Prazos e condições de venda no Fluxo de Caixa na Prática: parcelamento, descontos e política comercial

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Como prazos e condições de venda mexem no caixa (na prática)

Condição comercial não é só “vender mais”: ela define quando o dinheiro entra, quanto entra (descontos, taxas) e qual o risco de não entrar (inadimplência/chargeback). Na prática, cada escolha de prazo e forma de pagamento altera três coisas:

  • Calendário de entradas: à vista hoje vs parcelado em 30/60/90 dias.
  • Valor líquido recebido: desconto à vista, taxas de cartão/marketplace, comissões de vendedores/representantes.
  • Risco e custo do dinheiro: probabilidade de atraso/inadimplência e custo de antecipar recebíveis para cobrir o caixa.

Mapa rápido: o que considerar em cada condição

CondiçãoO que melhoraO que pioraO que lançar/ajustar no projetado
À vista (PIX/dinheiro)Entrada imediata, risco baixoPode exigir descontoEntrada no dia; desconto reduz receita; sem taxa (ou mínima)
Cartão à vistaVenda rápidaTaxa e prazo de repasse (D+1, D+30)Entrada na data do repasse; taxa como despesa/abatimento
Cartão parcelado sem jurosAumenta conversãoTaxa maior; repasse pode ser parcelado; risco de chargebackEntradas por parcela (ou repasse único se antecipar); taxas por transação
Boleto/duplicata 30/60/90Atende B2BRisco de atraso/inadimplênciaEntradas nas datas; criar cenário com atraso (% e dias)
Antecipação de recebíveisGera caixa agoraCusto financeiro (deságio) e dependênciaEntrada hoje líquida; despesa financeira do deságio
Comissão de vendedor/representanteIncentiva vendasReduz margem e pode antecipar saída de caixaSaída na regra combinada (na venda, no recebimento ou mensal)
Marketplace/intermediadorEscala e tráfegoComissão + taxa + prazo de repasseEntrada líquida no repasse; comissões/taxas separadas

Comparações numéricas: receber hoje com desconto vs receber depois

Para decidir entre “desconto à vista” e “prazo maior”, compare o valor líquido e o custo do tempo (seu custo de capital/necessidade de caixa). A forma simples é calcular o desconto efetivo embutido no prazo.

Exemplo 1: 5% de desconto para receber hoje vs receber em 30 dias

Venda de R$ 1.000.

  • Opção A (à vista com 5%): recebe R$ 950 hoje.
  • Opção B (30 dias sem desconto): recebe R$ 1.000 em 30 dias.

O “custo” de esperar 30 dias é abrir mão de R$ 50 para antecipar. Taxa efetiva aproximada no mês:

taxa_mensal ≈ (1000/950) - 1 = 5,26% ao mês

Se para manter o negócio rodando você costuma pagar (ou “sentir no caixa”) mais de ~5,26% ao mês quando falta dinheiro (cheque especial, empréstimo, atraso em fornecedor, perda de desconto de compra), então o desconto à vista tende a ser melhor para o caixa. Se seu caixa é folgado e sua taxa de oportunidade é menor, pode valer esperar 30 dias.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Exemplo 2: 10% de desconto para receber hoje vs receber em 60 dias

Venda de R$ 2.000.

  • À vista com 10%: R$ 1.800 hoje.
  • Em 60 dias: R$ 2.000 em 60 dias.

Taxa efetiva em 60 dias:

taxa_60d ≈ (2000/1800) - 1 = 11,11% em 60 dias

Equivalente mensal aproximado (para comparação):

taxa_mensal_aprox ≈ 11,11% / 2 = 5,56% ao mês

De novo: se seu custo de dinheiro (ou o “prejuízo” de ficar sem caixa) for maior que ~5,56% ao mês, o desconto à vista protege o caixa.

Exemplo 3: parcelamento sem juros no cartão vs PIX com desconto

Venda de R$ 500. Cliente escolhe:

  • PIX com 3% de desconto: recebe R$ 485 hoje.
  • Cartão 3x sem juros: taxa total do adquirente 4,5% e repasse parcelado em 30/60/90.

No cartão, o valor líquido total recebido será:

liquido_total = 500 * (1 - 0,045) = R$ 477,50

E ainda entra em três datas. Mesmo sem “juros” para o cliente, para o seu caixa houve (1) redução do valor e (2) atraso. Nesse caso, o PIX com desconto é melhor para caixa e até para valor líquido.

