Custos na Moda: estruturação completa e margem real

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que “achar” o custo é perigoso

Na moda, o prejuízo costuma nascer de pequenos erros repetidos: subestimar consumo de tecido, ignorar perdas, esquecer taxas de pagamento, não ratear custos fixos ou calcular mão de obra “por cima”. Custo bem calculado não é burocracia: é a base para precificar com margem real, decidir mix de produtos e saber quantas peças você precisa vender para não operar no vermelho.

Estrutura de custos: separação que evita confusão

1) Custos variáveis (mudam conforme o volume)

São custos que aumentam quando você produz/vende mais. Em moda, normalmente entram:

  • Tecido (incluindo forro, entretela, elástico etc.)
  • Aviamentos (zíper, botão, etiqueta, tag, linha, ombreira, etc.)
  • Mão de obra por peça (corte, costura, acabamento, passadoria, revisão, embalagem)
  • Embalagem (saco, caixa, papel seda, fita, adesivo, proteção)
  • Frete subsidiado (a parte do frete que a marca paga para o cliente)
  • Taxas de pagamento (gateway, adquirente, parcelamento, antifraude)
  • Impostos sobre a venda (quando aplicável ao seu regime e operação)

2) Custos fixos (existem mesmo sem vender)

São custos que você paga para manter a operação funcionando, independentemente do volume no curto prazo:

  • Aluguel (ateliê, sala, estoque)
  • Energia, água, internet
  • Softwares e assinaturas (ERP, emissão fiscal, design, gestão)
  • Pró-labore (remuneração do dono como custo do negócio)
  • Marketing fixo (mensalidade de agência, ferramentas, produção recorrente)
  • Contabilidade
  • Depreciação/manutenção (máquinas, equipamentos)

Regra prática: se o gasto “vai junto” com cada peça vendida, é variável. Se o gasto “fica” mesmo com vendas baixas, é fixo.

Passo a passo: cálculo de custo por peça (com consumo, perdas e impostos)

Passo 1 — Calcule o custo de tecido por peça com consumo real

Você precisa de três números: consumo, preço por metro e perdas.

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  • Consumo (m/peça): use o encaixe (marker) ou histórico de corte. Se não tiver, comece com uma estimativa conservadora e ajuste após os primeiros lotes.
  • Preço do tecido (R$/m): considere o preço final pago (com frete do fornecedor e impostos embutidos, se houver).
  • Perdas (%): inclua sobra de corte, defeitos, encolhimento, variação de tonalidade, testes e retrabalho. Em muitos casos, 3% a 10% é comum; o ideal é medir.

Fórmula:

Custo tecido por peça = Consumo (m) × Preço (R$/m) × (1 + % perdas)

Exemplo: consumo 1,40 m; tecido R$ 28,00/m; perdas 6%.

Custo tecido = 1,40 × 28,00 × 1,06 = R$ 41,55

Passo 2 — Some forro/entretela e aviamentos por peça

Liste item a item e multiplique pela quantidade usada por peça.

ItemQtd/peçaCusto unit.Custo/peça
Zíper1R$ 3,20R$ 3,20
Botão2R$ 0,60R$ 1,20
Etiqueta interna1R$ 0,80R$ 0,80
Tag + lacre1R$ 0,90R$ 0,90
Linha/insumosrateioR$ 0,50
Subtotal aviamentosR$ 6,60

Dica: itens pequenos (linha, agulha, giz, entretela em retalhos) podem entrar como “insumos diversos” por peça, mas o valor deve ser revisado com base em compras reais.

Passo 3 — Calcule a mão de obra por peça (sem chute)

Você pode calcular por preço por operação (terceirizado) ou por tempo × custo/hora (interno).

Modelo por tempo:

Custo mão de obra por peça = Tempo total (h) × Custo hora (R$/h)

Para achar o custo hora, some salários/encargos (ou pagamentos), benefícios, e custos diretos do setor (ex.: manutenção de máquinas) e divida pelas horas produtivas do mês.

Exemplo: tempo total 0,75 h/peça; custo hora R$ 22,00.

Mão de obra = 0,75 × 22,00 = R$ 16,50

Inclua passadoria, revisão e embalagem se forem mão de obra interna ou terceirizada.

