Ciclo de vida da ordem de produção (OP) no PCP
A ordem de produção (OP) é o documento (físico ou digital) que autoriza e organiza a fabricação de um item em uma quantidade definida, em um período e com regras de controle. Ela conecta o que foi planejado/solicitado ao que será executado no chão de fábrica, garantindo que materiais, instruções e registros estejam disponíveis para produzir e rastrear o que foi feito.
Visão geral do fluxo
- Geração (a partir do plano/pedido)
- Verificação de materiais e pré-requisitos
- Liberação para o chão de fábrica
- Emissão de documentação (pacote de ordem)
- Execução (produção)
- Apontamento (consumos, tempos, quantidades, ocorrências)
- Encerramento (baixa final, análise e rastreabilidade completa)
1) Geração da OP: de onde nasce e o que precisa conter
A OP pode ser gerada por diferentes gatilhos, dependendo do processo da empresa:
- Por plano: o PCP cria OPs para repor estoque ou atender um plano de produção.
- Por pedido: a OP nasce vinculada a um pedido específico do cliente (com referência, prioridade e data).
- Por necessidade interna: reposição de componentes, produção para testes, amostras, ou recomposição após perdas.
Campos mínimos na criação
- Código e descrição do produto
- Quantidade planejada e unidade
- Data de necessidade (ou janela de produção)
- Versão/nível de engenharia (BOM e desenho/receita aplicáveis)
- Roteiro (operações e centros de trabalho) e tempos padrão (quando aplicável)
- Prioridade (normal/urgente) e motivo
- Vínculo (pedido, projeto, lote de venda, campanha)
- Regras de rastreabilidade (por lote, por série, por data, por matéria-prima)
Exemplo prático (simplificado)
Pedido do cliente: 500 unidades do item PROD-123 para entrega em 20/03. O PCP gera a OP OP-10458 com quantidade 500, versão de engenharia Rev C, roteiro padrão e define rastreabilidade por lote de matéria-prima e por lote de produção.
2) Verificação de materiais e pré-requisitos (antes de liberar)
Antes de liberar a OP, o PCP (ou área responsável) confirma se a execução é viável. O objetivo é evitar OP liberada que para no meio por falta de material, ferramenta, documento ou condição de processo.
Checklist prático de verificação
- Materiais: disponibilidade em estoque, itens críticos, itens com validade, itens controlados por lote.
- Alternativos aprovados: se houver substitutos, confirmar se estão liberados por engenharia/qualidade.
- Documentos: instruções de trabalho, desenho/receita, plano de inspeção, parâmetros de processo.
- Recursos: ferramental, dispositivos, calibração de instrumentos, setup especial.
- Restrições: janela de produção, necessidade de limpeza/segregação, requisitos de cliente.
Passo a passo prático
- Explodir necessidades da OP (lista de materiais) e comparar com estoque/reservas.
- Identificar faltas e classificar: crítica (para tudo) vs. não crítica (pode produzir parcial).
- Definir estratégia: separar material, solicitar reposição, aprovar substituição, ou reprogramar.
- Registrar decisão na OP: “apta para liberação” ou “bloqueada por pendência”.
3) Liberação para o chão de fábrica
Liberação é o ato formal de autorizar a produção. A partir desse momento, a OP entra na fila de execução e passa a consumir recursos e materiais (por reserva, separação ou baixa).
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Boas práticas na liberação
- Liberação com critérios: liberar somente OPs com documentação e materiais críticos garantidos.
- Liberação por etapa: em processos longos, liberar operações iniciais enquanto itens de etapas finais ainda estão em trânsito (quando o risco for controlado).
- Controle de WIP: limitar quantidade de OPs liberadas simultaneamente para evitar excesso de trabalho em processo.
Passo a passo prático
- Confirmar status: materiais críticos OK, documentos vigentes, recursos disponíveis.
- Definir lote de produção (quando aplicável) e regras de identificação.
- Emitir/associar pacote de ordem (documentos e etiquetas).
- Comunicar ao líder/PCP de fábrica: prioridade, prazo, observações.
4) Emissão de documentação: o “pacote de ordem”
O pacote de ordem é o conjunto de documentos e registros que acompanha a OP e garante que o produto seja feito conforme especificação e que haja rastreabilidade do que foi usado e do que ocorreu.
