Programação e sequenciamento no PCP: regras, prioridades e redução de setups

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Programar x Sequenciar: duas decisões diferentes

No PCP, programar e sequenciar são decisões complementares, mas não iguais:

  • Programar (quando e quanto produzir): define datas e quantidades por ordem/lote. Ex.: “Produzir 500 peças do Item A na terça-feira” ou “Liberar a Ordem 103 hoje para terminar até sexta”.
  • Sequenciar (em que ordem produzir): define a prioridade e a ordem de execução das ordens dentro de um recurso (máquina, célula, linha). Ex.: “Na máquina M1, fazer primeiro a Ordem 105, depois 101, depois 104”.

Na prática, você pode ter uma programação “correta” (quantidades e datas coerentes) e ainda assim ter atrasos se o sequenciamento no recurso crítico estiver ruim (muitas trocas, ordens urgentes ficando para trás, etc.).

O que uma boa regra de sequenciamento resolve (e o que ela não resolve)

Regras de sequenciamento são heurísticas simples para decidir a ordem das ordens quando há fila. Elas ajudam iniciantes porque:

  • São fáceis de aplicar com dados básicos (prazo, tempo de processamento, prioridade).
  • Permitem padronizar decisões e reduzir “apagar incêndio”.
  • Facilitam comparar resultados (atraso, eficiência, setups, estoque).

Por outro lado, uma regra sozinha não “cria capacidade” nem substitui decisões de programação (liberação de ordens, tamanho de lote, janela de produção). Ela organiza o que já está na fila.

Regras de sequenciamento para iniciantes

1) FIFO (First In, First Out)

Ideia: produzir na ordem de chegada das ordens à fila.

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  • Vantagem: simples, percebido como “justo”, reduz discussões.
  • Risco: pode atrasar ordens com prazo curto que chegaram depois.

2) EDD (Earliest Due Date — menor prazo primeiro)

Ideia: priorizar a ordem com data de entrega mais próxima.

  • Vantagem: tende a reduzir atrasos e melhorar nível de serviço.
  • Risco: pode aumentar setups e reduzir eficiência se alternar muitos produtos/processos.

3) SPT (Shortest Processing Time — menor tempo primeiro)

Ideia: priorizar a ordem com menor tempo de processamento.

  • Vantagem: aumenta fluxo (mais ordens concluídas rapidamente), reduz tempo médio em fila.
  • Risco: ordens longas podem “ficar para depois” e estourar prazo.

4) Prioridade por cliente

Ideia: aplicar uma classificação (ex.: A/B/C) e sempre atender primeiro clientes A, depois B, depois C.

  • Vantagem: alinha operação com estratégia comercial (clientes-chave).
  • Risco: pode gerar atrasos em clientes não prioritários e aumentar estoque/urgências se não houver regras claras de exceção.

5) Prioridade por gargalo (proteger o recurso crítico)

Ideia: sequenciar e liberar ordens para manter o recurso crítico sempre alimentado e com menos interrupções.

  • Vantagem: melhora entrega e estabilidade do fluxo ao evitar “falta de material/ordem” no recurso que limita o sistema.
  • Risco: pode criar filas e estoque em processo antes/depois do gargalo se o restante não estiver sincronizado.

6) Prioridade por campanha (redução de troca/setup)

Ideia: agrupar ordens semelhantes (mesma cor, mesma matéria-prima, mesmo ferramental, mesma regulagem) para reduzir setups.

  • Vantagem: aumenta eficiência, reduz tempo perdido e variabilidade.
  • Risco: pode aumentar atraso de ordens urgentes e elevar estoque se a campanha for grande demais.

Trade-offs: atraso vs. eficiência vs. estoque

Ao escolher uma regra, você está escolhendo um “ótimo local” para um objetivo e aceitando perdas em outro:

ObjetivoRegras que tendem a ajudarO que pode piorar
Reduzir atrasos (cumprir prazos)EDD, prioridade por cliente (quando alinhada a prazos)Mais setups, menor eficiência, mais trocas
Aumentar eficiência (menos tempo parado)Campanha (redução de setup), às vezes FIFO (estabilidade)Risco de atrasos em ordens urgentes
Reduzir tempo médio em fila / aumentar “vazão” de ordensSPTOrdens longas podem atrasar muito
Evitar parar o recurso críticoPrioridade por gargaloAcúmulo de WIP (estoque em processo) ao redor do gargalo

Na rotina, muitas empresas usam regras híbridas, por exemplo: “EDD dentro de cada campanha” ou “Cliente A primeiro; dentro do cliente A, EDD”.

Passo a passo prático: aplicando regras em uma lista de ordens

Considere uma única máquina (M1), com as seguintes ordens aguardando. Assuma que todas estão disponíveis para produzir e que a máquina trabalha em sequência (uma ordem por vez).

OrdemClientePrazo (dia)Tempo de processamento (h)Tipo (para setup)
O1BDia 36X
O2ADia 22Y
O3CDia 51X
O4ADia 45Z
O5BDia 13Y

Etapa 1 — Defina a regra e ordene a fila

Você vai gerar uma sequência (ordem de execução) conforme a regra escolhida.

Aplicação 1: FIFO

Sequência (chegada na fila): O1 → O2 → O3 → O4 → O5

Quando usar: ambiente estável, pouca variação de prazo, necessidade de simplicidade e disciplina.

