O que é precificar na moda (e por que “cobrir custos” não basta)
Precificação é o processo de transformar custos, posicionamento e estratégia comercial em um preço que seja competitivo (vende), lucrativo (paga a operação e gera caixa) e sustentável (aguenta descontos, devoluções, comissões e aquisição de clientes sem “comer” a margem).
Na moda, o preço precisa acomodar variáveis que nem sempre aparecem no custo do produto: taxas de pagamento, comissões, devoluções/trocas, impostos, custo de aquisição de cliente (CAC), sazonalidade e o papel do item dentro do mix (entrada vs premium).
Três perguntas que toda precificação precisa responder
- Qual é o preço mínimo? (abaixo disso, você perde dinheiro no pedido ou no ciclo de venda)
- Qual é o preço-alvo? (o preço que entrega a margem desejada e sustenta crescimento)
- Qual é o teto de desconto? (o limite para promoções sem destruir a margem)
Método 1: Markup consciente (com custos “invisíveis”)
Markup é um multiplicador aplicado sobre o custo para chegar ao preço. O erro comum é usar um markup “de mercado” sem incluir todos os componentes que drenam margem.
Markup vs margem: não confunda
- Markup: multiplicador sobre o custo. Ex.: custo 100, markup 2,5 → preço 250.
- Margem bruta: (preço − custo) / preço. Ex.: (250−100)/250 = 60%.
Passo a passo: formando preço com markup consciente
- Defina o custo do produto (CP) por unidade (já apurado no capítulo de custos): matéria-prima + mão de obra + embalagem + custo de produção/terceiros + fretes de entrada rateados (se aplicável).
- Liste os custos variáveis por venda (CV%) em percentual do preço: taxas de pagamento, comissão de canal/marketplace, imposto sobre venda, custo de embalagem extra por pedido (se for proporcional), etc.
- Estime perdas operacionais por venda (P%): devoluções/trocas (taxa histórica × custo médio por ocorrência), fraudes, reentregas.
- Inclua CAC por pedido (CAC%) quando houver mídia paga/afiliados: CAC médio / preço médio do pedido. Se você vende por tráfego orgânico, ainda assim pode considerar um CAC “meta” para não travar crescimento.
- Defina a margem de contribuição desejada (MC%) para cobrir fixos e lucro (ex.: 25% a 40%, dependendo do modelo).
- Calcule o preço-alvo com a fórmula:
Preço-alvo = CP / (1 − (CV% + P% + CAC% + MC%))
Exemplo prático (varejo direto)
Uma blusa tem CP = R$ 85. Você estima: taxas e comissões do canal 10%, impostos 6% (total CV% = 16%), perdas com trocas 3% (P% = 3%), CAC 8% (CAC% = 8%). Quer MC% = 30%.
Preço-alvo = 85 / (1 − (0,16 + 0,03 + 0,08 + 0,30)) = 85 / (1 − 0,57) = 85 / 0,43 = R$ 197,67Arredondamento estratégico: R$ 199 ou R$ 198 (dependendo do posicionamento e da grade de preços do mix).
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Checklist de “custos invisíveis” para não esquecer
- Taxa do meio de pagamento (cartão, parcelamento) e antecipação (se usada)
- Comissão de marketplace (quando houver) e taxas fixas por pedido
- Impostos sobre venda (conforme regime e operação)
- Trocas/devoluções: logística reversa + reprocesso + perda de valor (peça volta fora de coleção)
- CAC (mídia, afiliados, influenciadores por comissão)
- Brindes, amostras, tags extras, ajustes de embalagem em datas sazonais
Método 2: Precificação por valor percebido (o preço como parte do posicionamento)
Precificação por valor percebido parte do quanto o cliente acredita que a peça “vale”, considerando design, caimento, materiais, exclusividade, narrativa, prova social, experiência e conveniência. Na prática, você usa custos como “piso” e o valor percebido como “teto”.
Como estimar valor percebido sem achismo
- Mapa de comparáveis: selecione 5 a 10 marcas com proposta semelhante (não necessariamente concorrentes diretas) e compare faixa de preço por categoria (ex.: camiseta, camisa, calça).