Como refletir parcelamento, taxas e comissões no projetado (sem distorcer)

O erro comum é projetar a venda na data da emissão e esquecer que o caixa entra depois e menor. Para não distorcer, trate cada venda com duas camadas: calendário e valor líquido.

Passo a passo prático: modelar uma venda parcelada

Cenário: venda de R$ 1.200 em 4x no cartão, taxa total 6%, repasse parcelado.

  1. Quebre em parcelas: R$ 300 por parcela (valor bruto).
  2. Aplique a taxa (duas formas, escolha uma regra e mantenha):
    • Taxa proporcional por parcela: cada parcela líquida = 300 * (1 - 0,06) = R$ 282.
    • Taxa em uma linha separada: entradas de R$ 300 e uma saída/ajuste de R$ 72 (6% de 1.200) na data do repasse (ou conforme o extrato).
  3. Agende as entradas:
    • D+30: R$ 282
    • D+60: R$ 282
    • D+90: R$ 282
    • D+120: R$ 282
  4. Inclua comissões se existirem: por exemplo, comissão de 3% paga no recebimento. Então, em cada data de entrada, registre também a saída: 300 * 0,03 = R$ 9 (ou 282 * 0,03, conforme sua política).
  5. Crie um cenário de risco (quando aplicável): por exemplo, 2% das parcelas atrasam 15 dias. No cenário conservador, desloque 2% das entradas para +15 dias.

O objetivo é que o projetado mostre o que realmente acontece no banco: datas de repasse e valores líquidos.

Passo a passo prático: antecipação de recebíveis (cartão/duplicata)

Cenário: você tem R$ 10.000 a receber em 30 dias e decide antecipar hoje com deságio de 2,8%.

  1. Calcule o líquido: R$ 10.000 * (1 - 0,028) = R$ 9.720.
  2. No projetado: remova (ou zere) a entrada de R$ 10.000 em 30 dias e registre uma entrada de R$ 9.720 hoje.
  3. Registre o custo: lance R$ 280 como despesa financeira (ou como redução da receita, mas seja consistente).
  4. Compare com alternativas: se antecipar evita atraso em fornecedor com multa/juros ou perda de desconto de compra, coloque esses efeitos lado a lado.

Montando uma política de prazos baseada no ciclo de caixa e no risco

Política de prazos é um conjunto de regras que limita “vender no prazo” ao que o caixa aguenta e ao que o risco permite. Ela deve nascer de dois números internos:

  • Prazo máximo que o caixa suporta: quantos dias você consegue financiar o cliente sem faltar dinheiro.
  • Risco aceitável: quanto de inadimplência/atraso você tolera sem comprometer o saldo mínimo.

Passo a passo prático: definir prazos máximos por saúde de caixa

  1. Liste seus compromissos fixos e recorrentes (folha, aluguel, impostos, fornecedores críticos) e identifique os “dias de aperto” do mês.
  2. Defina um limite operacional: por exemplo, “não concentrar mais que X% das entradas após o dia 45”.
  3. Traduza em prazos: se seus pagamentos fortes acontecem até o dia 30 e você não tem folga, evite vender em 60/90 sem garantia/antecipação.
  4. Crie exceções com contrapartida: prazo maior só com (a) entrada, (b) garantia, (c) preço maior, ou (d) antecipação embutida.

Passo a passo prático: incorporar risco de inadimplência na condição

Use uma regra simples de “custo do risco” para não precificar prazo como se fosse grátis.

Exemplo: em um tipo de cliente, historicamente 3% atrasam e 1% não pagam. Em uma venda de R$ 5.000 a prazo, o “custo esperado” de não receber é:

perda_esperada = 5000 * 0,01 = R$ 50

Além disso, atraso tem custo de caixa (pode exigir antecipação/empréstimo). Você pode transformar isso em regra:

  • Para esse perfil, não oferecer prazo longo sem (a) limite de crédito baixo, (b) entrada, ou (c) preço ajustado.
  • Ou oferecer, mas com desconto menor no à vista e preço maior no prazo (diferenciação por condição).

