Organização dos serviços do SUAS: tipificação, fluxos e porta de entrada

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Como o SUAS organiza e reconhece suas ofertas: tipificação e padronização

No SUAS, os serviços e demais ofertas são organizados para que tenham nome, objetivo, público, forma de acesso e padrão mínimo de funcionamento reconhecidos nacionalmente. Isso permite que o município planeje, execute, registre e avalie atendimentos com critérios comuns, evitando “cada lugar faz de um jeito” e garantindo continuidade quando a família transita entre unidades, territórios ou níveis de complexidade.

O que é tipificação (na prática)

A tipificação é a forma de classificar e descrever os serviços socioassistenciais com parâmetros padronizados: finalidade, usuários, provisões, aquisições esperadas, condições de oferta, unidade de referência e articulação com a rede. Na rotina local, ela serve para:

  • Nomear corretamente o que a unidade faz (evita chamar “serviço” o que é projeto ou ação pontual).
  • Definir o que deve acontecer no atendimento (acolhida, acompanhamento, encaminhamentos, registros).
  • Organizar fluxos entre porta de entrada, acompanhamento e desligamento.
  • Padronizar registros e facilitar monitoramento e prestação de contas.

Serviço, programa, projeto e benefício: diferenças essenciais

Uma fonte comum de confusão na gestão local é usar os termos como sinônimos. No SUAS, eles têm funções distintas e se complementam.

ElementoO que éCaracterísticas práticasExemplo de uso no território
ServiçoOferta continuada, com padrão definido, voltada a atender necessidades sociais de forma regular.Tem fluxo, equipe, registros, acompanhamento e critérios de acesso/desligamento. Deve ser reconhecível e estável.Atendimento e acompanhamento de famílias e indivíduos em unidade de referência, com plano de acompanhamento.
ProgramaConjunto organizado de ações com objetivos e público definidos, geralmente com regras específicas e articulação intersetorial.Pode integrar serviços e benefícios; costuma ter metas e condicionalidades/regras próprias (quando aplicável).Um programa municipal de inclusão produtiva articulado com acompanhamento socioassistencial.
ProjetoAção planejada com prazo, escopo e recursos delimitados, para enfrentar um problema específico.Tem começo, meio e fim; pode testar metodologias e complementar serviços, mas não substitui serviço continuado.Projeto de busca ativa em área rural por 6 meses para mapear demandas e vincular famílias.
BenefícioTransferência de renda ou provisão material/financeira para reduzir vulnerabilidades imediatas.Tem critérios de concessão, documentação e prazos; pode ser eventual ou continuado, conforme normativas.Concessão de benefício eventual por situação de emergência, articulada ao acompanhamento.

Regra prática de gestão: se a oferta depende de “ter edital”, “ter patrocínio”, “ter voluntário” ou “acontece quando dá”, provavelmente é projeto. Se é uma entrega pontual para enfrentar uma necessidade imediata, é benefício. Se é uma rotina permanente com acompanhamento e registros, é serviço. Se organiza várias ações e serviços sob um mesmo objetivo e governança, é programa.

Fluxos de atendimento no SUAS: do primeiro contato ao desligamento

Fluxo é o “caminho combinado” que orienta como a demanda entra, como é acolhida, como vira acompanhamento (quando necessário), como se articula com outras ofertas e como se encerra de forma responsável. Um bom fluxo reduz filas, evita retrabalho, melhora a comunicação entre equipes e dá previsibilidade ao usuário.

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Componentes mínimos de um fluxo bem desenhado

  • Porta de entrada: onde a demanda chega e como é registrada.
  • Acolhida: escuta inicial, identificação de necessidades, orientação e definição de encaminhamentos imediatos.
  • Triagem/avaliação inicial: decisão técnica sobre o tipo de resposta (informação, benefício, inclusão em serviço, encaminhamento).
  • Vinculação e referência: definição de quem será a equipe/unidade responsável pelo acompanhamento.
  • Acompanhamento: plano de acompanhamento, periodicidade, atividades e articulação com rede.
  • Contrarreferência: retorno de informações quando há encaminhamento para outra unidade/serviço/setor.
  • Desligamento: encerramento planejado, com registro do resultado e orientações para retorno se necessário.

