Modelos de negócio na Moda: sob demanda, pronta entrega, drops e atacado

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que são modelos de negócio (operacionais e financeiros) na Moda

Em Moda, “modelo de negócio” aqui significa como você organiza produção, estoque, entrega e recebimento para vender. A mesma peça pode ser vendida em modelos diferentes, mudando totalmente: necessidade de capital, risco de sobra de estoque, velocidade de entrega, margem, rotina operacional e nível de dependência de terceiros.

Os quatro modelos mais comuns para marcas em crescimento são: sob demanda, pronta entrega, drops/colabs e atacado. A escolha ideal depende do seu estágio e do seu “motor” principal de vendas (site, redes sociais, loja física, multimarcas, eventos).

Comparativo rápido: operação, caixa e risco

ModeloComo funcionaCaixa/CapitalEntregaRisco principalQuando tende a funcionar melhor
Sob demandaProduz após o pedido (ou após fechar um lote mínimo)Menos capital imobilizado; caixa entra antes de parte da produçãoMais lenta; depende do lead time produtivoAtrasos, cancelamentos, reputação por prazoMarca pequena, validação de produto, capacidade produtiva limitada
Pronta entregaProduz antes e mantém estoque para envio imediatoMais capital imobilizado; precisa financiar estoqueRápida; melhora conversãoSobra de estoque, remarcação, fluxo de caixa travadoProdutos com demanda previsível, canal com alta urgência (online/loja)
Drops/ColabsVenda feita por você; produção/estoque e/ou envio por parceiro (varia)Menor investimento inicial; depende do acordoVaria conforme parceiroDependência de parceiro, qualidade, ruptura, desalinhamento de marcaTestar categorias, ampliar mix rápido, aproveitar audiência/parcerias
AtacadoVende em volume para lojistas/multimarcas; pedidos maioresEntrada de caixa pode ser grande, mas prazos podem alongar; exige estruturaEntrega em janelas (coleções) e volumesMargens diferentes, devoluções/consignação, inadimplênciaCapacidade produtiva, padronização, produto com giro em multimarcas

Modelo 1: Sob demanda (menos estoque, mais prazo)

Conceito

No sob demanda, você só produz depois que o cliente compra (ou depois que fecha um lote mínimo). É um modelo que reduz estoque e permite testar produtos com menos risco financeiro, mas exige disciplina de prazos e comunicação impecável.

Vantagens

  • Menos capital imobilizado em estoque.
  • Menos risco de encalhe e remarcações.
  • Flexibilidade para ajustar cores/tamanhos conforme pedidos.
  • Validação de demanda com dados reais.

Riscos

  • Prazo maior pode reduzir conversão e aumentar suporte.
  • Atrasos geram cancelamentos e chargebacks.
  • Qualidade inconsistente se a produção for muito “unitária” e sem padrão.

Requisitos para funcionar

  • Lead time mapeado (tempo real de produção + embalagem + coleta).
  • Capacidade produtiva mínima para cumprir picos (ex.: lançamentos).
  • Comunicação de prazo clara no produto, no checkout e no pós-venda.
  • Política de troca adaptada (principalmente para itens feitos sob medida).

Passo a passo prático: como estruturar sob demanda

  1. Defina o “prazo promessa”: some produção (dias úteis) + inspeção + embalagem + expedição + transporte. Adicione uma folga (buffer) para imprevistos.
  2. Crie janelas de produção: por exemplo, “pedidos confirmados até domingo entram no lote da semana”. Isso reduz custo e aumenta previsibilidade.
  3. Padronize variações: limite cores e tamanhos por ciclo para evitar complexidade infinita.
  4. Automatize status: confirmação de pedido, início de produção, finalização, envio. Se não tiver automação, use um roteiro manual com prazos fixos.
  5. Defina regra de cancelamento: até quando o cliente pode cancelar antes de iniciar a produção.

Modelo 2: Pronta entrega (mais giro, capital imobilizado)

Conceito

Na pronta entrega, você produz antes e mantém estoque para enviar rápido. Isso tende a aumentar conversão (especialmente online) e permite campanhas com entrega imediata, mas exige capital para financiar estoque e gestão rigorosa para evitar sobras.

