Proteção Social no SUAS: básica e especial e seus objetivos no território

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Conceito de Proteção Social no SUAS (olhar territorial)

No SUAS, “proteção social” é o conjunto de ações, serviços e benefícios que buscam reduzir vulnerabilidades, prevenir riscos e enfrentar violações de direitos no território. A diferença central entre os níveis de proteção está no tipo e na gravidade do risco e no grau de ruptura de vínculos (familiares e comunitários) que a situação produz.

  • Proteção Social Básica (PSB): atua principalmente na prevenção de riscos e no fortalecimento de vínculos, antes que ocorram violações graves.
  • Proteção Social Especial (PSE): atua quando já há violação de direitos e/ou risco pessoal e social mais intenso, exigindo acompanhamento especializado; divide-se em Média Complexidade e Alta Complexidade.

Proteção Social Básica (PSB): finalidades, público e resultados esperados

Finalidades (o que busca alcançar)

  • Prevenir situações de risco social decorrentes de pobreza, fragilização de vínculos e acesso precário a direitos.
  • Fortalecer vínculos familiares e comunitários e ampliar redes de apoio no território.
  • Ampliar acesso a serviços, benefícios e oportunidades (ex.: documentação, cadastro, encaminhamentos para políticas públicas).

Público típico

  • Famílias e indivíduos em vulnerabilidade (baixa renda, insegurança alimentar, moradia precária, desemprego, isolamento social, sobrecarga de cuidado).
  • Crianças, adolescentes, pessoas idosas, pessoas com deficiência e suas famílias quando a demanda é de prevenção e fortalecimento de vínculos (sem evidência de violação grave).

Tipo de vulnerabilidade/risco

  • Vulnerabilidade social (condições de vida que aumentam a chance de ocorrerem riscos).
  • Risco leve a moderado, sem necessidade de afastamento do convívio familiar e sem indícios de violência/violação grave em curso.

Resultados esperados (indicadores práticos)

  • Família com acesso regular a benefícios e serviços (quando elegível).
  • Maior participação em atividades comunitárias e redes de apoio.
  • Redução de faltas escolares por motivos sociais, melhora na organização do cotidiano, maior estabilidade no cuidado.

Exemplos de demandas típicas na PSB

  • Família recém-chegada ao território sem rede de apoio, com dificuldade de acesso a serviços.
  • Cuidadora solo sobrecarregada, sem apoio familiar, com sinais de estresse e isolamento.
  • Idoso com baixa renda e pouca circulação social, sem indícios de negligência/violência.

Proteção Social Especial (PSE): quando acionar e o que muda

A PSE é acionada quando há violação de direitos (ou forte suspeita) e/ou risco pessoal e social que exige intervenção especializada, articulação com o Sistema de Garantia de Direitos e, em alguns casos, afastamento do convívio familiar para proteção.

Finalidades

  • Interromper violações e reduzir danos.
  • Proteger a integridade física e emocional.
  • Reconstruir vínculos quando possível e seguro, ou organizar alternativas protetivas.
  • Articular rede intersetorial (saúde, educação, justiça, segurança, habitação, trabalho) conforme o caso.

Público típico

  • Pessoas e famílias com vivência de violência (física, psicológica, sexual), negligência grave, exploração, trabalho infantil, situação de rua, ameaças, rompimento de vínculos ou necessidade de acolhimento.

PSE de Média Complexidade: características, exemplos e limites

O que caracteriza a Média Complexidade

  • violação de direitos ou risco significativo, mas a pessoa/família permanece no convívio familiar e comunitário (com acompanhamento especializado).
  • Exige atendimento especializado, plano de acompanhamento e articulação com outros serviços.

Demandas típicas (exemplos)

  • Violência doméstica (mulher, criança, idoso) sem necessidade imediata de acolhimento, mas com risco e necessidade de proteção e acompanhamento.
  • Abuso sexual com necessidade de proteção, escuta qualificada, encaminhamentos e acompanhamento (respeitando fluxos locais e proteção da vítima).
  • Trabalho infantil identificado e necessidade de intervenção com família e rede.
  • Adolescente em conflito com a lei em medida socioeducativa em meio aberto (quando aplicável no território).
  • Pessoa em situação de rua que aceita acompanhamento e não demanda acolhimento imediato (ou está em avaliação).

