Por que o recebimento “define” o nível de organização do estoque
Recebimento e conferência são as rotinas que impedem que erros (quantidade, produto, lote, validade, avaria) entrem no estoque e se multipliquem. Um estoque pode ter layout e endereçamento bem desenhados, mas se a entrada não tiver disciplina, rapidamente surgem itens “sem dono”, caixas abertas, produtos sem identificação e divergências difíceis de rastrear.
O objetivo do processo de entrada é simples: tudo que entra deve ser verificado, identificado e direcionado antes de virar “estoque disponível”. Isso exige um fluxo padrão, critérios de aceite claros e uma área de recebimento preparada para operar sem improvisos.
Fluxo padrão de recebimento (visão geral)
Use sempre a mesma sequência para reduzir variações e facilitar treinamento:
- Agendamento/triagem (planejar chegada e capacidade)
- Recepção e pré-checagem documental (o que deveria chegar?)
- Conferência quantitativa (quanto chegou?)
- Conferência qualitativa (como chegou?)
- Identificação imediata (etiquetar antes de movimentar)
- Separação por setor (direcionar para o fluxo correto)
- Tratativa de divergências (registrar, bloquear, decidir)
- Quarentena (isolar o que não pode seguir)
- Liberação para armazenagem (somente com etiqueta e destino definido)
Passo a passo prático do recebimento
1) Agendamento e triagem (antes do caminhão chegar)
O agendamento evita picos que “estouram” a área de recebimento e forçam atalhos (como guardar sem conferir). Defina janelas de entrega por fornecedor/transportadora e limite de docas/tempo por descarga.
- Capacidade: quantas descargas por hora sua equipe consegue conferir sem perder qualidade?
- Prioridade: itens críticos (alta demanda, produção, perecíveis) ganham janela dedicada.
- Pré-alerta: peça ao fornecedor a lista do que vem (nota/romaneio/ASN) para preparar conferência e espaço.
Triagem na chegada: ao encostar, classifique rapidamente a entrega em “padrão”, “sensível” (frágil/temperatura), “controlado” (lote/validade obrigatórios) ou “alto volume”. Isso define o tipo de conferência e a zona temporária.
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
2) Recepção e pré-checagem documental
Antes de abrir volumes, valide se a entrega é esperada e se os documentos batem com o combinado.
- Fornecedor/transportadora corretos
- Número da nota/romaneio e data
- Pedido de compra associado (quando aplicável)
- Condições de transporte (ex.: lacre, integridade, temperatura informada)
Se houver inconsistência grosseira (ex.: nota de outro destinatário), não descarregue para dentro da área. Mantenha no veículo/doca e acione o responsável.
3) Conferência quantitativa (quanto chegou)
Escolha o método conforme risco e criticidade. Padronize para não depender de “jeito de cada conferente”.
- 100% (recomendado): itens de alto valor, controlados por lote/validade, críticos para operação, histórico de divergência.
- Amostragem: itens de baixo risco e fornecedor confiável, com regra clara (ex.: 10% dos volumes e, se houver erro, vira 100%).
- Por volume vs. por unidade: caixas lacradas podem ser conferidas por volume quando o risco é baixo; caixas abertas exigem contagem por unidade.
Boas práticas:
- Conte em local iluminado, com mesa e espaço para separar “conferido” e “não conferido”.
- Use marcação física: fita, etiqueta “CONFERIDO”, ou pallet identificado para não misturar.
- Evite “contagem de cabeça” em cima do pallet sem separar; isso gera erro e retrabalho.
4) Conferência qualitativa (como chegou)
A conferência qualitativa garante que o item está em condição de uso e dentro dos critérios de aceite. Ela deve acontecer junto da quantitativa, antes de o material seguir para qualquer área interna.
- Embalagem: amassados, violação, umidade, contaminação, lacre rompido.
- Produto: integridade, cor/odor anormal, peças faltantes, acessórios.
- Identificação do fabricante: código, descrição, lote/serial, validade (quando aplicável).
- Condições especiais: temperatura, itens frágeis, químicos (verificar vazamento).
Exemplo prático: chegaram 20 caixas de um item. Quantitativo confere (20), mas 3 caixas estão molhadas. Resultado: 17 caixas seguem, 3 vão para quarentena com registro de avaria e evidência fotográfica.