Acolhida: o que fazer e o que registrar (passo a passo)

A acolhida é mais do que “atender na recepção”. É um procedimento técnico de escuta e orientação que organiza o acesso e qualifica a resposta.

  1. Receber e identificar: nome, contato, composição familiar, território de moradia, forma de chegada (espontânea, encaminhada, busca ativa).
  2. Escuta qualificada: compreender a demanda declarada e a necessidade subjacente (ex.: “preciso de cesta” pode envolver desemprego, violência, rompimento de vínculos, ausência de documentos).
  3. Verificar urgências: risco imediato, ausência de alimentação, situação de rua, violência, desabrigo, saúde mental aguda, criança desacompanhada. Definir resposta imediata e articulação com rede quando necessário.
  4. Orientar direitos e caminhos: explicar o que a unidade pode ofertar (serviços, benefícios, encaminhamentos) e o que não é atribuição da assistência social.
  5. Registrar: motivo da procura, encaminhamentos realizados, documentos solicitados (se aplicável), data do retorno e responsável.
  6. Definir próximo passo: (a) atendimento pontual com orientação; (b) agendamento para avaliação; (c) inclusão em acompanhamento; (d) encaminhamento com referência/contrarreferência.

Exemplo prático: uma pessoa chega pedindo “ajuda com aluguel”. Na acolhida, identifica-se que houve perda de renda e ameaça de despejo. A resposta pode combinar: orientação sobre documentação, avaliação para benefício eventual (se previsto), encaminhamento para rede habitacional (se houver), e vinculação para acompanhamento se a vulnerabilidade for persistente.

Acompanhamento: como estruturar para não virar “atendimento sem fim”

Acompanhamento é um processo organizado, com objetivos e revisões, para apoiar a família/indivíduo na superação de vulnerabilidades e no acesso a ofertas. Para funcionar bem, precisa de plano, periodicidade e critérios de evolução/desligamento.

Passo a passo prático do acompanhamento:

  1. Definir referência: indicar a equipe/unidade responsável (quem coordena o caso e mantém o vínculo).
  2. Construir um plano de acompanhamento: objetivos claros (ex.: regularizar documentação, acessar renda, fortalecer rede de apoio, reduzir exposição a violência), ações, prazos e responsáveis (usuário, equipe, rede).
  3. Estabelecer periodicidade: encontros semanais/quinzenais/mensais conforme necessidade e capacidade, com possibilidade de intensificar em momentos críticos.
  4. Registrar evoluções: o que mudou, o que foi feito, pendências, encaminhamentos e retornos (contrarreferência).
  5. Reavaliar: em datas definidas (ex.: a cada 60/90 dias), revisar objetivos e ajustar estratégias.
  6. Preparar desligamento: quando objetivos forem alcançados ou quando houver mudança de território/unidade, planejar transição e garantir informação para continuidade.

Desligamento responsável: quando e como fazer

Desligar não é “parar de atender” de forma abrupta. É encerrar um ciclo de acompanhamento com registro e orientação, evitando descontinuidade e retorno desnecessário por falta de informação.

Critérios práticos que costumam embasar desligamento (devem ser definidos localmente):

  • Objetivos do plano atingidos ou estabilizados.
  • Usuário/família com rede de apoio ativada e acesso regular às ofertas necessárias.
  • Mudança de território com transferência formal (referência/contrarreferência).
  • Ausência reiterada sem possibilidade de contato, após tentativas registradas (com cautela e avaliação do contexto).