Sinais de que é caso para Média Complexidade (checklist inicial)

  • Relato ou indício consistente de violência/abuso/exploração.
  • Medo de retornar para casa, mas ainda há possibilidade de permanência com medidas protetivas e acompanhamento.
  • Negligência com impacto relevante (saúde, alimentação, higiene, escolarização), porém com potencial de reorganização sem afastamento imediato.
  • Conflitos familiares intensos com ameaça ou coerção, exigindo intervenção especializada.

Limites de atuação (o que não é papel da equipe)

  • Não substituir órgãos de investigação ou responsabilização (polícia, Ministério Público, Judiciário).
  • Não realizar “interrogatório” ou exposição repetida da vítima; priorizar escuta protegida e encaminhamentos conforme fluxo.
  • Não garantir segurança física em situação de ameaça iminente sem acionar os órgãos competentes e medidas protetivas.

PSE de Alta Complexidade: quando é necessária e como reconhecer

O que caracteriza a Alta Complexidade

  • rompimento de vínculos ou impossibilidade de permanência com a família/comunidade com segurança.
  • Requer acolhimento (institucional, familiar ou outras modalidades previstas) e proteção integral, com acompanhamento contínuo.

Demandas típicas (exemplos)

  • Criança/adolescente com risco grave no domicílio (violência severa, abuso recorrente, abandono) e necessidade de afastamento protetivo.
  • Mulher sob ameaça grave e risco iminente, sem rede segura para permanecer.
  • Idoso com negligência severa e ausência de cuidador, com risco à vida.
  • Pessoa em situação de rua com grave adoecimento e ausência de condições mínimas de autoproteção, demandando acolhimento articulado com saúde.

Sinais de necessidade de Alta Complexidade (alertas)

  • Risco iminente à vida ou integridade (ameaça concreta, agressor no domicílio, violência grave em curso).
  • Ausência total de adulto responsável protetivo (no caso de crianças/adolescentes) ou cuidador (quando indispensável).
  • Expulsão do domicílio, abandono, ou situação em que retornar para casa aumenta o risco.
  • Revitimização provável se permanecer no mesmo ambiente (ex.: agressor convivente sem possibilidade de afastamento).

Limites de atuação

  • A decisão e o fluxo de acolhimento seguem normas e pactuações locais e, em muitos casos, envolvem autoridade competente (conselho tutelar/justiça, conforme público e situação).
  • O acolhimento não é “solução única”: deve haver plano de acompanhamento, busca de alternativas familiares quando cabível e articulação com rede.

Quadro comparativo: PSB x PSE (Média x Alta Complexidade)

CritérioProteção Social Básica (PSB)PSE Média ComplexidadePSE Alta Complexidade
FocoPrevenção e fortalecimento de vínculosEnfrentamento de violação com acompanhamento especializadoProteção integral com acolhimento e possível ruptura de vínculos
Situação típicaVulnerabilidade social, risco ainda não agravadoViolação de direitos sem necessidade imediata de afastamentoRisco grave/iminente e impossibilidade de permanência segura
Gravidade do riscoBaixa a moderadaModerada a altaAlta e/ou iminente
Vínculos familiaresFragilizados, mas preservadosPodem estar fragilizados e conflituosos, mas ainda há convivênciaRompidos ou precisam ser interrompidos para proteção
Resultados esperadosRedução de vulnerabilidades, maior acesso a direitos, vínculos fortalecidosInterrupção da violação, redução de danos, plano de proteção e acompanhamentoSegurança imediata, proteção integral, reorganização de vida e alternativas protetivas
Exemplo rápidoFamília sem renda estável e sem rede de apoioViolência psicológica recorrente com risco, mas sem necessidade de acolhimento imediatoCriança em risco grave no domicílio, sem adulto protetivo

Passo a passo prático: como decidir qual nível de proteção acionar

Passo 1 — Identifique se é vulnerabilidade ou violação

  • Pergunta-guia: há violação de direitos em curso (violência, abuso, exploração, negligência grave, ameaça)?
  • Se não: tendência a PSB (prevenção e fortalecimento).
  • Se sim ou há forte suspeita: tendência a PSE.

Passo 2 — Avalie gravidade e urgência do risco

  • Pergunta-guia: há risco iminente à integridade/vida?
  • Se iminente: priorize proteção imediata e fluxos de emergência; em geral, indica PSE Alta Complexidade e acionamentos intersetoriais.
  • Se não iminente, mas há violação: PSE Média Complexidade pode ser o caminho, com acompanhamento e plano de proteção.

