Química e toxicologia forense aplicam técnicas analíticas para identificar e/ou quantificar substâncias em diferentes matrizes (sangue, urina, saliva, cabelo, conteúdo gástrico, tecidos, água, solo, resíduos em recipientes). Na rotina pericial, o objetivo pode ser: (a) confirmar presença de uma substância (resultado qualitativo), (b) estimar concentração (resultado quantitativo) e (c) interpretar o achado no contexto do fato (exposição recente, uso crônico, contaminação ambiental, adulteração, intoxicação).
Etapas analíticas: do rastreio ao resultado interpretável
1) Triagem (screening)
Triagem é uma análise rápida para indicar provável presença de uma classe de substâncias. É útil para priorizar amostras e orientar o confirmatório, mas pode gerar falsos positivos/negativos por interferentes.
- Exemplos de triagem: imunoensaios (urina/sangue), testes colorimétricos (resíduos), FTIR para materiais, headspace para voláteis, varreduras por GC-MS/LC-MS em modo “full scan”.
- Resultado esperado: “presuntivo para canabinoides” ou “compatível com solvente aromático”, sem afirmar identidade final quando o método não é confirmatório.
2) Confirmatório
Confirmatório é a etapa que identifica a substância com maior especificidade e, quando necessário, quantifica. Em geral, utiliza separação cromatográfica e detecção seletiva.
- Métodos típicos: GC-MS (voláteis e semivoláteis), LC-MS/MS (drogas e metabólitos polares), GC-FID (quantificação de voláteis/combustíveis), ICP-MS (metais), HPLC-DAD (alguns fármacos/venenos), FTIR/Raman (sólidos e materiais).
- Resultado esperado: identificação por critérios (tempo de retenção, íons/fragmentos, transições MRM, espectro) e, se aplicável, concentração com incerteza/limites.
3) Controles, calibração e qualidade
Para que o resultado seja defensável, o ensaio deve demonstrar desempenho no próprio lote de análises.
- Branco de reagentes: verifica contaminação do processo.
- Branco de matriz: verifica interferentes naturais da matriz.
- Controle negativo/positivo: confirma que o método não “acusa” sem analito e detecta quando há analito.
- Padrão interno: corrige variações de extração/injeção (frequente em GC-MS/LC-MS/MS).
- Curva de calibração: relaciona resposta instrumental e concentração; deve cobrir a faixa esperada.
- Critérios quantitativos: linearidade, precisão, exatidão, LOD/LOQ, carryover, efeito de matriz, estabilidade.
4) Qualitativo x quantitativo (o que muda na prática)
- Qualitativo: foco em identidade; exige critérios de confirmação (ex.: razão de íons dentro de tolerância, espectro compatível, transições MRM corretas).
- Quantitativo: além da identidade, requer calibração, controles em níveis (baixo/médio/alto), avaliação de recuperação e efeito de matriz; reporta concentração e unidade (mg/L, ng/mL, g/dL etc.).
Drogas de abuso (e medicamentos de interesse forense)
Principais grupos e marcadores
- Canabinoides: THC e metabólitos (ex.: THC-COOH). Em sangue, THC tende a indicar uso mais recente; em urina, metabólitos indicam exposição anterior.
- Cocaína: cocaína e metabólitos (benzoylecgonina, ecgonina metil éster). Em urina, benzoylecgonina é marcador comum.
- Anfetaminas/metanfetamina e derivados: atenção a isômeros e a fármacos que podem interferir em triagens.
- Opioides: morfina, codeína, 6-MAM (marcador de heroína), oxicodona, fentanil (muitos exigem LC-MS/MS).
- Benzodiazepínicos: ampla variedade e metabólitos; triagens podem não cobrir todos igualmente.
- “Drogas sintéticas”: catinonas, canabinoides sintéticos, NBOMe; frequentemente requerem bibliotecas atualizadas e LC-MS/MS/HRMS.