5) Identificação imediata (etiquetar antes de movimentar)
Regra de ouro: nada anda para dentro do estoque sem identificação mínima. A identificação deve ser aplicada ainda na área de recebimento, logo após a conferência.
Na prática, isso significa:
- Gerar/imprimir etiqueta de recebimento (ou etiqueta interna) no ato.
- Aplicar em local visível do volume (caixa/pallet/bin), sem cobrir informações do fabricante.
- Quando houver lote/validade/serial, garantir que conste no registro e que o volume esteja vinculado a isso.
Controle de exceção: se o sistema/etiquetadora falhar, use etiqueta provisória padronizada (ex.: “ETIQUETA MANUAL”) com campos obrigatórios preenchidos e prazo curto para regularização. Sem isso, o item fica em quarentena administrativa.
6) Separação por setor (direcionar para o fluxo correto)
Após identificado, o material deve ser separado em zonas temporárias por destino operacional. Isso evita que itens diferentes se misturem e reduz deslocamentos.
- Zona A: itens para armazenagem padrão
- Zona B: itens para cross-docking/separação imediata (se aplicável)
- Zona C: itens controlados (lote/validade/serial) aguardando validação
- Zona D: itens para quarentena (avaria/divergência)
O critério de separação deve ser visual e físico (demarcação no piso, placas, pallets/bins dedicados). A equipe precisa bater o olho e entender onde colocar.
7) Tratativa de divergências (quantidade, item, lote, validade, avaria)
Divergência não pode virar “ajuste informal”. Ela precisa de registro, bloqueio e decisão rápida para não contaminar o estoque.
Tipos comuns:
- Falta: veio menos do que o documento/pedido
- Sobra: veio mais (não assumir como “bônus” sem validação)
- Troca: item diferente do solicitado
- Lote/validade divergentes: lote não informado, validade menor que a mínima
- Avaria: dano visível, violação, contaminação
Rotina de tratativa:
- Isolar o material divergente em área de quarentena (física e sistêmica, quando aplicável).
- Registrar a ocorrência (data/hora, fornecedor, nota, item, quantidade, tipo de divergência, responsável pela conferência).
- Evidenciar: fotos do volume, etiqueta do fabricante, avaria, lacre, etc.
- Notificar o responsável (compras/qualidade/gestor) com prazo de resposta.
- Decidir: devolver, substituir, aceitar com ressalva, reclassificar, ajustar documento.
Importante: material com divergência não deve ser “guardado para depois resolver”. Se ele entra no estoque, vira perda de rastreabilidade.
8) Quarentena (quando e como usar)
Quarentena é uma zona controlada para itens que não podem ser liberados. Ela evita que materiais indevidos sejam usados ou vendidos.
Quando colocar em quarentena:
- Avaria ou suspeita de avaria
- Divergência de item/quantidade sem decisão
- Falta de identificação mínima
- Lote/validade ausentes, ilegíveis ou fora do critério
- Suspeita de contaminação/violação
Como operar:
- Área demarcada e sinalizada como “QUARENTENA”
- Acesso restrito (não é área de passagem)
- Volumes com etiqueta de bloqueio (ex.: “NÃO UTILIZAR / AGUARDANDO ANÁLISE”)
- Prazo de permanência e responsável definido (quem decide e em quanto tempo)
Checklist de conferência (modelo prático)
Use um checklist simples, repetível e auditável. Abaixo um modelo que pode ser impresso ou usado em formulário:
| Etapa | Verificação | OK/Não OK | Observações |
|---|---|---|---|
| Documentos | Nota/romaneio corresponde ao fornecedor e à entrega | ||
| Volumes | Quantidade de volumes confere com documento | ||
| Produto | Código/descrição conferem com o esperado | ||
| Quantidade | Unidades por volume conferem (contagem 100% ou amostragem) | ||
| Qualidade | Sem avarias, violação, umidade, contaminação | ||
| Lote/Validade | Informados, legíveis e dentro do mínimo aceito | ||
| Identificação | Etiqueta interna aplicada no volume/pallet/bin | ||
| Destino | Separado na zona correta (armazenagem/cross/quarentena) | ||
| Registro | Entrada registrada e divergências abertas quando necessário |
Critérios de aceite (definições que evitam discussão na doca)
Critérios de aceite são regras objetivas para decidir se o material entra, entra com ressalva ou é bloqueado. Defina por categoria de produto, mas mantenha um núcleo comum:
- Integridade: não aceitar embalagem violada quando isso compromete o produto (ex.: lacre rompido em itens sensíveis).
