Como prazos e condições de venda mexem no caixa (na prática)
Condição comercial não é só “vender mais”: ela define quando o dinheiro entra, quanto entra (descontos, taxas) e qual o risco de não entrar (inadimplência/chargeback). Na prática, cada escolha de prazo e forma de pagamento altera três coisas:
- Calendário de entradas: à vista hoje vs parcelado em 30/60/90 dias.
- Valor líquido recebido: desconto à vista, taxas de cartão/marketplace, comissões de vendedores/representantes.
- Risco e custo do dinheiro: probabilidade de atraso/inadimplência e custo de antecipar recebíveis para cobrir o caixa.
Mapa rápido: o que considerar em cada condição
| Condição | O que melhora | O que piora | O que lançar/ajustar no projetado |
|---|---|---|---|
| À vista (PIX/dinheiro) | Entrada imediata, risco baixo | Pode exigir desconto | Entrada no dia; desconto reduz receita; sem taxa (ou mínima) |
| Cartão à vista | Venda rápida | Taxa e prazo de repasse (D+1, D+30) | Entrada na data do repasse; taxa como despesa/abatimento |
| Cartão parcelado sem juros | Aumenta conversão | Taxa maior; repasse pode ser parcelado; risco de chargeback | Entradas por parcela (ou repasse único se antecipar); taxas por transação |
| Boleto/duplicata 30/60/90 | Atende B2B | Risco de atraso/inadimplência | Entradas nas datas; criar cenário com atraso (% e dias) |
| Antecipação de recebíveis | Gera caixa agora | Custo financeiro (deságio) e dependência | Entrada hoje líquida; despesa financeira do deságio |
| Comissão de vendedor/representante | Incentiva vendas | Reduz margem e pode antecipar saída de caixa | Saída na regra combinada (na venda, no recebimento ou mensal) |
| Marketplace/intermediador | Escala e tráfego | Comissão + taxa + prazo de repasse | Entrada líquida no repasse; comissões/taxas separadas |
Comparações numéricas: receber hoje com desconto vs receber depois
Para decidir entre “desconto à vista” e “prazo maior”, compare o valor líquido e o custo do tempo (seu custo de capital/necessidade de caixa). A forma simples é calcular o desconto efetivo embutido no prazo.
Exemplo 1: 5% de desconto para receber hoje vs receber em 30 dias
Venda de R$ 1.000.
- Opção A (à vista com 5%): recebe
R$ 950hoje. - Opção B (30 dias sem desconto): recebe
R$ 1.000em 30 dias.
O “custo” de esperar 30 dias é abrir mão de R$ 50 para antecipar. Taxa efetiva aproximada no mês:
taxa_mensal ≈ (1000/950) - 1 = 5,26% ao mêsSe para manter o negócio rodando você costuma pagar (ou “sentir no caixa”) mais de ~5,26% ao mês quando falta dinheiro (cheque especial, empréstimo, atraso em fornecedor, perda de desconto de compra), então o desconto à vista tende a ser melhor para o caixa. Se seu caixa é folgado e sua taxa de oportunidade é menor, pode valer esperar 30 dias.
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Exemplo 2: 10% de desconto para receber hoje vs receber em 60 dias
Venda de R$ 2.000.
- À vista com 10%:
R$ 1.800hoje. - Em 60 dias:
R$ 2.000em 60 dias.
Taxa efetiva em 60 dias:
taxa_60d ≈ (2000/1800) - 1 = 11,11% em 60 diasEquivalente mensal aproximado (para comparação):
taxa_mensal_aprox ≈ 11,11% / 2 = 5,56% ao mêsDe novo: se seu custo de dinheiro (ou o “prejuízo” de ficar sem caixa) for maior que ~5,56% ao mês, o desconto à vista protege o caixa.
Exemplo 3: parcelamento sem juros no cartão vs PIX com desconto
Venda de R$ 500. Cliente escolhe:
- PIX com 3% de desconto: recebe
R$ 485hoje. - Cartão 3x sem juros: taxa total do adquirente
4,5%e repasse parcelado em 30/60/90.
