Como o SUAS organiza e reconhece suas ofertas: tipificação e padronização
No SUAS, os serviços e demais ofertas são organizados para que tenham nome, objetivo, público, forma de acesso e padrão mínimo de funcionamento reconhecidos nacionalmente. Isso permite que o município planeje, execute, registre e avalie atendimentos com critérios comuns, evitando “cada lugar faz de um jeito” e garantindo continuidade quando a família transita entre unidades, territórios ou níveis de complexidade.
O que é tipificação (na prática)
A tipificação é a forma de classificar e descrever os serviços socioassistenciais com parâmetros padronizados: finalidade, usuários, provisões, aquisições esperadas, condições de oferta, unidade de referência e articulação com a rede. Na rotina local, ela serve para:
- Nomear corretamente o que a unidade faz (evita chamar “serviço” o que é projeto ou ação pontual).
- Definir o que deve acontecer no atendimento (acolhida, acompanhamento, encaminhamentos, registros).
- Organizar fluxos entre porta de entrada, acompanhamento e desligamento.
- Padronizar registros e facilitar monitoramento e prestação de contas.
Serviço, programa, projeto e benefício: diferenças essenciais
Uma fonte comum de confusão na gestão local é usar os termos como sinônimos. No SUAS, eles têm funções distintas e se complementam.
| Elemento | O que é | Características práticas | Exemplo de uso no território |
|---|---|---|---|
| Serviço | Oferta continuada, com padrão definido, voltada a atender necessidades sociais de forma regular. | Tem fluxo, equipe, registros, acompanhamento e critérios de acesso/desligamento. Deve ser reconhecível e estável. | Atendimento e acompanhamento de famílias e indivíduos em unidade de referência, com plano de acompanhamento. |
| Programa | Conjunto organizado de ações com objetivos e público definidos, geralmente com regras específicas e articulação intersetorial. | Pode integrar serviços e benefícios; costuma ter metas e condicionalidades/regras próprias (quando aplicável). | Um programa municipal de inclusão produtiva articulado com acompanhamento socioassistencial. |
| Projeto | Ação planejada com prazo, escopo e recursos delimitados, para enfrentar um problema específico. | Tem começo, meio e fim; pode testar metodologias e complementar serviços, mas não substitui serviço continuado. | Projeto de busca ativa em área rural por 6 meses para mapear demandas e vincular famílias. |
| Benefício | Transferência de renda ou provisão material/financeira para reduzir vulnerabilidades imediatas. | Tem critérios de concessão, documentação e prazos; pode ser eventual ou continuado, conforme normativas. | Concessão de benefício eventual por situação de emergência, articulada ao acompanhamento. |
Regra prática de gestão: se a oferta depende de “ter edital”, “ter patrocínio”, “ter voluntário” ou “acontece quando dá”, provavelmente é projeto. Se é uma entrega pontual para enfrentar uma necessidade imediata, é benefício. Se é uma rotina permanente com acompanhamento e registros, é serviço. Se organiza várias ações e serviços sob um mesmo objetivo e governança, é programa.
Fluxos de atendimento no SUAS: do primeiro contato ao desligamento
Fluxo é o “caminho combinado” que orienta como a demanda entra, como é acolhida, como vira acompanhamento (quando necessário), como se articula com outras ofertas e como se encerra de forma responsável. Um bom fluxo reduz filas, evita retrabalho, melhora a comunicação entre equipes e dá previsibilidade ao usuário.
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Componentes mínimos de um fluxo bem desenhado
- Porta de entrada: onde a demanda chega e como é registrada.
- Acolhida: escuta inicial, identificação de necessidades, orientação e definição de encaminhamentos imediatos.
- Triagem/avaliação inicial: decisão técnica sobre o tipo de resposta (informação, benefício, inclusão em serviço, encaminhamento).
- Vinculação e referência: definição de quem será a equipe/unidade responsável pelo acompanhamento.
- Acompanhamento: plano de acompanhamento, periodicidade, atividades e articulação com rede.
- Contrarreferência: retorno de informações quando há encaminhamento para outra unidade/serviço/setor.
- Desligamento: encerramento planejado, com registro do resultado e orientações para retorno se necessário.
Acolhida: o que fazer e o que registrar (passo a passo)
A acolhida é mais do que “atender na recepção”. É um procedimento técnico de escuta e orientação que organiza o acesso e qualifica a resposta.
- Receber e identificar: nome, contato, composição familiar, território de moradia, forma de chegada (espontânea, encaminhada, busca ativa).
- Escuta qualificada: compreender a demanda declarada e a necessidade subjacente (ex.: “preciso de cesta” pode envolver desemprego, violência, rompimento de vínculos, ausência de documentos).
- Verificar urgências: risco imediato, ausência de alimentação, situação de rua, violência, desabrigo, saúde mental aguda, criança desacompanhada. Definir resposta imediata e articulação com rede quando necessário.
