Recebimento e Conferência: Rotinas que Sustentam um Estoque Organizado

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que o recebimento “define” o nível de organização do estoque

Recebimento e conferência são as rotinas que impedem que erros (quantidade, produto, lote, validade, avaria) entrem no estoque e se multipliquem. Um estoque pode ter layout e endereçamento bem desenhados, mas se a entrada não tiver disciplina, rapidamente surgem itens “sem dono”, caixas abertas, produtos sem identificação e divergências difíceis de rastrear.

O objetivo do processo de entrada é simples: tudo que entra deve ser verificado, identificado e direcionado antes de virar “estoque disponível”. Isso exige um fluxo padrão, critérios de aceite claros e uma área de recebimento preparada para operar sem improvisos.

Fluxo padrão de recebimento (visão geral)

Use sempre a mesma sequência para reduzir variações e facilitar treinamento:

  • Agendamento/triagem (planejar chegada e capacidade)
  • Recepção e pré-checagem documental (o que deveria chegar?)
  • Conferência quantitativa (quanto chegou?)
  • Conferência qualitativa (como chegou?)
  • Identificação imediata (etiquetar antes de movimentar)
  • Separação por setor (direcionar para o fluxo correto)
  • Tratativa de divergências (registrar, bloquear, decidir)
  • Quarentena (isolar o que não pode seguir)
  • Liberação para armazenagem (somente com etiqueta e destino definido)

Passo a passo prático do recebimento

1) Agendamento e triagem (antes do caminhão chegar)

O agendamento evita picos que “estouram” a área de recebimento e forçam atalhos (como guardar sem conferir). Defina janelas de entrega por fornecedor/transportadora e limite de docas/tempo por descarga.

  • Capacidade: quantas descargas por hora sua equipe consegue conferir sem perder qualidade?
  • Prioridade: itens críticos (alta demanda, produção, perecíveis) ganham janela dedicada.
  • Pré-alerta: peça ao fornecedor a lista do que vem (nota/romaneio/ASN) para preparar conferência e espaço.

Triagem na chegada: ao encostar, classifique rapidamente a entrega em “padrão”, “sensível” (frágil/temperatura), “controlado” (lote/validade obrigatórios) ou “alto volume”. Isso define o tipo de conferência e a zona temporária.

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2) Recepção e pré-checagem documental

Antes de abrir volumes, valide se a entrega é esperada e se os documentos batem com o combinado.

  • Fornecedor/transportadora corretos
  • Número da nota/romaneio e data
  • Pedido de compra associado (quando aplicável)
  • Condições de transporte (ex.: lacre, integridade, temperatura informada)

Se houver inconsistência grosseira (ex.: nota de outro destinatário), não descarregue para dentro da área. Mantenha no veículo/doca e acione o responsável.

3) Conferência quantitativa (quanto chegou)

Escolha o método conforme risco e criticidade. Padronize para não depender de “jeito de cada conferente”.

  • 100% (recomendado): itens de alto valor, controlados por lote/validade, críticos para operação, histórico de divergência.
  • Amostragem: itens de baixo risco e fornecedor confiável, com regra clara (ex.: 10% dos volumes e, se houver erro, vira 100%).
  • Por volume vs. por unidade: caixas lacradas podem ser conferidas por volume quando o risco é baixo; caixas abertas exigem contagem por unidade.

Boas práticas:

  • Conte em local iluminado, com mesa e espaço para separar “conferido” e “não conferido”.
  • Use marcação física: fita, etiqueta “CONFERIDO”, ou pallet identificado para não misturar.
  • Evite “contagem de cabeça” em cima do pallet sem separar; isso gera erro e retrabalho.

4) Conferência qualitativa (como chegou)

A conferência qualitativa garante que o item está em condição de uso e dentro dos critérios de aceite. Ela deve acontecer junto da quantitativa, antes de o material seguir para qualquer área interna.

  • Embalagem: amassados, violação, umidade, contaminação, lacre rompido.
  • Produto: integridade, cor/odor anormal, peças faltantes, acessórios.
  • Identificação do fabricante: código, descrição, lote/serial, validade (quando aplicável).
  • Condições especiais: temperatura, itens frágeis, químicos (verificar vazamento).

Exemplo prático: chegaram 20 caixas de um item. Quantitativo confere (20), mas 3 caixas estão molhadas. Resultado: 17 caixas seguem, 3 vão para quarentena com registro de avaria e evidência fotográfica.