No cartão, o valor líquido total recebido será:
liquido_total = 500 * (1 - 0,045) = R$ 477,50E ainda entra em três datas. Mesmo sem “juros” para o cliente, para o seu caixa houve (1) redução do valor e (2) atraso. Nesse caso, o PIX com desconto é melhor para caixa e até para valor líquido.
Como refletir parcelamento, taxas e comissões no projetado (sem distorcer)
O erro comum é projetar a venda na data da emissão e esquecer que o caixa entra depois e menor. Para não distorcer, trate cada venda com duas camadas: calendário e valor líquido.
Passo a passo prático: modelar uma venda parcelada
Cenário: venda de R$ 1.200 em 4x no cartão, taxa total 6%, repasse parcelado.
- Quebre em parcelas:
R$ 300por parcela (valor bruto). - Aplique a taxa (duas formas, escolha uma regra e mantenha):
- Taxa proporcional por parcela: cada parcela líquida =
300 * (1 - 0,06) = R$ 282. - Taxa em uma linha separada: entradas de
R$ 300e uma saída/ajuste deR$ 72(6% de 1.200) na data do repasse (ou conforme o extrato).
- Taxa proporcional por parcela: cada parcela líquida =
- Agende as entradas:
- D+30:
R$ 282 - D+60:
R$ 282 - D+90:
R$ 282 - D+120:
R$ 282
- D+30:
- Inclua comissões se existirem: por exemplo, comissão de
3%paga no recebimento. Então, em cada data de entrada, registre também a saída:300 * 0,03 = R$ 9(ou282 * 0,03, conforme sua política). - Crie um cenário de risco (quando aplicável): por exemplo,
2%das parcelas atrasam 15 dias. No cenário conservador, desloque2%das entradas para +15 dias.
O objetivo é que o projetado mostre o que realmente acontece no banco: datas de repasse e valores líquidos.
Passo a passo prático: antecipação de recebíveis (cartão/duplicata)
Cenário: você tem R$ 10.000 a receber em 30 dias e decide antecipar hoje com deságio de 2,8%.
- Calcule o líquido:
R$ 10.000 * (1 - 0,028) = R$ 9.720. - No projetado: remova (ou zere) a entrada de
R$ 10.000em 30 dias e registre uma entrada deR$ 9.720hoje. - Registre o custo: lance
R$ 280como despesa financeira (ou como redução da receita, mas seja consistente). - Compare com alternativas: se antecipar evita atraso em fornecedor com multa/juros ou perda de desconto de compra, coloque esses efeitos lado a lado.
Montando uma política de prazos baseada no ciclo de caixa e no risco
Política de prazos é um conjunto de regras que limita “vender no prazo” ao que o caixa aguenta e ao que o risco permite. Ela deve nascer de dois números internos:
- Prazo máximo que o caixa suporta: quantos dias você consegue financiar o cliente sem faltar dinheiro.
- Risco aceitável: quanto de inadimplência/atraso você tolera sem comprometer o saldo mínimo.
Passo a passo prático: definir prazos máximos por saúde de caixa
- Liste seus compromissos fixos e recorrentes (folha, aluguel, impostos, fornecedores críticos) e identifique os “dias de aperto” do mês.
- Defina um limite operacional: por exemplo, “não concentrar mais que
X%das entradas após o dia 45”. - Traduza em prazos: se seus pagamentos fortes acontecem até o dia 30 e você não tem folga, evite vender em 60/90 sem garantia/antecipação.
- Crie exceções com contrapartida: prazo maior só com (a) entrada, (b) garantia, (c) preço maior, ou (d) antecipação embutida.
Passo a passo prático: incorporar risco de inadimplência na condição
Use uma regra simples de “custo do risco” para não precificar prazo como se fosse grátis.