- Orientar direitos e caminhos: explicar o que a unidade pode ofertar (serviços, benefícios, encaminhamentos) e o que não é atribuição da assistência social.
- Registrar: motivo da procura, encaminhamentos realizados, documentos solicitados (se aplicável), data do retorno e responsável.
- Definir próximo passo: (a) atendimento pontual com orientação; (b) agendamento para avaliação; (c) inclusão em acompanhamento; (d) encaminhamento com referência/contrarreferência.
Exemplo prático: uma pessoa chega pedindo “ajuda com aluguel”. Na acolhida, identifica-se que houve perda de renda e ameaça de despejo. A resposta pode combinar: orientação sobre documentação, avaliação para benefício eventual (se previsto), encaminhamento para rede habitacional (se houver), e vinculação para acompanhamento se a vulnerabilidade for persistente.
Acompanhamento: como estruturar para não virar “atendimento sem fim”
Acompanhamento é um processo organizado, com objetivos e revisões, para apoiar a família/indivíduo na superação de vulnerabilidades e no acesso a ofertas. Para funcionar bem, precisa de plano, periodicidade e critérios de evolução/desligamento.
Passo a passo prático do acompanhamento:
- Definir referência: indicar a equipe/unidade responsável (quem coordena o caso e mantém o vínculo).
- Construir um plano de acompanhamento: objetivos claros (ex.: regularizar documentação, acessar renda, fortalecer rede de apoio, reduzir exposição a violência), ações, prazos e responsáveis (usuário, equipe, rede).
- Estabelecer periodicidade: encontros semanais/quinzenais/mensais conforme necessidade e capacidade, com possibilidade de intensificar em momentos críticos.
- Registrar evoluções: o que mudou, o que foi feito, pendências, encaminhamentos e retornos (contrarreferência).
- Reavaliar: em datas definidas (ex.: a cada 60/90 dias), revisar objetivos e ajustar estratégias.
- Preparar desligamento: quando objetivos forem alcançados ou quando houver mudança de território/unidade, planejar transição e garantir informação para continuidade.
Desligamento responsável: quando e como fazer
Desligar não é “parar de atender” de forma abrupta. É encerrar um ciclo de acompanhamento com registro e orientação, evitando descontinuidade e retorno desnecessário por falta de informação.
Critérios práticos que costumam embasar desligamento (devem ser definidos localmente):
- Objetivos do plano atingidos ou estabilizados.
- Usuário/família com rede de apoio ativada e acesso regular às ofertas necessárias.
- Mudança de território com transferência formal (referência/contrarreferência).
- Ausência reiterada sem possibilidade de contato, após tentativas registradas (com cautela e avaliação do contexto).
Passo a passo do desligamento:
- Revisar o plano e registrar resultados alcançados.
- Orientar sobre como retornar ao serviço se houver nova necessidade.
- Se houver transferência, enviar síntese técnica para a unidade de destino (com informações estritamente necessárias).
- Registrar data e motivo do desligamento no prontuário/sistema local.
Porta de entrada no território: como organizar o acesso sem perder a continuidade
A porta de entrada é o conjunto de pontos e rotinas que permitem que a população acesse o SUAS no território. Ela envolve unidades de referência, canais de atendimento e articulação com a rede local (saúde, educação, justiça, organizações comunitárias), para que a demanda chegue, seja acolhida e tenha encaminhamento adequado.
Princípios operacionais da porta de entrada
- Acesso simples: horários claros, acolhida organizada, informações visíveis na unidade e canais alternativos (telefone/agenda/plantão, conforme capacidade).
- Registro desde o primeiro contato: evita que a pessoa “conte a história” repetidas vezes e reduz perda de informação.
- Critérios transparentes: quem atende, quando agenda, como prioriza urgências.
- Busca ativa: quando o território exige (áreas rurais, populações invisibilizadas, situações de calamidade), para reduzir barreiras de acesso.
- Articulação com rede: pactuar como chegam encaminhamentos e como retornam informações (contrarreferência).
Como desenhar a porta de entrada (passo a passo)
- Mapear pontos de chegada: demanda espontânea, encaminhamentos de saúde/educação/conselhos, busca ativa, canais remotos.
- Definir rotina de acolhida: quem faz, em quais horários, com quais instrumentos de registro e quais perguntas mínimas.
- Criar protocolo de priorização: critérios para urgência (risco imediato) e para agendamento (ordem, vulnerabilidade, território).
- Estabelecer “saídas” da acolhida: orientação simples, concessão/solicitação de benefício (quando aplicável), inclusão em serviço, encaminhamento para rede, agendamento de avaliação.
- Definir referência: regra local para vincular a família/indivíduo a uma equipe/unidade (por território, por perfil, por complexidade).
- Pactuar contrarreferência: como a rede devolve informação do encaminhamento (prazo, meio, conteúdo mínimo).