Vantagens

  • Entrega rápida (melhora experiência e reduz dúvidas).
  • Mais previsibilidade no atendimento e no pós-venda.
  • Escala comercial mais fácil (campanhas, influenciadores, eventos).

Riscos

  • Capital travado em estoque.
  • Sobra de grade (tamanhos que encalham).
  • Remarcações para girar estoque podem corroer margem.

Requisitos para funcionar

  • Controle de estoque por SKU (modelo/cor/tamanho) e inventários periódicos.
  • Política de reposição (quando e quanto recomprar/produzir).
  • Capacidade de armazenagem e organização (endereçamento, separação, embalagem).

Passo a passo prático: como montar pronta entrega sem “afogar” em estoque

  1. Comece com estoque mínimo viável: escolha poucos SKUs e uma grade enxuta (ex.: 3 tamanhos principais) para reduzir complexidade.
  2. Defina ponto de reposição: quando um SKU chega a X unidades, dispara reposição (considerando o tempo de produção).
  3. Crie um calendário de giro: revise semanalmente os SKUs com baixa saída e planeje ações (combos, vitrine, destaque, kits).
  4. Separe estoque “venda” e “reserva”: evite vender o que já está comprometido com trocas/defeitos/mostruário.
  5. Implemente conferência de expedição: checklist para reduzir erros de envio (tamanho/cor).

Modelo 3: Drops e colabs (dependência de parceiros)

Conceito

“Drops” e “colabs” são lançamentos em parceria que podem envolver co-criação, co-marketing e/ou produção e logística por terceiros. O formato exato varia: o parceiro pode produzir, estocar e enviar; ou apenas co-assinar a coleção enquanto você opera. O ponto central é que parte do resultado depende de alinhamento e execução do parceiro.

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Vantagens

  • Velocidade para lançar algo novo com menos estrutura própria.
  • Alcance via audiência do parceiro.
  • Teste de categoria (ex.: acessórios, calçados) sem montar cadeia completa.

Riscos

  • Dependência de prazos, qualidade e estoque do parceiro.
  • Conflito de posicionamento (estética, comunicação, atendimento).
  • Margem e controle podem ser menores.

Requisitos para funcionar

  • Contrato e SLAs claros (prazos, qualidade, trocas, responsabilidade por defeitos).
  • Padrão de qualidade definido e aceito (amostras aprovadas, critérios de inspeção).
  • Plano de contingência para ruptura/atraso (comunicação e alternativas).

Passo a passo prático: checklist de parceria (drops/colabs)

  1. Defina o escopo: quem cria, quem produz, quem estoca, quem envia, quem atende.
  2. Negocie a divisão financeira: comissão, compra antecipada, repasse por pedido, ou revenda com preço fechado.
  3. Formalize SLAs: prazo de postagem, taxa máxima de defeito, tempo de resposta ao suporte, política de reenvio.
  4. Combine governança: quem aprova criativos, fotos, descrições e calendário de lançamento.
  5. Teste com um drop pequeno: limite SKUs e unidades para validar operação antes de escalar.

Modelo 4: Atacado (volume, margens diferentes)

Conceito

No atacado, você vende em volume para lojistas/multimarcas. O foco sai do pedido unitário e vai para pedidos maiores, com negociação de condições comerciais, prazos e padrões de entrega. A margem por peça tende a ser diferente do varejo, mas o volume pode estabilizar produção e diluir custos operacionais.

Vantagens

  • Volume e previsibilidade de produção quando há recorrência.
  • Menos esforço por unidade (um pedido grande vs. muitos pedidos pequenos).
  • Distribuição em novas praças via rede de lojistas.

Riscos

  • Margem menor por peça em comparação ao varejo.
  • Prazos de pagamento podem pressionar caixa.
  • Devoluções/consignação (se aceitas) aumentam risco.
  • Exigência de padronização (grade, etiquetas, embalagem, nota, prazos).

Requisitos para funcionar

  • Capacidade produtiva e consistência de qualidade.
  • Política comercial clara: pedido mínimo, tabela, prazos, reposição.
  • Gestão de crédito: análise de risco do lojista e regras de pagamento.