- Avaria: definir tolerância zero para itens críticos; para outros, definir limite (ex.: até X% de caixas amassadas sem dano ao produto).
- Validade mínima: regra clara (ex.: “mínimo 70% da validade total” ou “mínimo 6 meses”).
- Lote/serial obrigatório: se faltar, vai para quarentena administrativa até regularizar.
- Condições de transporte: temperatura, ausência de vazamento, ausência de odor anormal.
Exemplo: para produtos com validade, critério: “não aceitar itens com validade inferior a 120 dias”. Se chegar com 90 dias, registrar e bloquear para decisão (devolução ou negociação).
Registro de avarias (como padronizar)
Registro de avaria precisa ser rápido e completo o suficiente para suportar devolução, crédito ou substituição.
Campos mínimos:
- Data/hora e responsável
- Fornecedor/transportadora
- Documento (nota/romaneio)
- Item (código/descrição) e quantidade afetada
- Tipo de avaria (amassado, molhado, quebrado, violado, vazamento etc.)
- Local/condição observada (na doca, dentro do caminhão, após descarga)
- Evidências (fotos)
- Destino do material (quarentena, devolução, descarte, aceito com ressalva)
Dica operacional: mantenha um “kit avaria” na área de recebimento (etiquetas de bloqueio, caneta, fita, lacres, plástico stretch, formulários, suporte para celular/fotos).
Regra inegociável: nada é armazenado sem etiqueta e sem destino definido
Para sustentar organização, transforme a regra em barreiras físicas e de processo:
- Barreira 1 (processo): o conferente só finaliza a conferência quando o volume estiver identificado.
- Barreira 2 (layout): saída da área de recebimento passa por um ponto de checagem (mesa/portão interno) onde se verifica etiqueta e zona de destino.
- Barreira 3 (responsabilidade): quem movimenta para armazenagem só coleta volumes na zona “LIBERADO”.
Sinalização simples na área ajuda a disciplina: “NÃO MOVER SEM ETIQUETA”, “ZONA LIBERADO”, “ZONA QUARENTENA”.
Como organizar a área de recebimento (estrutura mínima recomendada)
Zonas temporárias bem definidas
Crie zonas com demarcação no piso e placas. Mesmo em espaço pequeno, a separação reduz mistura e retrabalho.
- Zona de descarga: onde o material chega (curta permanência)
- Zona de conferência: mesa/bancada para contagem e inspeção
- Zona “Aguardando conferência”: volumes ainda não verificados
- Zona “Conferido/Identificado”: pronto para direcionamento
- Zona de quarentena: isolada e sinalizada
Mesas, bins e suportes
- Mesas: uma para abertura e inspeção; outra para documentação e etiquetagem (evita misturar papel com produto).
- Bins/caixas plásticas: para itens pequenos, amostras, acessórios e “sobras” encontradas durante conferência.
- Suportes: porta-documentos, pranchetas, dispensers de fita, stretch, estilete com controle.
Sinalização e gestão visual
- Placas grandes por zona (Aguardando / Conferindo / Liberado / Quarentena)
- Marcação de piso com cores diferentes por zona
- Painel simples de status do dia (entregas agendadas, pendências de divergência)
Ergonomia e segurança (para manter o padrão)
- Iluminação adequada para leitura de lote/validade
- Espaço para circulação sem cruzar com área de separação/expedição
- EPIs e descarte correto de embalagens (papelão, plástico)
Roteiro operacional (para treinar a equipe)
1. Receber o veículo na doca e validar documentos básicos. 2. Direcionar volumes para “Aguardando conferência”. 3. Conferir quantidade (método definido) e inspecionar qualidade. 4. Registrar avarias/divergências e isolar em “Quarentena”. 5. Identificar imediatamente os volumes liberados (etiqueta interna). 6. Separar por zona de destino (setor/fluxo). 7. Somente retirar da área de recebimento volumes na zona “Liberado”.