Preparação das peças para montagem: marcação, furação, desbaste e limpeza

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Objetivo da preparação das peças

A preparação das peças é o conjunto de operações que deixa os perfis e chapas prontos para montagem com encaixe correto, furação precisa e superfície adequada para solda e acabamento. Nesta etapa, o foco é: (1) garantir encostos perfeitos (sem rebarbas, pontas tortas ou carepas), (2) marcar e furar sem perder alinhamento, (3) prever folgas e tolerâncias para regulagens, e (4) trabalhar com segurança ao usar esmerilhadeira, furadeira e serra.

Preparação de superfícies: carepas, oleosidade e ferrugem

O que remover e por quê

  • Carepa de laminação: camada dura e escura comum em aço; atrapalha a solda (porosidade, falta de fusão) e reduz aderência de primer/tinta.
  • Oleosidade: óleo de corte, graxa e desmoldantes; contaminam solda e pintura.
  • Ferrugem: pode evoluir sob a pintura e enfraquecer pontos de solda/apoio.

Passo a passo prático (limpeza e preparo)

  1. Inspeção: identifique áreas com carepa, pontos de ferrugem, respingos de corte e marcas de caneta/risco que precisam permanecer (proteja-as).
  2. Desengraxe: aplique desengraxante apropriado (ou solvente compatível) com pano limpo. Troque panos para não “espalhar” óleo. Evite encharcar regiões que serão soldadas imediatamente.
  3. Remoção mecânica: use escova de aço (manual ou na esmerilhadeira) para ferrugem leve e carepa solta. Para carepa mais resistente, use disco flap/lixa.
  4. Acabamento da área de solda: deixe uma faixa limpa e metálica nas regiões de solda e encosto. Como referência prática, trabalhe com uma faixa de 15 a 25 mm ao redor do cordão/encosto (ajuste conforme o processo e acesso).
  5. Limpeza final: remova pó com pano seco ou ar comprimido controlado. Se usar solvente, aguarde evaporar antes de soldar.

Dica de controle: passe a unha ou uma lâmina leve na superfície; se “patinar” em carepa ou houver pó solto, ainda falta preparo. Superfície pronta para solda tende a ficar com aspecto metálico uniforme, sem brilho oleoso.

Desbaste de rebarbas e ajuste de pontas para encosto perfeito

Conceito: encosto manda na geometria

Mesmo com corte correto, pequenas rebarbas, “bicos” e cantos amassados criam folgas falsas e desalinhamentos. O objetivo do desbaste é fazer as peças encostarem de forma plana e repetível, sem “balanço” e sem forçar esquadro na montagem.

Passo a passo prático (desbaste e ajuste)

  1. Remova rebarbas do corte: use disco flap ou lima para quebrar arestas vivas e tirar rebarbas internas/externas de tubos e cantoneiras.
  2. Corrija pontas fora de esquadro: encoste a ponta em uma superfície de referência (mesa plana) e verifique se há “barriga”/inclinação. Ajuste com desbaste leve e progressivo, conferindo frequentemente.
  3. Ajuste de encontros: em uniões de perfis (ex.: tubo com tubo), faça pequenos alívios onde houver interferência (quinas internas, solda antiga, amassados). O ajuste deve ser mínimo para não criar folgas excessivas.
  4. Chanfrar quando necessário: para soldas que exigem penetração maior (espessuras maiores), prepare chanfro conforme necessidade do projeto/processo. Evite chanfrar “por hábito” em material fino, pois aumenta risco de queimar e empenar.
  5. Limpeza pós-desbaste: retire pó abrasivo e partículas metálicas antes de marcar e furar (pó pode atrapalhar marcação e contaminar brocas).

Teste rápido de encosto: una as peças com a mão e observe contra a luz. Se aparecer “fresta” em um lado e encostar no outro, há ponto alto; marque com caneta e desbaste apenas onde necessário.

Marcação: furos, rasgos e passagens (fechadura, contra-testa e guias)

Princípios para manter alinhamento

  • Referência única: marque sempre a partir de uma mesma face de referência (ex.: face externa do portão) para evitar “espelhamento” acidental.
  • Transferência de medidas: use gabarito, esquadro e riscador. Quando possível, faça “casamento” de peças (marcar uma pela outra) para garantir coincidência de furos.
  • Centro bem definido: furo bem marcado começa com centro bem batido. Punção (ponta de marcar) reduz “caminhada” da broca.
  • Sequência: primeiro marque linhas e eixos, depois pontos, depois confira, e só então fure/corte.

