Produção de Moda: processos, capacidade, cronograma e controle

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Organização da produção: própria vs. terceirizada (com previsibilidade)

Produção previsível é a capacidade de transformar pedidos e planos de coleção em entregas no prazo, com qualidade consistente e custos controlados. Para isso, você precisa de um fluxo de etapas bem definido, metas de capacidade (quantas peças por semana), prazos padrão (lead time) e rotinas de controle por etapa.

Produção própria

  • Vantagens: maior controle de qualidade e prazos, ajustes rápidos, confidencialidade de modelagens.
  • Riscos: capacidade limitada, dependência de pessoas-chave, custo fixo (equipe, máquinas, espaço).
  • Quando faz sentido: volumes menores, produtos com alto rigor de acabamento, necessidade de agilidade em reposições.

Produção terceirizada

  • Vantagens: escala mais fácil, custo mais variável, acesso a especialidades (malharia, alfaiataria, jeans, bordado).
  • Riscos: fila do fornecedor, variação de qualidade, comunicação falha, menor flexibilidade para mudanças.
  • Quando faz sentido: volumes maiores, mix amplo, necessidade de diluir investimento em estrutura.

Regra prática para previsibilidade

Independentemente do modelo, trate a produção como um sistema com entradas (insumos e informações), processo (etapas) e saídas (peças aprovadas e expedidas). A previsibilidade vem de: (1) padrões de tempo por etapa, (2) capacidade medida, (3) cronograma com folgas, (4) controle de qualidade e rastreabilidade.

Desenhando o fluxo de produção (do insumo à expedição)

O fluxo abaixo pode ser usado tanto em produção própria quanto terceirizada. O objetivo é mapear quem faz o quê, em que ordem, com quais critérios de aprovação e quais registros ficam guardados.

1) Compra e recebimento de insumos

Entradas: tecido, aviamentos, etiquetas, embalagem, linha, entretela, zíper, botões.

  • Checklist de recebimento: quantidade, cor/lote, largura do tecido, defeitos aparentes, encolhimento informado, correspondência com o pedido.
  • Separação por lote: identifique cada rolo/caixa com código do fornecedor + data + lote/cor.
  • Reserva por ordem: separe insumos por pedido/coleção para evitar “sumir” material no meio do caminho.

2) Corte

Objetivo: transformar tecido em partes cortadas com precisão e aproveitamento.

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  • Preparação: conferir risco/encaixe, sentido do fio, estampa (casamento), margem de costura, quantidade por tamanho.
  • Controle: contagem de partes por tamanho (ex.: 20 frentes P, 20 costas P etc.).
  • Identificação: amarre/embale kits por peça (ou por tamanho) com etiqueta de lote e OP (ordem de produção).

3) Costura

Objetivo: montar a peça seguindo sequência operacional.

  • Sequência: defina uma ordem fixa (ex.: fechar ombro > aplicar gola > fechar lateral > barra).
  • Pontos críticos: medidas-chave (cintura, quadril, comprimento), simetria, tensão de linha, alinhamento de zíper.
  • Controle em processo: inspeção por amostragem a cada X peças (ex.: a cada 10) para detectar erro cedo.

4) Acabamento

Objetivo: elevar padrão visual e durabilidade.

  • Atividades típicas: overlock/limpeza de linhas, caseado, botão, aplicação de etiqueta, reforços, revisão de costuras.
  • Controle: checklist de acabamento (sem fios soltos, costura reta, aviamentos firmes).

5) Passadoria

Objetivo: assentar costuras e apresentar a peça corretamente.

  • Padrão: temperatura por tecido, uso de proteção (pano), vapor, forma correta de passar (evitar brilho).
  • Controle: verificar marcas de ferro, vincos indevidos, deformação.

6) Revisão final

Objetivo: aprovar ou reprovar antes de embalar.

  • Checklist: medidas (tolerância), manchas, furos, costuras abertas, aviamentos, etiqueta, aparência geral.
  • Classificação: Aprovada / Retrabalho / Refugo (quando não compensa corrigir).

7) Embalagem

Objetivo: proteger e padronizar a entrega.

  • Padrão: dobra, saquinho, tag, lacre, proteção extra para peças delicadas.
  • Controle: SKU/tamanho/cor corretos, etiqueta de envio, nota/romaneio conforme processo interno.

8) Expedição

Objetivo: despachar no prazo com rastreio.

  • Conferência final: quantidade por pedido, itens e variações, endereço, método de envio.
  • Registro: data de expedição, transportadora, código de rastreio, responsável.

Gestão de capacidade: quantas peças por semana (e por quê isso muda tudo)

Capacidade é o volume máximo que seu sistema consegue entregar com qualidade em um período (sem “forçar” a equipe e sem aumentar retrabalho). O erro comum é planejar coleção e prazos sem medir capacidade real.