- Testar e ajustar: rodar o fluxo por 30–60 dias, medir gargalos (fila, faltas, retrabalho) e revisar.
Referência e contrarreferência: garantindo continuidade do atendimento
Quando a pessoa é atendida por mais de um serviço/unidade/setor, a continuidade depende de dois movimentos complementares:
- Referência: a unidade/equipe que assume a responsabilidade de coordenar o acompanhamento e manter o vínculo principal com o usuário/família.
- Contrarreferência: o retorno de informações do serviço/setor para o qual houve encaminhamento, permitindo que a referência acompanhe o desfecho e ajuste o plano.
O que deve constar em uma referência/encaminhamento (modelo textual)
Para reduzir idas e vindas e evitar encaminhamentos “no escuro”, padronize um texto curto com conteúdo mínimo.
ENCAMINHAMENTO (REFERÊNCIA) – SUAS | Data: __/__/____ Unidade: __________ Profissional: __________ Contato: __________ Usuário/família: __________ Endereço/território: __________ Motivo do encaminhamento (objetivo): __________________________________________ Situação resumida (informações essenciais): ____________________________________ Ações já realizadas: _________________________________________________________ Urgência? ( ) sim ( ) não Prazo sugerido: __________ O que se solicita do serviço de destino: _______________________________________ Autorização/ciência do usuário (quando aplicável): _____________________________O que deve voltar na contrarreferência (modelo textual)
RETORNO (CONTRARREFERÊNCIA) | Data: __/__/____ Serviço/unidade: __________ Profissional: __________ Usuário/família: __________ Atendimento realizado? ( ) sim ( ) não Data do atendimento: __/__/____ Resultado/encaminhamento dado: ______________________________________________ Pendências/documentos necessários: __________________________________________ Próximos passos e prazos: __________________________________________________ Recomendações para o plano de acompanhamento: _______________________________ Contato para articulação: ____________________Boa prática: definir um prazo padrão para contrarreferência (ex.: 7 a 15 dias) e um canal oficial (e-mail institucional, formulário, sistema), evitando depender de recados informais.
Modelo textual de fluxo completo (da demanda inicial ao acompanhamento)
A seguir, um modelo que pode ser adaptado para processos locais. Ele descreve o caminho típico desde a chegada da demanda até o acompanhamento e possíveis transições.
1) DEMANDA CHEGA AO SUAS (porta de entrada) -> origem: espontânea | encaminhamento da rede | busca ativa | canal remoto -> ação: registrar identificação mínima + motivo da procura + território + contato -> saída: direcionar para ACOLHIDA no mesmo dia ou agendar (conforme protocolo de priorização) 2) ACOLHIDA (escuta e orientação) -> ação: escuta qualificada + verificação de urgência/risco + orientação inicial -> decisão A (demanda informativa/pontual): orientar + registrar + encerrar atendimento pontual (com orientação de retorno) -> decisão B (necessidade de benefício): abrir solicitação/avaliação conforme norma local + registrar + agendar retorno -> decisão C (necessidade de acompanhamento): encaminhar para AVALIAÇÃO INICIAL e definir referência provisória -> decisão D (necessidade de outro setor/serviço): emitir REFERÊNCIA (encaminhamento) + registrar + combinar retorno para checagem 3) AVALIAÇÃO INICIAL / TRIAGEM TÉCNICA -> ação: aprofundar diagnóstico social, identificar prioridades e rede envolvida -> saída: definir REFERÊNCIA (equipe/unidade responsável) + pactuar objetivos iniciais 4) PLANO DE ACOMPANHAMENTO -> ação: construir plano com objetivos, ações, prazos, responsáveis e periodicidade -> saída: iniciar atendimentos/visitas/atividades conforme necessidade 5) ENCAMINHAMENTOS COM REFERÊNCIA E CONTRARREFERÊNCIA (quando necessário) -> ação: encaminhar para serviços do SUAS e/ou rede intersetorial com pedido claro -> controle: cobrar/receber CONTRARREFERÊNCIA e registrar desfechos -> ajuste: revisar plano conforme retornos e evolução 6) REAVALIAÇÃO PERIÓDICA -> ação: revisar metas, registrar avanços, redefinir prioridades -> saída: manter acompanhamento | intensificar | transferir referência (mudança de território/complexidade) 7) DESLIGAMENTO RESPONSÁVEL -> ação: registrar resultados + orientar retorno + garantir transferência formal se aplicável -> saída: encerrar acompanhamento com registro completoChecklist rápido para implementar o fluxo na unidade
- Existe um roteiro de acolhida com perguntas mínimas e critérios de urgência?
- Está definido quem é referência em cada situação (por território, por equipe, por perfil)?
- Há modelo padrão de encaminhamento e contrarreferência?
- O plano de acompanhamento tem objetivos, prazos e revisões?
- O desligamento é registrado com motivo e orientações?
- Os gargalos (fila, faltas, retrabalho) são monitorados para ajuste do fluxo?