Ferramentas úteis

  • Trena, régua metálica, esquadro combinado, compasso de ponta seca (quando aplicável).
  • Riscador ou caneta de tinta (para aço escuro, marcador de tinta ajuda).
  • Punção e martelo leve.
  • Gabaritos: chapa com furos-guia, cantoneira com batentes, ou “template” de papelão rígido para repetição.

Passo a passo prático (marcação de furos)

  1. Defina a face de referência: marque com giz/caneta “FACE A” e “TOPO” para não inverter a peça.
  2. Trace o eixo: use régua e esquadro para traçar a linha de centro do perfil (ou a linha de furação).
  3. Marque as posições: meça e marque os pontos ao longo do eixo. Para séries de furos, use espaçador ou gabarito para repetibilidade.
  4. Conferência cruzada: confira distância entre furos (ponta a ponta) e distância até as bordas. Se houver peça “par”, compare as duas antes de furar.
  5. Puncionamento: aplique punção no ponto e dê um golpe firme e controlado para criar um “assento” para a broca.

Marcação e abertura de rasgos (ex.: passagem de lingueta, regulagens, contra-testa)

Rasgos são comuns para permitir ajuste e para componentes que exigem janela (lingueta, passagem de cilindro, contra-testa). O risco principal é perder paralelismo e criar rasgo “torto” ou com cantos fracos.

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  1. Desenhe o contorno: trace o retângulo do rasgo com linhas bem visíveis, incluindo linhas de centro.
  2. Fure os cantos: faça furos nos cantos (ou próximos a eles) com diâmetro compatível para facilitar o recorte e reduzir concentração de tensão. Isso também ajuda a manter cantos mais “limpos”.
  3. Abra o rasgo: una os furos com serra tico-tico para metal, micro retífica, esmerilhadeira com disco de corte fino ou broca escalonada (conforme espessura e acesso). Trabalhe devagar para não “comer” a linha.
  4. Acabamento: use lima chata/meia-cana para acertar as laterais e manter paralelismo. Quebre rebarbas internas.
  5. Teste com a peça real: antes de avançar para pintura/solda final, teste a passagem (lingueta/cilindro/contra-testa) e ajuste com lima.

Técnica para manter alinhamento em rasgos repetidos: faça um gabarito de marcação (chapa fina com recorte) e prenda com sargento. Risco e punção passam a ser “guiados” pelo gabarito, reduzindo variação entre peças.

Furação: como evitar ovalização e manter precisão

Por que furos ovalizam

  • Broca “caminhando” por falta de punção ou por superfície irregular (carepa/rebarba).
  • Peça vibrando por fixação ruim.
  • Pressão lateral ao furar (postura e empunhadura inadequadas).
  • Broca cega, sem afiação, ou rotação/avanço inadequados.
  • Pré-furo muito grande ou inexistente em chapas mais espessas.

Passo a passo prático (furo limpo e no lugar)

  1. Fixe a peça: use morsa, grampos ou sargentos. Nunca segure a peça com a mão para furar.
  2. Superfície preparada: remova carepa e rebarba no ponto do furo.
  3. Punção: marque o centro com punção.
  4. Pré-furo: em materiais mais espessos ou furos maiores, faça pré-furo (ex.: 3 a 5 mm) e depois amplie até o diâmetro final. Isso reduz esforço e melhora precisão.
  5. Furação final: mantenha a furadeira perpendicular. Use rotação adequada e pressão constante, sem “forçar” lateralmente.
  6. Rebarba: após o furo, rebarbe com escareador, broca maior na mão (leve) ou ferramenta apropriada.

Controle de perpendicularidade: quando não houver furadeira de bancada, use um guia simples (um bloco com furo guia ou um esquadro apoiado) para ajudar a manter o ângulo.

Tolerâncias de furação e folgas para regulagens

Conceito: furo “justo” nem sempre é o melhor

Em montagem de portões e grades, é comum precisar de pequena regulagem para alinhar componentes e compensar variações de solda, empeno térmico e tolerâncias de fabricação. Por isso, alguns furos devem ser de montagem (com folga controlada) e outros de referência (mais justos, para posicionamento).

