O que é uma entrevista estruturada (e por que ela melhora a decisão)
Entrevista estruturada é uma conversa conduzida com roteiro padronizado, critérios observáveis e registro de evidências. Em vez de “bater papo” e decidir por impressão, você compara candidatos com base nas mesmas perguntas, na mesma ordem (ou blocos) e com a mesma régua de avaliação.
Na prática, isso reduz vieses (ex.: afinidade, primeira impressão), aumenta a consistência entre entrevistadores e facilita justificar a decisão com fatos: o que a pessoa fez, como fez, qual foi o resultado e qual foi o nível de domínio demonstrado.
Preparação: o que deixar pronto antes de chamar o candidato
1) Transforme competências em perguntas e evidências
Para cada competência a avaliar, defina:
- O que observar (comportamentos e evidências): entregas, decisões, métricas, exemplos concretos.
- Perguntas (comportamentais/situacionais/técnicas).
- Critérios de pontuação (ex.: 1 a 4) com descritores claros.
Exemplo (competência: priorização):
- Evidências: critérios usados, trade-offs, impacto no prazo/qualidade, comunicação com stakeholders.
- Pergunta comportamental: “Conte sobre uma semana em que você teve demandas conflitantes e pouco tempo. Como decidiu o que fazer primeiro?”
- Pergunta situacional: “Se duas áreas pedirem entregas urgentes e você só conseguir atender uma hoje, como você decide e comunica?”
2) Monte um roteiro com blocos e tempo
Um roteiro estruturado não precisa ser engessado; ele garante cobertura do que importa e comparabilidade. Sugestão de agenda (60 minutos):
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- 0–5 min: abertura e alinhamento do formato
- 5–10 min: contextualização do cargo e do time
- 10–45 min: perguntas por competência + aprofundamento por evidências
- 45–55 min: validação técnica (quando aplicável) e perguntas situacionais
- 55–60 min: dúvidas do candidato e próximos passos
Se a entrevista for de 30 minutos, reduza o número de competências (mostrar profundidade em 2–3 competências é melhor do que superficialidade em 6).
3) Prepare um formulário de registro de evidências
Use um template para anotar fatos (não interpretações). Estrutura recomendada:
- Pergunta
- Evidências citadas (o que fez, com quem, quando, ferramentas, métricas)
- Resultado (impacto, números, aprendizado)
- Pontuação + justificativa curta
- Sinais de alerta (se houver) com base em fatos
Exemplo de anotação objetiva:
Pergunta: Conte um conflito com stakeholder e como resolveu. Evidências: alinhou expectativas em reunião, propôs escopo mínimo, registrou decisões por e-mail. Resultado: prazo mantido, retrabalho reduziu (estimativa 20%). Nota: 3/4 (boa negociação; faltou mostrar como preveniu recorrência).4) Combine papéis (se houver mais de um entrevistador)
- Entrevistador principal: conduz o roteiro e controla o tempo.
- Entrevistador de apoio: aprofunda evidências e registra notas.
- Regra: alinhar antes quais competências cada um avalia para evitar redundância.
Condução profissional: passo a passo da entrevista estruturada
1) Abertura (0–5 min): rapport com objetividade
Objetivo: deixar o candidato confortável e explicar o processo, sem transformar a entrevista em conversa informal sem foco.
Script sugerido:
- “Obrigado por participar. Vou conduzir com um roteiro para garantir que avaliamos os mesmos pontos para todos.”
- “Teremos cerca de X minutos. Vou fazer perguntas sobre experiências e situações; pode usar exemplos específicos.”
- “Vou anotar alguns pontos para não perder detalhes, tudo bem?”
Rapport pode ser criado com tom cordial, escuta ativa e clareza, sem perguntas pessoais. Evite abrir com temas sensíveis (família, religião, política, saúde).
2) Contextualização da vaga (5–10 min): alinhar entendimento
Apresente um resumo objetivo do escopo e do que será avaliado na conversa. Isso reduz respostas fora de contexto.