- Escada de atributos: liste atributos que justificam preço (tecido, acabamento, modelagem, durabilidade, produção local, edição limitada, atendimento, embalagem).
- Teste de disposição a pagar: em pré-venda, lista de espera ou pesquisa com público quente, teste 2 a 3 faixas de preço e observe conversão.
Passo a passo: aplicar valor percebido com segurança
- Calcule preço mínimo (piso) com o método do markup consciente.
- Defina uma faixa de valor percebido (ex.: R$ 189–229) com base em comparáveis e atributos.
- Escolha o preço-alvo dentro da faixa, alinhado ao posicionamento (mais acessível vs mais premium).
- Valide com métricas: taxa de conversão, taxa de devolução, margem por pedido, recompra.
Exemplo prático (ajuste por valor)
Se o preço mínimo calculado é R$ 198 e o mercado aceita R$ 229 para peças com tecido superior e acabamento premium, você pode precificar em R$ 229 e usar a diferença para: elevar CAC permitido, financiar frete promocional, ou criar “colchão” para descontos sem zerar margem.
Método 3: Ancoragem por mix (itens de entrada e itens premium)
Ancoragem por mix é usar o portfólio para guiar percepção de preço. Você cria itens de entrada (mais acessíveis, alta rotatividade) e itens premium (maior margem e desejo), de modo que o cliente compare dentro da sua própria marca.
Como estruturar o mix para ancoragem
- Item de entrada: preço mais baixo da categoria, boa qualidade, margem menor porém saudável. Função: aquisição e volume.
- Item core: “carro-chefe” com melhor equilíbrio de margem e venda. Função: sustentar faturamento.
- Item premium: materiais/complexidade superiores, edição limitada, maior margem. Função: elevar ticket e percepção de marca.
Passo a passo: desenhar escada de preços
- Escolha uma categoria (ex.: camisetas).
- Defina 3 degraus de preço (entrada, core, premium) com diferença perceptível (ex.: 20% a 40% entre degraus).
- Garanta que cada degrau tenha justificativa real (tecido, acabamento, modelagem, detalhes).
- Use o premium como âncora: ele torna o core “mais razoável” e o entrada “muito acessível”.
Exemplo de escada (camisetas)
| Degrau | Proposta | Preço sugerido | Justificativa |
|---|---|---|---|
| Entrada | Básica bem-feita | R$ 119 | Malha padrão, cores essenciais |
| Core | Melhor custo-benefício | R$ 159 | Modelagem superior, gramatura maior |
| Premium | Destaque/edição | R$ 229 | Tecido premium, detalhe exclusivo, produção limitada |
Descontos, cupons, promoções sazonais e liquidação sem destruir margem
Desconto não é “inimigo”, mas precisa ser planejado como ferramenta de aquisição, giro e caixa. O problema é descontar sem saber o limite.
1) Calcule o limite de desconto por SKU (teto)
Use o preço-alvo e descubra o preço mínimo aceitável para não ficar negativo na contribuição.
Uma forma prática é definir o preço mínimo operacional (PMO): o preço em que sua margem de contribuição vira zero (ou uma MC mínima, como 5%).
PMO = CP / (1 − (CV% + P% + CAC% + MC_mín%))Então o desconto máximo é:
Desconto máx% = 1 − (PMO / Preço cheio)2) Regras práticas para cada tipo de incentivo
- Cupom de primeira compra: trate como custo de aquisição. Só use se o LTV (recompra) justificar. Prefira cupom em valor fixo (ex.: R$ 20) para proteger margem em itens baratos.
- Desconto progressivo (ex.: 10% em 2 peças, 15% em 3): funciona melhor quando aumenta ticket e dilui CAC/frete. Calcule a margem por pedido, não por peça.
- Promoções sazonais: defina “orçamento de desconto” por categoria e estoque. Evite descontar lançamentos; concentre em itens com risco de sobrar grade.
- Liquidação: objetivo é giro e caixa. Use faixas por idade de estoque (ex.: 60/90/120 dias) e proteja itens core. Se possível, faça “liquidação silenciosa” (canal separado) para não reeducar o cliente.