O que normalmente compõe o pacote
- Capa da OP (identificação e parâmetros principais)
- Lista de materiais (BOM) aplicável com revisões e quantidades
- Roteiro/folha de processo (operações, centros, tempos, setup)
- Instruções de trabalho e pontos críticos
- Desenho técnico (manufatura) ou receita (processos)
- Plano de inspeção (critérios, amostragem, registros)
- Etiquetas de identificação (lote, OP, status)
- Formulários de apontamento (produção, consumo, perdas, paradas)
Modelo de “pacote de ordem” (campos essenciais)
| Seção | Campo | Exemplo |
|---|---|---|
| Identificação | Nº OP | OP-10458 |
| Identificação | Item a produzir | PROD-123 |
| Identificação | Descrição | Conjunto X |
| Planejamento | Quantidade planejada | 500 un |
| Planejamento | Quantidade mínima para parcial | 200 un |
| Planejamento | Data de necessidade | 20/03 |
| Engenharia | Revisão do produto | Rev C |
| Engenharia | Revisão da BOM | BOM Rev 7 |
| Processo | Roteiro/versão | ROT-123 v4 |
| Materiais | Lista de materiais com lotes | MP-01 lote L2402; MP-02 lote L2405 |
| Qualidade | Pontos de inspeção | Dimensão A; teste funcional |
| Rastreabilidade | Regra de identificação | Lote de produção = OP + data |
| Apontamentos | Campos de produção | Qtd boa, refugo, retrabalho, hora início/fim |
| Controle | Status e aprovações | Criada, Liberada, Em execução, Encerrada |
| Controle | Histórico de alterações | ECN-778: substituição MP-02 |
5) Execução: como a OP “anda” no chão de fábrica
Na execução, a OP percorre as operações do roteiro. O controle mais importante aqui é garantir que o que está sendo produzido corresponde à versão correta e que os materiais consumidos são os autorizados.
Pontos de atenção na execução
- Segregação por status: material separado, em processo, aprovado, bloqueado, sucata.
- Identificação contínua: etiquetas com OP, lote, operação, quantidade e data.
- Controle de parâmetros: registrar ajustes relevantes (temperatura, torque, mistura, etc.) quando exigido.
- Inspeções em processo: registrar resultados e liberar avanço de operação quando necessário.
6) Apontamento: registrando o que foi feito (e o que deu errado)
Apontamento é o registro do realizado: quantidades produzidas, consumos, tempos, perdas e ocorrências. É ele que transforma a OP em informação confiável para estoque, custos, qualidade e rastreabilidade.
O que apontar (mínimo recomendado)
- Produção: quantidade boa por operação e total.
- Consumo: materiais e lotes efetivamente utilizados (principal para rastreabilidade).
- Tempo: início/fim, paradas e motivo (quando aplicável).
- Perdas: sucata/refugo, retrabalho, reprocesso, desvios.
- Movimentações: entrada/saída de operação, transferência para estoque, bloqueio.
Passo a passo prático de apontamento por operação
- Registrar início da operação (data/hora, recurso, operador quando aplicável).
- Confirmar material: anotar lotes consumidos e quantidades.
- Registrar saída: quantidade boa, quantidade com defeito, motivo do defeito.
- Encaminhar: para próxima operação, inspeção, retrabalho ou sucata.
7) Encerramento da OP: quando e como fechar corretamente
Encerrar a OP é finalizar administrativamente e fisicamente a ordem, garantindo que não há pendências de apontamento, consumo, inspeção e rastreabilidade.
Critérios comuns para encerramento
- Quantidade produzida atingiu o planejado (ou foi encerrada com saldo justificado).
- Apontamentos completos: produção, consumos, perdas e tempos registrados.
- Qualidade concluída: itens aprovados liberados; itens bloqueados tratados.
- Saldos tratados: material não utilizado devolvido/regularizado; WIP zerado ou justificado.
Passo a passo prático
- Conferir saldo da OP: planejado vs. produzido vs. pendente.
- Validar consumos: materiais e lotes batem com o que foi separado/permitido.
- Registrar perdas: sucata e retrabalho com códigos de motivo.
- Baixar/transferir produto acabado e encerrar status da OP.
Conceitos essenciais: lote, parcial, reprocesso, sucata e rastreabilidade
Lote
Lote é um agrupamento de unidades produzidas (ou de matéria-prima) identificado por um código comum, fabricado sob condições similares. Lote é a base de rastreabilidade em muitas indústrias.
- Lote de produção: identifica o conjunto fabricado na OP (ex.:
LP-OP10458-20260315). - Lote de matéria-prima: identifica o fornecimento/entrada (ex.:
MP-02 L2405).
Parcial
Parcial é a entrega/registro de uma quantidade menor que a planejada, mantendo a OP aberta. É útil quando:
- há falta de algum componente não crítico para parte do volume;
- o cliente aceita entregas fracionadas;
- o processo permite finalizar parte do lote enquanto o restante aguarda.