Passo a passo prático: estruturando atacado com controle

  1. Defina condições padrão: pedido mínimo (R$ ou peças), mix mínimo por modelo, e prazos de produção/entrega.
  2. Monte uma tabela atacado: preços por faixa de volume e regras de desconto (evite “desconto no improviso”).
  3. Crie um formulário de pedido: SKU, grade, cores, quantidades, data de entrega, dados fiscais.
  4. Estabeleça política de pagamento: sinal na confirmação + saldo antes do envio, ou prazos com análise de crédito.
  5. Padronize embalagem e expedição: caixas por referência, romaneio, conferência e rastreio.

Como decidir o modelo: matriz de escolha (capital, produção, risco e canal)

1) Capital disponível (para estoque e operação)

  • Baixo capital: tende a favorecer sob demanda ou drops/colabs (dependendo do acordo).
  • Capital moderado: pronta entrega com estoque enxuto e reposição rápida.
  • Capital alto: pronta entrega mais ampla e/ou estrutura para atacado com prazos competitivos.

2) Capacidade produtiva e previsibilidade

  • Capacidade limitada/variável: sob demanda com janelas de produção.
  • Capacidade estável: pronta entrega e atacado ficam mais viáveis.
  • Sem produção própria: drops/colabs podem acelerar, desde que SLAs sejam fortes.

3) Apetite a risco

  • Baixo apetite: sob demanda (risco de prazo) e drops (risco de parceiro) podem ser menores que estoque alto, mas exigem controle.
  • Médio apetite: pronta entrega com estoque mínimo e metas de giro.
  • Alto apetite: pronta entrega com profundidade de grade e campanhas agressivas; atacado com expansão de carteira.

4) Canal principal de vendas

  • Online direto ao consumidor: pronta entrega costuma aumentar conversão; sob demanda funciona se o prazo for bem comunicado e competitivo.
  • Eventos/feiras/pop-ups: pronta entrega ajuda a capturar venda imediata; sob demanda pode funcionar com “encomenda” e amostras.
  • Multimarcas: atacado (ou consignação, se fizer sentido) com padronização e prazos.
  • Influenciadores/parcerias: drops/colabs podem maximizar alcance, desde que a operação aguente o pico.

Modelo híbrido: combinações comuns (e como evitar confusão)

Muitas marcas usam híbridos para equilibrar caixa e prazo. O cuidado é não prometer “envio imediato” para itens sob demanda, nem misturar políticas de troca sem deixar claro.

  • Pronta entrega + sob demanda: best-sellers em estoque; itens de cauda longa sob demanda. Requer identificação clara no produto (“envio em 24–48h” vs “produção em X dias úteis”).
  • Atacado + pronta entrega: estoque dedicado para atacado (grade fechada) e outro para varejo. Evita conflito de disponibilidade.
  • Drops + sob demanda: pré-venda em parceria com produção após fechamento. Exige comunicação de prazo e contrato forte.

Guia para desenhar políticas de trocas, prazos e SLAs por modelo

Políticas e SLAs (acordos de nível de serviço) são parte do produto percebido. Eles precisam ser coerentes com o modelo operacional para reduzir atrito, chargebacks e desgaste de atendimento.

1) Prazos: como definir e comunicar

Use três camadas de prazo: prazo de preparação (produção/separação), prazo de postagem e prazo de transporte. Mostre no checkout o prazo total e, quando possível, o detalhamento.

  • Sob demanda: comunicar “produção em X dias úteis + envio”. Evite promessas vagas como “em breve”.
  • Pronta entrega: comunicar “envio em até Y dias úteis” (separação + postagem) e oferecer rastreio rápido.
  • Drops/colabs: comunicar o prazo do parceiro e deixar explícito quem é responsável pela expedição.
  • Atacado: formalizar janela de entrega e penalidades/alternativas em caso de atraso (substituição, envio parcial, etc.).