Passo a passo do desligamento:

  1. Revisar o plano e registrar resultados alcançados.
  2. Orientar sobre como retornar ao serviço se houver nova necessidade.
  3. Se houver transferência, enviar síntese técnica para a unidade de destino (com informações estritamente necessárias).
  4. Registrar data e motivo do desligamento no prontuário/sistema local.

Porta de entrada no território: como organizar o acesso sem perder a continuidade

A porta de entrada é o conjunto de pontos e rotinas que permitem que a população acesse o SUAS no território. Ela envolve unidades de referência, canais de atendimento e articulação com a rede local (saúde, educação, justiça, organizações comunitárias), para que a demanda chegue, seja acolhida e tenha encaminhamento adequado.

Princípios operacionais da porta de entrada

  • Acesso simples: horários claros, acolhida organizada, informações visíveis na unidade e canais alternativos (telefone/agenda/plantão, conforme capacidade).
  • Registro desde o primeiro contato: evita que a pessoa “conte a história” repetidas vezes e reduz perda de informação.
  • Critérios transparentes: quem atende, quando agenda, como prioriza urgências.
  • Busca ativa: quando o território exige (áreas rurais, populações invisibilizadas, situações de calamidade), para reduzir barreiras de acesso.
  • Articulação com rede: pactuar como chegam encaminhamentos e como retornam informações (contrarreferência).

Como desenhar a porta de entrada (passo a passo)

  1. Mapear pontos de chegada: demanda espontânea, encaminhamentos de saúde/educação/conselhos, busca ativa, canais remotos.
  2. Definir rotina de acolhida: quem faz, em quais horários, com quais instrumentos de registro e quais perguntas mínimas.
  3. Criar protocolo de priorização: critérios para urgência (risco imediato) e para agendamento (ordem, vulnerabilidade, território).
  4. Estabelecer “saídas” da acolhida: orientação simples, concessão/solicitação de benefício (quando aplicável), inclusão em serviço, encaminhamento para rede, agendamento de avaliação.
  5. Definir referência: regra local para vincular a família/indivíduo a uma equipe/unidade (por território, por perfil, por complexidade).
  6. Pactuar contrarreferência: como a rede devolve informação do encaminhamento (prazo, meio, conteúdo mínimo).
  7. Testar e ajustar: rodar o fluxo por 30–60 dias, medir gargalos (fila, faltas, retrabalho) e revisar.

Referência e contrarreferência: garantindo continuidade do atendimento

Quando a pessoa é atendida por mais de um serviço/unidade/setor, a continuidade depende de dois movimentos complementares:

  • Referência: a unidade/equipe que assume a responsabilidade de coordenar o acompanhamento e manter o vínculo principal com o usuário/família.
  • Contrarreferência: o retorno de informações do serviço/setor para o qual houve encaminhamento, permitindo que a referência acompanhe o desfecho e ajuste o plano.

O que deve constar em uma referência/encaminhamento (modelo textual)

Para reduzir idas e vindas e evitar encaminhamentos “no escuro”, padronize um texto curto com conteúdo mínimo.

ENCAMINHAMENTO (REFERÊNCIA) – SUAS | Data: __/__/____  Unidade: __________  Profissional: __________  Contato: __________  Usuário/família: __________  Endereço/território: __________  Motivo do encaminhamento (objetivo): __________________________________________  Situação resumida (informações essenciais): ____________________________________  Ações já realizadas: _________________________________________________________  Urgência? ( ) sim ( ) não  Prazo sugerido: __________  O que se solicita do serviço de destino: _______________________________________  Autorização/ciência do usuário (quando aplicável): _____________________________

O que deve voltar na contrarreferência (modelo textual)

RETORNO (CONTRARREFERÊNCIA) | Data: __/__/____  Serviço/unidade: __________  Profissional: __________  Usuário/família: __________  Atendimento realizado? ( ) sim ( ) não  Data do atendimento: __/__/____  Resultado/encaminhamento dado: ______________________________________________  Pendências/documentos necessários: __________________________________________  Próximos passos e prazos: __________________________________________________  Recomendações para o plano de acompanhamento: _______________________________  Contato para articulação: ____________________

Boa prática: definir um prazo padrão para contrarreferência (ex.: 7 a 15 dias) e um canal oficial (e-mail institucional, formulário, sistema), evitando depender de recados informais.