Exemplo: em um tipo de cliente, historicamente 3% atrasam e 1% não pagam. Em uma venda de R$ 5.000 a prazo, o “custo esperado” de não receber é:
perda_esperada = 5000 * 0,01 = R$ 50Além disso, atraso tem custo de caixa (pode exigir antecipação/empréstimo). Você pode transformar isso em regra:
- Para esse perfil, não oferecer prazo longo sem (a) limite de crédito baixo, (b) entrada, ou (c) preço ajustado.
- Ou oferecer, mas com desconto menor no à vista e preço maior no prazo (diferenciação por condição).
Regras objetivas por tipo de cliente/canal (modelos prontos)
Abaixo estão exemplos de regras simples que você pode adaptar. O importante é que sejam claras, aplicáveis e fáceis de auditar.
Modelo 1: Varejo (balcão/loja física)
- Padrão: PIX/dinheiro (sem desconto) ou cartão 1x.
- Desconto à vista: até
3%se a margem permitir e se reduzir necessidade de antecipação. - Parcelado sem juros: até
3xapenas acima deR$ 200; acima disso, repassar parte do custo no preço (ex.: “preço no cartão” vs “preço no PIX”). - Limite por CPF (se crediário): máximo
R$ 300em aberto e no máximo30 dias.
Modelo 2: B2B recorrente (clientes que compram todo mês)
- Primeira compra: à vista ou
50% entrada + 50% em 14 dias. - Após 3 compras pagas em dia: liberar
28 dias(ou “boleto 30”). - Após 6 compras em dia: liberar
42 diascom limite maior. - Atrasou: volta automaticamente para condição anterior por
60 dias.
Modelo 3: Vendas por canal com repasse (marketplace/intermediador)
- Preço por canal: definir preço que já absorva comissão/taxa (não usar o mesmo preço do PIX se a comissão for alta).
- Regra de caixa: se o repasse for D+30 e você paga fornecedor em D+15, então: (a) negociar prazo com fornecedor, (b) manter reserva, ou (c) antecipar repasse apenas quando o saldo projetado cair abaixo do mínimo.
- Antecipação: só antecipar quando o custo for menor que o custo de faltar caixa (multa, juros, perda de desconto, ruptura de estoque).
Limites de crédito simples (sem burocracia) para pequenas empresas
Limite de crédito é a trava que impede que “vender no prazo” vire “financiar cliente sem querer”. Você pode começar com um método simples e evoluir depois.
Método A: limite por histórico (rápido e prático)
- Cliente novo: limite =
R$ 0(à vista) ou limite simbólico (ex.:R$ 200). - Após 3 pagamentos em dia: limite =
média das 3 compras. - Após 6 pagamentos em dia: limite =
1,5xa2xa média mensal. - Com atraso: reduzir limite em
50%e encurtar prazo.
Método B: limite por capacidade do cliente (B2B)
- Peça 2 dados simples: faturamento mensal estimado e frequência de compra.
- Defina limite inicial conservador:
5% a 10%do faturamento mensal estimado, com teto. - Exija entrada se o pedido ultrapassar o limite.
Método C: limite por “caixa que você aguenta financiar”
Defina um teto interno de contas a receber “no prazo” para não pressionar o caixa.
teto_AR_prazo = (saldo_de_seguranca + folga_media) * fator_de_protecaoExemplo: se sua folga média é R$ 20.000 e você quer proteger metade disso, teto de financiamento pode ser R$ 10.000 em aberto no prazo. Ao atingir o teto, novas vendas a prazo exigem entrada, prazo menor ou antecipação.
Checklist de implementação: política comercial alinhada ao caixa
- Definir tabela de condições por canal (PIX, cartão 1x, cartão 3x, boleto 28/42, marketplace).
- Para cada condição, registrar: prazo de entrada, taxa, comissão, risco e regra de exceção.
- Padronizar como lançar no projetado: datas de repasse + valor líquido + despesas associadas.
- Criar limites de crédito por perfil e gatilhos automáticos (atrasou → reduz limite/encurta prazo).
- Definir quando usar antecipação: apenas se o custo for menor que a alternativa (juros/multa/perda de desconto/ruptura).