O que significa priorizar orientado a valor e risco
Priorizar em Agile é decidir, de forma explícita e repetível, o que entra primeiro no fluxo de entrega (descoberta, construção, validação e release). Uma priorização orientada a valor e risco busca maximizar resultados e aprendizado cedo, reduzindo incertezas e evitando investir pesado em itens que podem não gerar retorno.
Na prática, cada item do backlog (feature, história, experimento, melhoria técnica) pode ser avaliado por quatro lentes complementares:
- Valor: impacto esperado em métricas de negócio, satisfação do usuário, receita, redução de churn, eficiência operacional etc.
- Risco: probabilidade e impacto de falhas (técnicas, regulatórias, de mercado, de usabilidade, de dependências).
- Custo/Esforço: tamanho relativo, complexidade, capacidade necessária, custo de atraso por não entregar.
- Aprendizado: quanto o item reduz incerteza e valida hipóteses críticas (principalmente quando ainda não há evidência suficiente).
Uma boa priorização não é “a lista perfeita”, e sim um processo que torna decisões transparentes, comparáveis e revisáveis quando o contexto muda.
Preparação: dados mínimos para priorizar com objetividade
Campos recomendados por item
Antes da sessão de priorização, garanta que cada item candidato tenha um conjunto mínimo de informações. Isso reduz discussões abstratas e acelera decisões.
- Descrição curta e resultado esperado (o que muda para o usuário/negócio).
- Indicador de valor (métrica alvo) e direção esperada (ex.: reduzir tempo de atendimento em 15%).
- Hipótese (se aplicável) e evidência atual (dados, feedback, pesquisa).
- Riscos principais e dependências (internas/externas).
- Estimativa de esforço (relativa) e incerteza da estimativa (baixa/média/alta).
- Prazo/urgência (datas regulatórias, janela de mercado, contratos).
- Opção de fatiamento (qual menor entrega útil/validável).
Escalas simples (para evitar “achismos”)
Use escalas pequenas e consistentes. Exemplo:
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
- Valor: 1 (baixo) a 5 (alto)
- Risco: 1 (baixo) a 5 (alto)
- Esforço: 1, 2, 3, 5, 8 (tamanho relativo)
- Aprendizado: 1 (pouco) a 5 (muito)
Importante: “Risco alto” não significa automaticamente “não fazer”; muitas vezes significa “fazer cedo e pequeno” para reduzir incerteza.
Técnica 1: Matriz Valor x Esforço (rápida e visual)
A matriz valor x esforço é útil quando você precisa de uma decisão rápida com um grupo grande e itens ainda em nível macro. Ela cria um mapa visual para identificar ganhos rápidos e evitar investimentos desproporcionais.
Como montar
- Defina o que é valor (ex.: impacto em receita, NPS, redução de custo) e o que é esforço (ex.: complexidade técnica, tempo, dependências).
- Desenhe um plano com dois eixos: Valor (baixo→alto) e Esforço (baixo→alto).
- Coloque cada item como um “post-it” no quadrante correspondente, com base em consenso rápido.
- Classifique por quadrantes:
- Alto valor / baixo esforço: priorizar primeiro (quick wins).
- Alto valor / alto esforço: priorizar, mas fatiar e validar cedo.
- Baixo valor / baixo esforço: fazer se houver folga/capacidade ou se reduzir risco.
- Baixo valor / alto esforço: evitar, reavaliar ou descartar.
Dica prática: adicione “risco” como marcador
Para incorporar risco sem complicar, use uma marca visual (ex.: borda vermelha) para itens de risco alto. Assim, um item de alto valor/alto esforço e risco alto tende a virar candidato a experimento ou spike antes da construção completa.
Técnica 2: MoSCoW (clareza de compromisso)
MoSCoW classifica itens por nível de necessidade, ajudando a alinhar expectativas e evitar que “tudo seja prioridade”. É especialmente útil para planejar um release, uma janela regulatória ou um incremento com escopo negociado.
Categorias
- Must: sem isso, o objetivo do incremento/release falha (requisito mínimo).
- Should: muito importante, mas há alternativa temporária ou pode ficar para depois sem inviabilizar.