Passo 4 — Embalagem e materiais de expedição

Some o custo por pedido e transforme em custo por peça quando necessário. Se você envia 2 peças por pedido em média, rateie.

Exemplo: embalagem total por pedido R$ 4,00; média 1,6 peça/pedido.

Embalagem por peça = 4,00 / 1,6 = R$ 2,50

Passo 5 — Frete subsidiado e taxas de pagamento

Esses itens são frequentemente esquecidos na precificação.

  • Frete subsidiado: se o frete custa R$ 18 e você cobra R$ 10 do cliente, o subsídio é R$ 8 (custo variável do pedido). Rateie por peça conforme média de itens por pedido.
  • Taxas de pagamento: calcule como percentual sobre o preço (e, se houver, taxa fixa por transação). Em parcelamento, considere a taxa real do seu arranjo.

Exemplo: subsídio de frete R$ 8 por pedido; 1,6 peça/pedido → R$ 5,00 por peça. Taxa de pagamento 4,5% sobre o preço de venda.

Passo 6 — Impostos sobre a venda (quando aplicável)

Imposto não é “desconto”; é custo do modelo de negócio. Para não misturar, trate como um percentual sobre a receita (ou conforme sua regra fiscal).

Exemplo: imposto efetivo 6% sobre o preço de venda.

Passo 7 — Monte o custo variável total por peça

Somando os exemplos anteriores (sem taxas percentuais ainda):

ComponenteR$/peça
Tecido (com perdas)41,55
Aviamentos6,60
Mão de obra16,50
Embalagem2,50
Frete subsidiado (rateado)5,00
Total variável (parcial)72,15

Agora entram os percentuais sobre o preço de venda (taxas e impostos). Para isso, você precisa entender margem de contribuição.

Rateio de custos fixos por volume realista (e não otimista)

Custos fixos não “somem” porque você não os colocou no custo por peça. Para enxergar a margem real, você deve rateá-los por um volume realista de vendas/produção do mês.

Passo a passo:

  1. Liste seus custos fixos mensais (valores pagos ou contratados).
  2. Defina um volume base realista (ex.: média dos últimos 3 meses; ou capacidade mínima garantida).
  3. Calcule o fixo por peça: Fixos por peça = Fixos mensais / Volume base.

Exemplo:

Custos fixos mensaisValor
AluguelR$ 2.000
Energia/internetR$ 450
SoftwaresR$ 300
Pró-laboreR$ 3.000
Marketing fixoR$ 1.250
ContabilidadeR$ 600
Total fixoR$ 7.600

Volume base realista: 200 peças/mês.

Fixos por peça = 7.600 / 200 = R$ 38,00

Armadilha comum: ratear por 500 peças “porque é a meta”. Se você vender 200, o fixo real por peça fica muito maior e a margem some.

Margens que importam: bruta vs. contribuição

Margem bruta (visão de produto)

Em muitos negócios, margem bruta é calculada como:

Margem bruta (R$) = Preço de venda - Custo do produto (COGS)

Na moda, o “COGS” costuma incluir materiais + mão de obra direta + embalagem (e às vezes logística). O importante é ser consistente e comparar produtos com a mesma regra.

Exemplo (sem taxas e impostos): preço R$ 189; custo variável parcial R$ 72,15.

Margem bruta (R$) = 189 - 72,15 = R$ 116,85
Margem bruta (%) = 116,85 / 189 = 61,8%

Margem de contribuição (a que paga os fixos e gera lucro)

Margem de contribuição considera todos os custos variáveis que “andam” com a venda, incluindo taxas e impostos sobre a receita, e também comissões variáveis (se existirem).

MC (R$) = Preço - (Custos variáveis fixos em R$) - (Percentuais variáveis × Preço)

Usando o exemplo:

  • Custos variáveis em R$: R$ 72,15
  • Taxa de pagamento: 4,5% do preço
  • Impostos: 6% do preço
  • Total percentuais: 10,5%
MC = 189 - 72,15 - (0,105 × 189)
MC = 189 - 72,15 - 19,85 = R$ 96,99
MC% = 96,99 / 189 = 51,3%

Leitura prática: cada peça vendida “sobra” R$ 96,99 para pagar os custos fixos do mês e, depois disso, virar lucro.