5) Identificação imediata (etiquetar antes de movimentar)

Regra de ouro: nada anda para dentro do estoque sem identificação mínima. A identificação deve ser aplicada ainda na área de recebimento, logo após a conferência.

Na prática, isso significa:

  • Gerar/imprimir etiqueta de recebimento (ou etiqueta interna) no ato.
  • Aplicar em local visível do volume (caixa/pallet/bin), sem cobrir informações do fabricante.
  • Quando houver lote/validade/serial, garantir que conste no registro e que o volume esteja vinculado a isso.

Controle de exceção: se o sistema/etiquetadora falhar, use etiqueta provisória padronizada (ex.: “ETIQUETA MANUAL”) com campos obrigatórios preenchidos e prazo curto para regularização. Sem isso, o item fica em quarentena administrativa.

6) Separação por setor (direcionar para o fluxo correto)

Após identificado, o material deve ser separado em zonas temporárias por destino operacional. Isso evita que itens diferentes se misturem e reduz deslocamentos.

  • Zona A: itens para armazenagem padrão
  • Zona B: itens para cross-docking/separação imediata (se aplicável)
  • Zona C: itens controlados (lote/validade/serial) aguardando validação
  • Zona D: itens para quarentena (avaria/divergência)

O critério de separação deve ser visual e físico (demarcação no piso, placas, pallets/bins dedicados). A equipe precisa bater o olho e entender onde colocar.

7) Tratativa de divergências (quantidade, item, lote, validade, avaria)

Divergência não pode virar “ajuste informal”. Ela precisa de registro, bloqueio e decisão rápida para não contaminar o estoque.

Tipos comuns:

  • Falta: veio menos do que o documento/pedido
  • Sobra: veio mais (não assumir como “bônus” sem validação)
  • Troca: item diferente do solicitado
  • Lote/validade divergentes: lote não informado, validade menor que a mínima
  • Avaria: dano visível, violação, contaminação

Rotina de tratativa:

  • Isolar o material divergente em área de quarentena (física e sistêmica, quando aplicável).
  • Registrar a ocorrência (data/hora, fornecedor, nota, item, quantidade, tipo de divergência, responsável pela conferência).
  • Evidenciar: fotos do volume, etiqueta do fabricante, avaria, lacre, etc.
  • Notificar o responsável (compras/qualidade/gestor) com prazo de resposta.
  • Decidir: devolver, substituir, aceitar com ressalva, reclassificar, ajustar documento.

Importante: material com divergência não deve ser “guardado para depois resolver”. Se ele entra no estoque, vira perda de rastreabilidade.

8) Quarentena (quando e como usar)

Quarentena é uma zona controlada para itens que não podem ser liberados. Ela evita que materiais indevidos sejam usados ou vendidos.

Quando colocar em quarentena:

  • Avaria ou suspeita de avaria
  • Divergência de item/quantidade sem decisão
  • Falta de identificação mínima
  • Lote/validade ausentes, ilegíveis ou fora do critério
  • Suspeita de contaminação/violação

Como operar:

  • Área demarcada e sinalizada como “QUARENTENA”
  • Acesso restrito (não é área de passagem)
  • Volumes com etiqueta de bloqueio (ex.: “NÃO UTILIZAR / AGUARDANDO ANÁLISE”)
  • Prazo de permanência e responsável definido (quem decide e em quanto tempo)

Checklist de conferência (modelo prático)

Use um checklist simples, repetível e auditável. Abaixo um modelo que pode ser impresso ou usado em formulário:

EtapaVerificaçãoOK/Não OKObservações
DocumentosNota/romaneio corresponde ao fornecedor e à entrega
VolumesQuantidade de volumes confere com documento
ProdutoCódigo/descrição conferem com o esperado
QuantidadeUnidades por volume conferem (contagem 100% ou amostragem)
QualidadeSem avarias, violação, umidade, contaminação
Lote/ValidadeInformados, legíveis e dentro do mínimo aceito
IdentificaçãoEtiqueta interna aplicada no volume/pallet/bin
DestinoSeparado na zona correta (armazenagem/cross/quarentena)
RegistroEntrada registrada e divergências abertas quando necessário

Critérios de aceite (definições que evitam discussão na doca)

Critérios de aceite são regras objetivas para decidir se o material entra, entra com ressalva ou é bloqueado. Defina por categoria de produto, mas mantenha um núcleo comum:

  • Integridade: não aceitar embalagem violada quando isso compromete o produto (ex.: lacre rompido em itens sensíveis).
  • Avaria: definir tolerância zero para itens críticos; para outros, definir limite (ex.: até X% de caixas amassadas sem dano ao produto).
  • Validade mínima: regra clara (ex.: “mínimo 70% da validade total” ou “mínimo 6 meses”).
  • Lote/serial obrigatório: se faltar, vai para quarentena administrativa até regularizar.
  • Condições de transporte: temperatura, ausência de vazamento, ausência de odor anormal.