- Missão do cargo em 1–2 frases
- Principais interfaces (com quem trabalha)
- Exemplos de entregas do dia a dia
- Como será a avaliação (competências + técnica, quando aplicável)
Exemplo:
“Nesta posição, a pessoa vai conduzir demandas com as áreas X e Y, priorizar backlog semanal e garantir entregas com qualidade. Hoje vou focar em priorização, comunicação com stakeholders e resolução de problemas; no final, faço algumas perguntas técnicas.”
3) Perguntas por competência (10–45 min): comportamento passado como evidência
Priorize perguntas comportamentais porque elas tendem a revelar padrões reais (“o que você fez”) em vez de intenções (“o que você faria”).
Técnica STAR para perguntas comportamentais
STAR organiza a resposta em:
- Situação: contexto
- Tarefa: responsabilidade
- Ação: o que fez (passo a passo)
- Resultado: impacto e aprendizado
Como conduzir com STAR (perguntas de aprofundamento):
- Se faltar contexto: “Qual era o cenário? Quem estava envolvido?”
- Se ficar genérico: “O que exatamente você fez? Qual foi sua parte?”
- Se pular para o resultado: “Quais foram as etapas e decisões no meio do caminho?”
- Se não houver métrica: “Como vocês mediram que deu certo?”
- Se for trabalho em equipe: “O que foi decisão sua e o que foi do time?”
Exemplos de perguntas comportamentais por competência
| Competência | Pergunta comportamental | Evidências observáveis |
|---|---|---|
| Comunicação | “Conte sobre uma vez em que você precisou explicar um tema complexo para alguém não técnico.” | Estrutura da explicação, adaptação ao público, checagem de entendimento, materiais usados |
| Resolução de problemas | “Fale de um problema difícil que você investigou. Como chegou à causa?” | Hipóteses, dados coletados, método, testes, decisão, prevenção |
| Colaboração | “Descreva um projeto em que houve divergência no time. Como vocês chegaram a um acordo?” | Escuta, negociação, critérios, influência sem autoridade, acordos registrados |
| Autonomia | “Conte sobre uma entrega em que você teve pouca orientação. Como se organizou?” | Planejamento, busca de informação, checkpoints, gestão de riscos |
4) Perguntas situacionais (45–55 min): julgamento e tomada de decisão
Perguntas situacionais avaliam como a pessoa raciocina diante de um cenário provável do cargo. Para serem úteis, precisam de critérios observáveis (o que seria uma boa resposta) e devem evitar “pegadinhas”.
Modelo de pergunta situacional bem construída:
- Cenário realista (com restrições)
- Objetivo (o que precisa acontecer)
- Conflito (trade-off)
- Critérios (o que você vai observar)
Exemplo (cargo com interface intensa):
“Você recebe uma demanda urgente de uma área, mas já existe um compromisso com outra entrega. Você não consegue fazer as duas hoje. Como você decide o que priorizar e como comunica para cada parte?”
O que observar: critérios de priorização, transparência, alinhamento de expectativa, proposta de alternativas, registro e follow-up.
5) Validação técnica (conforme o cargo): evidência prática, não “quiz”
Validação técnica deve checar se a pessoa consegue executar o essencial do cargo. Prefira perguntas que revelem processo e qualidade de decisão, além de conhecimento.
Formatos comuns
- Perguntas de explicação: “Como você faria X? Quais passos? Quais riscos?”
- Estudo de caso curto: cenário + pedido de plano de ação
- Revisão de artefato: pedir para analisar um exemplo (texto, requisito, relatório) e apontar melhorias
Exemplos (adapte ao cargo)
- Analista de dados: “Você recebeu uma base com valores faltantes e duplicados. Como trataria e como validaria que não distorceu o resultado?” (observar: checagens, documentação, testes, impacto)
- Vendas: “Como você qualifica um lead? Quais perguntas faz e como decide se vale avançar?” (observar: critérios, escuta, próximos passos)
- Atendimento: “Cliente irritado por atraso. Como você conduz a conversa e registra o caso?” (observar: empatia objetiva, solução, política, registro)
- Desenvolvimento: “Dado um bug intermitente em produção, como você investigaria?” (observar: hipóteses, logs, reprodução, mitigação, comunicação)
Critério importante: avalie o que é observável (passos, decisões, trade-offs, qualidade do raciocínio) e não apenas “acertou/errou”.