Regras práticas de tolerância (referências úteis)

  • Furo de referência: folga mínima, usado para “puxar” posição. Ex.: para parafuso M8, furo próximo de 8,5 mm (dependendo do padrão e necessidade). Para M10, próximo de 10,5 mm.
  • Furo de montagem com regulagem: folga maior ou rasgo. Ex.: aumentar 1,0 a 2,0 mm no diâmetro em relação ao parafuso, ou usar rasgo com 3 a 6 mm de curso de ajuste, conforme necessidade.
  • Rasgos: use quando a regulagem precisa ser previsível (ex.: alinhamento de contra-testa/batente). Prefira rasgo no sentido da regulagem e mantenha uma borda “de apoio” bem definida.
  • Distância mínima da borda: evite furar muito próximo da borda para não rasgar o material ao apertar. Como regra prática, mantenha distância do centro do furo até a borda pelo menos igual ao diâmetro do furo (e aumente em materiais finos).
AplicaçãoPreferênciaMotivo
Posicionar componente que define alinhamento1 furo de referência + 1 furo com folga/rasgoTrava a posição e ainda permite ajuste
Fixação que pode exigir ajuste finoRasgo curtoRegulagem controlada sem “brigar” com o parafuso
Peças repetidas em sérieGabarito + furo de referênciaRepetibilidade e intercambiabilidade

Boa prática: planeje a regulagem para acontecer em apenas um sentido por conjunto (ex.: só lateral ou só vertical). Regulagem em dois sentidos sem referência costuma gerar montagem “flutuante” e difícil de repetir.

Boas práticas de segurança: esmerilhadeira, furadeira e serra

Regras gerais (antes de ligar a ferramenta)

  • EPI: óculos de proteção (preferencialmente com vedação lateral), protetor auricular, luvas adequadas (atenção: em operações com partes rotativas, luva pode prender; avalie o risco), máscara para poeira metálica ao lixar, e calçado fechado.
  • Fixação: peça sempre presa em morsa ou com grampos. Vibração é causa comum de quebra de disco, broca e cortes.
  • Área limpa: retire panos com solvente, materiais inflamáveis e cabos soltos da zona de trabalho.
  • Inspeção de consumíveis: verifique discos (trincas, validade, diâmetro compatível), brocas (afiadas, sem empeno), lâminas (dentes íntegros), e aperto correto.
  • Postura: pés afastados, tronco estável, ferramenta com duas mãos quando aplicável, e corpo fora da linha de projeção de faíscas/fragmentos.

Esmerilhadeira (corte e desbaste)

  • Guarda de proteção sempre instalada e posicionada para desviar faíscas e possíveis fragmentos.
  • Disco correto: disco de corte é para cortar; disco flap/desbaste é para desbastar. Não use disco de corte para desbaste lateral.
  • Partida e teste: após trocar o disco, ligue por alguns segundos sem carga, em posição segura, para verificar vibração anormal.
  • Ângulo de trabalho: no flap, mantenha ângulo moderado e movimento constante para não “cavar” e aquecer demais a peça.
  • Direção das faíscas: direcione para longe do corpo, de mangueiras, cabos e materiais combustíveis.

Furadeira (manual e bancada)

  • Peça presa: nunca segure o perfil com a mão; se a broca agarrar, a peça pode girar violentamente.
  • Perpendicularidade: alinhe antes de iniciar; comece com baixa pressão até a broca “assentar” no punção.
  • Controle de cavaco: cavaco longo corta; pare para remover com ferramenta/escova, não com a mão.
  • Lubrificação: quando aplicável, use fluido de corte para reduzir aquecimento e aumentar vida da broca.

Serra (serra policorte, fita, tico-tico para metal)

  • Fixação e apoio: mantenha a peça apoiada para não fechar o corte e prender o disco/lâmina.
  • Início do corte: encoste suavemente e deixe a ferramenta ganhar rotação/curso antes de aplicar carga.
  • Não force: forçar aumenta aquecimento, empena lâmina e piora o esquadro do corte.
  • Rebarba e ponta quente: após cortar, trate a ponta como quente e cortante; rebarbe antes de manusear.

Checklist rápido de qualidade (antes de seguir para montagem)

  • Superfícies de solda/encosto metálicas e limpas (sem óleo, carepa solta, ferrugem ativa).
  • Pontas ajustadas: encosto sem frestas visíveis e sem “balanço”.
  • Furos no lugar: centro conferido, sem ovalização, rebarba removida.
  • Rasgos paralelos e com cantos aliviados; componentes passam sem enroscar.
  • Folgas/tolerâncias planejadas: pelo menos um ponto de referência e um ponto de regulagem quando necessário.
  • Consumíveis inspecionados e peça fixada corretamente durante todas as operações.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao preparar furos para fixação em portões e grades, qual combinação ajuda a manter o posicionamento e ainda permitir regulagem na montagem?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Um furo de referência ajuda a “travar” a posição do componente, enquanto o segundo furo com folga/rasgo permite ajustar alinhamento e compensar variações de solda e tolerâncias sem deixar a montagem flutuante.

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