Como medir capacidade na prática (método simples)

Você pode medir por etapa ou pelo gargalo (a etapa mais lenta). Comece pelo gargalo, porque ele define o ritmo do sistema.

  1. Liste as etapas: corte, costura, acabamento, passadoria, revisão, embalagem.
  2. Meça tempo médio por peça em cada etapa (em minutos). Use uma amostra real (ex.: 10 peças) e faça média.
  3. Calcule minutos disponíveis por semana por pessoa/máquina (ex.: 40h/semana = 2.400 min; descontar pausas, setup, manutenção; use 2.000 min como base conservadora).
  4. Capacidade por etapa = minutos disponíveis ÷ minutos por peça.
  5. Capacidade do sistema = a menor capacidade entre as etapas (o gargalo).

Exemplo: uma costureira tem 2.000 min/semana disponíveis. Se uma blusa leva 25 min na costura, a capacidade de costura é 80 blusas/semana. Se a passadoria consegue 120/semana e a revisão 200/semana, o gargalo é costura (80/semana). Planeje a produção com base em 80/semana (ou aumente capacidade do gargalo).

Como lidar com gargalos (sem “apagar incêndio”)

  • Redistribuir tarefas: separar operações simples para ajudantes (ex.: limpeza de linhas, preparação de kits).
  • Balancear linha: dividir costura em operações e alocar por habilidade (quem faz zíper não precisa fazer barra).
  • Reduzir setup: agrupar por cor/tecido para diminuir troca de linha, regulagem e tempo parado.
  • Terceirizar a etapa gargalo: ex.: mandar apenas passadoria ou apenas caseado/botão para fora.
  • Travar WIP (trabalho em processo): limitar quantos lotes ficam “abertos” ao mesmo tempo para não virar fila invisível.

Lead time: o prazo real do pedido (e como não prometer errado)

Lead time é o tempo total desde a liberação do pedido/OP até a peça pronta para expedição. Ele inclui: tempo de processamento (trabalho) + tempo de espera (fila) + tempo de movimentação + retrabalho + inspeções.

Como calcular lead time padrão

  1. Defina o caminho do pedido: insumos (se já estão em estoque ou não) → corte → costura → acabamento → passadoria → revisão → embalagem.
  2. Some tempos de processo (médias por peça/lote).
  3. Adicione tempos de fila (quanto o lote espera entre etapas). Em terceirização, a fila costuma ser a maior parte.
  4. Inclua folga para variações (ex.: 10% a 20% do total) e para retrabalho esperado.

Exemplo de lead time por lote: corte 1 dia + fila 2 dias + costura 3 dias + acabamento 1 dia + passadoria 1 dia + revisão/embalagem 1 dia = 9 dias úteis. Com 15% de folga: ~10 a 11 dias úteis.

Lead time por coleção (planejamento)

Para cronograma de coleção, o lead time deve considerar também a janela de compra/chegada de insumos e a capacidade semanal. Mesmo com insumo disponível, se sua capacidade é 80 peças/semana e a coleção exige 400 peças, você precisa de pelo menos 5 semanas de produção (mais folgas e filas).

Cronograma de coleção: do plano ao chão de fábrica

Um cronograma útil não é uma lista de datas “bonitas”; ele conecta entregas com capacidade e marcos de aprovação. Trabalhe com marcos por lote e por família de produto (ex.: camisaria, malha, alfaiataria), porque tempos e gargalos mudam.

Estrutura prática de cronograma

  • Semana 0: insumos confirmados e separados por lote (ou data de chegada travada).
  • Semana 1: corte + início de costura do Lote A.
  • Semana 2: costura Lote A + corte Lote B.
  • Semana 3: acabamento/passadoria/revisão Lote A + costura Lote B.
  • Semana 4: expedição Lote A + finalização Lote B.

Dica operacional: planeje em lotes menores (ex.: 30–80 peças) para reduzir risco: se der problema, você corrige antes de produzir 300 peças erradas.

Controle de qualidade por etapa (rotinas que evitam prejuízo)

Controle de qualidade eficaz é feito durante o processo, não apenas no final. A lógica é: detectar cedo, corrigir rápido, registrar causa e evitar repetição.

