Primeiras impressões em 3D FDM: testes guiados e leitura de resultados

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Sequência de testes guiados: por que fazer e em que ordem

Depois de configurar o fatiador e ajustar nivelamento/Z-offset, a forma mais rápida de ganhar confiança é rodar uma sequência curta de testes que isolam variáveis. A ordem abaixo reduz retrabalho: (1) teste de primeira camada (aderência e base), (2) cubo de calibração (dimensão e consistência), (3) torre de temperatura (qualidade vs. temperatura), (4) teste de retração (stringing e blobs), (5) ponte/overhang (limites de resfriamento e velocidade). Em cada teste, mude poucas coisas por vez e registre tudo para repetir com consistência.

Como registrar resultados (para repetir com consistência)

Use uma ficha simples (planilha ou caderno). O objetivo é conseguir repetir o mesmo resultado dias depois, com o mesmo filamento e perfil.

CampoExemplo
Data / Impressora2026-01-28 / FDM 0.4 mm
FilamentoPLA marca X, cor Y, lote Z
CondiçõesAmbiente 24°C, mesa limpa com álcool isopropílico
Bico / Mesa0.4 mm / 60°C
Altura de camada0.20 mm
Velocidades1ª camada 20 mm/s; demais 50 mm/s
Ventilação0% na 1ª camada; 100% a partir da 3ª
Temperatura do bico200°C (ou faixa na torre)
RetraçãoDistância 0.8 mm; velocidade 35 mm/s
ObservaçõesLeve stringing; cantos ok; ponte falhou em 25 mm
Ajuste aplicadoReduzi temp para 195°C; aumentei fan em pontes

Dica prática: tire 2 fotos por teste (vista geral e close) e nomeie o arquivo com os parâmetros-chave (ex.: PLA_200C_retr0.8_35_fan100.jpg).

Teste 1 — Primeira camada (aderência e “fundação”)

Objetivo

Confirmar que a primeira camada está aderindo de forma uniforme, sem excesso de esmagamento (elephant foot/abas) e sem falta de contato (linhas soltas). Este teste valida, na prática, se a base do processo está estável.

Como fatiar

  • Modelo: “quadrado/retângulo de primeira camada” (uma placa fina) ou um padrão com várias faixas e cantos.
  • Altura de camada: igual à que você pretende usar (ex.: 0,20 mm).
  • Perímetros: 1–2; Top/Bottom: apenas 1 camada (ou 2, se quiser observar repetição).
  • Infill: 0% (se for uma placa de 1 camada) ou 10–15% (se tiver 2–3 camadas).
  • Velocidade da 1ª camada: baixa (ex.: 15–25 mm/s).
  • Largura de linha da 1ª camada: levemente maior ajuda (ex.: 110–120% do bico).
  • Ventilação: baixa ou desligada na 1ª camada (conforme seu material).

O que observar durante a impressão

  • Linhas contínuas e “coladas”: os traços devem se tocar, sem espaços entre linhas.
  • Brilho e textura: muito “arranhado”/opaco pode indicar esmagamento; linhas arredondadas e soltas indicam distância demais.
  • Cantos: não devem levantar (warping) nem formar “orelhas”.
  • Som e arrasto: se o bico raspa e empurra material, está baixo demais.

Critérios de aceitação

  • Aderência: ao tentar levantar com a unha após esfriar, deve resistir e soltar de forma uniforme (não sair “desfiando”).
  • Visual: superfície homogênea, sem falhas, sem “buracos” entre linhas, sem excesso de rebarba nas bordas.
  • Dimensional (simples): a placa deve manter formato (sem cantos levantados). Medição aqui é secundária; o foco é uniformidade.

Como concluir ajustes

  • Linhas separadas / pouca aderência: aumente levemente a “pressão” da 1ª camada (microajuste no Z-offset) e/ou aumente temperatura do bico em 5°C; reduza velocidade da 1ª camada.
  • Excesso de esmagamento / bordas muito “espalhadas”: reduza levemente a pressão (microajuste no Z-offset) e/ou reduza temperatura do bico em 5°C.
  • Cantos levantando: aumente temperatura da mesa (se aplicável), reduza ventilação inicial, aumente largura de linha da 1ª camada, adicione brim (se necessário) e verifique limpeza da superfície.

Teste 2 — Cubo de calibração (dimensão e consistência)

Objetivo

Verificar se a impressora está produzindo dimensões previsíveis e se as paredes saem consistentes (sem ondulações, gaps ou excesso). O cubo também revela problemas de fluxo (over/under-extrusion), resfriamento e vibração.

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Como fatiar

  • Modelo: cubo 20×20×20 mm (ou similar).
  • Altura de camada: 0,20 mm (ou a que você usará com frequência).
  • Perímetros: 2–3.
  • Top/Bottom: 4–6 camadas (para fechar bem).
  • Infill: 10–20% (não precisa ser alto).
  • Velocidade: moderada (ex.: 40–60 mm/s).
  • Compensações dimensionais no fatiador: deixe desligadas/zeradas neste teste (para medir o “cru”).