Matrizes e quando usar
- Sangue: melhor para correlação com efeitos no momento (ex.: direção sob influência). Exige cuidado com hemólise, conservação e interpretação temporal.
- Urina: melhor para evidenciar uso prévio (janela mais longa para muitos metabólitos). Menos correlacionável com incapacidade no momento.
- Saliva: útil para triagem de uso recente; suscetível a contaminação oral e variações de fluxo salivar.
- Cabelo: útil para histórico (semanas/meses). Exige controle de contaminação externa e interpretação segmentar quando aplicável.
Passo a passo prático (fluxo típico em drogas)
Exemplo de fluxo para urina (triagem + confirmação):
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- Homogeneizar e alíquotar.
- Triagem por imunoensaio para classes (canabinoides, cocaína, anfetaminas, opiáceos, benzodiazepínicos).
- Selecionar amostras positivas e/ou de interesse pericial para confirmatório.
- Preparação: hidrólise (quando aplicável), extração (SPE/LLE), evaporação e reconstituição.
- Confirmatório por LC-MS/MS ou GC-MS (derivatização quando necessário).
- Aplicar critérios de identificação e, se quantitativo, usar curva + padrão interno + controles.
- Reportar: substância/metabólito, concentração (se aplicável), LOD/LOQ, observações sobre janela e interferentes relevantes.
Interpretação: janela de detecção, estabilidade e interferentes
- Janela de detecção: varia por substância, dose, frequência, metabolismo e matriz. Urina tende a “ver” por mais tempo; sangue tende a refletir mais o período próximo ao evento.
- Estabilidade: algumas substâncias degradam com calor/luz/tempo; atrasos e armazenamento inadequado podem reduzir concentrações.
- Interferentes: triagens por imunoensaio podem reagir com compostos estruturalmente semelhantes; confirmação por MS reduz esse risco.
- Contaminação: em cabelo, fumaça/contato pode contaminar externamente; lavagem controlada e avaliação de metabólitos ajudam na interpretação.
Álcool (etanol) e marcadores de consumo
O que se mede e por quê
- Etanol: concentração em sangue (ou equivalente) é usada para estimar exposição recente e possível comprometimento.
- Marcadores indiretos: EtG/EtS (urina/sangue) e FAEE (cabelo) podem indicar consumo em janelas mais longas, conforme o caso.
Métodos típicos
- Headspace GC-FID: padrão em quantificação de etanol e outros voláteis; reduz interferência de matriz por análise do vapor.
- Enzimático: pode ser usado como triagem, com confirmação por cromatografia quando necessário.
Passo a passo prático (etanol por headspace GC)
- Coletar sangue em tubo adequado, evitando contaminação por álcool externo (antisséptico alcoólico pode ser fonte de erro se houver contato com a amostra).
- Adicionar padrão interno (ex.: n-propanol ou t-butanol, conforme protocolo).
- Selar vial de headspace, incubar em temperatura controlada e injetar fase gasosa no GC-FID.
- Calibrar com padrões em matriz e rodar controles em níveis.
- Reportar concentração (unidade conforme rotina), incerteza e observações sobre conservação.
Cuidados interpretativos
- Produção pós-coleta: fermentação pode gerar etanol em amostras mal conservadas; preservativos/fluoreto e refrigeração reduzem risco.
- Volatilização: frascos mal vedados podem reduzir concentração.
- Tempo entre fato e coleta: influencia fortemente a interpretação; a concentração pode estar em fase de absorção ou eliminação.
Venenos e agentes tóxicos (pesticidas, raticidas, cianeto, metais)
Grupos frequentes e abordagens
- Pesticidas: organofosforados/carbamatos (inibição de colinesterase), piretroides, herbicidas. Matrizes: sangue, conteúdo gástrico, fígado, alimentos, água.
- Raticidas: anticoagulantes (ex.: brodifacoum) e outros. Matrizes: sangue (efeitos), fígado (acúmulo), iscas/resíduos.
