Este capítulo organiza a lógica proposicional do básico ao aplicado em provas: identificar proposições, operar com conectivos, construir tabelas-verdade, usar equivalências e negações, interpretar implicações (incluindo condições necessárias e suficientes) e, por fim, testar validade de argumentos com justificativas formais.
1) Proposições
1.1 O que é uma proposição
Proposição é uma frase declarativa que pode ser classificada como verdadeira (V) ou falsa (F), mesmo que você não saiba o valor no momento.
- Exemplos de proposições: “O IBGE realiza pesquisas domiciliares.”; “2 + 2 = 5.”
- Não são proposições: perguntas (“Você estudou?”), ordens (“Feche a porta.”), exclamações (“Que dia lindo!”) e frases vagas sem valor lógico definido (“Este número é grande.” sem contexto).
1.2 Proposições simples e compostas
- Simples (atômica): não contém conectivo lógico. Ex.: p: “A amostra é aleatória.”
- Composta: formada por proposições simples ligadas por conectivos. Ex.: “A amostra é aleatória e o erro é pequeno.”
1.3 Simbolização (passo a passo)
Em questões, o primeiro ganho de tempo é transformar texto em símbolos.
Passo a passo:
- 1) Separe as proposições simples e nomeie-as (p, q, r...).
- 2) Identifique conectivos no enunciado (e, ou, se... então, se e somente se, não).
- 3) Escreva a fórmula lógica.
Exemplo: “Se o questionário foi aplicado, então os dados foram coletados.”
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- p: “O questionário foi aplicado.”
- q: “Os dados foram coletados.”
- Fórmula: p → q
2) Valores lógicos
O valor lógico de uma proposição é V ou F. Em tabelas-verdade, analisamos todas as combinações possíveis de valores para as proposições simples envolvidas.
Para n proposições simples, há 2n linhas na tabela-verdade.
- n = 1 → 2 linhas
- n = 2 → 4 linhas
- n = 3 → 8 linhas
3) Conectivos lógicos
3.1 Negação (¬p)
A negação inverte o valor lógico.
- Se p é V, ¬p é F.
- Se p é F, ¬p é V.
3.2 Conjunção (p ∧ q) — “e”
Verdadeira somente quando ambas são verdadeiras.
3.3 Disjunção inclusiva (p ∨ q) — “ou” (no sentido comum de provas)
Falsa somente quando ambas são falsas. Se pelo menos uma é verdadeira, a disjunção é verdadeira.
3.4 Disjunção exclusiva (p ⊕ q) — “ou... ou...” (quando o enunciado exclui simultaneidade)
Verdadeira quando exatamente uma é verdadeira. Em concursos, o “ou” costuma ser inclusivo, a menos que o texto deixe claro “mas não ambos”.
3.5 Condicional (p → q) — “se p, então q”
É falsa apenas quando p é verdadeira e q é falsa. Nos demais casos, é verdadeira.
Leitura útil: p é condição suficiente para q; q é condição necessária para p.
3.6 Bicondicional (p ↔ q) — “se, e somente se”
Verdadeira quando p e q têm o mesmo valor lógico (ambas V ou ambas F).
4) Tabelas-verdade
4.1 Como montar rapidamente
Passo a passo:
- 1) Liste as proposições simples (p, q, r...).
- 2) Crie 2n linhas com combinações de V/F (p alterna a cada metade da tabela; q alterna a cada quarto; etc.).
- 3) Calcule colunas intermediárias (¬p, p ∧ q, etc.).
- 4) Calcule a coluna final da expressão.
4.2 Tabela-verdade de conectivos básicos (p e q)
p q | ¬p | p∧q | p∨q | p→q | p↔q | p⊕q
V V | F | V | V | V | V | F
V F | F | F | V | F | F | V
F V | V | F | V | V | F | V
F F | V | F | F | V | V | F4.3 Problema curto (com tabela-verdade)
Problema: Verifique se (p → q) é equivalente a (¬p ∨ q).
Passo a passo: monte as colunas p→q e ¬p∨q e compare.
p q | p→q | ¬p | ¬p∨q
V V | V | F | V
V F | F | F | F
F V | V | V | V
F F | V | V | VAs colunas finais coincidem em todas as linhas, então são equivalentes.
5) Equivalências e negações
5.1 Equivalências mais usadas em prova
- Implicação: (p → q) ≡ (¬p ∨ q)
- Contrapositiva: (p → q) ≡ (¬q → ¬p)
- Dupla negação: ¬(¬p) ≡ p
- De Morgan: ¬(p ∧ q) ≡ (¬p ∨ ¬q) e ¬(p ∨ q) ≡ (¬p ∧ ¬q)
- Bicondicional: (p ↔ q) ≡ (p → q) ∧ (q → p)
- Distribuição: p ∧ (q ∨ r) ≡ (p ∧ q) ∨ (p ∧ r); p ∨ (q ∧ r) ≡ (p ∨ q) ∧ (p ∨ r)
5.2 Negação de proposições compostas (passo a passo)
Passo a passo:
- 1) Identifique o conectivo principal (o “último” a ser aplicado).