Modelo textual de fluxo completo (da demanda inicial ao acompanhamento)

A seguir, um modelo que pode ser adaptado para processos locais. Ele descreve o caminho típico desde a chegada da demanda até o acompanhamento e possíveis transições.

1) DEMANDA CHEGA AO SUAS (porta de entrada)  -> origem: espontânea | encaminhamento da rede | busca ativa | canal remoto  -> ação: registrar identificação mínima + motivo da procura + território + contato  -> saída: direcionar para ACOLHIDA no mesmo dia ou agendar (conforme protocolo de priorização)  2) ACOLHIDA (escuta e orientação)  -> ação: escuta qualificada + verificação de urgência/risco + orientação inicial  -> decisão A (demanda informativa/pontual): orientar + registrar + encerrar atendimento pontual (com orientação de retorno)  -> decisão B (necessidade de benefício): abrir solicitação/avaliação conforme norma local + registrar + agendar retorno  -> decisão C (necessidade de acompanhamento): encaminhar para AVALIAÇÃO INICIAL e definir referência provisória  -> decisão D (necessidade de outro setor/serviço): emitir REFERÊNCIA (encaminhamento) + registrar + combinar retorno para checagem  3) AVALIAÇÃO INICIAL / TRIAGEM TÉCNICA  -> ação: aprofundar diagnóstico social, identificar prioridades e rede envolvida  -> saída: definir REFERÊNCIA (equipe/unidade responsável) + pactuar objetivos iniciais  4) PLANO DE ACOMPANHAMENTO  -> ação: construir plano com objetivos, ações, prazos, responsáveis e periodicidade  -> saída: iniciar atendimentos/visitas/atividades conforme necessidade  5) ENCAMINHAMENTOS COM REFERÊNCIA E CONTRARREFERÊNCIA (quando necessário)  -> ação: encaminhar para serviços do SUAS e/ou rede intersetorial com pedido claro  -> controle: cobrar/receber CONTRARREFERÊNCIA e registrar desfechos  -> ajuste: revisar plano conforme retornos e evolução  6) REAVALIAÇÃO PERIÓDICA  -> ação: revisar metas, registrar avanços, redefinir prioridades  -> saída: manter acompanhamento | intensificar | transferir referência (mudança de território/complexidade)  7) DESLIGAMENTO RESPONSÁVEL  -> ação: registrar resultados + orientar retorno + garantir transferência formal se aplicável  -> saída: encerrar acompanhamento com registro completo

Checklist rápido para implementar o fluxo na unidade

  • Existe um roteiro de acolhida com perguntas mínimas e critérios de urgência?
  • Está definido quem é referência em cada situação (por território, por equipe, por perfil)?
  • modelo padrão de encaminhamento e contrarreferência?
  • O plano de acompanhamento tem objetivos, prazos e revisões?
  • O desligamento é registrado com motivo e orientações?
  • Os gargalos (fila, faltas, retrabalho) são monitorados para ajuste do fluxo?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na gestão local do SUAS, qual prática melhor demonstra a aplicação da tipificação para evitar que “cada lugar faça de um jeito” e garantir continuidade do atendimento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A tipificação padroniza como os serviços são descritos e ofertados (nome, objetivo, público, acesso e padrão mínimo), orientando fluxos e registros. Isso permite planejamento, monitoramento e continuidade do atendimento entre unidades e territórios.

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CRAS no SUAS: funções, equipe, PAIF e gestão do acompanhamento familiar

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