Aplicação 2: EDD (menor prazo primeiro)

Ordene pelo prazo crescente (Dia 1, 2, 3, 4, 5):

Sequência: O5 → O2 → O1 → O4 → O3

Observação prática: se duas ordens tiverem o mesmo prazo, você pode desempatar por FIFO ou por menor tempo (SPT) para ganhar agilidade.

Aplicação 3: SPT (menor tempo primeiro)

Ordene pelo tempo de processamento crescente (1h, 2h, 3h, 5h, 6h):

Sequência: O3 → O2 → O5 → O4 → O1

Interpretação: você “limpa” rapidamente várias ordens pequenas, mas pode empurrar uma ordem longa (O1) para o fim.

Aplicação 4: Prioridade por cliente (A primeiro)

Defina a regra: Cliente A > B > C. Dentro de cada cliente, use EDD para não perder prazo.

Cliente A: O2 (Dia 2) → O4 (Dia 4)

Cliente B: O5 (Dia 1) → O1 (Dia 3)

Cliente C: O3 (Dia 5)

Sequência: O2 → O4 → O5 → O1 → O3

Ponto de atenção: note que O5 (Dia 1) ficou atrás de O4 (Dia 4) por causa da prioridade do cliente; isso pode ser aceitável (estratégia) ou perigoso (multa/contrato). Por isso, muitas operações criam uma exceção: “se estiver a X horas do prazo, vira urgente e fura a fila”.

Comparando resultados (visão gerencial simples)

Sem entrar em fórmulas complexas, compare as regras por três perguntas:

  • Quem fica mais perto do prazo? (tende a favorecer EDD)
  • Quantas ordens eu concluo rápido? (tende a favorecer SPT)
  • Quantas trocas eu faço? (tende a favorecer campanha)

Para tornar comparável, você pode montar uma planilha com colunas: sequência, tempo acumulado, data/hora estimada de término e “atrasou?” (sim/não). O valor aqui é enxergar que a melhor regra depende do objetivo do período (semana com muitos urgentes vs. semana de estabilização e eficiência).

Sequenciamento por campanha: reduzindo setups com um cenário prático

Agora considere que a máquina M1 exige setup de 1,5h sempre que muda o Tipo (X, Y, Z). Se repetir o mesmo tipo em sequência, não há setup entre elas.

Lista de ordens (com prazos) para montar campanha

OrdemPrazo (dia)Tempo (h)Tipo
O6Dia 22X
O7Dia 22X
O8Dia 13Y
O9Dia 44Y
O10Dia 35Z

Opção A — Sequenciar só por EDD (prazos)

Ordenando por prazo: Dia 1 (O8) → Dia 2 (O6, O7) → Dia 3 (O10) → Dia 4 (O9)

Sequência: O8(Y) → O6(X) → O7(X) → O10(Z) → O9(Y)

Trocas de tipo: Y→X (setup), X→Z (setup), Z→Y (setup) = 3 setups (4,5h de setup)

Opção B — Campanha para reduzir setups (com proteção de prazo)

Uma forma prática para iniciantes é usar um passo a passo híbrido:

  • Passo 1: marque ordens “não negociáveis” por prazo (ex.: tudo que vence até Dia 2).
  • Passo 2: dentro desse grupo urgente, aplique EDD (ou FIFO) e aceite setups se necessário.
  • Passo 3: para o restante (Dia 3+), agrupe por tipo para formar campanhas e reduzir trocas.
  • Passo 4: valide se alguma ordem do grupo “não urgente” ficará crítica; se sim, traga para frente.

Aplicando: urgentes até Dia 2: O8(Y), O6(X), O7(X). Restante: O10(Z), O9(Y).

Uma sequência com menos setups pode ser:

Sequência: O8(Y) → O9(Y) → O6(X) → O7(X) → O10(Z)

Trocas de tipo: Y→X (setup), X→Z (setup) = 2 setups (3h de setup)

Leitura do trade-off: você reduziu setup, mas trouxe O9 (Dia 4) para perto do começo para “fechar” a campanha Y. Isso pode aumentar estoque (se O9 não for necessário tão cedo) e ocupar capacidade que poderia ser usada para outra urgência. Por isso, campanhas costumam ter tamanho máximo (ex.: “campanha de Y no máximo 1 dia de produção” ou “no máximo X horas”).

Dicas operacionais para aplicar no dia a dia (sem complicar)

  • Defina um critério de urgência (ex.: “vence em até 48h” ou “atraso já começou”) para permitir exceções à campanha.
  • Padronize desempates: se duas ordens têm mesmo prazo, use SPT; se têm mesmo tempo, use FIFO.
  • Separe fila por recurso: sequenciamento é local (por máquina/linha). Evite uma “fila única” sem considerar onde cada ordem roda.
  • Registre motivo de furo de fila (cliente A, risco de atraso, falta de material, retrabalho). Isso vira melhoria de processo.
  • Meça o básico: número de setups por turno, % ordens no prazo, e tempo médio em fila. Essas três métricas já mostram o efeito da regra escolhida.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma máquina com várias ordens aguardando, qual situação indica que a programação pode estar correta, mas ainda assim ocorrerem atrasos por causa do sequenciamento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Programar define quando e quanto produzir; sequenciar define em que ordem. Mesmo com datas/quantidades corretas, um sequenciamento ruim no recurso crítico (muitas trocas e urgências no fim) pode causar atrasos.

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