Ponto de equilíbrio: quantas peças para não ter prejuízo

O ponto de equilíbrio (break-even) em unidades é:

Ponto de equilíbrio (peças) = Custos fixos mensais / Margem de contribuição por peça

Com os fixos do exemplo (R$ 7.600) e MC por peça (R$ 96,99):

PE = 7.600 / 96,99 = 78,4 peças

Arredondando: 79 peças/mês para “zerar” (sem lucro e sem prejuízo).

Quando você tem mix de produtos (preços e margens diferentes)

Se você vende mais de um produto, calcule uma margem de contribuição média ponderada pelo mix real de vendas.

Exemplo:

Produto% no mixMC por peçaMC ponderada
Blusa60%R$ 70R$ 42
Calça40%R$ 110R$ 44
MC médiaR$ 86
PE (peças) = Fixos / MC média

Se fixos = R$ 7.600:

PE = 7.600 / 86 = 88,4 → 89 peças

Checklist de precisão: onde o custo costuma “vazar”

  • Consumo subestimado: usar consumo de piloto e não do encaixe real do lote.
  • Perdas ignoradas: defeitos de tecido, variação de cor, retrabalho, troca de lote.
  • Mão de obra incompleta: considerar só costura e esquecer corte, revisão, passadoria, embalagem.
  • Taxas e impostos fora da conta: principalmente em parcelamento e campanhas de frete.
  • Rateio de fixos otimista: dividir por uma meta e não pelo volume provável.
  • Custos por pedido vs. por peça: embalagem e frete precisam de regra de rateio.

Roteiro de auditoria mensal de custos (para revisar e corrigir)

1) Auditoria de compras e preços

  • Atualize a tabela de custo de tecido (R$/m) e aviamentos (R$/un) com base nas últimas notas.
  • Verifique variações de preço por fornecedor e por lote (mesmo tecido pode mudar).
  • Confirme se fretes de compra estão sendo incorporados ao custo do material.

2) Auditoria de consumo e perdas

  • Compare consumo planejado vs. consumo real do mês (m/peça).
  • Registre perdas por motivo: defeito, encaixe, retrabalho, encolhimento, erro de corte.
  • Ajuste o % de perdas no custo padrão do produto.

3) Auditoria de mão de obra

  • Recalcule custo/hora (interno) ou valores por operação (terceiro) se houve reajustes.
  • Meça tempo real por peça em 5–10 unidades (amostra) e atualize tempos padrão.
  • Inclua etapas esquecidas (passadoria, revisão, embalagem, retrabalho).

4) Auditoria de logística e expedição

  • Calcule média de peças por pedido e atualize o rateio de embalagem e frete subsidiado.
  • Revise política de frete grátis/subsidiado e impacto na margem de contribuição.

5) Auditoria de taxas e impostos

  • Apure a taxa média efetiva de pagamento (incluindo parcelamento e chargeback, se houver).
  • Confirme alíquota efetiva de impostos sobre a receita e se há mudanças no regime/atividade.

6) Auditoria de custos fixos e volume base

  • Atualize a planilha de fixos com valores reais pagos no mês.
  • Recalcule o volume base realista (média móvel) e o fixo por peça.
  • Compare fixo por peça atual vs. meses anteriores para identificar aumento de estrutura.

7) Auditoria de margem e decisões

  • Para cada produto, revise: custo variável total, MC (R$ e %), e ranking de margem.
  • Recalcule ponto de equilíbrio do mês com MC média ponderada do mix real.
  • Liste produtos com MC baixa e identifique a causa (tecido caro, tempo alto, taxa alta, frete).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao calcular a margem de contribuição de uma peça, o que deve ser incluído para refletir quanto sobra para pagar os custos fixos e gerar lucro?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A margem de contribuição considera tudo que varia com a venda: custos variáveis em R$ por peça e percentuais sobre o preço (ex.: taxas e impostos). Ela mostra o quanto sobra para cobrir os custos fixos e, depois, virar lucro.

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