Passo 3 — Verifique condição de permanência segura no domicílio

  • Pergunta-guia: a pessoa consegue permanecer com segurança com a família/comunidade?
  • Se sim, com medidas e acompanhamento: PSE Média.
  • Se não: PSE Alta (acolhimento/alternativa protetiva).

Passo 4 — Defina o objetivo do atendimento no curto prazo

  • Se o objetivo é organizar acesso a serviços/benefícios e fortalecer rotina e vínculos: PSB.
  • Se o objetivo é interromper violação, reduzir danos e construir plano de proteção: PSE Média.
  • Se o objetivo é garantir segurança imediata fora do ambiente de risco: PSE Alta.

Passo 5 — Registre e encaminhe com informação mínima necessária

  • Registre fatos observáveis, datas, responsáveis e sinais (evite julgamentos).
  • Encaminhe com informação suficiente para continuidade do cuidado, preservando sigilo e evitando exposição desnecessária.

Casos simulados (para treinar a decisão do nível de proteção)

Caso 1 — “Mudança recente e isolamento”

Situação: família chegou ao bairro há 2 meses, sem parentes próximos. Criança faltando à escola por falta de transporte e organização. Não há relatos de violência.

Leitura do risco: vulnerabilidade e fragilização de vínculos, sem violação grave.

Nível indicado: PSB.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Ação prática: acolhida, avaliação de necessidades, orientação para acesso a benefícios quando elegível, articulação com escola e atividades de convivência no território.

Caso 2 — “Conflito familiar com ameaça”

Situação: adolescente relata agressões verbais constantes e ameaça de expulsão de casa. Não há lesão física no momento, mas há medo e sofrimento intenso.

Leitura do risco: indício de violência psicológica e risco de ruptura de vínculos.

Nível indicado: PSE Média Complexidade (se não houver risco iminente e houver possibilidade de permanência com medidas).

Sinais para reavaliar para Alta: ameaça concreta com risco imediato, expulsão efetiva, agressor incontrolável no domicílio, ausência de adulto protetivo.

Caso 3 — “Criança com sinais de negligência grave”

Situação: criança pequena frequentemente sem alimentação adequada, higiene muito precária e faltas constantes. Responsável apresenta uso problemático de álcool e não aceita apoio; vizinhos relatam que a criança fica sozinha por longos períodos.

Leitura do risco: negligência grave com risco à integridade.

Nível indicado: PSE. Se houver possibilidade de proteção mantendo a criança com familiar protetivo e acompanhamento, pode iniciar em Média; se não houver cuidador protetivo e houver risco iminente, tende a Alta Complexidade.

Ação prática: registrar sinais objetivos, acionar fluxos de proteção do território, articular rede (saúde/educação) e avaliar necessidade de medida protetiva/acolhimento conforme o caso.

Caso 4 — “Violência física em curso”

Situação: mulher relata agressão física na noite anterior e diz que o agressor está em casa e ameaçou “fazer pior” se ela procurar ajuda. Ela não tem para onde ir.

Leitura do risco: risco iminente e ameaça concreta.

Nível indicado: PSE Alta Complexidade (proteção imediata e alternativa protetiva), com acionamentos intersetoriais conforme fluxo local.

Limite importante: a equipe socioassistencial não substitui órgãos de segurança/justiça; deve seguir protocolos e priorizar segurança.

Mapa mental operacional (resumo em regras simples)

Se é vulnerabilidade sem violação grave → PSB (prevenir, fortalecer vínculos, acesso a direitos) Se há violação de direitos → PSE Se há violação, mas dá para permanecer com segurança com acompanhamento → PSE Média Se há risco grave/iminente ou não dá para permanecer com segurança → PSE Alta (acolhimento/alternativa protetiva)

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao avaliar um caso no SUAS, qual critério diferencia principalmente a Proteção Social Básica (PSB) da Proteção Social Especial (PSE) no território?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A distinção central é o tipo e a gravidade do risco e o grau de ruptura de vínculos. A PSB atua na prevenção e fortalecimento de vínculos; a PSE é acionada quando há violação de direitos e/ou risco mais intenso, exigindo acompanhamento especializado.

Próximo capitúlo

Organização dos serviços do SUAS: tipificação, fluxos e porta de entrada

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Assistência Social (SUAS) para Iniciantes: estrutura, serviços e gestão local
11%

Assistência Social (SUAS) para Iniciantes: estrutura, serviços e gestão local

Novo curso

18 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.