Organização da produção: própria vs. terceirizada (com previsibilidade)
Produção previsível é a capacidade de transformar pedidos e planos de coleção em entregas no prazo, com qualidade consistente e custos controlados. Para isso, você precisa de um fluxo de etapas bem definido, metas de capacidade (quantas peças por semana), prazos padrão (lead time) e rotinas de controle por etapa.
Produção própria
- Vantagens: maior controle de qualidade e prazos, ajustes rápidos, confidencialidade de modelagens.
- Riscos: capacidade limitada, dependência de pessoas-chave, custo fixo (equipe, máquinas, espaço).
- Quando faz sentido: volumes menores, produtos com alto rigor de acabamento, necessidade de agilidade em reposições.
Produção terceirizada
- Vantagens: escala mais fácil, custo mais variável, acesso a especialidades (malharia, alfaiataria, jeans, bordado).
- Riscos: fila do fornecedor, variação de qualidade, comunicação falha, menor flexibilidade para mudanças.
- Quando faz sentido: volumes maiores, mix amplo, necessidade de diluir investimento em estrutura.
Regra prática para previsibilidade
Independentemente do modelo, trate a produção como um sistema com entradas (insumos e informações), processo (etapas) e saídas (peças aprovadas e expedidas). A previsibilidade vem de: (1) padrões de tempo por etapa, (2) capacidade medida, (3) cronograma com folgas, (4) controle de qualidade e rastreabilidade.
Desenhando o fluxo de produção (do insumo à expedição)
O fluxo abaixo pode ser usado tanto em produção própria quanto terceirizada. O objetivo é mapear quem faz o quê, em que ordem, com quais critérios de aprovação e quais registros ficam guardados.
1) Compra e recebimento de insumos
Entradas: tecido, aviamentos, etiquetas, embalagem, linha, entretela, zíper, botões.
- Checklist de recebimento: quantidade, cor/lote, largura do tecido, defeitos aparentes, encolhimento informado, correspondência com o pedido.
- Separação por lote: identifique cada rolo/caixa com código do fornecedor + data + lote/cor.
- Reserva por ordem: separe insumos por pedido/coleção para evitar “sumir” material no meio do caminho.
2) Corte
Objetivo: transformar tecido em partes cortadas com precisão e aproveitamento.
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- Preparação: conferir risco/encaixe, sentido do fio, estampa (casamento), margem de costura, quantidade por tamanho.
- Controle: contagem de partes por tamanho (ex.: 20 frentes P, 20 costas P etc.).
- Identificação: amarre/embale kits por peça (ou por tamanho) com etiqueta de lote e OP (ordem de produção).
3) Costura
Objetivo: montar a peça seguindo sequência operacional.
- Sequência: defina uma ordem fixa (ex.: fechar ombro > aplicar gola > fechar lateral > barra).
- Pontos críticos: medidas-chave (cintura, quadril, comprimento), simetria, tensão de linha, alinhamento de zíper.
- Controle em processo: inspeção por amostragem a cada X peças (ex.: a cada 10) para detectar erro cedo.
4) Acabamento
Objetivo: elevar padrão visual e durabilidade.
- Atividades típicas: overlock/limpeza de linhas, caseado, botão, aplicação de etiqueta, reforços, revisão de costuras.
- Controle: checklist de acabamento (sem fios soltos, costura reta, aviamentos firmes).
5) Passadoria
Objetivo: assentar costuras e apresentar a peça corretamente.
- Padrão: temperatura por tecido, uso de proteção (pano), vapor, forma correta de passar (evitar brilho).
- Controle: verificar marcas de ferro, vincos indevidos, deformação.
6) Revisão final
Objetivo: aprovar ou reprovar antes de embalar.
- Checklist: medidas (tolerância), manchas, furos, costuras abertas, aviamentos, etiqueta, aparência geral.
- Classificação: Aprovada / Retrabalho / Refugo (quando não compensa corrigir).
7) Embalagem
Objetivo: proteger e padronizar a entrega.
- Padrão: dobra, saquinho, tag, lacre, proteção extra para peças delicadas.
- Controle: SKU/tamanho/cor corretos, etiqueta de envio, nota/romaneio conforme processo interno.
8) Expedição
Objetivo: despachar no prazo com rastreio.
- Conferência final: quantidade por pedido, itens e variações, endereço, método de envio.
- Registro: data de expedição, transportadora, código de rastreio, responsável.
Gestão de capacidade: quantas peças por semana (e por quê isso muda tudo)
Capacidade é o volume máximo que seu sistema consegue entregar com qualidade em um período (sem “forçar” a equipe e sem aumentar retrabalho). O erro comum é planejar coleção e prazos sem medir capacidade real.