Padrão de rotina por etapa

EtapaO que checarQuando checarRegistro mínimo
Recebimento de insumosCor/lote, defeitos, metragem, aviamentosNa chegadaFicha de recebimento + fotos
CorteContagem de partes, simetria, sentido do fio/estampaAntes de liberar kitsMapa de corte + etiqueta de lote
CosturaMedidas-chave, pontos críticos (zíper, gola), tensãoPrimeira peça + amostragemChecklist de processo
AcabamentoFios, reforços, caseado/botão, etiqueta100% ou amostragem altaLista de não conformidades
PassadoriaBrilho, marcas, deformação100% (rápido)Registro de ocorrências
Revisão finalMedidas, manchas, costuras, aparência100%Status: aprovada/retrabalho/refugo
EmbalagemSKU, tamanho/cor, tag, proteção100%Conferência por pedido

Como implementar sem burocracia

  • Primeira peça aprovada: antes de rodar o lote, aprove uma peça “padrão” (referência). Ela vira o comparativo do lote.
  • Checklist curto: 5 a 10 itens por etapa, focando nos defeitos que mais acontecem.
  • Critérios objetivos: defina tolerância de medida (ex.: ±1 cm em busto/cintura) e padrão visual (ex.: alinhamento de zíper sem ondulação).
  • Registro de defeitos recorrentes: se o mesmo defeito aparece 3 vezes, pare e corrija a causa (máquina, sequência, treinamento, molde, insumo).

Rastreabilidade por lote: como saber “de onde veio” cada peça

Rastreabilidade é a capacidade de identificar rapidamente quais peças foram afetadas por um problema (ex.: tecido com variação de cor, zíper defeituoso, costura com tensão errada). Isso reduz perdas e evita retrabalho em massa.

Como codificar lotes (modelo simples)

Use um código que una produto + data + lote de tecido. Exemplo:

SKU: BLZ-023 (Blusa modelo 023) Lote: 2026-01-A Tecido: TEC-VERDE-L3
  • Etiqueta no kit de corte: SKU + tamanho + lote + quantidade.
  • Etiqueta interna/registro: ao menos lote e data de produção (pode ser via etiqueta auxiliar, tag interna ou registro em planilha).
  • Relação lote ↔ pedidos: saiba quais pedidos receberam peças do lote 2026-01-A.

Gestão de retrabalho: controlar custo e prazo sem perder qualidade

Retrabalho é qualquer correção após uma etapa ser considerada concluída (ex.: descosturar, refazer barra, trocar zíper, remover mancha). Ele consome capacidade do gargalo e estoura prazos se não for gerenciado.

Passo a passo para tratar retrabalho

  1. Classifique o defeito: crítico (não pode vender), maior (afeta aparência/uso), menor (pequeno ajuste).
  2. Registre causa e etapa: ex.: “zíper ondulado” → costura → máquina/regulagem.
  3. Defina destino: retrabalho (corrigir), segunda linha (se aplicável ao seu padrão), refugo.
  4. Crie janela de retrabalho: reserve capacidade semanal (ex.: 5% a 10% do tempo) para correções sem travar o fluxo.
  5. Implemente ação corretiva: ajuste de máquina, treinamento, mudança de sequência, troca de insumo, melhoria no corte.

Indicador simples: Taxa de retrabalho = (peças em retrabalho ÷ peças produzidas) × 100. Se subir, seu lead time real aumenta e sua capacidade cai.

Modelo de quadro de acompanhamento (status por pedido, prazos, responsável e riscos)

Use este quadro para acompanhar pedidos/lotes diariamente ou 2–3 vezes por semana. Ele funciona em planilha, quadro físico ou ferramenta de gestão, desde que seja atualizado com disciplina.

Pedido/OPSKU / DescriçãoQtdLoteStatus atualPróxima etapaPrazo internoPrazo prometidoResponsávelRiscoAção
OP-1047BLZ-023 (Blusa)602026-01-ACostura (50%)Acabamento05/0208/02Oficina XMédio (fila na passadoria)Agendar passadoria 06/02 + priorizar lote
OP-1048CAL-011 (Calça)402026-01-BCorte concluídoCostura06/0210/02InternoAlto (zíper em falta)Comprar zíper hoje + plano B fornecedor
OP-1049VST-005 (Vestido)302026-01-CRevisão (retrabalho 3 pcs)Embalagem04/0206/02RevisãoBaixoCorrigir 3 pcs até 03/02

Legenda de status (padronize para evitar confusão)

  • Aguardando insumos
  • Em corte
  • Em costura
  • Em acabamento
  • Em passadoria
  • Em revisão
  • Embalado
  • Expedido
  • Retrabalho
  • Bloqueado (parado por falta de insumo/decisão)

Rotina de uso do quadro (para manter previsibilidade)

  • Reunião rápida (10–15 min): revisar itens com risco alto e bloqueios.
  • Atualização por responsável: cada etapa atualiza seu status e data prevista de conclusão.
  • Regra de escalonamento: se um pedido atrasar 1 dia no prazo interno, ele vira “risco alto” e exige ação registrada.
  • Controle de mudanças: qualquer alteração de quantidade, prioridade ou especificação deve gerar nova data e anotação do motivo.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Para aumentar a previsibilidade da produção, qual abordagem está mais alinhada às práticas recomendadas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A previsibilidade vem de tratar a produção como sistema: medir capacidade (principalmente o gargalo), padronizar tempos, planejar com folgas e controlar qualidade por etapa com rastreabilidade, evitando que filas e retrabalho explodam prazos e custos.

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