Exemplo: para produtos com validade, critério: “não aceitar itens com validade inferior a 120 dias”. Se chegar com 90 dias, registrar e bloquear para decisão (devolução ou negociação).

Registro de avarias (como padronizar)

Registro de avaria precisa ser rápido e completo o suficiente para suportar devolução, crédito ou substituição.

Campos mínimos:

  • Data/hora e responsável
  • Fornecedor/transportadora
  • Documento (nota/romaneio)
  • Item (código/descrição) e quantidade afetada
  • Tipo de avaria (amassado, molhado, quebrado, violado, vazamento etc.)
  • Local/condição observada (na doca, dentro do caminhão, após descarga)
  • Evidências (fotos)
  • Destino do material (quarentena, devolução, descarte, aceito com ressalva)

Dica operacional: mantenha um “kit avaria” na área de recebimento (etiquetas de bloqueio, caneta, fita, lacres, plástico stretch, formulários, suporte para celular/fotos).

Regra inegociável: nada é armazenado sem etiqueta e sem destino definido

Para sustentar organização, transforme a regra em barreiras físicas e de processo:

  • Barreira 1 (processo): o conferente só finaliza a conferência quando o volume estiver identificado.
  • Barreira 2 (layout): saída da área de recebimento passa por um ponto de checagem (mesa/portão interno) onde se verifica etiqueta e zona de destino.
  • Barreira 3 (responsabilidade): quem movimenta para armazenagem só coleta volumes na zona “LIBERADO”.

Sinalização simples na área ajuda a disciplina: “NÃO MOVER SEM ETIQUETA”, “ZONA LIBERADO”, “ZONA QUARENTENA”.

Como organizar a área de recebimento (estrutura mínima recomendada)

Zonas temporárias bem definidas

Crie zonas com demarcação no piso e placas. Mesmo em espaço pequeno, a separação reduz mistura e retrabalho.

  • Zona de descarga: onde o material chega (curta permanência)
  • Zona de conferência: mesa/bancada para contagem e inspeção
  • Zona “Aguardando conferência”: volumes ainda não verificados
  • Zona “Conferido/Identificado”: pronto para direcionamento
  • Zona de quarentena: isolada e sinalizada

Mesas, bins e suportes

  • Mesas: uma para abertura e inspeção; outra para documentação e etiquetagem (evita misturar papel com produto).
  • Bins/caixas plásticas: para itens pequenos, amostras, acessórios e “sobras” encontradas durante conferência.
  • Suportes: porta-documentos, pranchetas, dispensers de fita, stretch, estilete com controle.

Sinalização e gestão visual

  • Placas grandes por zona (Aguardando / Conferindo / Liberado / Quarentena)
  • Marcação de piso com cores diferentes por zona
  • Painel simples de status do dia (entregas agendadas, pendências de divergência)

Ergonomia e segurança (para manter o padrão)

  • Iluminação adequada para leitura de lote/validade
  • Espaço para circulação sem cruzar com área de separação/expedição
  • EPIs e descarte correto de embalagens (papelão, plástico)

Roteiro operacional (para treinar a equipe)

1. Receber o veículo na doca e validar documentos básicos. 2. Direcionar volumes para “Aguardando conferência”. 3. Conferir quantidade (método definido) e inspecionar qualidade. 4. Registrar avarias/divergências e isolar em “Quarentena”. 5. Identificar imediatamente os volumes liberados (etiqueta interna). 6. Separar por zona de destino (setor/fluxo). 7. Somente retirar da área de recebimento volumes na zona “Liberado”.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual prática garante que erros de identificação e divergências não se multipliquem dentro do estoque após o recebimento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O padrão recomendado é conferir quantidade e qualidade, etiquetar imediatamente e separar por destino. Materiais com divergência devem ser bloqueados e isolados em quarentena, evitando perda de rastreabilidade e itens “sem dono” no estoque.

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