Gestão de tempo durante a entrevista (sem perder profundidade)
Regras práticas de condução
- Use “timeboxes” por bloco: avise mentalmente que cada competência tem, por exemplo, 8–10 minutos.
- Interrompa com educação quando necessário: “Vou te interromper para garantir que cobrimos os pontos principais. Pode focar no que você fez e no resultado?”
- Priorize aprofundamento: se uma resposta trouxe um bom exemplo, aprofunde. Se está genérica, peça um exemplo específico ou avance.
- Controle o “aquecimento”: abertura curta e objetiva; evite gastar 15 minutos em conversa inicial.
Estratégia de “funil” para aprofundar
Comece amplo e vá estreitando:
- Amplo: “Conte sobre um projeto desafiador.”
- Específico: “Qual foi sua responsabilidade direta?”
- Detalhe: “Quais decisões você tomou? Por quê?”
- Evidência: “Que dados você usou? Qual foi o resultado mensurável?”
- Aprendizado: “O que faria diferente hoje?”
Registro de evidências: como anotar sem perder a conexão
Boas práticas
- Avise que vai anotar no início para normalizar.
- Anote palavras-chave e números: prazos, volume, métricas, ferramentas, decisões.
- Separe fato de interpretação: fato é “reduziu retrabalho em 20%”; interpretação é “é muito bom”.
- Use citações curtas quando algo for relevante: “eu negociei o escopo mínimo com X”.
Exemplo de ficha de entrevista (modelo simples)
Competência: Resolução de problemas Pergunta: Descreva um problema difícil que você investigou. Evidências (fatos): - Coletou logs A e B; comparou períodos. - Hipótese: falha em integração; testou em staging. - Ação: rollback + correção; criou alerta. Resultado: incidentes mostraram queda; tempo de resposta reduziu. Nota (1-4): __ Justificativa: __Como criar rapport sem perder objetividade
Rapport não é intimidade; é segurança psicológica para a pessoa responder com clareza. Você mantém profissionalismo com:
- Tom respeitoso e neutro, sem julgamentos.
- Escuta ativa: resumir e confirmar (“Entendi que o desafio era X, certo?”).
- Transparência do processo: explicar etapas e tempo.
- Consistência: tratar todos com o mesmo padrão de perguntas e tempo.
Evite “conversa de afinidade” (hobbies, família, origem) como base de conexão, porque aumenta viés e pode levar a temas inadequados.
Perguntas inadequadas: o que evitar e como redirecionar
Temas que não devem entrar na entrevista
Evite perguntas sobre vida pessoal, crenças ou temas sensíveis que não sejam requisito legítimo do trabalho. Exemplos de tópicos inadequados:
- Estado civil, filhos, gravidez, planos de ter filhos
- Religião, orientação política
- Origem, nacionalidade (quando não relacionado a requisito legal), etnia
- Saúde, deficiência (exceto para oferecer acessibilidade e condições adequadas)
- Idade (quando não for requisito legal específico)
- Orientação sexual
Como agir se o candidato trouxer espontaneamente um tema sensível
- Não aprofunde no tema.
- Redirecione para o trabalho: “Obrigado por compartilhar. Para eu avaliar bem, você pode me contar como você lidou com X no contexto profissional?”
- Registre apenas o que for relevante ao trabalho (evite anotar detalhes pessoais).
Encerramento da entrevista: dúvidas e próximos passos (sem promessas)
Espaço para dúvidas do candidato
Reserve tempo real (5–10 minutos). Perguntas do candidato também geram evidências (ex.: maturidade, entendimento do papel), mas evite “pontuar” com base em carisma; foque no conteúdo.
Perguntas que você pode responder de forma objetiva:
- Rotina do time e principais desafios
- Como é a interação com áreas parceiras
- Critérios gerais de sucesso nos primeiros meses
- Etapas do processo e prazos estimados
Próximos passos e alinhamento final
- Explique a sequência: “Vamos consolidar as entrevistas e retornamos até dia X.”
- Confirme disponibilidade para etapas futuras (se aplicável).
- Reforce canal de contato para dúvidas administrativas.
Evite prometer resultado (“você passou”) durante a entrevista; mantenha a comunicação consistente com o processo.