O que observar durante a impressão

  • Paredes: devem ser lisas, sem “buracos” (subextrusão) nem “calombos” (excesso/pressão).
  • Cantos: cantos muito arredondados podem indicar velocidade/aceleração altas ou temperatura alta.
  • Topo: deve fechar sem “furinhos” e sem excesso de material acumulado.

Critérios de aceitação

  • Dimensional: medir X e Y com paquímetro. Para iniciantes, um alvo realista é erro até ±0,20 mm no cubo de 20 mm (depende da máquina/material). Z costuma ser mais estável; aceite variação semelhante.
  • Visual: camadas regulares, sem falhas no topo, sem costura (seam) exagerada.
  • Aderência: base plana, sem levantar cantos.

Como concluir ajustes

  • Dimensão X/Y menor ou maior de forma consistente: antes de “compensar no fatiador”, confirme que o fluxo e a temperatura estão bons (torre de temperatura ajuda). Se o erro for pequeno e repetível, use compensação horizontal/expansão (ex.: “horizontal expansion”) com valores mínimos (0,05–0,15 mm) e reimprima.
  • Paredes com gaps (subextrusão aparente): aumente ligeiramente o fluxo (ex.: +2% a +5%) ou aumente temperatura 5°C; verifique se a velocidade não está alta demais para o material.
  • Excesso nas quinas / topo “empastado”: reduza temperatura 5°C, reduza fluxo 2%–5% ou aumente ventilação (para PLA).

Teste 3 — Torre de temperatura (qualidade vs. temperatura)

Objetivo

Encontrar uma faixa de temperatura do bico que equilibre: boa adesão entre camadas, detalhes limpos, pouca formação de fios (stringing) e pontes mais estáveis. A temperatura ideal varia por marca/cor do filamento e até por lote.

Como fatiar

  • Modelo: torre com degraus (cada bloco com uma temperatura).
  • Defina uma faixa típica do material (ex.: PLA 190–220°C; PETG 220–250°C; ajuste ao seu filamento).
  • Passo entre degraus: 5°C (bom equilíbrio entre tempo e leitura).
  • Mantenha constantes: altura de camada, velocidade, ventilação (exceto se seu perfil exigir algo específico).
  • Use script de troca de temperatura por altura (muitos fatiadores têm recurso de “change at Z”).
Exemplo de registro (torre PLA, degraus de 5°C): 220 / 215 / 210 / 205 / 200 / 195 / 190

O que observar durante a impressão

  • Stringing: fios entre torres/aberturas aumentam com temperatura alta.
  • Detalhes e cantos: temperaturas altas tendem a “amolecer” detalhes; baixas podem causar falhas de extrusão.
  • Brilho e textura: mudanças bruscas de acabamento podem indicar faixa fora do ideal.
  • Força entre camadas: se estiver muito frio, camadas podem ficar frágeis (delaminação).

Critérios de aceitação

  • Visual: menor stringing possível sem perder definição; superfícies sem bolhas/excesso.
  • Dimensional: cantos mais “quadrados” e medidas mais estáveis geralmente aparecem na faixa intermediária.
  • Aderência entre camadas: ao tentar quebrar uma aleta fina (se o modelo tiver), não deve separar em “folhas” facilmente.

Como concluir ajustes

  • Escolha a menor temperatura que ainda mantém boa adesão entre camadas e não apresenta falhas de extrusão. Isso costuma reduzir stringing e melhorar detalhes.
  • Se stringing persistir mesmo em temperaturas mais baixas, deixe a temperatura escolhida e trate no teste de retração (não tente resolver tudo só com temperatura).
  • Se houver camadas fracas, suba 5°C e reavalie.

Teste 4 — Retração (stringing, blobs e costura)

Objetivo

Reduzir fios (stringing) e pequenas bolhas (blobs) em movimentos de viagem, sem causar falhas por retração excessiva (entupimentos, “mordidas” no filamento, under-extrusion após travel). Retração é um ajuste fino: pequenas mudanças fazem diferença.

Como fatiar

  • Modelo: teste com duas ou mais torres separadas (obriga travel no ar).
  • Use a temperatura escolhida na torre de temperatura.
  • Velocidade: mantenha moderada e constante.
  • Ative retração e ajuste apenas um parâmetro por vez: distância ou velocidade.
  • Se disponível: habilite “combing/avoid crossing perimeters” com cuidado; pode mascarar stringing ao reduzir travels no ar.

O que observar durante a impressão

  • Fios finos: teias entre torres indicam retração insuficiente, temperatura alta ou filamento úmido.
  • Blobs na partida/chegada: excesso de pressão ou retração mal ajustada.
  • Falhas após travel: se a impressão “volta” com falta de material, retração pode estar alta demais ou rápida demais.

Critérios de aceitação

  • Visual: ausência de teias visíveis a olho nu a uma distância normal; no máximo fios muito finos que saem com um toque.
  • Superfície: sem “espinhas” (zits) grandes nas paredes.
  • Consistência: repetir o teste duas vezes deve dar resultado semelhante (se variar muito, suspeite de umidade do filamento ou instabilidade térmica).