2) Trocas e devoluções: regras essenciais (varejo)

Defina por escrito: condições do produto, prazos, quem paga frete, e como o cliente inicia o processo (formulário, e-mail, portal). Ajuste a política conforme o modelo:

  • Sob demanda: se houver personalização/sob medida, deixe claro o que é trocável. Para itens não personalizados, mantenha um fluxo de troca normal, mas considere que a reposição pode exigir novo prazo de produção.
  • Pronta entrega: troca mais rápida; reserve estoque para trocas (principalmente tamanhos).
  • Drops/colabs: defina se a troca volta para você ou para o parceiro. Determine quem arca com defeitos e reenvios.
  • Atacado: normalmente não segue a lógica de troca por arrependimento do consumidor final. Estabeleça política para avarias, divergência de pedido e defeitos com prazos curtos de notificação.

3) SLAs de atendimento e expedição (o que medir)

Mesmo pequeno, você pode operar com SLAs simples para manter consistência.

ÁreaSLA sugeridoObservação por modelo
Resposta ao clienteAté 24h úteisNo sob demanda, dúvidas de prazo aumentam; prepare respostas padrão.
Postagem após prontoAté 1–2 dias úteisNa pronta entrega, isso é parte da promessa central.
Atualização de statusEm cada marcoSob demanda e drops exigem transparência (início/fim produção, envio).
Taxa de erro de envio< 1%Pronta entrega e atacado precisam de conferência dupla.
Defeitos/qualidadeMeta de retrabalho baixaEm drops, inclua meta no contrato; em atacado, inspeção pré-embarque.

4) Modelos de política (templates práticos)

Template de prazo (sob demanda)

Prazo de produção: até X dias úteis após confirmação do pagamento. Após a produção, o pedido é postado em até Y dias úteis. O prazo de transporte varia conforme o CEP e será informado no checkout com código de rastreio.

Template de prazo (pronta entrega)

Pedidos confirmados são separados e postados em até Y dias úteis. Você receberá o código de rastreio assim que o pedido for enviado. O prazo de entrega depende do CEP e da modalidade de frete escolhida.

Template de troca (pontos mínimos)

Trocas e devoluções: solicite em até N dias corridos após o recebimento. O produto deve estar sem sinais de uso, com etiquetas e na embalagem original. Após análise, oferecemos troca por tamanho/cor (conforme disponibilidade) ou reembolso conforme a forma de pagamento.

Template de SLA para parceiro (drops/colabs)

O parceiro se compromete a: (1) postar pedidos em até Y dias úteis após recebimento da lista; (2) manter taxa de defeito abaixo de Z%; (3) responder solicitações de suporte em até 24h úteis; (4) arcar com reenvio em caso de erro de separação/defeito confirmado.

Roteiro de decisão em 30 minutos (exercício)

Use este roteiro para escolher o modelo (ou híbrido) com base na sua realidade atual.

  1. Liste seu capital disponível para estoque e operação nos próximos 60–90 dias (valor que você realmente pode imobilizar sem comprometer contas).
  2. Escreva seu lead time real (produção + expedição). Se você não consegue estimar com segurança, sob demanda sem janela tende a virar atraso.
  3. Defina seu canal principal (onde vem a maior parte das vendas hoje ou nos próximos 3 meses).
  4. Marque seu apetite a risco: você tolera encalhe? tolera reclamações por prazo? tolera depender de parceiro?
  5. Escolha o modelo base e uma regra simples: “o que fica em pronta entrega” e “o que fica sob demanda”, ou “o que entra em parceria”.
  6. Escreva suas promessas: prazo, troca e atendimento (em 5–10 linhas). Se você não consegue cumprir com conforto, ajuste o modelo ou a promessa.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Uma marca quer reduzir o risco de encalhe e a necessidade de capital imobilizado, aceitando entregar mais lentamente por depender do tempo de produção. Qual modelo de negócio é mais coerente com esse cenário?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No sob demanda, a produção ocorre após a compra (ou após fechar um lote), o que reduz estoque e capital imobilizado. Em troca, a entrega tende a ser mais lenta e exige controle e comunicação clara de prazos.

Próximo capitúlo

Operação e finanças para Marca de Moda: caixa, metas e indicadores

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