- Cianeto: matriz crítica é sangue (preferencialmente) e conteúdo gástrico; alta instabilidade exige rapidez e acondicionamento adequado.
- Metais: chumbo, arsênio, mercúrio. Matrizes: sangue/urina (exposição recente), cabelo/unhas (histórico), tecidos (casos fatais), água/solo (fonte).
Triagem e confirmação
- Triagem: testes colorimétricos específicos (quando aplicáveis), atividade de colinesterase (suspeita de organofosforados/carbamatos), varredura por LC/GC em full scan.
- Confirmatório: LC-MS/MS ou GC-MS para orgânicos; ICP-MS/ICP-OES para metais; métodos específicos para cianeto conforme protocolo laboratorial.
Interpretação em contexto pericial
- Relação matriz–mecanismo: conteúdo gástrico sugere ingestão recente; fígado pode concentrar certos tóxicos; sangue reflete circulação no momento.
- Estabilidade: cianeto e alguns pesticidas podem degradar; atrasos e temperatura inadequada podem inviabilizar quantificação.
- Interferentes: compostos endógenos e decomposição podem gerar sinais analíticos; por isso, controles e critérios de confirmação são essenciais.
Solventes orgânicos e inalantes
Exemplos e matrizes
- Solventes: tolueno, xileno, acetona, etilbenzeno, hexano, clorofórmio (varia por caso).
- Matrizes: sangue (exposição recente), ar/ambiente (quando coletado), resíduos em recipientes, tecidos em casos fatais.
Métodos típicos
- Headspace GC-FID/GC-MS: principal para voláteis; GC-MS ajuda na identificação por espectro.
- FTIR: útil para identificar líquidos/solventes em recipientes quando a matriz é simples.
Cuidados de acondicionamento
- Volatilidade: usar frascos herméticos, minimizar headspace quando apropriado, manter refrigerado e evitar exposição ao calor.
- Contaminação cruzada: transportar amostras voláteis separadas de outras evidências sensíveis a vapores.
Combustíveis e acelerantes (contexto de incêndio)
O que se busca
Em suspeita de uso de acelerantes, procura-se perfil de hidrocarbonetos compatível com gasolina, querosene, diesel, solventes leves, entre outros, em resíduos de incêndio (substratos queimados, panos, solo, recipientes).
Método típico e resultados
- Extração: headspace estático/dinâmico ou técnicas de concentração (ex.: adsorção em material apropriado) conforme protocolo.
- GC-MS: gera cromatograma com distribuição de compostos; a interpretação considera padrões de classes (alifáticos, aromáticos) e “weathering” (perda de frações leves por evaporação/queima).
- Resultado esperado: “perfil compatível com destilado de petróleo do tipo gasolina” ou “não foram detectados resíduos de acelerantes acima do limite do método”, com ressalvas sobre degradação térmica e volatilização.
Interpretação: interferentes e degradação
- Materiais do ambiente: plásticos, espumas, tintas e adesivos podem gerar produtos de pirólise que confundem triagens.
- Weathering: combustíveis evaporam e alteram o perfil; ausência de compostos leves não exclui presença prévia.
Contaminantes ambientais e industriais
Exemplos e matrizes
- Água/solo: BTEX, hidrocarbonetos totais, pesticidas, metais.
- Alimentos: adulterantes, resíduos de pesticidas, metais.
- Superfícies/poeiras: metais, partículas, resíduos químicos.
Métodos típicos
- GC-MS: orgânicos voláteis e semivoláteis.
- LC-MS/MS: compostos polares e termolábeis.
- ICP-MS: metais em níveis traço.
Interpretação: fonte, fundo e relevância
- Nível de fundo: alguns contaminantes podem existir naturalmente; comparar com controles/locais de referência ajuda.
- Distribuição espacial: gradientes (mais alto perto da fonte) reforçam hipótese de origem.
- Estabilidade e adsorção: certos compostos adsorvem em solo/matéria orgânica; a ausência em água não exclui presença no sedimento.