Regras objetivas por tipo de cliente/canal (modelos prontos)

Abaixo estão exemplos de regras simples que você pode adaptar. O importante é que sejam claras, aplicáveis e fáceis de auditar.

Modelo 1: Varejo (balcão/loja física)

  • Padrão: PIX/dinheiro (sem desconto) ou cartão 1x.
  • Desconto à vista: até 3% se a margem permitir e se reduzir necessidade de antecipação.
  • Parcelado sem juros: até 3x apenas acima de R$ 200; acima disso, repassar parte do custo no preço (ex.: “preço no cartão” vs “preço no PIX”).
  • Limite por CPF (se crediário): máximo R$ 300 em aberto e no máximo 30 dias.

Modelo 2: B2B recorrente (clientes que compram todo mês)

  • Primeira compra: à vista ou 50% entrada + 50% em 14 dias.
  • Após 3 compras pagas em dia: liberar 28 dias (ou “boleto 30”).
  • Após 6 compras em dia: liberar 42 dias com limite maior.
  • Atrasou: volta automaticamente para condição anterior por 60 dias.

Modelo 3: Vendas por canal com repasse (marketplace/intermediador)

  • Preço por canal: definir preço que já absorva comissão/taxa (não usar o mesmo preço do PIX se a comissão for alta).
  • Regra de caixa: se o repasse for D+30 e você paga fornecedor em D+15, então: (a) negociar prazo com fornecedor, (b) manter reserva, ou (c) antecipar repasse apenas quando o saldo projetado cair abaixo do mínimo.
  • Antecipação: só antecipar quando o custo for menor que o custo de faltar caixa (multa, juros, perda de desconto, ruptura de estoque).

Limites de crédito simples (sem burocracia) para pequenas empresas

Limite de crédito é a trava que impede que “vender no prazo” vire “financiar cliente sem querer”. Você pode começar com um método simples e evoluir depois.

Método A: limite por histórico (rápido e prático)

  • Cliente novo: limite = R$ 0 (à vista) ou limite simbólico (ex.: R$ 200).
  • Após 3 pagamentos em dia: limite = média das 3 compras.
  • Após 6 pagamentos em dia: limite = 1,5x a 2x a média mensal.
  • Com atraso: reduzir limite em 50% e encurtar prazo.

Método B: limite por capacidade do cliente (B2B)

  • Peça 2 dados simples: faturamento mensal estimado e frequência de compra.
  • Defina limite inicial conservador: 5% a 10% do faturamento mensal estimado, com teto.
  • Exija entrada se o pedido ultrapassar o limite.

Método C: limite por “caixa que você aguenta financiar”

Defina um teto interno de contas a receber “no prazo” para não pressionar o caixa.

teto_AR_prazo = (saldo_de_seguranca + folga_media) * fator_de_protecao

Exemplo: se sua folga média é R$ 20.000 e você quer proteger metade disso, teto de financiamento pode ser R$ 10.000 em aberto no prazo. Ao atingir o teto, novas vendas a prazo exigem entrada, prazo menor ou antecipação.

Checklist de implementação: política comercial alinhada ao caixa

  • Definir tabela de condições por canal (PIX, cartão 1x, cartão 3x, boleto 28/42, marketplace).
  • Para cada condição, registrar: prazo de entrada, taxa, comissão, risco e regra de exceção.
  • Padronizar como lançar no projetado: datas de repasse + valor líquido + despesas associadas.
  • Criar limites de crédito por perfil e gatilhos automáticos (atrasou → reduz limite/encurta prazo).
  • Definir quando usar antecipação: apenas se o custo for menor que a alternativa (juros/multa/perda de desconto/ruptura).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao projetar o fluxo de caixa de uma venda no cartão parcelado, qual prática evita distorções na previsão de entradas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Para não distorcer o caixa, a previsão deve refletir o que acontece no banco: entradas nas datas de repasse e valores líquidos (descontadas taxas), além das saídas de comissões/custos conforme a política adotada.

Próximo capitúlo

Promoções e precificação orientadas ao Fluxo de Caixa na Prática: gerar caixa sem destruir margem

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Fluxo de Caixa na Prática: Montagem, Leitura e Decisões para Pequenas Empresas
74%

Fluxo de Caixa na Prática: Montagem, Leitura e Decisões para Pequenas Empresas

Novo curso

19 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.