- Could: desejável, melhora a experiência, mas não é essencial.
- Won’t (por agora): explicitamente fora do escopo atual.
Passo a passo
- Declare o objetivo do período (ex.: “reduzir abandono no checkout”).
- Liste itens candidatos e valide entendimento comum.
- Classifique primeiro os Must com critério rígido: “se não entregar, falha”.
- Limite a quantidade de Must (se virar 80% do backlog, o critério está frouxo).
- Distribua Should/Could e registre Won’t com justificativa.
Armadilhas comuns
- Inflar Must por pressão de stakeholders: resolva com critérios e dados (métrica, risco, prazo).
- Won’t sem revisão: Won’t é “não agora”, então precisa de data/condição de reavaliação.
Técnica 3: WSJF (priorização econômica por custo do atraso)
WSJF (Weighted Shortest Job First) ordena itens pelo melhor retorno econômico relativo, considerando o custo do atraso e o tamanho do trabalho. É útil quando há muitos itens competindo por capacidade e você quer um critério comparável.
Fórmula
WSJF = (Custo do Atraso) / Tamanho do TrabalhoUma forma comum de decompor o Custo do Atraso:
Custo do Atraso = Valor de Negócio + Criticidade de Tempo + Redução de Risco / Oportunidade de AprendizadoUse pontuação relativa (ex.: 1 a 20) para cada componente, e tamanho relativo (ex.: 1,2,3,5,8,13).
Exemplo prático (com números relativos)
| Item | Valor | Tempo | Risco/Aprend. | Custo do Atraso | Tamanho | WSJF |
|---|---|---|---|---|---|---|
| A: Simplificar cadastro | 13 | 8 | 5 | 26 | 5 | 5,2 |
| B: Adequação regulatória | 8 | 20 | 3 | 31 | 8 | 3,9 |
| C: Experimento de preço | 5 | 13 | 13 | 31 | 3 | 10,3 |
Pela lógica do WSJF, o item C sobe ao topo porque entrega alto aprendizado/mitigação de risco com tamanho pequeno, mesmo não sendo o maior “valor direto” inicial.
Como aplicar sem virar “planilha infinita”
- Use WSJF para ordenar um conjunto (ex.: top 15–30), não o backlog inteiro.
- Recalcule quando houver mudança relevante (prazo, dependência, evidência, capacidade).
- Se a pontuação virar disputa política, volte ao básico: quais métricas e riscos sustentam cada nota?
Técnica 4: Priorização por risco e hipóteses (aprender cedo)
Quando o problema/solução ainda é incerto, priorizar apenas por “valor esperado” pode ser enganoso. A abordagem por risco/hipóteses coloca primeiro o que pode invalidar a estratégia ou tornar o investimento inútil.
Mapeando hipóteses críticas
Para cada item (ou iniciativa), registre hipóteses e classifique:
- Impacto se estiver errada: baixo/médio/alto
- Incerteza: baixa/média/alta
Priorize validações no quadrante alto impacto + alta incerteza.
Transformando risco em trabalho priorizável
- Spike técnico: reduzir risco de arquitetura, performance, integração.
- Protótipo/teste de usabilidade: reduzir risco de adoção e entendimento.
- MVP/experimento: validar disposição a pagar, conversão, retenção.
- Entrega fatiada: primeiro o caminho crítico, depois refinamentos.
Exemplo de registro de hipótese
| Hipótese | Evidência atual | Teste | Métrica de sucesso | Prazo | Decisão |
|---|---|---|---|---|---|
| Usuários concluirão cadastro com menos campos | Drop-off alto no passo 2 | A/B com versão curta | +10% conclusão | 2 semanas | Se < +3%, reavaliar |
Como combinar técnicas (sem conflito)
As técnicas não competem; elas respondem perguntas diferentes. Um fluxo prático de combinação:
- 1) Matriz Valor x Esforço para triagem rápida e identificação de quick wins e itens “suspeitos”.
- 2) Risco/Hipóteses para puxar para cima validações críticas (spikes/experimentos).
- 3) WSJF para ordenar o conjunto final de candidatos com critério econômico.
- 4) MoSCoW para fechar compromisso de escopo em um período/release (o que é Must vs restante).