Como concluir ajustes (procedimento prático)

  • Passo 1: ajuste a distância em incrementos pequenos (ex.: 0,2 mm). Reimprima o teste e compare.
  • Passo 2: ajuste a velocidade em incrementos (ex.: 5 mm/s). Reimprima.
  • Se piorar (falhas após travel, estalos, subextrusão): volte um passo e reduza retração.
  • Se melhorar pouco: confirme temperatura (não está alta demais) e verifique condição do filamento (umidade aumenta stringing).

Registro recomendado: anote “melhor ponto” como um par (distância, velocidade) e associe ao material (ex.: PLA: retr 0.8 mm @ 35 mm/s).

Teste 5 — Ponte e overhang (limites de resfriamento e velocidade)

Objetivo

Determinar até onde sua combinação de ventilação, temperatura e velocidade consegue imprimir “no ar” sem suportes: pontes (bridges) e inclinações (overhangs). Isso ajuda a decidir quando usar suporte e como configurar parâmetros específicos de ponte.

Como fatiar

  • Modelo: teste com pontes de comprimentos crescentes (ex.: 10–50 mm) e overhangs em ângulos (ex.: 30° a 70°).
  • Use a temperatura definida anteriormente.
  • Se o fatiador tiver parâmetros de ponte: defina uma velocidade de ponte menor e fluxo de ponte conforme padrão do perfil (ajuste depois).
  • Ventilação: para PLA, geralmente alta ajuda; para outros materiais, ajuste com cautela para não perder adesão entre camadas.

O que observar durante a impressão

  • Ponte: observe a “barriga” (sagging) no meio do vão e se as linhas ficam esticadas ou caem.
  • Overhang: observe “derretimento” nas bordas, textura áspera e queda de material nas inclinações.
  • Ruído/tempo: pontes muito rápidas tendem a cair; muito lentas podem acumular calor.

Critérios de aceitação

  • Visual (ponte): linhas relativamente retas, com sagging pequeno e uniforme; sem fios grossos pendurados.
  • Visual (overhang): até um certo ângulo, a face deve ficar aceitável sem “escamas” grandes; pequenas imperfeições são normais em ângulos altos.
  • Dimensional (ponte): a abertura sob a ponte deve permanecer desobstruída (não “fechar” com material caído).

Como concluir ajustes

  • Sagging na ponte: aumente ventilação (se aplicável), reduza temperatura 5°C, reduza velocidade de ponte e/ou reduza fluxo de ponte levemente (ex.: -5%).
  • Overhang áspero: aumente ventilação, reduza temperatura, reduza velocidade nas paredes externas e considere altura de camada menor (camadas mais finas melhoram overhang).
  • Perda de adesão entre camadas após aumentar fan: volte um pouco a ventilação e compense com redução de velocidade/temperatura.

Checklist de aceitação rápida (para decidir se você “pode seguir”)

  • Primeira camada: uniforme, sem falhas, sem cantos levantados.
  • Cubo: topo fechado, paredes consistentes, erro dimensional dentro de uma faixa que você consegue repetir (ex.: até ±0,20 mm em 20 mm para uso geral).
  • Torre de temperatura: um degrau claramente melhor (menos stringing e boa adesão entre camadas).
  • Retração: stringing mínimo sem falhas após travel.
  • Ponte/overhang: você sabe o “limite” (comprimento/ângulo) aceitável para seu conjunto e quando precisará de suporte ou ajustes.

Modelo de ficha de teste (copiar e preencher)

Impressora: ____________________   Data: ____/____/____  Bico: ____  Material: ____________ (lote: _______)
Perfil base: ____________________  Altura camada: ____   Velocidade: ____  Fan: ____

1) Primeira camada
- Resultado: ( ) OK  ( ) Ajustar
- Observações: __________________________________________
- Ajuste aplicado: ______________________________________

2) Cubo 20 mm
- Medidas (X/Y/Z): ____ / ____ / ____
- Visual topo/parede: ___________________________________
- Ajuste aplicado: ______________________________________

3) Torre de temperatura
- Faixa testada: ____ a ____ (passo ____)
- Melhor degrau: ____ °C
- Observações: __________________________________________

4) Retração
- Distância: ____   Velocidade: ____
- Stringing: ( ) nenhum ( ) leve ( ) moderado ( ) alto
- Ajuste aplicado: ______________________________________

5) Ponte/Overhang
- Ponte OK até: ____ mm
- Overhang OK até: ____ °
- Ajuste aplicado: ______________________________________

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao fazer uma sequência curta de testes para ganhar confiança e reduzir retrabalho na impressão 3D FDM, qual ordem isola melhor as variáveis do processo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A sequência começa validando a fundação (primeira camada), depois checa dimensões/consistência (cubo), define a faixa térmica (torre), ajusta stringing/blobs (retração) e por fim mede limites de resfriamento/velocidade (ponte/overhang), reduzindo retrabalho.

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