3) Evite armadilhas que corroem margem
- Frete grátis + desconto sem conta: trate frete como custo variável adicional.
- Cupons acumuláveis: limite combinações (ex.: cupom não acumula com sale).
- Desconto igual para todo o mix: itens com margens diferentes pedem tetos diferentes.
- Parcelamento sem precificar: se há custo/antecipação, ele entra no CV%.
Tabela rápida: impacto do desconto na margem (exemplo)
Suponha: preço cheio R$ 200, custo do produto R$ 85. (Aqui é uma visão simplificada de margem bruta, sem taxas.)
| Desconto | Preço | Margem bruta (R$) | Margem bruta (%) |
|---|---|---|---|
| 0% | 200 | 115 | 57,5% |
| 10% | 180 | 95 | 52,8% |
| 20% | 160 | 75 | 46,9% |
| 30% | 140 | 55 | 39,3% |
| 40% | 120 | 35 | 29,2% |
Na prática, quando você adiciona taxas, CAC e devoluções, o teto de desconto costuma ser bem menor do que o “instinto” sugere.
Precificação para varejo e atacado (sem canibalizar canais)
Moda frequentemente opera com dois preços: varejo (preço cheio ao consumidor) e atacado (preço para lojistas revenderem). O atacado precisa permitir que o lojista tenha margem e ainda assim você mantenha contribuição positiva.
Estrutura típica de preços
- Preço de varejo (PV): âncora de marca e referência pública.
- Preço de atacado (PA): normalmente um desconto sobre PV (ex.: 40% a 55%), dependendo da categoria e do posicionamento.
- Política de canal: regras para não “brigar” com o lojista (ex.: não fazer promoções abaixo de X% em períodos críticos, ou oferecer condições equivalentes).
Passo a passo: calcular preço de atacado viável
- Defina PV pelo método (markup consciente + valor percebido).
- Defina a margem desejada do lojista (ex.: 2,0x no custo dele, ou 50% de margem bruta no PV).
- Calcule o PA como desconto do PV:
PA = PV × (1 − Desconto_atacado%) - Verifique se o PA cobre CP e custos variáveis do canal atacado (impostos, comissões de representante, frete subsidiado, etc.).
Tabela: cenários de atacado (exemplo)
Suponha PV = R$ 200 e CP = R$ 85. Canal atacado tem custos variáveis menores (sem CAC direto), mas pode ter comissão de representante.
| Desconto atacado sobre PV | PA (R$) | Margem bruta sua (R$) | Margem bruta sua (%) | Espaço para o lojista (markup sobre PA) |
|---|---|---|---|---|
| 40% | 120 | 35 | 29,2% | PV/PA = 1,67x |
| 45% | 110 | 25 | 22,7% | 1,82x |
| 50% | 100 | 15 | 15,0% | 2,00x |
| 55% | 90 | 5 | 5,6% | 2,22x |
Se você ainda precisa pagar comissão de representante, a margem efetiva cai. Ex.: 8% de comissão sobre PA = R$ 8 em PA=100, reduzindo sua margem bruta de R$ 15 para R$ 7.
Comissões (representantes, afiliados, influenciadores)
Comissão é custo variável do canal. Trate como percentual do preço (ou do faturamento líquido) e inclua no CV%.
| Canal | Base comum | Faixa típica | Cuidados |
|---|---|---|---|
| Representante (atacado) | sobre PA faturado | 5%–12% | Defina se incide sobre frete, impostos e devoluções |
| Afiliado | sobre PV pago | 5%–15% | Não acumular com cupons agressivos sem recalcular teto |
| Influenciador por comissão | sobre vendas atribuídas | 5%–20% | Considere devoluções (pagar após prazo de troca) |
Impostos, taxas de marketplace, devoluções/trocas e CAC: como colocar na conta
Impostos
Imposto pode ser percentual sobre receita e varia conforme regime e operação. Para precificação, o essencial é: usar uma alíquota efetiva média por canal e atualizar quando houver mudança de regime, NCM, estado ou política fiscal.