Roteiro de uma sessão de priorização (60 a 90 minutos)
Antes da sessão (prework)
- Selecione um conjunto de itens candidatos (ex.: 15–30) e garanta o “mínimo de dados” por item.
- Traga restrições: capacidade aproximada do período, datas fixas, dependências.
- Defina o objetivo do encontro: ordenar top N, fechar Must/Should, ou decidir o que entra no próximo ciclo.
Agenda sugerida
- Contexto e objetivo (5–10 min): relembre métricas-alvo, restrições e horizonte (próximo ciclo/release).
- Checagem rápida de entendimento (10–15 min): para cada item, confirme resultado esperado, métrica e principais riscos.
- Triagem visual (10–15 min): matriz valor x esforço para separar candidatos fortes e itens a descartar/fatiar.
- Ordenação objetiva (20–30 min): aplique WSJF (ou pontuação simples) nos itens remanescentes; ajuste por dependências e fatiamento.
- Risco/hipóteses (10–15 min): identifique 1–3 maiores incertezas e crie itens de validação (spikes/experimentos) com critérios de sucesso.
- Fechamento (5–10 min): MoSCoW para compromisso do período e lista explícita de Won’t (por agora).
Regras de facilitação que evitam travas
- Timebox para discussão por item (ex.: 2–3 min). Se estourar, marque como “precisa de dados” e siga.
- Discordar com evidência: notas devem ser justificadas por dados, risco conhecido ou hipótese.
- Decisão reversível vs irreversível: itens reversíveis podem ser testados cedo; irreversíveis exigem mais validação.
Como registrar decisões (para dar rastreabilidade)
Registre não só a ordem, mas o porquê. Um registro simples reduz retrabalho e ajuda quando alguém questiona a priorização semanas depois.
Modelo de registro (copiável)
Item: [nome do item] (ID/link) Data: [dd/mm] Participantes: [nomes/áreas] Horizonte: [próximo ciclo/release] Decisão: [prioridade X / Must / Won’t agora] Motivo principal: [valor/risco/prazo] Pontuações: Valor [ ] | Tempo [ ] | Risco/Aprend. [ ] | Tamanho [ ] | WSJF [ ] Dependências: [ ] Hipóteses/Assunções: [ ] Evidências usadas: [dados, feedback, pesquisa] Critério de sucesso: [métrica e alvo] Condição de reavaliação: [evento ou data]O que não pode faltar no registro
- Critério de sucesso (para evitar “entregamos, mas não sabemos se funcionou”).
- Condição de reavaliação (ex.: mudança regulatória, queda de conversão, nova dependência).
- Assunções (o que precisa ser verdade para a prioridade fazer sentido).
Como revisar prioridades quando houver mudanças
Prioridade é uma fotografia do momento. Mudanças de mercado, incidentes, novas evidências e restrições de capacidade exigem revisão rápida e disciplinada.
Gatilhos típicos de replanejamento
- Nova evidência invalida uma hipótese (experimento falhou ou surpreendeu).
- Prazo externo surgiu ou mudou (regulatório, contrato, janela de campanha).
- Dependência atrasou/adiantou.
- Capacidade mudou (ausências, incidentes, dívida técnica emergente).
- Métrica crítica piorou (ex.: aumento de churn, queda de conversão).
Processo enxuto de revisão (30 a 45 minutos)
- Reafirme o objetivo e a métrica do período (o que não mudou).
- Liste o que mudou (fatos e impacto).
- Recalcule apenas o necessário: atualize WSJF ou reclassifique MoSCoW nos itens afetados.
- Reordene o top N e ajuste por dependências.
- Atualize o registro de decisão com o motivo da mudança e a nova condição de reavaliação.
Heurísticas úteis para decidir rápido
- Se o risco é alto e o custo de errar é alto: priorize validação (spike/experimento) antes da entrega completa.
- Se o valor é alto mas o esforço também: fatie para entregar um primeiro resultado mensurável cedo.
- Se o prazo é crítico: simplifique escopo (MoSCoW) e proteja Must.
- Se há muita incerteza: aumente peso de aprendizado no WSJF (ou crie uma trilha de discovery).