- 2) Aplique De Morgan quando houver ∧/∨ dentro de uma negação.
- 3) Empurre a negação para dentro até atingir proposições simples.
- 4) Simplifique com dupla negação.
Exemplo 1: Negue ¬(p ∨ q).
- ¬(p ∨ q) negado é ¬¬(p ∨ q) ≡ (p ∨ q)
Exemplo 2: Negue (p ∧ (q ∨ r)).
- ¬(p ∧ (q ∨ r)) ≡ (¬p ∨ ¬(q ∨ r))
- ¬(q ∨ r) ≡ (¬q ∧ ¬r)
- Logo: ¬(p ∧ (q ∨ r)) ≡ (¬p ∨ (¬q ∧ ¬r))
5.3 Diagramas (árvore de conectivos) para evitar erro de escopo
Uma forma prática de enxergar o conectivo principal é desenhar uma árvore simples.
Expressão: ¬(p ∧ (q ∨ r))
¬
|
∧
/ \
p ∨
/ \
q rO conectivo principal dentro da negação é o ∧, então a primeira aplicação é De Morgan sobre o ∧.
6) Implicação: leitura, conversas e armadilhas
6.1 Leitura correta
Em p → q:
- p é o antecedente (hipótese).
- q é o consequente (tese).
Interpretações equivalentes comuns:
- “p implica q”
- “p somente se q” (atenção: “somente se” aponta para o consequente)
- “q é necessário para p”
- “p é suficiente para q”
6.2 Conversa, inversa e contrapositiva
- Conversa: q → p (não é equivalente em geral)
- Inversa: ¬p → ¬q (não é equivalente em geral)
- Contrapositiva: ¬q → ¬p (equivalente a p → q)
Problema curto: Dada a afirmação “Se o setor foi visitado, então houve coleta.” (v → c). Qual é a contrapositiva?
- Contrapositiva: ¬c → ¬v (“Se não houve coleta, então o setor não foi visitado.”)
7) Condições necessárias e suficientes
7.1 Definições operacionais
- Em p → q: q é necessária para p (p não acontece sem q).
- Em p → q: p é suficiente para q (p garante q).
7.2 Traduções típicas de enunciados
- “p é condição suficiente para q” → p → q
- “p é condição necessária para q” → q → p
- “p é condição necessária e suficiente para q” → p ↔ q
- “q somente se p” → q → p
7.3 Problema médio (tradução + equivalência)
Enunciado: “Para que o relatório seja aceito (A), é necessário que esteja assinado (S).”
Passo a passo:
- 1) “S é necessário para A” significa A → S.
- 2) Forma equivalente por implicação: A → S ≡ (¬A ∨ S).
Interpretação: ou o relatório não é aceito, ou (se aceito) está assinado.
8) Validade de argumentos
8.1 Conceito
Um argumento é válido quando não existe situação (atribuição de V/F às proposições) em que todas as premissas sejam verdadeiras e a conclusão seja falsa. Validade é forma lógica, não depende do “assunto” ser real.
8.2 Métodos práticos de verificação
- Por regras de inferência (preferível em prova): aplicar esquemas válidos (Modus Ponens, Modus Tollens etc.).
- Por tabela-verdade: útil quando há poucas proposições (2 ou 3) e a expressão é direta.
- Por equivalências: transformar premissas até chegar à conclusão.
8.3 Regras de inferência mais cobradas
- Modus Ponens (MP): p → q, p ⟹ q
- Modus Tollens (MT): p → q, ¬q ⟹ ¬p
- Silogismo Hipotético (SH): p → q, q → r ⟹ p → r
- Silogismo Disjuntivo (SD): p ∨ q, ¬p ⟹ q (ou p ∨ q, ¬q ⟹ p)
- Conjunção: p, q ⟹ p ∧ q
- Simplificação: p ∧ q ⟹ p (e também ⟹ q)
- Dilema construtivo (forma comum): (p → r) ∧ (q → s), p ∨ q ⟹ r ∨ s
8.4 Diagramas de fluxo (encadeamento de implicações)
Quando há várias condicionais, desenhar setas ajuda a enxergar o caminho até a conclusão.
Premissas: p→q, q→r
p → q → r
Conclusão esperada: p→r (silogismo hipotético)9) Problemas resolvidos (curtos e médios)
9.1 Curto: identificar conectivo principal e negar corretamente
Problema: Negue a proposição: “Se p então (q e r)”.