Boa prática: definir no pacote de ordem a quantidade mínima para parcial e como identificar os parciais (ex.: Parcial 1/2, Parcial 2/2).
Reprocesso
Reprocesso é refazer uma etapa do processo para corrigir um desvio, geralmente retornando o item para uma operação anterior (ou repetindo a mesma operação) para atender à especificação. Exemplo: peça pintada com falha retorna para lixamento e repintura.
- Deve ter registro (motivo, operação, quantidade) e, quando necessário, aprovação de qualidade/engenharia.
- Pode exigir nova identificação (ex.: etiqueta “REPROCESSO”) para evitar mistura com fluxo normal.
Sucata (refugo)
Sucata é a perda definitiva: material ou produto que não pode ser recuperado economicamente ou tecnicamente para atender à especificação. Deve ser registrada com:
- quantidade e motivo (código de defeito);
- operação onde ocorreu;
- lote afetado (para análise e rastreabilidade).
Rastreabilidade
Rastreabilidade é a capacidade de identificar o histórico, aplicação e localização de um item por meio de registros. No contexto da OP, normalmente envolve:
- Rastrear para trás: do produto acabado para os lotes de matéria-prima, operações e inspeções.
- Rastrear para frente: de um lote de matéria-prima para quais OPs/lotes de produção ele foi usado.
Para funcionar, rastreabilidade exige disciplina em três pontos: identificação (etiquetas/lotes), registro (apontamentos) e segregação (não misturar lotes sem regra).
Como controlar alterações na OP: engenharia e substituição de material
Alterações durante uma OP são comuns (mudança de desenho, revisão de receita, substituição de componente). O risco é produzir parte do lote com uma condição e parte com outra sem controle, gerando problemas de qualidade, custo e rastreabilidade.
Princípios de controle de mudança (na prática)
- Nenhuma mudança “verbal”: toda alteração deve ter registro formal (ex.: solicitação de mudança, desvio aprovado, ECN/alteração de engenharia).
- Definir aplicabilidade: a mudança vale para toda a OP? Apenas a partir de uma data/hora? Apenas para um parcial?
- Congelar o que já foi produzido: identificar o que foi feito “antes” e “depois” da mudança.
- Atualizar documentos do pacote de ordem e garantir que versões antigas sejam retiradas do uso.
Exemplo: substituição de material controlada pelo PCP
Cenário: na OP OP-10458, o item MP-02 está em falta. Existe um alternativo MP-02A aprovado para uso, mas com condição de processo diferente.
Passo a passo recomendado
- Solicitação: PCP registra a necessidade de substituição (motivo: falta de MP-02) e abre uma solicitação formal (ex.:
DESV-0152). - Análise e aprovação: engenharia/qualidade aprovam o uso de
MP-02Ae definem condições (ex.: parâmetro de processo atualizado, inspeção adicional). - Definir aplicabilidade: “válido a partir do parcial 2” ou “válido a partir da unidade 301”.
- Atualizar pacote: emitir BOM/folha de processo revisada para a OP (ou anexo controlado), com identificação clara:
OP-10458 Anexo A (MP-02A). - Segregar e identificar: separar fisicamente os materiais e identificar o WIP/produto:
Parcial 1 = MP-02,Parcial 2 = MP-02A. - Apontar consumos por lote: registrar que as unidades 1–300 consumiram
MP-02 L2405e as unidades 301–500 consumiramMP-02A L2411. - Revisar inspeção: garantir que os registros de qualidade reflitam a condição “antes/depois”.
Exemplo: alteração de engenharia durante a OP
Cenário: desenho muda de Rev C para Rev D por correção dimensional.
- Decisão de corte: definir o ponto de mudança (ex.: “aplicar Rev D somente em novas OPs” ou “aplicar em OP-10458 a partir do parcial 2”).
- Controle de documentos: retirar
Rev Cdo pacote e anexarRev Dcom registro de data/hora e responsável. - Rastreabilidade: manter registro de quais unidades/lotes foram produzidos sob cada revisão.
Checklist rápido para o PCP (uso diário)
- OP criada com item, quantidade, datas, revisão e regra de rastreabilidade?
- Materiais críticos e documentos vigentes verificados antes da liberação?
- Pacote de ordem emitido com BOM, instruções e registros de apontamento?
- Execução com identificação de lote e segregação por status?
- Apontamentos completos (produção, consumo por lote, perdas, retrabalho/reprocesso)?
- Alterações controladas com aplicabilidade definida e histórico registrado?