Taxas de marketplace (quando houver)
Marketplaces costumam cobrar: comissão percentual, taxa fixa por pedido, custo de frete (às vezes subsidiado) e antecipação. Some tudo em CV% e simule cenários (com e sem promoções do próprio marketplace).
Devoluções e trocas
Trate devolução como “imposto operacional”: mesmo que a peça volte ao estoque, há custo de logística reversa, reprocesso e risco de desvalorização (volta fora de coleção ou com avaria).
Modelo simples para estimar P%:
P% = (Taxa_devolução × Custo_médio_devolução) / Preço_médioOnde custo médio de devolução pode incluir: frete reverso + reenvio (em troca) + embalagem + mão de obra.
CAC (Custo de Aquisição de Cliente)
Se você investe em tráfego pago, CAC precisa caber na margem. Uma forma prática é transformar CAC em percentual do preço:
CAC% = CAC_médio_por_pedido / Preço_médio_do_pedidoSe seu ticket médio muda com promoções, o CAC% muda também. Por isso, promoções devem ser avaliadas por margem por pedido.
Modelo prático de planilha (campos essenciais)
Estruture por SKU e por canal (varejo direto, atacado, marketplace). Campos recomendados:
- CP (custo do produto)
- PV (preço cheio varejo)
- Desconto aplicado (%)
- Preço final
- Impostos (%)
- Taxas de pagamento (%)
- Comissão canal/marketplace (%) + taxa fixa (R$)
- CAC por pedido (R$) e CAC% (quando aplicável)
- Perdas com trocas/devoluções (%)
- Margem de contribuição (R$ e %)
- Preço mínimo operacional (PMO)
- Teto de desconto (%)
Exercícios práticos (preço mínimo, preço-alvo e limites de desconto)
Exercício 1 — Calcule o preço-alvo (varejo direto)
Para um SKU, use:
- CP = R$ 92
- CV% (taxas + impostos) = 15%
- P% (trocas/devoluções) = 3%
- CAC% = 10%
- MC% desejada = 28%
Tarefa: aplique a fórmula e encontre o preço-alvo. Depois, defina um preço psicológico (ex.: 199, 209, 219) que respeite o posicionamento.
Exercício 2 — Encontre o preço mínimo operacional (PMO) e o teto de desconto
Use o preço cheio que você definiu no exercício 1 e calcule:
- PMO com MC_mín = 5%
- Desconto máximo (%) para não ficar abaixo do PMO
Tarefa: escreva 3 políticas de cupom (valor fixo, percentual, progressivo) que fiquem abaixo do teto.
Exercício 3 — Simule um marketplace
Considere:
- Preço cheio (PV) = R$ 229
- CP = R$ 95
- Impostos = 6%
- Comissão marketplace = 18%
- Taxa fixa por pedido = R$ 4
- Perdas (P%) = 4%
- CAC% = 0% (marketplace traz tráfego)
- MC% desejada = 20%
Tarefa: calcule se PV = 229 é suficiente. Se não for, ajuste PV ou reduza custos/estratégia (ex.: limitar parcelamento, reduzir devoluções com tabela de medidas, rever mix).
Exercício 4 — Atacado com comissão de representante
Considere:
- PV = R$ 200
- CP = R$ 85
- Desconto atacado proposto = 50% (PA = 100)
- Comissão representante = 8% sobre PA
- Impostos efetivos no atacado = 4%
Tarefa: calcule sua margem bruta e uma margem de contribuição simplificada no atacado. Depois, responda: qual o maior desconto atacado possível mantendo pelo menos R$ 10 de contribuição por peça?
Exercício 5 — Ancoragem por mix (escada de preços)
Escolha uma categoria (ex.: vestidos) e defina:
- 1 item de entrada (menor preço)
- 1 item core (carro-chefe)
- 1 item premium (âncora)
Tarefa: para cada item, escreva: (a) preço cheio, (b) justificativa objetiva de valor, (c) teto de desconto calculado, (d) em quais períodos ele pode entrar em promoção (ou nunca).