Como medir capacidade na prática (método simples)
Você pode medir por etapa ou pelo gargalo (a etapa mais lenta). Comece pelo gargalo, porque ele define o ritmo do sistema.
- Liste as etapas: corte, costura, acabamento, passadoria, revisão, embalagem.
- Meça tempo médio por peça em cada etapa (em minutos). Use uma amostra real (ex.: 10 peças) e faça média.
- Calcule minutos disponíveis por semana por pessoa/máquina (ex.: 40h/semana = 2.400 min; descontar pausas, setup, manutenção; use 2.000 min como base conservadora).
- Capacidade por etapa = minutos disponíveis ÷ minutos por peça.
- Capacidade do sistema = a menor capacidade entre as etapas (o gargalo).
Exemplo: uma costureira tem 2.000 min/semana disponíveis. Se uma blusa leva 25 min na costura, a capacidade de costura é 80 blusas/semana. Se a passadoria consegue 120/semana e a revisão 200/semana, o gargalo é costura (80/semana). Planeje a produção com base em 80/semana (ou aumente capacidade do gargalo).
Como lidar com gargalos (sem “apagar incêndio”)
- Redistribuir tarefas: separar operações simples para ajudantes (ex.: limpeza de linhas, preparação de kits).
- Balancear linha: dividir costura em operações e alocar por habilidade (quem faz zíper não precisa fazer barra).
- Reduzir setup: agrupar por cor/tecido para diminuir troca de linha, regulagem e tempo parado.
- Terceirizar a etapa gargalo: ex.: mandar apenas passadoria ou apenas caseado/botão para fora.
- Travar WIP (trabalho em processo): limitar quantos lotes ficam “abertos” ao mesmo tempo para não virar fila invisível.
Lead time: o prazo real do pedido (e como não prometer errado)
Lead time é o tempo total desde a liberação do pedido/OP até a peça pronta para expedição. Ele inclui: tempo de processamento (trabalho) + tempo de espera (fila) + tempo de movimentação + retrabalho + inspeções.
Como calcular lead time padrão
- Defina o caminho do pedido: insumos (se já estão em estoque ou não) → corte → costura → acabamento → passadoria → revisão → embalagem.
- Some tempos de processo (médias por peça/lote).
- Adicione tempos de fila (quanto o lote espera entre etapas). Em terceirização, a fila costuma ser a maior parte.
- Inclua folga para variações (ex.: 10% a 20% do total) e para retrabalho esperado.
Exemplo de lead time por lote: corte 1 dia + fila 2 dias + costura 3 dias + acabamento 1 dia + passadoria 1 dia + revisão/embalagem 1 dia = 9 dias úteis. Com 15% de folga: ~10 a 11 dias úteis.
Lead time por coleção (planejamento)
Para cronograma de coleção, o lead time deve considerar também a janela de compra/chegada de insumos e a capacidade semanal. Mesmo com insumo disponível, se sua capacidade é 80 peças/semana e a coleção exige 400 peças, você precisa de pelo menos 5 semanas de produção (mais folgas e filas).
Cronograma de coleção: do plano ao chão de fábrica
Um cronograma útil não é uma lista de datas “bonitas”; ele conecta entregas com capacidade e marcos de aprovação. Trabalhe com marcos por lote e por família de produto (ex.: camisaria, malha, alfaiataria), porque tempos e gargalos mudam.
Estrutura prática de cronograma
- Semana 0: insumos confirmados e separados por lote (ou data de chegada travada).
- Semana 1: corte + início de costura do Lote A.
- Semana 2: costura Lote A + corte Lote B.
- Semana 3: acabamento/passadoria/revisão Lote A + costura Lote B.
- Semana 4: expedição Lote A + finalização Lote B.
Dica operacional: planeje em lotes menores (ex.: 30–80 peças) para reduzir risco: se der problema, você corrige antes de produzir 300 peças erradas.
Controle de qualidade por etapa (rotinas que evitam prejuízo)
Controle de qualidade eficaz é feito durante o processo, não apenas no final. A lógica é: detectar cedo, corrigir rápido, registrar causa e evitar repetição.
Padrão de rotina por etapa
| Etapa | O que checar | Quando checar | Registro mínimo |
|---|---|---|---|
| Recebimento de insumos | Cor/lote, defeitos, metragem, aviamentos | Na chegada | Ficha de recebimento + fotos |
| Corte | Contagem de partes, simetria, sentido do fio/estampa | Antes de liberar kits | Mapa de corte + etiqueta de lote |
| Costura | Medidas-chave, pontos críticos (zíper, gola), tensão | Primeira peça + amostragem | Checklist de processo |
| Acabamento | Fios, reforços, caseado/botão, etiqueta | 100% ou amostragem alta | Lista de não conformidades |
| Passadoria | Brilho, marcas, deformação | 100% (rápido) | Registro de ocorrências |
| Revisão final | Medidas, manchas, costuras, aparência | 100% | Status: aprovada/retrabalho/refugo |
| Embalagem | SKU, tamanho/cor, tag, proteção | 100% | Conferência por pedido |
Como implementar sem burocracia
- Primeira peça aprovada: antes de rodar o lote, aprove uma peça “padrão” (referência). Ela vira o comparativo do lote.
