • Se precisar de algo maior (raro), considere remunerar e formalizar: escopo, prazo, pagamento, propriedade intelectual.

Acessibilidade e inclusão: como não excluir bons candidatos

Avaliações técnicas podem criar barreiras involuntárias. Boas práticas:

  • Formato acessível: ofereça enunciado em texto copiável; evite PDFs escaneados; garanta contraste e legibilidade.
  • Compatibilidade com leitores de tela: tabelas simples, imagens com descrição quando necessário, arquivos editáveis.
  • Flexibilidade razoável: permitir extensão de prazo quando houver justificativa (ex.: necessidade de acessibilidade, fuso, responsabilidades de cuidado).
  • Evite dependência de ferramentas pagas para executar a tarefa; se for inevitável, forneça alternativa gratuita.
  • Não penalize estilo neurodivergente quando não for requisito do cargo (ex.: comunicação oral performática em simulação que poderia ser escrita).
  • Ambiente ao vivo: explique regras, tempo, se pode pesquisar, se pode fazer perguntas, e como será a interação.

Comunicação clara ao candidato: modelo de briefing do teste

Uma comunicação clara reduz ansiedade, melhora a qualidade das respostas e aumenta a percepção de justiça. Inclua sempre:

  • Objetivo: por que esse teste existe e o que ele mede.
  • Formato: assíncrono/ao vivo, ferramentas permitidas, se pode consultar materiais.
  • Tempo esperado: e prazo final de entrega.
  • Entregável: arquivo, link, texto, apresentação, repositório.
  • Critérios de avaliação: rubrica resumida (o que pesa mais).
  • Políticas: confidencialidade, uso de IA (permitido/limitado), autoria.
  • Acessibilidade: canal para solicitar adaptações.
  • Próximos passos: quando terá retorno e como será a devolutiva.

Exemplo de mensagem (adaptável):

Objetivo: avaliar como você estrutura uma solução e comunica decisões técnicas. Formato: case assíncrono. Tempo esperado: 90 min (não recomendamos exceder isso). Prazo: até 3 dias após o envio. Entregável: 1 página em PDF/Doc com 1 gráfico e suas conclusões. O que será avaliado: correção do raciocínio, clareza, justificativas e cuidados com qualidade (rubrica anexa). Você pode consultar materiais e usar ferramentas comuns; descreva o que utilizou. Se precisar de adaptação de acessibilidade ou ajuste de prazo, responda este e-mail.

Correção com segurança: consistência, vieses e rastreabilidade

Calibragem entre avaliadores

Se mais de uma pessoa corrige, alinhe antes com 2 ou 3 respostas exemplo (uma fraca, uma média, uma forte). Isso reduz discrepâncias.

Separar “gosto pessoal” de critério

Ex.: preferir uma linguagem de programação específica não deve ser critério se o cargo aceita alternativas. O critério deve ser “clareza, correção e manutenção”, não “meu estilo”.

Registro de evidências

Para cada critério, registre 1–3 evidências observáveis. Exemplo: “tratou valores nulos”, “explicou trade-off entre precisão e tempo”, “testes cobrindo caso de borda”.

Como integrar o resultado do teste à decisão (sem ser instrumento único)

O resultado da avaliação técnica deve entrar como uma evidência dentro do conjunto de informações do processo. Para não transformar um único instrumento em “sentença”, use estas práticas:

  • Defina faixas de decisão: por exemplo, “Aprovado”, “Aprovado com ressalvas”, “Reprovado”, com gatilhos claros (ex.: erro crítico em requisito essencial).
  • Combine com outras evidências: se o teste foi mediano, mas há forte evidência em portfólio e simulação ao vivo, investigue discrepâncias com perguntas direcionadas.
  • Faça uma entrevista de devolutiva técnica curta: 15–30 min para a pessoa explicar decisões, responder perguntas e corrigir mal-entendidos. Isso diferencia falta de tempo de falta de competência.
  • Considere contexto: tempo limitado, nervosismo, familiaridade com ferramenta. Avalie o que é essencial para o cargo e o que é treinável.
  • Documente a decisão: registre como o resultado do teste influenciou a recomendação (ex.: “atendeu aos requisitos essenciais; pontos de melhoria em X, mitigáveis com onboarding”).

Uma forma simples de integrar é usar uma matriz de evidências, onde o teste técnico é apenas uma das colunas, e a decisão final se baseia no padrão consistente de sinais — não em um único desempenho pontual.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao desenhar uma avaliação técnica para uma vaga, qual abordagem melhor aplica o princípio de proporcionalidade e segurança para o candidato?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A avaliação deve ser proporcional ao nível e impacto do cargo, respeitando o tempo do candidato. Para ser segura, precisa de escopo e critérios claros e deve evitar virar “trabalho real” não remunerado, usando recortes e insumos adequados.

Próximo capitúlo

Recrutamento e Seleção: checagem de referências e validações finais

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