Solução (passo a passo):
- 1) Escreva: p → (q ∧ r).
- 2) Use equivalência: p → (q ∧ r) ≡ ¬p ∨ (q ∧ r).
- 3) Negue: ¬(¬p ∨ (q ∧ r)).
- 4) De Morgan: ¬(¬p ∨ X) ≡ (p ∧ ¬X), com X = (q ∧ r).
- 5) Negue X: ¬(q ∧ r) ≡ (¬q ∨ ¬r).
- 6) Resultado: ¬(p → (q ∧ r)) ≡ p ∧ (¬q ∨ ¬r).
Leitura: p ocorre e falha pelo menos um entre q e r.
9.2 Curto: reconhecer forma válida (MP)
Problema: Premissas: (p → q) e p. Conclusão: q. O argumento é válido?
Solução: É exatamente Modus Ponens, portanto válido.
9.3 Médio: validade por regras (mistura de conectivos)
Problema: Premissas: (p → q), (q → r), ¬r. Conclusão: ¬p.
Solução (passo a passo):
- 1) De (p → q) e (q → r), aplique SH: obtenha (p → r).
- 2) De (p → r) e ¬r, aplique MT: conclua ¬p.
Logo, o argumento é válido.
9.4 Médio: traduzir “somente se” e concluir formalmente
Problema: “O setor é validado (V) somente se o formulário está completo (C). O setor é validado. Logo, o formulário está completo.”
Passo a passo:
- 1) “V somente se C” significa V → C.
- 2) Premissa adicional: V.
- 3) Por MP em V → C e V, conclui-se C.
10) Caderno de questões comentadas (com justificativas formais)
Questão 1 (equivalência de condicional)
Enunciado: Assinale a expressão equivalente a (p → q).
Comentário: Use a equivalência padrão: (p → q) ≡ (¬p ∨ q). Em alternativas, procure exatamente “não p ou q” (ou forma reordenada q ∨ ¬p).
Questão 2 (negação com De Morgan)
Enunciado: Negue: “p e q”.
Comentário formal: A proposição é (p ∧ q). Pela lei de De Morgan: ¬(p ∧ q) ≡ (¬p ∨ ¬q). Em linguagem: “não p ou não q” (pelo menos uma falha).
Questão 3 (negação de disjunção)
Enunciado: Negue: “p ou q”.
Comentário formal: (p ∨ q) negado é ¬(p ∨ q) ≡ (¬p ∧ ¬q). Em linguagem: “não p e não q”.
Questão 4 (contrapositiva)
Enunciado: A contrapositiva de (p → q) é:
Comentário formal: (p → q) ≡ (¬q → ¬p). A conversa (q → p) e a inversa (¬p → ¬q) não são equivalentes em geral.
Questão 5 (condição necessária)
Enunciado: “S é condição necessária para T.” Escreva em símbolos.
Comentário formal: “S necessária para T” significa T → S. Justificativa: se T ocorre, então S deve ocorrer; sem S, T não pode ocorrer.
Questão 6 (condição suficiente)
Enunciado: “A é condição suficiente para B.” Escreva em símbolos.
Comentário formal: A → B. Justificativa: A garante B.
Questão 7 (bicondicional)
Enunciado: Reescreva (p ↔ q) usando apenas → e ∧.
Comentário formal: (p ↔ q) ≡ (p → q) ∧ (q → p). Se a questão pedir apenas ∨ e ¬, substitua cada → por (¬p ∨ q).
Questão 8 (validade: Modus Tollens)
Enunciado: Premissas: (p → q) e ¬q. Conclusão: ¬p. O argumento é válido?
Comentário formal: É Modus Tollens. Forma válida: p → q, ¬q ⟹ ¬p.
Questão 9 (validade: silogismo disjuntivo)
Enunciado: Premissas: (p ∨ q) e ¬p. Conclusão: q.
Comentário formal: É Silogismo Disjuntivo. Como p é falso e pelo menos um entre p e q é verdadeiro, resta q verdadeiro.
Questão 10 (média: provar conclusão por equivalências)
Enunciado: A partir de (p → q) e (p → r), conclua (p → (q ∧ r)).
Comentário formal (passo a passo por equivalências):
- 1) (p → q) ≡ (¬p ∨ q) e (p → r) ≡ (¬p ∨ r).
- 2) Conjunção das premissas: (¬p ∨ q) ∧ (¬p ∨ r).
- 3) Use distribuição: (¬p ∨ q) ∧ (¬p ∨ r) ≡ ¬p ∨ (q ∧ r).
- 4) Volte para implicação: ¬p ∨ (q ∧ r) ≡ p → (q ∧ r).
Assim, a conclusão decorre formalmente das premissas.