Acondicionamento e transporte: cuidados específicos por matriz
Sangue
- Refrigerar o quanto antes; evitar calor.
- Usar recipientes adequados e bem vedados; para voláteis, frascos específicos e mínimo de perdas.
- Quando aplicável, usar conservantes/preservativos conforme protocolo do laboratório (especialmente para etanol e alguns analitos instáveis).
Urina
- Refrigerar/congelar conforme tempo até análise.
- Evitar exposição à luz para analitos fotossensíveis.
- Homogeneizar antes de alíquotar para reduzir variabilidade.
Cabelo
- Manter seco, em envelope de papel (evitar plástico úmido que favoreça mofo).
- Registrar orientação (raiz/ponta) e comprimento; evitar contato com superfícies contaminadas.
Resíduos voláteis (solventes/combustíveis)
- Usar recipientes herméticos (latas próprias ou frascos compatíveis), minimizar vazamentos.
- Separar de outras evidências para evitar contaminação por vapores.
- Evitar abrir/fechar repetidamente; cada abertura pode perder frações leves.
Água e solo
- Frascos compatíveis com o analito (vidro para orgânicos voláteis, com vedação adequada).
- Preencher frascos para voláteis reduzindo headspace quando requerido.
- Refrigerar e proteger da luz quando aplicável.
Exercícios de associação (hipótese, matriz e método)
Instrução: associe cada hipótese pericial (A–H) à matriz mais adequada (1–6) e ao método analítico típico (I–VI). Em alguns casos, pode haver mais de uma combinação aceitável; escolha a mais comum na prática.
Hipóteses (A–H)
- A) Suspeita de direção sob influência de álcool, com coleta poucas horas após abordagem.
- B) Suspeita de uso recente de cocaína, com necessidade de confirmação.
- C) Investigação de uso crônico de drogas ao longo de meses.
- D) Suspeita de intoxicação por organofosforado após ingestão, com vômito e sintomas colinérgicos.
- E) Suspeita de exposição a solvente (tolueno) em ambiente fechado, evento recente.
- F) Suspeita de uso de acelerante em incêndio (gasolina/querosene) em material queimado.
- G) Suspeita de contaminação por chumbo em comunidade próxima a atividade industrial.
- H) Suspeita de envenenamento por cianeto em caso grave, com necessidade de rapidez.
Matrizes (1–6)
- 1) Sangue
- 2) Urina
- 3) Cabelo
- 4) Conteúdo gástrico/vômito
- 5) Resíduo de incêndio em substrato (tecido/solo/material queimado)
- 6) Água/solo ambiental
Métodos (I–VI)
- I) Headspace GC-FID (com padrão interno e calibração)
- II) LC-MS/MS confirmatório (com padrão interno)
- III) GC-MS para voláteis/semivoláteis (headspace quando aplicável)
- IV) GC-MS para resíduos de acelerantes (extração/concentração apropriada)
- V) ICP-MS para metais
- VI) Ensaios específicos + confirmação instrumental (ex.: colinesterase/triagem e LC/GC-MS conforme analito)
Gabarito sugerido (para autocorreção)
A: matriz 1, método I
B: matriz 2, método II
C: matriz 3, método II
D: matriz 4, método VI
E: matriz 1, método III
F: matriz 5, método IV
G: matriz 6 (e/ou 1/2 para biomonitoramento), método V
H: matriz 1, método VIExercício extra (qualitativo x quantitativo)
Classifique como Qlt (qualitativo) ou Qnt (quantitativo) o objetivo mais comum em cada situação:
- 1) Identificar se há resíduos de gasolina em material queimado.
- 2) Determinar concentração de etanol em sangue.
- 3) Confirmar presença de benzoylecgonina em urina após triagem positiva.
- 4) Medir chumbo em água de consumo.
Respostas esperadas: 1) Qlt (frequentemente por perfil) 2) Qnt 3) Qlt (pode ser Qnt conforme demanda) 4) Qnt