- Checklist curto: 5 a 10 itens por etapa, focando nos defeitos que mais acontecem.
- Critérios objetivos: defina tolerância de medida (ex.: ±1 cm em busto/cintura) e padrão visual (ex.: alinhamento de zíper sem ondulação).
- Registro de defeitos recorrentes: se o mesmo defeito aparece 3 vezes, pare e corrija a causa (máquina, sequência, treinamento, molde, insumo).
Rastreabilidade por lote: como saber “de onde veio” cada peça
Rastreabilidade é a capacidade de identificar rapidamente quais peças foram afetadas por um problema (ex.: tecido com variação de cor, zíper defeituoso, costura com tensão errada). Isso reduz perdas e evita retrabalho em massa.
Como codificar lotes (modelo simples)
Use um código que una produto + data + lote de tecido. Exemplo:
SKU: BLZ-023 (Blusa modelo 023) Lote: 2026-01-A Tecido: TEC-VERDE-L3- Etiqueta no kit de corte: SKU + tamanho + lote + quantidade.
- Etiqueta interna/registro: ao menos lote e data de produção (pode ser via etiqueta auxiliar, tag interna ou registro em planilha).
- Relação lote ↔ pedidos: saiba quais pedidos receberam peças do lote 2026-01-A.
Gestão de retrabalho: controlar custo e prazo sem perder qualidade
Retrabalho é qualquer correção após uma etapa ser considerada concluída (ex.: descosturar, refazer barra, trocar zíper, remover mancha). Ele consome capacidade do gargalo e estoura prazos se não for gerenciado.
Passo a passo para tratar retrabalho
- Classifique o defeito: crítico (não pode vender), maior (afeta aparência/uso), menor (pequeno ajuste).
- Registre causa e etapa: ex.: “zíper ondulado” → costura → máquina/regulagem.
- Defina destino: retrabalho (corrigir), segunda linha (se aplicável ao seu padrão), refugo.
- Crie janela de retrabalho: reserve capacidade semanal (ex.: 5% a 10% do tempo) para correções sem travar o fluxo.
- Implemente ação corretiva: ajuste de máquina, treinamento, mudança de sequência, troca de insumo, melhoria no corte.
Indicador simples: Taxa de retrabalho = (peças em retrabalho ÷ peças produzidas) × 100. Se subir, seu lead time real aumenta e sua capacidade cai.
Modelo de quadro de acompanhamento (status por pedido, prazos, responsável e riscos)
Use este quadro para acompanhar pedidos/lotes diariamente ou 2–3 vezes por semana. Ele funciona em planilha, quadro físico ou ferramenta de gestão, desde que seja atualizado com disciplina.
| Pedido/OP | SKU / Descrição | Qtd | Lote | Status atual | Próxima etapa | Prazo interno | Prazo prometido | Responsável | Risco | Ação |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| OP-1047 | BLZ-023 (Blusa) | 60 | 2026-01-A | Costura (50%) | Acabamento | 05/02 | 08/02 | Oficina X | Médio (fila na passadoria) | Agendar passadoria 06/02 + priorizar lote |
| OP-1048 | CAL-011 (Calça) | 40 | 2026-01-B | Corte concluído | Costura | 06/02 | 10/02 | Interno | Alto (zíper em falta) | Comprar zíper hoje + plano B fornecedor |
| OP-1049 | VST-005 (Vestido) | 30 | 2026-01-C | Revisão (retrabalho 3 pcs) | Embalagem | 04/02 | 06/02 | Revisão | Baixo | Corrigir 3 pcs até 03/02 |
Legenda de status (padronize para evitar confusão)
- Aguardando insumos
- Em corte
- Em costura
- Em acabamento
- Em passadoria
- Em revisão
- Embalado
- Expedido
- Retrabalho
- Bloqueado (parado por falta de insumo/decisão)
Rotina de uso do quadro (para manter previsibilidade)
- Reunião rápida (10–15 min): revisar itens com risco alto e bloqueios.
- Atualização por responsável: cada etapa atualiza seu status e data prevista de conclusão.
- Regra de escalonamento: se um pedido atrasar 1 dia no prazo interno, ele vira “risco alto” e exige ação registrada.
- Controle de mudanças: qualquer alteração de quantidade, prioridade ou especificação deve gerar nova data e anotação do motivo.